SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.85 issue5Leukocytoclastic vasculitis: another condition that mimics syphilisCutis laxa: case report author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000500012 

CASO CLÍNICO

 

Avaliação clínica, dermatoscópica e histopatológica do nevo de Meyerson - relato de caso*

 

 

Tatiana Villas Boas GabbiI; Erick D. OmarII; Paulo R. CriadoIII; Neusa Y. S. ValenteIV; José Eduardo C. MartinsV

IMédica especialista assistente da Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo (SP), Brasil
IIMédico ex-residente da Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo (SP), Brasil
IIIMédico supervisor-doutor da Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo (SP), Brasil
IVMédica pesquisadora do Laboratório de Investigação Médica 53 Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo (SP), Brasil
VProfessor titular da Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O nevo de Meyerson ocorre quando uma rara erupção eczematosa focal e transitória surge ao redor de lesões melanocíticas. O mesmo fenômeno também foi observado em lesões não melanocíticas. O caso relatado é o de um doente masculino, 25 anos, que há dois meses notara surgimento de eritema e prurido, circundando dois nevos, localizados no abdome. As lesões eram atípicas à dermatoscopia e procedeu-se à excisão cirúrgica dos dois nevos. O exame histopatológico revelou nevos melanocíticos compostos displásicos, envolvidos por espongiose e vesículas intraepidérmicas. O presente relato sugere que o fenômeno de Meyerson não modifica as características dermatoscópicas dos nevos.

Palavras-chave: Dermoscopia; Nevo; Nevo pigmentado


 

 

INTRODUÇÃO

Em 1971, Meyerson descreveu dois pacientes os quais apresentavam eritema, descamação e prurido, envolvendo exclusivamente nevos, localizados no tronco e nas extremidades proximais, e após a terapêutica com corticosteroides tópicos1, apresentaram melhora. Desde então, esse mesmo fenômeno vem sendo descrito em diversas lesões pigmentadas, incluindo nevos juncionais, nevos de Sutton, nevos atípicos2 e congênitos.3 Em lesões não melanocíticas, também foi documentado, tais como: carcinomas basocelulares, carcinomas espinocelulares, queratoses seborreicas, queloides, histiocitofibromas e picadas de insetos.4 A seguir, relataremos o caso de um paciente jovem segundo o qual apresentou clinicamente dois nevos de Meyerson e no qual, naquele instante, pôde-se documentar os achados dermatoscópicos e histopatológicos deste raro fenômeno.

 

RELATO DE CASO

Um paciente do sexo masculino, hígido, de 25 anos de idade, branco, procurou o serviço de Dermatologia do nosso hospital, queixando-se de erupção, sendo que, dois meses antes, ele havia notado dois nevos localizados no abdome. (Figura 1A). Além disso, o indivíduo não apresentava outras queixas ou comorbidades e negava uso de medicações. Ao exame dermatológico, notavam-se duas lesões papulosas e acastanhadas, localizadas na região abdominal, circundadas por um halo de eritema e edema e encimadas por crostas (Figura 1A). Havia outros poucos nevos comuns, distribuídos em todo o corpo, porém estes estavam poupados. A dermatoscopia sugeriu o diagnóstico de lesão melanocítica, com atipia nos dois casos (Figuras 1B e 2). Um dos nevos (Figura 2) apresentava assimetria em dois eixos, quatro cores diferentes e presença de áreas amorfas e glóbulos periféricos, levando a um escore (TDS) de 5.3, de acordo com a regra do ABCD, descrita por Stolz et al.5 A outra lesão mostrou aspecto semelhante e uma combinação de padrões: globular no centro e reticular na periferia, com discreta assimetria e presença de mais de uma coloração (Figura 1B). A excisão cirúrgica foi realizada nos dois nevos. O exame histopatológico confirmou os achados dermatoscópicos e revelou nevos melanocíticos, com espongiose e vesiculação na epiderme, ao redor e no componente epidérmico dos nevos (Figuras 3 e 4). Havia ninhos de melanócitos, localizados na junção dermoepidérmica e na derme superior, além de pontes de melanócitos entre as cristas epiteliais e fibroplasia na derme papilar (Figura 3). No maior aumento, era possível visualizar alguns melanócitos atípicos. Os nevos foram diagnosticados como nevos compostos atípicos, com dermatite espongiótica associada (Figura 4).

