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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000500022 

IMAGENS EM DERMATOLOGIA

 

Pistas dermatoscópicas para diferenciar a tricotilomania da alopecia areata em placa*

 

 

Leonardo Spagnol AbrahamI; Fernanda Nogueira TorresII; Luna Azulay-AbulafiaIII

IEspecialista em Dermatologia; dermatologista do Instituto de Dermatologia e Estética do Rio de Janeiro (IDERJ); mestrando da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (Serviço de Anatomia Patológica); preceptor do ambulatório de alopecias e dermatoscopia do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIEspecialista em Dermatologia; dermatologista do Instituto de Dermatologia e Estética do Rio de Janeiro (IDERJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIIMestre e doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); dermatologista do Instituto de Dermatologia e Estética do Rio de Janeiro (IDERJ); professora da pós-graduação do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); professora adjunta da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); professora da Universidade Gama Filho (UGF) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Tricotilomania e alopecia areata em placa possuem características clínicas e dermatoscópicas semelhantes.
OBSERVAÇÕES: O exame dermatoscópico da tricotilomania revela densidade capilar diminuída, cabelos fraturados em diferentes tamanhos, enovelados e vellus, tricoptilose, pontos amarelos com ou sem pontos pretos e ausência de cabelos em "ponto de exclamação".
CONCLUSÃO: No contexto de alopecia em placa e cabelos fraturados, a ausência de "pontos de exclamação" sugere o diagnóstico de tricotilomania. Por outro lado, o achado de pontos amarelos sem pontos pretos não afasta o mesmo.

Palavras-chave: Alopecia; Dermoscopia; Diagnóstico diferencial; Hábito de roer unhas; Transtornos de ansiedade


 

 

INTRODUÇÃO

A tricotilomania (TT) é uma desordem compulsiva caracterizada pelo hábito de puxar os próprios cabelos, em geral, da região parietal e vértex.1 Acomete mais frequentemente crianças e adolescentes do sexo feminino, os quais, normalmente, negam o seu hábito. Essa condição lembra a alopecia areata (AA), pois ambas são inicialmente não cicatriciais e podem ser em placas. Possuem características dermatoscópicas em comum, como a presença de cabelos vellus curtos, distróficos, pontos pretos e amarelos.2 O achado considerado patognomônico por alguns autores, descrito para AA, é o cabelo em "ponto de exclamação."2,3

Considerando-se que a TT e a AA possuem prognósticos e tratamentos diferentes, seria útil estabelecer sua diferença por métodos não invasivos, como a dermatoscopia, já que o estudo histopatológico pode ser inconclusivo e o procedimento pode ser traumático especialmente em crianças.

No que diz respeito às características dermatoscópicas, há poucos relatos sobre TT,4-6 sendo a maioria sobre AA.2,3,6-8

Observações

O exame do couro cabeludo de pacientes com TT revela, em geral, placa de alopecia assimétrica, principalmente na região frontal e vértex. Cabelos com diferentes comprimentos e vellus curtos podem ser vistos nessas placas. O teste da tração é negativo na periferia das mesmas.

Podem ser observados outros transtornos compulsivos na TT, como onicofagia e onicotilomania.

Na AA, o quadro clínico caracteriza-se por placas de alopecia não cicatricial, lisas, arredondadas ou ovais, com teste de tração na periferia fortemente positivo, principalmente nas que se encontram em atividade. O exame do aparelho ungueal pode demonstrar pitting (Quadro 1). 9

Na dermatoscopia da TT, vêem-se alterações devidas ao estiramento e à fratura das hastes capilares. Isso pode ocorrer em diferentes alturas, produzindo: pontos pretos; fratura na emergência do pelo; cabelos com ponta em "vassoura" ou "escova" e em "V" ou "bailarina"; fratura após a emergência do pelo; cabelos enovelados; estiramento da haste. Também são achados dermatoscópicos diminuição da densidade capilar, óstios foliculares vazios e alguns pontos amarelos com e sem presença de pontos pretos no interior (Figura 1). Ainda se podem observar áreas com sinais de escoriação e sangramento.

 

 

Na dermatoscopia da AA encontram-se, caracteristicamente, os cabelos em "ponto de exclamação", especialmente na periferia das placas, onde é maior a atividade da doença. Podem-se ver outros cabelos distróficos que são formados pela alteração do ciclo capilar devido ao processo inflamatório, como os pontos pretos ou cabelos cadavéricos, em "cotovelo" e pseudomolinetrix, caracterizada por constrições na haste, que remete às épocas de atividade inflamatória no folículo piloso (Figura 2).

 

 

Tanto na TT quanto na AA, vêem-se cabelos vellus curtos, sendo que, na última, eles podem ser brancos (Quadro 2).

