SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.85 issue5Inter-rater concordance study of the PASI (Psoriasis Area and Severity Index)Photodynamic therapy with delta-aminolevulinic acid and light-emitting diodes in actinic keratosis author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000500006 

INVESTIGAÇÃO

 

Tatuagem: perfil e discurso de pessoas com inscrição de marcas no corpo*

 

 

Michelle Larissa Zini LiseI; Alfredo Cataldo NetoII; Gabriel Jose Chitto GauerIII; Hericka Zogbi Jorge DiasIV; Viviane Leal PickeringV

IMestre em Ciências Criminais, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) - Porto Alegre (RS), Brasil
IIDoutor em Medicina e Ciências da Saúde, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) - Porto Alegre (RS), Brasil
IIIDoutor em Medicina e Ciências da Saúde, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) - Porto Alegre (RS), Brasil
IVDoutora em Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) - Porto Alegre (RS), Brasil
VMestre em Ciências Criminais, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) - Porto Alegre (RS), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: A tatuagem é um fenômeno atávico e difuso que suscita abordagem por diversos saberes. Sua utilização por grupos específicos como prisioneiros e pacientes psiquiátricos sempre a manteve associada a um caráter de estigma.
OBJETIVOS: Buscar o discurso do tatuado acerca da discriminação e da construção de estigmas a partir da inscrição de marcas no corpo.
MÉTODOS: Foram analisadas entrevistas de 42 indivíduos.
RESULTADOS: O perfil obtido foi de maioria de mulheres; com duas a quatro tatuagens; com 23 anos ao fazê-las; com formação superior completa; que acham que era moda fazer tatuagens; que não referem nenhum fato marcante que os tenha levado a fazer o desenho; que classificam a dor como suportável; que afirmam que nunca se sentiram discriminados; que nunca esconderam sua tatuagem; que acham que a tatuagem é um atrativo sexual; que não veem a tatuagem como uma forma de resistência cultural; que deixariam de fazê-la se lhes trouxesse prejuízo profissional; que dizem não ter usado álcool quando fizeram o desenho; que afirmam não serem usuários habituais de drogas; que acham que a tatuagem é uma forma de se expressar e de se embelezar.
CONCLUSÕES: Percebeu-se que existe uma diferença entre o discurso do tatuado e os seus atos, quanto ao contexto social, e verificou-se uma importante mudança no significado da prática para o tatuado.

Palavras-chave: Pele; Preconceito; Tatuagem


 

 

INTRODUÇÃO

A prática da ornamentação da pele é um hábito tão antigo quanto a civilização, tendo sido encontrada em múmias do período entre 2000 e 4000 a.C. Não se sabe ao certo sua origem. Alguns autores acreditam que ela possa ter surgido em várias partes do globo, de forma independente; outros creem que ela tenha sido difundida pelo mundo com as grandes navegações dos países europeus.1

O presente trabalho procura investigar o tema das tatuagens a partir da inscrição de marcas no corpo. Parte do reconhecimento de que o grupo de pessoas tatuadas vem crescendo a cada dia, o que indica a relevância da abordagem, devido às suas múltiplas implicações. Tem como objetivo compreender as motivações e percepções dos tatuados acerca do uso de um desenho inscrito definitivamente em sua pele. Diante desses questionamentos, este estudo objetiva colher o discurso do tatuado, sua história, seu conhecimento e suas vivências em relação ao tema, bem como entender sua percepção acerca da tatuagem na sociedade atual. A obtenção de tais respostas apresenta dificuldades, devido à escassez de estudos realizados no ambiente mais comum, fora das prisões, dos asilos psiquiátricos e dos centros de recuperação de dependentes de drogas, onde é provável que seja mais fácil encontrar as relações inquietantes entre a tatuagem e estilos de vida antissociais particulares.

