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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.84 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962009000500006 

INVESTIGAÇÃO

 

Incidência do carcinoma de células escamosas da pele na cidade de Tubarão (SC) – Brasil nos anos de 2000, 2003 e 2006*

 

 

Daniel Holthausen NunesI; Liliane BackII; Ramon Vieira e SilvaIII; Vitor de Sousa MedeirosIV

IMestre em ciências médicas. Professor do curso de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina e Universidade Federal de Santa Catarina – Tubarão (SC), Brasil
IIAcadêmica do curso de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) – Tubarão (SC), Brasil
IIIAcadêmico do curso de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) – Tubarão (SC), Brasil
IVAcadêmico do curso de medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) – Tubarão (SC), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Observa-se tendência mundial de aumento na incidência do carcinoma de células escamosas da pele, porém na região sul do estado de Santa Catarina (SC) não há dados sobre a incidência desse tipo de câncer.
OBJETIVOS: Estabelecer dados epidemiológicos do carcinoma de células escamosas da pele em Tubarão (Santa Catarina).
MÉTODOS: Laudos anatomopatológicos positivos para o carcinoma de células escamosas da pele dos laboratórios de Tubarão foram revisados quanto às variáveis: ano, idade, gênero, localização, subtipo histológico, maior diâmetro da lesão e comprometimento das margens. A incidência anual foi calculada utilizando o número de neoplasias encontradas e a população anual estimada para os anos de 2000, 2003 e 2006.
RESULTADOS: Foi encontrada uma incidência de carcinoma de células escamosas da pele por 100.000 habitantes de 50,86 para o ano de 2000, de 71,16 para 2003 e de 94,39 para 2006. Não houve predomínio de gênero, a face foi o local de acometimento mais frequente em ambos os gêneros e o subtipo histológico mais comum foi o bem diferenciado.
CONCLUSÃO: A incidência do carcinoma de células escamosas da pele encontrada superou a estimativa da literatura consultada. Houve aumento na sua incidência; as variáveis idade, localização e tipo histológico foram concordantes com a literatura, porém a distribuição quanto ao gênero se mostrou diferente.

Palavras-chave: Carcinoma de células escamosas; Carcinoma de células escamosas /epidemiologia; Incidência; Neoplasias cutâneas


 

 

INTRODUÇÃO

O câncer da pele é a neoplasia de maior incidência em várias regiões do mundo,1-4 inclusive no Brasil.1 O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimou, para o ano de 2006, 116.640 novos casos de câncer da pele não melanoma e 5.570 novos casos de melanoma. Somados, esses números correspondem a 26% do total dos casos novos de neoplasias malignas esperados no país.5 Esses dados refletem uma tendência mundial de aumento na incidência de carcinoma de células escamosas (CEC) da pele nas últimas décadas.3,6-11

Na região sul do país, a taxa de câncer da pele é superior à nacional, sendo grande parte dela devida às taxas encontradas em Santa Catarina (SC). A maior concentração de câncer da pele no Brasil encontra-se neste estado, com estimativa de 125,78 casos por 100.000 habitantes para câncer não melanoma e 8,58 casos por 100.000 habitantes para melanoma.5

Os tumores malignos da pele são divididos em dois grandes grupos: melanoma e não melanoma.6,8 Neste último, incluem-se os carcinomas basocelular e de células escamosas, que juntos representam 95% dos tumores malignos da pele.8,11 Sua incidência isolada é superior à dos carcinomas de pulmão, cólon, mama e reto e dos linfomas, somados.11

O CEC da pele aparece como a segunda neoplasia maligna da pele mais comum, representando 20% dos casos de câncer de pele no mundo.12,13

A histopatologia do CEC da pele consiste na proliferação e diferenciação atípicas de células espinhosas de caráter invasivo,13 o que o torna mais agressivo que o basocelular, tanto localmente quanto na capacidade de produzir metástases.13,14

Somente pequena porcentagem do CEC da pele primário é refratário ao tratamento dermatológico padrão, que consiste na excisão completa da lesão. Mesmo que de fácil tratamento em fase inicial e de rara mortalidade, as consequências do CEC da pele não tratado ou tardiamente diagnosticado têm importante impacto na saúde pública e individual.1,8,11,12,14,15 O custo elevado do tratamento e a deterioração da qualidade de vida, em decorrência de sequelas psicológicas e físicas, denotam a importância do diagnóstico precoce.1

Apesar de existirem fatores de risco ainda desconhecidos para seu desenvolvimento, há unanimidade entre diversos estudos epidemiológicos de que existe associação significativa entre a exposição solar crônica e o desenvolvimento dessa neoplasia.1,3,4,8,12,13,16 Consequentemente, o CEC da pele é mais comum em idosos, resultado de radiação solar cumulativa.6,12,16

