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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.84 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962009000500022 

ICONOGRAFIA

 

Dermatologia nas artes*

 

 

Elemir Macedo de SouzaI; Andrelou Fralete Ayres VallarelliII

IProfessor-assistente e livre docente da Disciplina de Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – São Paulo (SP), Brasil
IIDoutorado e Mestrado, área de concentração em Clínica Médica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A medicina tem sido representada, nas mais diversas expressões artísticas, desde as culturas primitivas até os dias atuais, com considerável grau de variedade e evolução, de acordo com áreas geográficas e heranças históricas, nas diferentes sociedades. Sempre houve preocupação com o registro da figura humana, seja no seu esplendor, seja no estado de morbidade. Os autores expõem registros de expressões dermatológicas nas pinturas europeias.

Palavras-chave: Alopecia; Ceratose seborréica; Lentigo; Tinha do couro cabeludo.


 

 

Em dermatologia, a imagem é recurso essencial na formação acadêmica. O dermatologista inicia seu aprendizado reconhecendo as lesões elementares. A incorporação deste elemento semiótico será ferramenta indispensável na elaboração dos diagnósticos das dermatoses, ao longo da sua vida profissional. A descrição de uma lesão dermatológica deve traduzir a sua disposição espacial, sentido, cor, volume e relevo. Podem-se comparar estas nuances com a pele ao seu redor e, assim, interpretar as possíveis modificações da estrutura normal e reconhecer a etiopatogenia das dermatoses. Na realidade, a descrição da lesão dermatológica é expressão da arte patológica. Os mesmos elementos utilizados na análise de uma dermatose são valorizados na pintura com o propósito de provocar no espectador as mais variadas emoções.

Este estudo visa valorizar a semiologia dermatológica, que possibilitou aos autores a formulação de hipóteses diagnósticas em inúmeras pinturas européias realizadas entre o século XV e XIX.

No mesmo período em que florescia a dermatologia moderna na Europa, no início do século XVI1, surgia o movimento artístico chamado Maneirismo, caracterizado pela "maneira" peculiar de cada artista na elaboração da sua obra, com tendência para a estilização exagerada nos detalhes e busca de novas formas de expressão. A partir deste momento, os artistas se interessaram por outros temas, além dos religiosos, e passaram a retratar a vida cotidiana das pessoas, nas cidades e no campo. Algumas imperfeições na pele poderiam ter sido registradas, com anuência ou à revelia do modelo.

A investigação de 26.000 pinturas européias, entre os séculos XV e XIX, revelou a ocorrência de aproximadamente 135 exemplos de expressões dermatológicas. Os autores apresentam dois exemplos de manifestações dermatológicas e demonstram que tais formas de expressão artística podem ser fonte de investigação de dermatoses existentes, antes mesmo de sua descrição acadêmica. 2,3

Os autores citam como referência, na elaboração do presente estudo, o artigo de autoria do Professor João Ramos e Silva de 1956,4 e outro de autoria do Professor Aureliano da Fonseca de 1987,5 segundo os quais as pinturas europeias já demonstravam a presença de diversas dermatoses.

A observação de lesões elementares, nas pinturas, só foi possível pela disponibilidade atual de material digitalizado, literatura pertinente e imagens com boa resolução gráfica.

No primeiro exemplo, assinala-se lesão pigmentada na região frontal direita da Infanta Maria Josefa, 56 anos de idade e irmã de Carlos IV – quarta figura da esquerda para a direita - na pintura realizada por Francisco Goya y Lucientes (1746 -1828) (Figura 1).6 Esta tela mostra também a figura de Goya, representada atrás da Infanta. Esta manifestação dermatológica é sugestiva de ceratose seborréica, merecendo o diagnóstico diferencial com lentigo. Goya retratou a família de Carlos IV, neste óleo sobre tela, 280X336cm, concebido em 1800-1, fazendo parte do acervo do Museu do Prado em Madri. A manifestação dermatológica representaria um artefato de pintura. No entanto, este elemento pictórico está presente também numa tela produzida anteriormente (Figura 2).6

 

 

 

 

No segundo exemplo, os autores registram alopécia, no vértice do couro cabeludo da criança encostada à roda, de costas, na tela "O Casamento", óleo sobre tela, 267X293cm (Figura 3), concebida também por Francisco Goya y Lucientes em 1791-2, pertencente ao acervo do Museu do Prado, em Madri. O aspecto circunscrito da alopecia, a coloração esbranquiçada e a superfície lisa sugerem o diagnóstico de alopecia areata, merecendo o diagnóstico diferencial de tinha tonsurante do couro cabeludo ou alopecia não-tonsurante, como a tinha favosa (Figura 4).6

 

 

 

 

Nos dois exemplos, houve registro intencional das dermatoses. A ceratose seborréica ou lentigo é observada num estudo e na tela definitiva. A alopecia (no couro cabeludo da criança) demonstra que o pintor utilizou modelo vivo.

 

REFERÊNCIAS

1. Vallarelli AFA, Silva VMCF, Souza EM. Dermatologia comparativa (parte VI). An Bras Dermatol. 1999;74:641-2         [ Links ]

2. Rodrigues JG, Leite R, Costa IMC, Soares R. Acervo raro da Sociedade Brasileira de Dermatologia: considerações sobre sua preservação histórica. An Bras Dermatol. 2009;84:93-5         [ Links ]

3. Dequeker J, Degreef H, Busschots AM, Mallia C. Mycosis fungoides in a painting by Lambert Lombard (1506-1566). Dermatology. 2002;205:78-9         [ Links ]

4. Ramos Silva EJ. [Knuckle pads (pulvillus digiti)]. Ann Dermatol Syphiligr (Paris). 1956;83:22-33         [ Links ]

5. Fonseca A. A pele e a arte pictórica. Jornal do Médico (Portugal). 1987;CXXII(2200):76-8         [ Links ]

6. Museo del Prado.es [homepage]. Madrid, c2009. [acesso 22 Jul 2009]. Disponível em: http://www.museodelprado.es/coleccion/galeria-on-line/        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Andrelou Fralete Ayres Vallarelli
Avenida Barão de Itapura, nº 950, sala 44,
Botafogo
13020-431 Campinas SP
Tel./ Fax.: 19 3234 2404 / 3201 6558 / 9790 8050
E-mail: andrelou@uol.com.br

Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 24.04.2009.

 

 

* Trabalho realizado na Disciplina de Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – São Paulo (SP), Brasil.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum
Como citar este artigo: Souza EM, Vallarelli AFA. Dermatologia nas artes. An Bras Dermatol. 2009;84(5):556-8.