O termo tatuagem deriva do taitiano "tau"2 ou "tatau",3 que significa "ferida, desenho batido". Trata-se de uma onomatopeia relacionada ao som produzido pelo instrumento utilizado para bater no tronco oco.2

O termo inglês tattoo foi introduzido pelo explorador inglês James Cook quando de seu retorno à Europa, em julho de 1769.4 Posteriormente, foi traduzido para outras línguas: tattowierung, em alemão; tattuaggio, em italiano; tatouage, em francês; tattooing, no inglês moderno; e tatuagem, em português.2

Atualmente, as tatuagens são feitas com pigmentos de origem mineral, principalmente, e com agulhas específicas para tatuar, as quais devem ser sempre descartadas, nunca reutilizadas (mesmo que sejam na própria pessoa),5 assim como as tintas. As máquinas devem, preferencialmente, ter a ponteira de aço inox cirúrgico e/ou descartável e precisam ser limpas por ultrassom e esterilizadas em estufa, a uma temperatura de 170ºC ou superior e por um período de, pelo menos, três horas.5

A técnica correta para tatuar, segundo Marques, é a agulha perfurar a pele e depositar uma coluna de pigmento. Quando a agulha sai, a elasticidade da pele aprisiona o pigmento em seu interior. Não há ainda, no nosso País, uma legislação em nível federal sobre a aplicação de tatuagens. Existem, contudo, vários projetos de lei em tramitação.

Considerações devem ser feitas acerca de problemas médicos associados ao uso de tatuagens. Há evidências científicas documentadas da associação de diversas doenças infecciosas com tatuagens.6 O risco principal é a transmissão de hepatite B (HBV), de hepatite C (HCV) e do vírus da imunodeficiência humana (HIV).7 Sabe-se que, em caso de agulha infectada, a probabilidade de contágio é de 16% para hepatite B, de 12% para hepatite C e de 0,5% para HIV.7

Pesquisa de Nishioka e Gyorkos em 345 indivíduos encontrou: HBV em 15,4%; HCV em 9,9%; HIV em 8,4%; sífilis em 5,0% e doença de Chagas em 2,9%. Todas as prevalências foram maiores em relação ao grupo-controle, exceto para doença de Chagas.6

Outro risco a ser considerado refere-se às tintas utilizadas. Elas são de variadas origens e sem padronização ou controle. Acredita-se que até 17% de 52 colorantes identificados no mercado contenham substâncias cancerígenas.8

Há também o relato de reações alérgicas aos pigmentos empregados9,10 e o registro de reações no momento da retirada das tatuagens.11 A quebra das partículas dos pigmentos gera produtos de decomposição, que se mostram tóxicos ou até cancerígenos.12

Desde que existe a tatuagem, há, também, preocupação com sua retirada. Ao longo dos últimos cem anos, métodos químicos e físicos foram empregados sem sucesso.13 Depois, passou-se a lixar a pele, até atingir a derme. Nas duas opções, restava uma desagradável e indelével cicatriz.

Existem alguns dados acerca do arrependimento de se fazer uma tatuagem. Estudos referem que cerca de 10% dos tatuados decidem remover seus desenhos.12 A pesquisa de Armstrong et al. relata, por exemplo, que as tatuagens feitas impulsivamente na juventude causam arrependimento anos depois.14 No mesmo estudo, 75% dos que se arrependeram de ter feito a tatuagem tinham entre 12 e 19 anos, quando a fizeram; 38% sentiam-se "desviados", no momento em que tomaram a decisão de se tatuar, e 32%, não. No estudo de Varma e Lanigan, em 48% dos casos, o primeiro motivo para a remoção de uma tatuagem foi o desejo de melhorar a autoestima; 24% desejavam remover uma lesão socialmente estigmatizante e que, em sua opinião, gerava descrédito; 13% o fizeram por pressão familiar; 12%, por aspectos empregatícios e 3%, por outras razões.15

A média de duração ou permanência da tatuagem antes da remoção foi de 14 anos (dois meses a 48 anos),15 mesma média encontrada no estudo de Armstrong et al. em 60% dos casos. Ainda nesse estudo, 22% tinham feito a tatuagem há pelo menos cinco anos, 11%, há um ano ou menos.14

A associação da tatuagem a criminosos está presente ainda no século XXI, em 2001, nas palavras de França em seu livro Medicina Legal, que mantém, em sua sexta edição (p. 50), a seguinte frase: "Sua importância é ainda maior porque parte delas é encontrada naqueles que levam vida ociosa e marginalizada e nos criminosos reincidentes, embora, em nosso meio, a fina flor da sociedade já pratique a tatuagem por 'charme' ou 'modismo'" (Figura 1).16,17

 

 