A maioria dos CECs de pele provém da evolução de ceratose actínica.4,13 Esta é caracterizada por lesões geralmente eritematosas, eventualmente acastanhadas, de caráter ceratótico e com escamas aderentes. Dor no local da lesão e infiltração celular demonstrável no exame histopatológico predizem maior possibilidade de transformação para carcinoma. 13

É considerada fator de risco adicional para o desenvolvimento desse tipo de câncer da pele a presença de fenótipos desfavoráveis,1,13,16 representados pelos tipos de pele I e II (segundo a classificação de Fitzpatrick),12,13 cor clara dos olhos e presença de sardas e nevos.13 Além do fenótipo, mais dois fatores de risco são descritos: a história familiar de câncer da pele e a exposição ocupacional. 3,13 Outros fatores de risco de menor importância, porém reconhecidamente carcinogênicos, são o alcatrão, o arsênico e a radioterapia. 1,13

Segundo a literatura, a incidência do carcinoma de células escamosas da pele é maior no gênero masculino, 2,4-10,12,16-18 podendo afetar os homens até duas vezes mais que as mulheres. Essa estatística está possivelmente relacionada a atividades ocupacionais com exposição solar, geralmente predominantes no gênero masculino.3,6 Por motivo semelhante, a maioria dos CECs da pele são encontrados na cabeça (face e pescoço), sendo esses locais de grande exposição solar.2,4,7,12-14,17

Como mencionado anteriormente, o estado de SC apresenta a maior incidência de câncer da pele no Brasil,5 porém não há dados consistentes na literatura que esclareçam as razões para esse fato, tampouco se é crescente como no restante do país.

A combinação de dois fatores possivelmente explica essa condição: a população catarinense é composta principalmente de indivíduos com ascendência europeia, que proporcionam as características fenotípicas supracitadas,1,12 e estaria exposta a grande intensidade de radiação ultravioleta, decorrente do comprometimento da camada de ozônio nesse estado.1,12,19

A elevada frequência do CEC da pele no país, principalmente em SC, constitui importante problema de saúde pública.1,8,14,15 Em posse do conhecimento da epidemiologia dessa neoplasia, acredita-se que haveria maior valorização e incremento na suspeição diagnóstica por parte de médicos e outros profissionais da saúde. Partindo da premissa de que se conhece a estimativa de CEC da pele no estado de SC, mas ainda não se determinou se sua incidência é crescente, ou se essa estimativa é válida, este estudo procura esclarecer essas dúvidas, além de estabelecer o perfil epidemiológico dos pacientes dessa neoplasia entre os habitantes da cidade de Tubarão (SC).

 

MÉTODOS

Foi realizado estudo epidemiológico do tipo observacional com delineamento transversal, baseado na análise de laudos anatomopatológicos.

Foram analisados todos os laudos positivos para CEC da pele diagnosticados por exame anatomopatológico na cidade de Tubarão (SC), e por seleção aleatória sistemática, com intervalo de dois anos entre as amostras, foram escolhidos os anos de 2000, 2003 e 2006.

Foram incluídos todos os laudos anatomopatológicos com resultados positivos para CEC invasivo ou in situ, bem como os sinônimos carcinoma epidermoide, espinocelular, escamocelular, e formas especiais como a doença de Bowen e o carcinoma verrucoso da pele de pacientes residentes em Tubarão (SC), no período em que o diagnóstico foi obtido. Foram excluídos os laudos com diagnósticos histológicos diferentes de CEC da pele e de pacientes que não residiam em Tubarão (SC).

A fonte de dados utilizada foi secundária, pesquisada diretamente nos bancos de dados que continham os exames anatomopatológicos armazenados nos computadores dos laboratórios São Lucas e DiPrever, que são os únicos laboratórios na cidade de Tubarão (SC) que realizam tal exame.

O instrumento de coleta dos dados foi constituído de um protocolo de registro de informações. A coleta dos dados foi realizada no período de dezembro de 2007 a maio de 2008.

Foram analisadas as seguintes variáveis: ano da confirmação anatomopatológica, idade do paciente, gênero, maior diâmetro da lesão e localização da lesão. A variável populacional foi extraída do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).20

Para análise estatística, os dados foram digitados utilizando-se o programa Epidata® 3.1 e analisados com auxílio do programa Epiinfo® 6.04. O cálculo da incidência foi realizado referente a 100,000 habitantes/ ano, utilizando o número de neoplasias encontradas e os dados populacionais do Datasus20 para os anos escolhidos, como realizado em estudos semelhantes e nas estimativas para câncer do Inca.5,12 As frequências das variáveis foram descritas em valores absolutos e relativos.

