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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000200017 

CASO CLÍNICO

 

Síndrome de Hay-Wells - Relato de caso

 

 

Dário Júnior de Freitas RosaI; Ronaldo Figueiredo MachadoI; Marcelino Pereira Martins NetoII; Alessandra Almeida Montenegro de SáII; Aloísio GamonalIII

IMédico residente de Dermatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) - Juiz de Fora (MG), Brasil
IIMédico(a) dermatologista. Preceptor(a) de Dermatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) - Juiz de Fora (MG), Brasil
IIIProfessor doutor e chefe do Serviço de Dermatologia de Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) - Juiz de Fora (MG), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A síndrome de Hay-Wells é uma forma rara de displasia ectodérmica, descrita inicialmente em 1976 por Hay e Wells, de caráter autossômico dominante com expressão variável, composta por anomalias congênitas da pele, cabelos, dentes, unhas e glândulas sudoríparas. Descrevemos o caso de um paciente de 17 anos, filho de pais não consangüíneos, que apresentava anquiloblefaron filiforme adenatum, displasia ectodérmica e fenda palatina ao nascimento, sinais considerados cardinais pela maioria dos autores. Destacamos também a importância do acompanhamento multidiscliplinar dos pacientes.

Palavras-chave: Displasia ectodérmica; Fissura palatina; Síndrome


 

 

INTRODUÇÃO

A síndrome de Hay-Wells, também conhecida como síndrome AEC (Ankyloblepharon, ectodermal dysplasia and cleft lip and palate syndrome), é uma desordem genética rara, descrita inicialmente, em 1976 por Hay e Wells1, em sete indivíduos de quatro famílias nos quais múltiplas e complexas malformações foram vinculadas a um padrão de herança autossômica dominante de penetrância variável, embora casos esporádicos tenham sido descritos.2 Estudos posteriores evidenciaram que a patologia é causada por mutação no gene p63, um homólogo do supressor tumoral TP53.3

A maioria dos autores considera a presença do anquiloblefaron filiforme adenatum (aderência entre as bordas ciliares superiores e inferiores), fenda labial e/ou palatina e achados consistentes com displasia ectodérmica, essenciais ao diagnóstico. Defeitos ectodérmicos comuns incluem alopécia, onicodistrofia, hipodontia e hipohidrose.

Os autores descrevem o caso de um paciente masculino de 17 anos, com achados clínicos e histopatológicos compatíveis com o diagnóstico de síndrome de Hay-Wells.

 

RELATO DE CASO

Paciente do sexo masculino, 17 anos, branco, trabalhador rural, encaminhado ao serviço de dermatologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, queixava-se de ausência de digitais e, desta forma, dificuldade n elaboração dos documentos de identificação. Referia lacrimejamento constante e intolerância ao calor. Apresentou-se eritrodérmico ao nascimento, com lesões bolhosas em couro cabeludo e corpo, anquiloblefaron filiforme adenatum, revertido pelo médico assistente, após o parto e com fenda palatina, revertida cirurgicamente aos nove anos de idade. Os cabelos iniciaram crescimento aos três anos, e os dentes apenas aos cinco anos. Relato de múltiplas infecções do couro cabeludo, tratadas intermitentemente com ciclos variados de antibióticos orais, desde os primeiros anos de vida.

Filho de pais não-consanguíneos e sem quadro semelhante entre familiares.

Avaliação dermatológica constatou cabelos claros e esparsos com áreas de alopécia, hipertelorismo, lábio inferior, mais proeminente do que o superior (Figura 1), oligodontia, rarefação global dos pelos corporais e hiperpigmentação reticulada da pele, com predomínio em pescoço, porção superior do tronco e proximal dos membros (Figura 2). Extremidades apresentavam hiponíquio e ceratodermia palmo-plantar pontuada (Figuras 3 e 4).

 

 

 

 

 

 

 

 

Não apresentava comprometimento intelectual. Peso e estatura adequados para a idade.

Exames laboratoriais (incluindo hemograma, eletrólitos, avaliação da função hepática, renal e tireoidiana) não mostraram alteração. Radiografia de tórax normal.