Estima-se que hoje, na população carcerária, 30% a 35% dos indivíduos do sexo masculino tenham algum tipo de desenho estampado no corpo. Esses desenhos demonstram, por meio de códigos, segredos da prisão, identificando quem vem a ser o dono daquela marca, qual é a especialidade do preso no mundo do crime.15,17,18

Um hábito que tem sido associado à tatuagem é o uso de álcool. O estudo de Stephens com 1.800 tatuados mostrou que 18% estavam sob efeito alcoólico no momento da tatuagem. Esse estudo mostrou associação entre tatuagem e uso de tabaco e álcool.19 Existem autores que associam claramente a tatuagem à psicopatologia, como Raspa e Cusack1 e Fergunson-Rayport, Griffith e Straus.20

 

MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa foi parte da dissertação de mestrado no Programa de Ciências Criminais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e constituiu-se em um estudo transversal descritivo de abordagem mista, não controlado, onde foram investigados dados qualitativos e quantitativos da população estudada. A coleta dos dados ocorreu a partir de entrevistas estruturadas individuais, com perguntas abertas e fechadas.

Após a aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUCRS, analisaram-se os dados das entrevistas obtidas, chegando-se a um total de 42 indivíduos tatuados. Fizeram parte da pesquisa pessoas de ambos os gêneros, entre 18 e 65 anos.

Não foi utilizado grupo-controle, uma vez que o objetivo principal do trabalho era obter a percepção das pessoas portadoras de tatuagens acerca da(s) tatuagem(ns) que portavam e das tatuagens em geral.

Realizou-se análise estatística com o programa estatístico SPSS (Statistical Package for the Social Sciences - Programa Estatístico para as Ciências Sociais), versão 11.5. Fez-se uma análise descritiva da amostra em questão (frequência, média, moda, mediana, percentis). As questões fechadas e as questões abertas foram codificadas e categorizadas e posteriormente submetidas à análise quantitativa. Para tanto, empregou-se a Análise de Correlação Linear de Pearson, também chamada Análise de Correlação do Momento Produto, do programa SPSS: a princípio, individualmente; depois, compreendida como resposta grupal.

 

RESULTADOS

Foram entrevistados 42 sujeitos, sendo que 31 (73,80%) eram mulheres e 11 eram homens (26,20%).

O perfil da amostra obtida possui as características descritas a seguir:

• Gênero: mulher;

• Idade atual: 28 anos;

• Idade quando fez sua primeira tatuagem: 23 anos;

• Solteira;

• Escolaridade: superior completa (Gráfico 1);

 

 

• Quantidade de tatuagens: duas a quatro (Gráfico 2);

 

 

• Atividade profissional de nível superior;

• Faria em outro lugar do corpo sua tatuagem se fosse homem (Quadro 1);

• Acha que ter uma tatuagem é diferente para homens e mulheres;

• Acha que era moda fazer tatuagens quando fez seu primeiro desenho;

• Não copiaria o desenho de outra pessoa;

• Não acha importante a opinião dos outros sobre tatuagem;

• Não acha que o significado de seu primeiro desenho mudou desde que o fez;

• Tinha amigos tatuados;

• Tem amigos tatuados;

• Pensava em fazer outros desenhos no momento em que fez o primeiro;

• Não refere nenhum fato marcante que a tenha levado a fazer o desenho;

• Gostou do resultado do desenho;

• Faria novamente o mesmo desenho (Gráficos 3 e 4);

 

 

 

 

• Fez mais de uma tatuagem;

• Não fez todos os desenhos com o mesmo profissional;

• Sabe que é difícil remover a tatuagem;

• Levou mais de 12 meses entre querer e fazer o desenho;

• Classifica a dor como suportável;

• Diz que a família gostou;

• Diz que nunca se sentiu discriminada;

• Nunca escondeu sua tatuagem;

• Nunca pensou em retirá-la;

• Não tem piercings;

• Não deixaria de fazer se o parceiro não quisesse o desenho;

• Acha bom ter um parceiro tatuado;

• Acha que a tatuagem é um atrativo sexual;

• Não vê a tatuagem como uma forma de resistência cultural;

• Tem emprego hoje;

• Tinha emprego quando fez o primeiro desenho;

• Não sabe a opinião das pessoas no trabalho sobre sua tatuagem;

• Deixaria de fazê-la se lhe trouxesse prejuízo profissional;

• Não usou álcool no momento em que fez o desenho;

