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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000500027 

COMUNICAÇÃO

 

Caracterização clínica e histopatológica e tipagem do papilomavírus humano das verrugas vulgares nos receptores de transplante renal

 

 

Flavia Martelli-MarzagãoI; Alberto Shodi YamashiroII; Marilia Marufuji OgawaIII; Gildo Francisco dos Santos JrIV; Jane TomimoriV; Adriana Maria PorroVI

IAluna do programa de pós-graduação em dermatologia clínica e cirúrgica - Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
IIAluno de iniciação científica do curso de medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
IIIMédica e mestre do Departamento de Dermatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
IVBiomédico e doutor - Associação Fundo de Incentivo à Psicofarmacologia (Afip) Medicina Laboratorial - São Paulo (SP), Brasil
VProfessora associada do Departamento de Dermatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), orientadora dos alunos de iniciação científica e pósgraduação - São Paulo (SP), Brasil
VIProfessora adjunta do Departamento de Dermatologia, coorientadora dos alunos de iniciação científica e pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os pacientes receptores de transplante renal apresentam elevada prevalência de lesões cutâneas por HPV. Foram estudados 20 receptores de transplante renal com diagnóstico de verruga vulgar. A detecção do HPV foi realizada pela polimerização em cadeia (PCR) com os primers MY09/MY11 e RK91. A tipagem do HPV foi feita por meio da restrição enzimática e do sequenciamento automatizado. Identificamos a presença do HPV em 10 pacientes (50%) e os tipos identificados foram: HPV-2, 27, 29, 34 e 57.

Palavras-chave: Infecções por papilomavírus; Transplante de rim; Verrugas


 

 

Os pacientes receptores de transplante renal identificar os tipos de HPV presentes nas lesões. (RTRs) apresentam de 15 a 50% de chance de Estudamos 20 pacientes RTRs com diagnóstico desenvolver verrugas vulgares (VVs) relacionadas ao clínico e histopatológico de VV, que foram submetidos papilomavírus humano (HPV) no primeiro ano do à detecção (por meio de PCR com primers transplante e de 77 a 95% em cinco anos.1 Com MY09/MY11 e RK91) e tipagem do HPV (por meio de relação à detecção e tipagem do HPV em lesões de VV, restrição enzimática e/ou sequenciamento). existem poucas publicações no nosso meio: estudo A média de idade dos pacientes foi de 47,9 em população infectada pelo HIV e anos. Não observamos predomínio da incidência em imunocompetentes2 e pacientes com nenhum dos sexos (Tabela 1). epidermodisplasia verruciforme.3 Nesse contexto, A presença de mais de uma lesão de VV este estudo teve como objetivo avaliar aspectos predominou entre esses pacientes (80%), sendo que clínicos e histopatológicos das VVs nos RTRs e 25% apresentavam mais de 20 lesões. Confirmam-se dessa forma a facilidade de infecção e o comportamento disseminativo do HPV nos RTRs (Figura 1).

 

 

Após seis meses de terapia imunossupressora em altas doses (fase de indução), o paciente submetido ao transplante renal passa a receber doses menores de imunossupressores, entrando na chamada fase de manutenção. É nessa fase, semelhante ao relatado na literatura,4 que observamos maior frequência de verrugas virais. O tempo médio de transplante neste estudo foi de 76,9 meses.

À histopatologia, os achados típicos de VV em indivíduos imunocompetentes, tais como hiperqueratose, hipergranulose e papilomatose, foram também vistos nos RTRs. Em relação aos sinais histopatológicos de atividade viral nas lesões dos RTRs, encontramos frequência elevada de coilocitose (85%) e, em menor frequência, observamos a presença de clumps de grânulos de querato-hialina (70%). A paraqueratose esteve pouco presente (20%). Isso poderia representar o aspecto histológico de verrugas antigas e, indiretamente, a cronicidade desse processo nos RTRs, coincidindo com o tempo prolongado de evolução relatado pelos pacientes. Analisando a presença de vacuolização dos queratinócitos, que também caracteriza a infecção viral, ela foi observada principalmente nas camadas mais altas da epiderme, como nas lesões descritas na literatura (Figura 2).5

Os tipos de HPV descritos como mais frequentes nas lesões de VV de indivíduos imunocompetentes, segundo a literatura mundial, são o HPV-2, o HPV-27 e o HPV-57.6