O projeto deste trabalho foi enviado para avaliação da comissão de ética em pesquisa (CEP-Unisul) e, após aprovação, a coleta referente ao tema do trabalho foi efetuada da forma descrita.

 

RESULTADOS

Foram encontrados 200 laudos positivos para CEC da pele nos laboratórios anatomopatológicos do município de Tubarão (SC). Dos laudos positivos para CEC de pele, 103 (51,5%) eram de pacientes do gênero feminino.

A incidência por 100.000 habitantes, segundo ano de ocorrência, foi de 94,39 para o ano de 2006, de 71,16 para o ano de 2003 e de 50,86 para o ano de 2000. Nota-se aumento de 40% no risco de adquirir CEC de pele quando comparados os anos de 2000 e 2003, e aumento de 86% quando comparados os anos de 2000 e 2006. A crescente incidência pode ser observada no gráfico 1.

 

 

Embora no ano 2000 houvesse incidência maior de CEC da pele no gênero feminino, nos anos de 2003 e 2006 foi verificada maior incidência no gênero masculino. A incidência por 100.000 habitantes de CEC da pele para ambos os gêneros é demonstrada no gráfico 2.

 

 

A idade variou de 28 a 96 anos, com média de 65,6 anos, mediana de 67 anos e moda de 72 anos. A distribuição por faixa etária mostrou maior número de casos tanto no gênero masculino – 60 casos (66,6%) – quanto no feminino – 71 casos (71,7%) – em pacientes acima de 60 anos (Tabela 1).

 

 

Na tabela 2, verifica-se a distribuição dos CECs de pele conforme a localização da lesão. Em ambos os gêneros, o local de ocorrência mais comum foi face – 44 casos –, correspondendo a 57,1% dos 77 laudos que informavam esse dado. Entretanto, o gênero masculino apresentou risco 60% maior de ocorrência de lesão na face quando comparado ao gênero feminino.

 

 

Quando analisadas as porcentagens de CEC de pele de acordo com o subtipo histológico encontrado no estudo, foram mais frequentes os subtipos in situ e bem diferenciado, com 164 casos (83,0%), em seguida o moderadamente diferenciado, com 29 (14,7%), e o menos frequente, o pouco diferenciado, somando apenas quatro (2,0%) dos casos estudados. Três laudos positivos para CEC de pele não evidenciaram essa informação.

O maior diâmetro das lesões encontradas nesse estudo variou de 0,3-10 cm; a média foi de 1,9 cm, e a mediana e a moda, de 1,5 cm. Nota-se, na tabela 3, que apenas nove (4,57%) das lesões biopsiadas apresentaram maior diâmetro = 4 cm.

 

 

DISCUSSÃO

Dados de alta qualidade sobre a incidência de CEC da pele são raros na literatura, pois frequentemente os registros de câncer excluem cânceres de pele não melanoma ou proporcionam dados incompletos em relação a suas características.8,9,17,21 Nos últimos anos, pelo acesso a bancos de dados eletrônicos, os registros de CEC da pele confirmado por exame anatomopatológico tem sido mais bem definido.

Utilizando os bancos de dados dos laboratórios que realizam exames anatomopatológicos na cidade de Tubarão (SC), foi possível incluir neste estudo a totalidade dos casos registrados de CEC da pele nos anos estudados. Portanto, é provável que os resultados desta pesquisa se aproximem mais que estimativas passadas da incidência dessa neoplasia neste município.

O levantamento dos laudos histopatológicos positivos para CEC da pele na cidade de Tubarão (SC) mostrou incidência elevada e crescente. Uma vez que não existe informação específica do Inca para o CEC da pele, foram utilizados os dados fornecidos para cânceres de pele não melanoma. Para possibilitar a realização de comparações entre os dados estimados pelo Inca e os dados encontrados neste estudo, foi necessário saber qual a porcentagem de câncer da pele não melanoma que pode ser atribuída ao CEC da pele. Uma revisão da literatura consultada revelou o CEC da pele como responsável por aproximadamente 20% de todos os cânceres de pele não melanoma. 12,13 Com essas informações, estimaram-se as previsões de incidência de CEC da pele, de acordo com o Inca, para os anos estudados e, assim, procedeu-se às comparações desejadas.