• É usuária de álcool socialmente;

• Não é usuária habitual de drogas;

• Acha que a tatuagem é uma forma de se expressar (Gráfico 5);

 

 

• Acha que a tatuagem é uma forma de se embelezar;

• Acha que a tatuagem é uma forma de disfarçar um sinal que não gosta em si;

• Não acha que é uma forma de reverter sinais do envelhecimento;

• Não acha que a tatuagem é resultado de uma sociedade obcecada pelo corpo e pela beleza;

• Não acha que a tatuagem é algo ruim porque reforça normas de beleza inatingíveis;

• Não acha que a tatuagem é resultado de imagens projetadas pela mídia.

A média de idade dos entrevistados no momento da entrevista foi de 28,7 anos (±9,15) e a média de idade no momento em que realizaram a tatuagem era de 23,2 (± 8,36).

Em relação à escolaridade, encontrou-se que, quanto mais avançada, menor a quantidade de tatuagens.

A maioria dos entrevistados respondeu que não havia ocorrido nenhum fato marcante que o levasse a fazer o desenho (64,3%).

No grupo, 21,4% levaram dias entre querer e efetivamente fazer o desenho de sua primeira tatuagem; a maioria (42,9%) levou mais de um ano.

Todos os entrevistados gostaram do resultado de seu primeiro desenho. Do grupo, 61,0% pensavam em fazer outras tatuagens depois, sendo que 64,3% efetivamente fizeram outros desenhos.

O local mais comum para a tatuagem entre os homens foi o braço; entre as mulheres, as costas (Figura 2).

 

 

Quanto ao significado da primeira tatuagem para o entrevistado, as respostas variaram amplamente. Para análise, criaram-se categorias, como mostrado no quadro 1. No que diz respeito à dor, esta foi descrita como mínima, leve ou suportável por 78,1% da amostra.

Do grupo, 97,6% sabiam ser difícil remover uma tatuagem; para 51,2%, a tatuagem era uma moda quando fizeram seu primeiro desenho; 81% dos entrevistados tinham amigos com tatuagens e 97,6% a apresentavam no momento da entrevista.

Para 64,3%, a tatuagem pode ser vista como um atrativo sexual; para 38,41% dos entrevistados, ter um parceiro tatuado seria normal, para 40,5%, seria bom ou maravilhoso; para 72,5%, essa não é uma forma de resistência cultural.

A opinião dos outros sobre tatuagem não é importante para 71,8% dos entrevistados; para 85,4%, a opinião do parceiro não é fator proibitivo para a realização da tatuagem. Quanto às reações da família, 64,9% dizem que ela gostou. A reação dos amigos foi relatada como positiva em mais de 80% dos casos. Quanto à opinião das pessoas do local de trabalho, 42,4% não sabem, 24,2% disseram que é indiferente, 3%, que é ruim e 30,3%, que é bom. Do total, 83,3% responderam que deixariam de fazer o desenho se isso implicasse prejuízo profissional.

Quanto a terem se sentido discriminados, 92,9% dos entrevistados negaram tal sensação. Contudo, 40,5% afirmaram que já esconderam a tatuagem. Somente 7,1% referiram já haver pensado em remover sua tatuagem.

A Análise de Correlação de Pearson mostrou que, quanto maior o número de tatuagens feitas, menor a sensação de dor referida pelo indivíduo. Quanto maior o número de tatuagens, menor também o número de piercings. Para o grupo, havia a percepção de que a tatuagem é, de certa maneira, parte de um modismo.

A correlação entre as variáveis "pensava em fazer outras tatuagens depois" e a afirmativa de que "a tatuagem é resultado de uma sociedade obcecada pelo corpo e pela beleza" mostrou-se moderada, altamente significativa (p = 0,006, r2 = 0,42).

A correlação entre as variáveis "pensava em fazer outras tatuagens depois" e a afirmativa de que "a tatuagem é resultado de imagens projetadas pela mídia" foi moderada, altamente significativa (p = 0,001, r2 = 0,48).

A correlação entre as variáveis "escolaridade" e se "aconteceu algum fato marcante que levou a o indivíduo a fazer a tatuagem" mostrou-se baixa, inversa, significativa (p = 0,034, r2 = -0,328), ou seja, quanto menor a escolaridade, maior a chance de ter ocorrido algum fato que levou à realização do desenho.