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A fisiopatologia envolvida nesses casos permanece desconhecida. Hipóteses como: pitiríase rósea restrita ao nevo,1 exposição solar, dermatite subaguda alérgica e reação imunológica3 foram sugeridas. O nosso doente negava exposição solar ou alergias. O fenômeno de Meyerson tende a afetar adultos jovens, sem doenças associadas, como parece ser o caso do nosso paciente.

Os aspectos clínicos do nevo de Meyerson são de um halo eczematoso, simétrico, pruriginoso, o qual surge ao redor de uma lesão pigmentada. Na literatura, um halo assimétrico também já foi descrito.2 Recentemente, Longo e colaboradores6 publicaram um caso de nevo de Meyerson atípico que não apresentava sinais claros de eczema, apesar do paciente se queixar de prurido leve no local. O eczema associado pode ou não resolver após o tratamento com corticosteroides tópicos em creme. O clareamento do eczema, assim que ocorre a excisão apenas do nevo, também já foi descrita.7 Ao contrário do nevo de Sutton, o nevo de Meyerson persiste, depois que há a resolução do halo de eczema.3

A histopatologia mostra um nevo, geralmente composto, com dermatite associada.3 No presente caso, os dois nevos excisados eram compostos.

A inflamação presente no eczema pode ser vista como áreas hipopigmentadas e de aspecto cicatricial na dermatoscopia.2,6 No mesmo artigo mencionado anteriormente,6 Longo e colaboradores optaram por remover cirurgicamente um nevo de Meyerson, baseados na dermatoscopia - que havia revelado uma lesão suspeita: áreas hipopigmentadas multifocais e áreas de regressão, com alguns pontos marrons esparsos.

O presente relato denota que o fenômeno de Meyerson não modifica as características dermatoscópicas dos nevos. Nosso paciente foi submetido à cirurgia em face da forte suspeita de nevos atípicos, baseada nos achados do exame dermatoscópico, o que foi posteriormente confirmado pela histopatologia.

 

AGRADECIMENTO

Agradecemos ao Dr. Gustavo Alonso Pereira, médico colaborador do Ambulatório de Tumores - HCFMUSP, pela análise e descrição do exame dermatoscópico das lesões apresentadas neste trabalho.

 

REFERÊNCIAS

1. Meyerson LB. A peculiar papulosquamous eruption involving pigmented nevi. Arch Dermatol. 1971; 103:510-2.         [ Links ]

2. Elenitsas R, Halpern AC. Eczematous halo reaction in atypical nevi. J Am Acad Dermatol. 1996; 34:357-61.         [ Links ]

3. Kus S, Ince U, Candan I, Gurunluoglu R. Meyerson phenomenon associated with dysplastic compound nevi. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2006; 20:350-1.         [ Links ]

4. Tegner E, Björnberg A, Jonsson N. Halo dermatitis around tumours. Acta Derm Venereol. 1990;70:31-4.         [ Links ]

5. Braun RP, Rabinovitz HS, Oliviero M, Kopf AW, Saurat JH. Dermoscopy of pigmented skin lesions. J Am Acad Dermatol. 2005; 52:10-21.         [ Links ]

6. Longo C, Segura S, Cesinaro AM, Bassoli S, Seidenari S, Pellacani G. An atypical Meyerson's naevus: a dermoscopic, confocal microscopic and immunohisto chemical description of one case. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2007; 21:414-6.         [ Links ]

7. Cox NH, Bloxham CA, Lawrence CM. Halo eczema: resolution after excision of the central naevus alone. Clin Exp Dermatol. 1991; 16:66-7.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Tatiana Villas Boas Gabbi
Divisão de Clínica Dermatológica do Hospital das Clínicas da FMUSP
Av. Enéas de Carvalho Aguiar, 255- 3o. andar
05403-000 São Paulo - SP
Tel/Fax 11 5044 1008 / 3237 2419
Email: gabbi@uol.com.br

Recebido em 09.04.2008.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 30.04.2010.
Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: None
Suporte financeiro: Nenhum / Financial funding: None

 

 

* Trabalho realizado na Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo (SP), Brasil.