Os resultados encontrados nesta pesquisa ultrapassaram, em quantidade considerável, a incidência esperada para os anos pesquisados, de forma que as estimativas de CEC da pele para o ano de 2006 foram de 25,16 por 100,000 habitantes no gênero masculino e 23,50 por 100.000 habitantes no gênero feminino, e as encontradas neste estudo foram de 95,00 e 91,78 por 100.000 habitantes nos gêneros masculino e feminino, respectivamente.

As incidências não separadas por gênero, encontradas no atual estudo, também ultrapassam os valores encontrados em estudo semelhante realizado em Blumenau (SC) nos anos de 1980 a 1999. Nesse estudo, foi constatado coeficiente de morbidade de 43,8 por 100.000 habitantes no ano de 199912 – coeficiente menor, porém não discrepante em relação à incidência de 50,86 por 100.000 habitantes encontrada no atual estudo no ano de 2000. Entretanto, quando comparados os resultados do estudo com as incidências dos anos de 2003 e 2006, respectivamente 71,16 e 94,3 por 100.000 habitantes, são verificadas diferenças consideráveis. É importante salientar que o estudo de Blumenau, diferente do atual, incluiu em sua casuística o CEC de lábio.12

As incidências encontradas, destoantes dos dados nacionais, parecem ser válidas quando comparadas aos estudos realizados em países como Estados Unidos e Austrália. Nesses países, encontram-se índices de incidência de alta qualidade, mesmo não havendo método de notificação compulsória. Os dados de incidência são frequentemente estratificados em trabalhos patrocinados por seus governos e utilizam estudos populacionais e prontuários médicos, além de confirmações anatomopatológicas. Esses países têm reconhecido o câncer da pele como problema de saúde pública nacional nas últimas décadas.

Na Austrália, onde é encontrada a maior incidência de CEC da pele no mundo, também é observado o maior número de pesquisas a respeito dessa neoplasia. Em um estudo realizado no ano de 2002, foi estimada incidência de 387 casos de CEC da pele para cada 100.000 habitantes, bem como aumento crescente na sua incidência, quando analisados os dados registrados desde o ano de 1985.16

Nos Estados Unidos, referente ao ano de 1994, foi encontrada incidência por 100.000 habitantes de 81 a 136 casos para o gênero masculino e 26 a 59 para o gênero feminino.22 Provavelmente a incidência atual, acompanhando a tendência mundial, encontre-se ainda maior.

O aumento na incidência do CEC da pele, nos últimos anos, pode ser atribuído a diversas condições observadas na população estudada.

A primeira, e provavelmente a mais importante, é o aumento na radiação ultravioleta decorrente da depleção na camada de ozônio.1,3,6,12,19 É previsto que, para cada 10% de perda da camada de ozônio, haja aumento de 40% na incidência de câncer da pele.23 Sendo assim, uma depleção de pequena quantidade pode influenciar a incidência do câncer da pele em proporção considerável.

De acordo com dados meteorológicos, na região do estado de SC houve diminuição de 7 a 8% da camada de ozônio, por década, desde 1979 até 2000,19 influenciando inevitavelmente a incidência encontrada neste estudo. Além disso, a maior parte da população de SC tem cor da pele clara, decorrente de colonização europeia.1,12 Esse tipo de pele é mais susceptível aos danos causados pelo aumento da radiação ultravioleta, tendo maior tendência a desenvolver lesões neoplásicas quando exposto cronicamente a esses raios.1,8,12,16

A segunda condição deflagradora dessa alta incidência é a educação e conscientização dos médicos e principalmente da população em geral, o que pode ter influenciado positivamente o aumento na detecção dos tumores, que antigamente passariam despercebidos.2,3,8

No Brasil, programas e campanhas de prevenção do câncer da pele se iniciaram há aproximadamente 10 anos. As campanhas têm como objetivo a prevenção primária – proteção contra a exposição à luz solar – e secundária, realizando diagnóstico precoce e tratamento oportuno.1

Indivíduos hoje acima de 60 anos, responsáveis por mais de 50% da incidência de CEC da pele,12,17 foram, no máximo, alvos de prevenção secundária dessas campanhas. Sendo assim, até então é plausível considerar que os benefícios dessas campanhas estejam refletidos inversamente nos dados de incidência da população. Provavelmente a melhora na capacidade dos médicos e profissionais da saúde em rastrear esse tumor e a maior conscientização da população sejam parcialmente responsáveis pelo aumento da sua incidência.

Além disso, há indiscutível envelhecimento populacional ocorrendo em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no ano de 1991 idosos acima de 60 anos representavam 6,75% da população de SC e no ano de 2000 foram responsáveis por 8,03%.24 A exposição cumulativa a raios ultravioleta está fortemente associada à alta incidência de CEC da pele, sendo este, em comparação com os outros dois cânceres de pele prevalentes, o mais associado com pacientes idosos,6,12,16 de forma que, havendo aumento da população idosa, é esperado também incremento na incidência de CEC da pele.