Quanto maior a crença de que a tatuagem é uma forma de se embelezar, menor a probabilidade de deixar de fazer a tatuagem caso fosse declaradamente causar um prejuízo profissional.

A correlação das variáveis de que a tatuagem é uma forma de reverter sinais de envelhecimento e de que é uma maneira de disfarçar algum sinal que não gosta em si mostrou-se moderada, altamente significativa (p = 0,005, r2 = 0,42).

A correlação da afirmativa de que a tatuagem é resultado de imagens projetadas pela mídia e a afirmativa de que ela é resultado de uma sociedade obcecada pelo corpo e pela beleza mostrou-se alta e altamente significativa (p = 0,000, r2 = 0,70).

Nesta amostra, as variáveis estudadas mostraram-se independentes de gênero. O mesmo ocorreu com as perguntas: "se acha que a tatuagem pode ser um atrativo sexual", "se a opinião dos outros sobre tatuagem é importante" e "se acha que a tatuagem pode ser uma forma de resistência cultural": não foi verificada associação.

 

DISCUSSÃO

A amostra constituiu-se, em sua maioria, de mulheres (73,80%), de escolaridade superior incompleta e superior completa (78,6%). Em relação à escolaridade, verificou-se que, quanto mais avançada, menor a quantidade de tatuagens. Esse achado poderia levar a pensar que, quanto maior o número de tatuagens, menor o nível de escolaridade.

A pesquisa realizada não evidenciou, na maioria dos casos, ter havido um motivo ou fato marcante que possa ter justificado o ato de se tatuar (64,3%). A amostra estudada acredita que, de modo geral, a tatuagem é uma forma de se embelezar e de se expressar. A pesquisa de Armstrong et al.14 tampouco demonstrou motivações específicas para o ato. No grupo estudado, a tatuagem é também uma maneira de disfarçar algum sinal que o indivíduo não aprecia em si mesmo, como os sinais próprios do envelhecimento.

Os estudos encontrados relatam uma associação entre impulsividade, ao fazer o desenho, e arrependimento.20 A maior parte da amostra estudada levou mais de um ano entre querer e efetivamente fazer a tatuagem (42,9%). Tratou-se, portanto, de uma amostra em que o fator impulsividade foi menor. O grupo estudado apresentou uma idade média de 23 anos quando da primeira tatuagem, pouco acima da literatura, com uma variação dos 14 aos 48 anos.

Aproximadamente 64% dos entrevistados acreditam que a tatuagem pode ser um atrativo sexual e 78,6% acham que seria normal ou maravilhoso ter um parceiro tatuado. Dos entrevistados desta pesquisa, 52,4% disseram que acreditam que ter uma tatuagem é diferente para homens e mulheres.

Um aspecto específico frequentemente abordado pela literatura é a associação entre o uso de álcool e o de tatuagens. Tal achado não foi encontrado nesta pesquisa, pois nenhum dos entrevistados respondeu à questão afirmativamente; contudo, não se pode afastar a possibilidade de esse dado representar um viés de omissão de informações, frequente em dados acerca de uso de drogas e álcool, bem como em relação a outros comportamentos e hábitos, percebidos como socialmente indesejáveis.20

Outro aspecto interessante é a pesquisa da tolerância à dor, quando da realização da tatuagem. Sabese que a identificação com uma atividade ou grupo possibilita experimentar seus rituais com prazer.

Entre o grupo estudado, a dor foi caracterizada como suportável em 53,7% dos casos e como mínima ou leve em outros 24,4% dos casos. É interessante também registrar o dado de que 12,2% afirmaram que a dor era boa ou ótima ou que viciava. Este último grupo é composto, essencialmente, de indivíduos que tinham mais de uma tatuagem. É possível aventar várias possibilidades acerca desse resultado, quais sejam: esses indivíduos são mais tolerantes à dor; sentem-se mais inseridos no contexto da tatuagem; como relataram alguns, estão "viciados" em fazer tatuagem e em tudo que envolve esse ato.

Não foram encontrados relatos na literatura especificando a existência de influência da mídia sobre o uso ou não de tatuagens. O grupo estudado, no entanto, referiu que a mídia talvez possa ser uma influência. Os pesquisados que afirmavam desejar fazer outros desenhos, além do primeiro, concordaram com a afirmativa de que a tatuagem seria o resultado de imagens projetadas pela mídia. Admite-se que a mídia e a moda têm alguma influência sobre o comportamento dos sujeitos envolvidos nesta pesquisa.