No presente estudo, identificamos a presença de HPV em 10 pacientes (50%). O HPV-2, o HPV-34 e o HPV-57 foram detectados em duas amostras cada, enquanto o HPV-27 e o HPV-29, em uma amostra cada (Tabela 2). Em dois pacientes, não foram identificados os tipos de HPV, mesmo com positividade para os primers MY09/MY11 e RK91. Os tipos HPV-2, HPV-27, HPV-29 e HPV-57 já haviam sido anteriormente descritos em VVs de RTRs.7-9 Um achado interessante, observado em dois dos nossos pacientes, foi a identificação do HPV-34, que é um alfapapilomavírus, frequentemente descrito nas infecções de mucosa. Já os tipos HPV-2, HPV-27, HPV-29 e HPV-57 têm sido encontrados em todo o tegumento. Com o uso dos primers MY09/MY11 e RK91, os pacientes deste estudo não apresentaram os tipos descritos na epidermodisplasia verruciforme.10

Dependendo do tipo, a infecção cutânea pelo HPV relaciona-se com o aumento da incidência de carcinomas, em particular o carcinoma espinocelular. Muitas vezes, em RTRs, a proliferação de lesões queratósicas nas áreas expostas provoca confusão diagnóstica entre VVs, queratoses actínicas e queratoses seborreicas, além do próprio carcinoma espinocelular. Na população deste estudo, também foi possível observar a existência de lesões cutâneas múltiplas, polimórficas e atípicas, principalmente nas áreas expostas, sujeitas a microtraumatismos e exposição solar, como os membros superiores e inferiores.

A baixa detecção de HPV nas lesões deste estudo poderia ser explicada pela presença de tipos incomuns de HPV, não habitualmente detectados em lesões de VV. Nesse caso, a repetição da PCR utilizando outros primers poderia aumentar a chance de detecção do HPV.

 

REFERÊNCIAS

1. Glover MT, Niranjam N, Kwan J, Leigh IM. Warts and skin cancer in renal allograft recipients: the extent of the problem and a strategy for management. Br J Plastic Surg. 1994;47:86-9.         [ Links ]

2. Porro AM, Alchorne MM, Mota GR, Michalany N, Pignatari AC, Souza IE. Detection and typing of human papillomavirus in cutaneous warts of patients infected with human immunodeficiency virus type 1. Br J Dermatol. 2003;149:1192-9.         [ Links ]

3. de Oliveira WR, He Q, Rady PL, Hughes TK, Festa Neto C, Rivitti EA, Tyring SK. HPV Typing in brazilian patients with epidermodysplasia verruciformis: high prevalence of EV-HPV 25. J Cutan Med Surg. 2004;8:110-5.         [ Links ]

4. Ferreira RMCXC, Coelho MRCD, Guimarães PB, Montarroyos UR, Ferreira CZ. Freqüência de verrugas virais em transplantado renal. Revista Paraense de Medicina. 2003;17:12-17.         [ Links ]

5. Burns T, Breathnach S, Cox N, Griffiths C, eds. Rook's textbook of dermatology. 7th ed. Oxford: Blackwell Science; p. 25.42-25.60, 36.40.         [ Links ]

6. Rübben A, Kalka K, Spelten B, Grussendorf-Conen EI. Clinical features and age distribution of patients with HPV 2/27/57-induced common warts. Arch Dermatol Res. 1997;289:337-40.         [ Links ]

7. Shamanin V, Glover M, Rausch C, Proby C, Leigh IM, zur Hausen H, et al. Specific types of human papillomavirus found in benign proliferations and carcinomas of the skin in immunosuppressed patients. Cancer Res. 1994;54:4610-3.         [ Links ]

8. de Villiers EM, Lavergne D, McLaren K, Benton EC. Prevailing papillomavirus types in non-melanoma carcinomas of the skin in renal allograft recipients. Int J Cancer. 1997;73:356-61.         [ Links ]

9. Berkhout RJ, Bouwes-Bavinck JN, ter Schegget J. Persistence of human papillomavirus DNA in benign and (pre)malignant skin lesions from renal transplant recipients. J Clin Microbiol. 2000;38:2087-96.         [ Links ]

10. Wieland U, Pfister H. Papilomavirus em patologia humana: epidemiologia, patogênese e papel oncogênico. In: Gross G, Barrasso R, ed - Infecção por papilomavirus humano/ Atlas clínico de HPV. Porto Alegre: Artes Médicas; 1999. p.1-18.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Adriana Maria Porro
Alameda Jauaperi, 975, ap. 31, Moema
04523 014 São Paulo - SP - Brasil
Tel.: +55 11 5576 4804
E-mail: adriana.porro@uol.com.br

Recebido em 28.04.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 19.03.10.
Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: None
Suporte financeiro / Financial funding: CNPq, com bolsa Pibic para o aluno da graduação, e Capes, com verba do programa de pós-graduação em dermatologia clínica e cirúrgica (Unifesp).

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM) - São Paulo (SP), Brasil.