Por fim, a mudança no vestuário e no estilo de vida, acarretando maior exposição ao sol, também tem sido discutida como fator agravante no aumento da incidência de CEC da pele.1,3,6,8 Tem-se tornado frequente o hábito de exposição solar com objetivo de bronzeamento da pele, que é de alto valor estético no país.1,3

A proporção dos gêneros de aproximadamente 1:1, encontrado no atual estudo, é inédita na literatura. Estudos prévios revelaram o gênero masculino como mais incidente,1 em geral na proporção gênero masculino para feminino de 2:1. Esse fato pode ser atribuído à maior procura de atendimento médico pelo gênero feminino, já que, como mencionado anteriormente, os registros que fornecem os valores de incidência dependem diretamente da procura médica. Evidenciou-se em campanhas de prevenção que, entre os examinados, a proporção de pacientes representada pelo gênero masculino não atingiu 40%.1

Também é importante salientar que mesmo não havendo equilíbrio na proporção de gênero na incidência de CEC da pele na literatura revisada, existem vários estudos que revelam aumento maior na incidência de câncer da pele no gênero feminino em comparação ao gênero masculino.2,6,18,21

Pelos motivos já descritos, a maior porcentagem de incidência de CEC da pele é encontrada na população acima de 60 anos.4,12,17 Há outros estudos que mostram que a média de idade de diagnóstico foi maior que 65 anos.7,10,21 Neste estudo foi encontrada maior quantidade de casos, 131 (69,4%), em pacientes acima de 60 anos e com idade média de diagnóstico de 65,6 anos, similar aos números encontrados na literatura acima citada.

O local mais frequente para a ocorrência do CEC da pele, em ambos os gêneros, foi a região da cabeça, mais especificamente a face, concordando com a maior parte da literatura.2,4,7,12,13,14,17 Esse achado reforça a importância da exposição solar crônica como fator de risco, sendo a face local bastante exposto ao sol no dia-a-dia.

Além disso, constatou-se que os homens têm risco 60% maior que as mulheres de o CEC da pele ocorrer na face. Um dos motivos que corroboram esse achado é a exposição solar ocupacional, mais comum no gênero masculino.3,6 Outra hipótese seria a maior preocupação do gênero feminino com a estética e os cuidados com a pele.1,3

A média do maior diâmetro da lesão, no atual estudo, foi de 1,9 cm, similar à de outro estudo, cujo diâmetro médio foi de 2 cm. No mesmo estudo ficou estabelecido que lesões apresentando maior diâmetro de 4 cm ou mais se relacionavam com potencialidade maior de invasão tecidual.14 Uma vez que no atual estudo somente nove (4,57%) das lesões encontradas apresentavam tais diâmetros, é possível especular que a maioria das lesões causadas pelo CEC da pele, no município de Tubarão (SC), tenham sido de baixa potencialidade de invasão.

 

CONCLUSÃO

Foi possível traçar um perfil do paciente portador do CEC da pele e da situação atual dessa neoplasia na população de Tubarão (SC).

1. Não houve predomínio importante de gênero quanto à incidência;
2. A maior incidência foi encontrada nos pacientes acima de 60 anos de idade;
3. Há predominância importante de lesões na face; 4. A maioria das lesões, 186 (95,43%), tinha seu maior diâmetro menor que 4 cm.

A incidência de casos de CEC da pele, confirmados por exames anatomopatológicos, é maior que a previamente estimada. A distribuição dos casos mostrou aumento crescente da incidência entre os anos de 2000, 2003 e 2006.

Conhecer o aumento da incidência dessa enfermidade e o perfil de seu portador nos possibilita planejar melhor as ações no campo da educação sanitária e da prevenção primária e secundária dessa neoplasia.

 

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Endereço para correspondência:
Prof. Daniel Holthausen Nunes
Rua Professor Hermínio Jacques, 122
88015 180 Florianópolis SC
Tel.:/FAx: 48 3224-2740
E-mail: daniel@floripa.com.br

Recebido em 14.10.2008.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 31.07.09.

 

 

* Trabalho realizado na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) – Tubarão (SC), Brasil.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum
Como citar este artigo: Nunes DH, Back L, Silva RV, Medeiros VS. Incidência do carcinoma de células escamosas da pele na cidade de Tubarão (SC) – Brasil nos anos de 2000, 2003 e 2006. An Bras Dermatol. 2009;84(5):482-8.