Ainda que não se sentisse discriminada, conforme foi referido, a maioria dos pesquisados afirmou que deixaria de fazer o desenho se houvesse algum prejuízo profissional. Na interpretação com os demais dados, isso pode significar que, quanto maior a crença de que a tatuagem é uma forma de se embelezar, menor a possibilidade de deixar de fazer a tatuagem, ainda que isso, explicitamente, cause um prejuízo profissional.

Aproximadamente 61% disseram que, quando fizeram a primeira tatuagem, pensavam em fazer outras, e 64,3% efetivaram tal intenção.

Quanto à reação da família, 64,9% afirmaram ter recebido sua aprovação; 3,7% referiram ter ouvido reclamações ou queixas de decepção; e 31,7% relataram uma reação de surpresa ou estranheza. Percebese maior tolerância por parte dos familiares, o que traduz, possivelmente, maior aceitação como consequência do aumento do hábito nas últimas décadas.

 

CONCLUSÕES

A tatuagem como fenômeno atávico e difuso suscita e permite a abordagem através de diversos saberes, como a Medicina, a Psiquiatria, a Dermatologia, o Direito, a Psicologia e a Antropologia. Em especial, sua utilização por grupos específicos como prisioneiros e pacientes psiquiátricos a manteve associada a um caráter de estigma ao longo da sua história. Por tudo isso, este trabalho teve como objetivo colher o discurso do tatuado e sua percepção sobre diversos aspectos ligados ao tema, dando ênfase para a percepção de discriminação. Os principais resultados da pesquisa de campo, a partir da análise das 42 entrevistas, evidenciaram, quando analisados conjuntamente, que ainda existe estigmatização dos tatuados e também demonstraram que parece haver uma falta de percepção ou, mesmo, uma negação dessa realidade entre eles.

A contradição foi expressa pelos tatuados, entre as questões objetivas relacionadas à discriminação e algumas mais gerais, que diziam respeito à prática da produção da tatuagem - como a localização. O que se percebe, então, é que existe uma diferença entre o discurso do tatuado e os seus atos, quanto ao contexto social.

Nesta pesquisa, verificou-se também uma importante mudança no significado da prática para o tatuado. Mesmo que, entre alguns poucos, o uso da tatuagem permaneça como sinal de rebeldia, os sujeitos pesquisados reconheceram como motivo para se tatuar a produção de um adorno, uma forma de expressão.

As considerações apontam, além disso, para a necessidade premente de uma legislação nacional específica que normatize qual deve ser a formação dos tatuadores, como devem ser os estúdios de tatuagem, qual a procedência das tintas e demais materiais empregados, bem como a necessidade de pesquisa dos possíveis riscos trazidos quando da remoção dos pigmentos mediante o uso de tecnologias médicas, como os lasers.

Para um futuro trabalho, seria interessante a aplicação de um questionário abordando questões levantadas, como a pesquisa mais específica sobre os conhecimentos dos tatuados quanto aos possíveis riscos à saúde, como a prevalência de doenças infecciosas e psiquiátricas associadas, e sobre a remoção. Outra sugestão seria a obtenção de uma amostra mais aleatória que inclua indivíduos de outros grupos sociais, bem como a aplicação a um maior número de pessoas.

Ao traçar um perfil do portador de tatuagens em um grupo não institucionalizado, como presos e inter-nos de clínicas de tratamento psiquiátrico, o trabalho buscou contribuir para o debate sobre a temática que envolve a tatuagem, em uma tentativa de desmitificar o estigma historicamente associado a esse grupo.