Estudo histopatológico de fragmento de couro cabeludo demonstrou epiderme sem alterações e derme com redução do número de anexos, observando-se apenas um folículo piloso maduro, algumas glândulas sebáceas e discreto infiltrado inflamatório linfocitário.

 

DISCUSSÃO

A síndrome de Hay-Wells ou síndrome AEC é uma doença rara, autossômica dominante, sendo o anquiloblefaron filiforme adenatum, a displasia ectodérmica e a fenda labial e/ou palatina, considerados sinais cardinais pela maioria dos autores.4 Todos estes aspectos estão presentes no caso relatado.

O anquiloblefaron consiste na fusão parcial ou completa das bordas ciliares das pálpebras superior e inferior, sendo frequentemente esporádico. Normalmente, elas permanecem fundidas até a quinta semana de gestação, quando se separam, de modo que as anomalias que ocorrem entre a sétima e a 15a semanas podem resultar em alterações palpebrais.5 Pode ser encontrada também na trissomia do cromossomo 18, síndrome CHAND (cabelos crespos, anquiloblefaron e displasia ungueal) e tem associação com defeitos cardíacos, hidrocefalia, ânus imperfurado e glaucoma, tanto que sua presença deve sempre alertar para a possibilidade de concomitância com outra importante desordem.6

As displasia ectodérmicas compreendem um grupo de doenças nas quais ocorrem defeitos no desenvolvimento dos cabelos, dentes, unhas, glândulas sudoríparas e outras estruturas derivadas do ectoderma.7,8 Estas alterações, quando associadas a outras malformações, compõem as chamadas síndromes de displasia ectodérmica, como a síndrome EEC (esclerodactilia, displasia ectodérmica e lábio e/ou palato fendido), síndrome de Rapp-Hodgkin e a síndrome CHAND, principais diagnósticos diferenciais da síndrome relatada.8

Os pacientes portadores de Hay-Wells podem apresentar variados graus de alopécia, cabelos claros e esparsos, onicodistrofias, hiperceratose palmoplantar, alteração na pigmentação cutânea,9 hipoidrose, hipodontia, dentes malformados e deformidades auriculares,10 presentes no paciente em questão. Obstruções do ducto lacrimal são comuns. Demais achados relatados consistem em mamilos supranumerários, otite média, hipospádia, hipoplasia médio-facial, hipertelorismo, baixa estatura, comprometimento intelectual, hipoacusia e alterações oculares.

Ao nascimento, a criança pode apresentar-se eritrodérmica, com descamação, erosões superficiais e crostas. No couro cabeludo, estabelece-se dermatite erosiva, fonte comum de infecções secundárias que colocam estes pacientes em risco aumentado de superinfecção bacteriana e sepse, causando assim considerável aumento na morbidade e mortalidade dos neonatos com a patologia.11 Vários relatos foram descritos de recém-nascidos com a síndrome de Hay- Wells erroneamente diagnosticados como epidermólise bollhosa, por conta da presença de eritrodermia e extensas áreas de erosão. Em associação às características clássicas, a erosão cutânea ao nascimento e a infecção recorrente do couro cabeludo, encontradas no paciente relatado, são importantes sinais que auxiliam no diagnóstico diferencial com as demais formas de displasia ectodérmica.2,7 Sugere-se que as lesões no couro cabeludo tendam a resolver-se com a idade e/ou a evoluir com alopecia.2

A síndrome é causada pela mutação no gene p63, um homólogo do supressor tumoral TP53,2,3 que atua no processo de estratificação epitelial epidérmica, regulando a capacidade proliferativa dos queratinócitos basais. As evidências de que alterações no referido gene possam resultar em outras patologias, como as síndromes EEC e Rapp-Hodgkin, apontam para um efeito altamente pleomórfico, resultante das mutações do gene p63, sendo que as alterações associadas à síndrome de Hay-Wells originam-se especificamente na substituição de aminoácidos no domínio SAM (sterile alpha motif).3,12

No estudo histopatológico da pele de pacientes, nota-se epiderme atrófica com diminuição da camada espinhosa e granulosa, além de confluente paraceratose.11 Os folículos do couro cabeludo estão diminuídos em número, enquanto as glândulas sebáceas mostram-se com número e tamanho diminuídos,7,11 embora se encontrem descrições de ausência de alterações nas estruturas anexiais. 2 Em nosso paciente, observou-se uma importante redução global dos anexos cutâneos do couro cabeludo.