 

DISCUSSÃO

A TT e a AA costumam afetar crianças. Padrões clínicos e dermatoscópicos são úteis para evitar biópsias nessa faixa etária, especialmente porque o laudo histopatológico pode não ser conclusivo. Onicofagia e onicotilomania, além de outros sintomas de ansiedade, podem sugerir e acompanhar o transtorno compulsivo do paciente com TT.

A AA apresenta-se, geralmente, em placas de alopecia arredondadas ou ovais, enquanto, na TT, elas tendem a ser assimétricas, geométricas ou com formas bizarras; entretanto, áreas arredondadas podem também ocorrer na TT, tornando mais difícil a diferenciação.5

O teste da tração é um elemento semiótico útil, pois, sendo negativo, favorece o diagnóstico de TT.5 Na AA, é positivo, especialmente na periferia das placas em atividade.9

Quanto à dermatoscopia na AA, ocorrem cabelos vellus curtos agrupados (menor que 10mm), pontos amarelos e cabelos distróficos, como os pontos pretos ou cadavéricos e o "ponto de exclamação."2,3

Ross et al. foram os primeiros a observar pontos amarelos em um paciente com TT, porém havia AA na mesma placa, demonstrada por biópsia.3 Nos estudos de Inui et al. foram encontrados pontos amarelos em pequeno número na alopecia androgenética e na TT. Os autores sugerem que, na TT, todos os pontos amarelos deveriam conter pontos pretos, restos da haste folicular, o que a poderia diferenciar da AA.2 Entretanto, os pontos amarelos sem pontos pretos podem estar presentes em pequeno número nesta condição.2

A presença de pontos pretos, cabelos enovelados, hastes em várias alturas com as pontas em "vassoura" ou "escova" e em "bailarina" ou "V" (tricoptilose) e a ausência de "pontos de exclamação" sugerem TT. De acordo com a literatura, esse achado é considerado patognomônico de AA.2,3

Os cabelos em "vassoura" ou "escova" presentes na TT podem simular um cabelo em "ponto de exclamação" (Figura 1A), podendo dificultar sua distinção, especialmente quando houver sobreposição de TT e AA.

 

CONCLUSÃO

A dermatoscopia se mostra uma ferramenta útil para a diferenciação entre TT e AA em placas, evitando a biópsia de couro cabeludo, especialmente em crianças. Hastes fraturadas sugerem TT e presença de "ponto de exclamação" indica AA. Na dermatoscopia da TT, também podem ser observados alguns pontos amarelos, não contendo, necessariamente, restos foliculares (pontos pretos).

 

REFERÊNCIAS

1. Bartels NG, Blume-Peytavi U. Hair loss in children. In: Blume-Peytavi U, Tosti A, Whiting D, Trüeb R, editors. Hair Growth and Disorders. Leipzig: Springer; 2008. p. 293-4.         [ Links ]

2. Inui S, Nakajima T, Nakagawa K, Itami S. Clinical significance of dermoscopy in alopecia areata: analysis of 300 cases. Int J Dermatol. 2008;47:688-93.         [ Links ]

3. Ross EK, Vincenzi C, Tosti A. Videodermoscopy in the evaluation of hair and scalp disorders. J Am AcadDermatol. 2006;55:799-806.         [ Links ]

4. Lee DY, Lee JH, Yang JM, Lee ES. The use of dermoscopy for the diagnosis of trichotillomania. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2009;23:731-2.         [ Links ]

5. Pereira JM. Compulsive trichoses. An Bras Dermatol. 2004;79:609-18.         [ Links ]

6. Rakowska A, Slowinska M, Kowalska-Oledzka E, Olszewska M, Czuwara J, Rudnicka L. Alopecia areata incognita: true or false? J Am Acad Dermatol. 2009;60:162-3.         [ Links ]

7. Tosti A, Whiting D, Iorizzo M, Pazzaglia M, Misciali C, Vincenzi C, et al. The role of scalp dermoscopy in the diagnosis of alopecia areata incognita. J Am Acad Dermatol. 2008;59:64-7.         [ Links ]

8. Inui S, Nakajima T, Itami S. Dry dermoscopy in clinical treatment of alopecia areata. J Dermatol. 2007;34:635-9.         [ Links ]

9. Rivitti EA. Alopecia areata: revisão e atualização. An Bras Dermatol. 2005;80:57-68.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Leonardo Spagnol Abraham
Instituto de Dermatologia e Estética do Rio de Janeiro (IDERJ)
R. Alexandre Ferreira, 206 - Lagoa
22470 220 Rio de Janeiro - RJ
Tel.: +55 21 9218-4164 / 2537-2108 Fax: +55 21 2537-2108
E-mail: leosabraham@gmail.com

Recebido em 05.04.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 29.04.10.
Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: None
Suporte financeiro: Nenhum / Financial funding: None

 

 

* Trabalho realizado no Instituto de Dermatologia e Estética do Rio de Janeiro (IDERJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.