 

REFERÊNCIAS

1. Raspa RF, Cusack J. Psychiatric implications of tattoos. Am Fam Physician. 1990;41:1481-6.         [ Links ]

2. Mucciarelli G. Il tattuaggio: uma ricerca psicometrica della personalita e della motivazione. Curso de Psicologia Faculdade de Psicologia Università degli studi di Bologna. 1998-1999. [Tese] [Acesso: 10 Fev. 2006]. Disponível em: http://www.tesionline.it/default/tesi.asp?idt=10218.         [ Links ]

3. Tatoos.com. [homepage]. Allen T. Tatau: the tahitian revival. [Acesso 10 Out. 2005]. Disponível em: http://www.tattoos.com/allen/TATAU.htm         [ Links ]

4. Correia Junior M. Tatuagem: a alma marcada na pele. Revista Planeta. 2004;32:20-7.         [ Links ]

5. TATUANDO.com. [homepage]. Tatuagem e Piercing (Tatoo Brasil). [Acesso: 22 Out. 2005]. Disponível em: <http://www.tatuando.com/historia.htm>         [ Links ].

6. Camara.gov. [homepage]. Sérgio L. Câmara dos Deputados. Indicação nº 1762, de 2001. [Acesso 10 Fev. 2007]. Disponível em: http://www.camara.gov.br/LuizSergio/ind1762.htm.         [ Links ]

7. Santori E. Results of a model survey on a large population sample in Italy. Piercing e tattuaggi: la manipolazione violenta del corpo e il rifiuto del corpo adolescente. [Acesso: 20 Fev. 2007]. Disponível em: http://193.145.164.73/publicaciones/documentos/V.2901-2004.pdf.         [ Links ]

8. Baeumler W, Vasold R, Lundsgaard J, Talberg HJ. Chemicals used in tattooing and permanent make up products. [Acesso: 20 Fev. 2007]. Disponível em: http://193.145.164.73/publicaciones/documentos/V.2901-2004.pdf        [ Links ]

9. Sacks T, Barcaui C. Laser e luz pulsada de alta energia: indução e tratamento de reações alérgicas relacionadas a tatuagens. An Bras Dermatol. 2004;79:709-714.         [ Links ]

10. Ferreira MAMO, Araújo MAR, Miyoshi N. Reação ao mercúrio usado em tatuagem: relato de um caso. An Bras Dermatol.1988;63:455-7.         [ Links ]

11. Waberer KB. Overview of allergic reactions resulting from tattoos. [Acesso: 20 Fev. 2007]. Disponível em: http://193.145.164.73/publicaciones/documentos/V.2901-2004.pdf.         [ Links ]

12. Baumler W. Possible risks of tattoo removal using laser therapy. In: Papameletiou D, Schwela D, Zenié A, editors. Technical/ scientific and regulatoy issus on the safety of tattoos, body piercing and of related practices. 2003. Proceendings of the Institute for Health and Consumer Protection (IHCP). Physical and Chemical Exposure Unit (PCE). [Acesso: 13 Maio 2009]. Disponível em: http://ec.europa.eu/consumers/cons_safe/news/eis_tattoo_proc_052003_en.pdf         [ Links ]

13. Marques T. O Brasil tatuado e outros mundos. Rio de Janeiro: Rocco; 1997. p. 115.         [ Links ]

14. Armstrong ML, Stuppy DJ, Gabriel DC, Anderson RR. Motivation for tattoo removal. Arch Dermatol. 1996;132:412-6        [ Links ]

15. Varma S, Lanigan S. Motivation for tattoo removal. Arch Dermatol. 1996;132:1516.         [ Links ]

16. França GV. Medicina Legal. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001. p.50.         [ Links ]

17. EAP.SP.gov. Escola de Administração Penitenciária. Governo do Estado de São Paulo [Acesso: 10 Fev. 2007]. Disponível em: http://www.eap.sp.gov.br/.         [ Links ]

18. Paredes CV. A influência e o significado das tatuagens nos presos no interior das penitenciárias. [Dissertação]. Curitiba: Universidade Federal do Paraná; 2003.         [ Links ]

19. Stephens MB. Behavioral risks associated with tattooing. Fam Med. 2003;35:52-54.         [ Links ]

20. Nishioka Sde A, Gyorkos TW. Tattoos as risk factors for transfusion-transmitted diseases. Int J Infect Dis. 2001;5:27-34.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Michelle Lise
Mãe de Deus Center
Torre Alfa. Av. Soledade, 569/912
90470 340 Porto Alegre - RS
Tel.: 51 3013 5274
E-mail: dramizini@yahoo.com.br

Recebido em 15.06.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 30.04.2010.
Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: None
Suporte financeiro: Nenhum / Financial funding: None

 

 

* Trabalho realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) - Porto Alegre (RS), Brasil