Destacamos a importância do diagnóstico precoce da síndrome para um adequado aconselhamento genético dos pais, tratamento clínico e dermatológico em sua fase eritrodérmica inicial, manejo das infecções do couro cabeludo, além dos cuidados oftalmológicos, odontológicos e correção cirúrgica das fendas labiais e/ou palatinas.

 

REFERÊNCIAS

1. Hay RJ, Wells RS. The syndrome of ankyloblepharon, ectodermal defects, and cleft lip and palate: an autosomal dominant condition. Br J Dermatol. 1976;94:277-89.         [ Links ]

2. Payne AS, Yan AC, Ilyas E, Li W, Seykora JT, Young TL, et al. Two novel TP63 mutations associated with the ankyloblepharon, ectodermal defects, and cleft lip and palate syndrome - a skin fragility phenotype. Arch Dermatol. 2005;141:1567-73.         [ Links ]

3. McGrath JÁ, Duijf PH, Doetsch V, Irvine AD, de Waal R, Vanmolkot KR, et al. Hay-Wells syndrome is caused by heterozygous missense mutations in the SAM domain of p63. Hum Mol Genet. 2001;10:221-9.         [ Links ]

4. Macias E, de Carlos F, Cobo J. Hay-Wells syndrome (AEC): a case report. Oral Dis. 2006;12:506-8.         [ Links ]

5. Mohamed YH, Gong H, Amenyra T. Role of apoptosis in eyelid development. Exp Eye Res. 2003;76:115-23.         [ Links ]

6. Sharkey D, Marlow N, Stokes J. Ankyloblepharon filiforme adenatum. J Pediatr. 2008;152:594.         [ Links ]

7. Tsutsui K, Asai Y, Fujimoto A, Yamamoto M, Kubo M, Hatta N. A novel p63 sterile alpha motif (SAM) domain mutation in a Japanese patient with ankyloblepharon, ectodermal defects and cleft lip and palate (AEC) syndrome without ankyloblepharon. Br J Dermatol. 2003;149:395-9.         [ Links ]

8. Pinheiro M, Freire-Maia N. Ectodermal dysplasias: a clinical classification and a causal review. Am J Med Genet. 1994;53:153-62.         [ Links ]

9. Drut R, Pollono D, Drut RM. Bilateral nephroblastoma in familiar Hay-Wells syndrome associated with familial reticulate pigmentation of the skin. Am J Med Genet. 2002;110:164-9.         [ Links ]

10. Kulkarni ML, Deshmukh S, Matani D, Gayatri K. Hay- Wells syndrome of ectodermal dysplasia. Indian J Pediatr.2006;73:101.         [ Links ]

11. Yoo J, Berk DR, Fabre E, Lind AC, Mallory SB. Ankyloblepharon-ectodermal dysplasia-clefting (AEC) syndrome with neonatal erythroderma: report of two cases. Int J Dermatol. 2007;46:1196-7.         [ Links ]

12. Bertola DR, Kim CA, Sugayama SM, Albano LM, Utagawa CY, Gonzalez CH. AEC syndrome and CHAND syndrome: further evidence of clinical overlapping in the ectodermal dysplasias. Pediatr Dermatol. 2000;17:218-21.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Dário Júnior de Freitas Rosa
Rua Catulo Breviglieri, s/n, bairro Santa Catarina,
36.036-110 Juiz de Fora, MG - Brasil
Tel: 32 4009 5300.
E-mail: dariojfr@hotmail.com

Recebido em 27.04.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 08.05.09.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Núcleo de Pesquisa em Dermatologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) - Juiz de Fora (MG), Brasil.

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