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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000500028 

COMUNICAÇÃO

 

Imunopatogênese da psoríase

 

 

Ana Paula Galli Sanchez

Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), assistente do Serviço de Dermatologia do Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A psoríase é doença inflamatória comum, afetando cerca de 1% da população brasileira. Os linfócito T auxiliares (Th17 e Th1) estão envolvidos na imunopatogênese da psoríase. Neste artigo é discutida a interação entre a imunidade inata (especialmente células dendríticas e queratinócitos) e adquirida (linfócitos T) na patogênese da psoríase.

Palavras-chave: Alergia e imunologia; Citocinas; Linfócitos T; Psoríase; Psoríase/etiologia


 

 

IMUNOPATOGÊNESE DA PSORÍASE

A imunopatogênese da psoríase é complexa e envolve alterações do sistema imunológico inato (queratinócitos, células dendríticas - CD, macrófagos, neutrófilos, mastócitos, células endoteliais) e adquirido (linfócitos T).1 As células do sistema imune inato (SII) ativadas produzem fatores de crescimento, citocinas e quimiocinas, que atuam sobre as células do sistema imune adquirido (SIA) e vice-versa.1-5

Inicialmente, ocorre ativação das células do SII (CD e queratinócitos). Vários fatores ambientais como o trauma mecânico, infecções, medicamentos e estresse emocional são considerados desencadeantes da doença. O trauma mecânico, por exemplo, pode ativar os queratinócitos, visto que passam a liberar citocinas (IL-1 e o TNF-α) e proteínas de choque térmico. Estas substâncias ativam as CD (célula de Langerhans -CL - e CD residentes) na epiderme e derme. A ligação de antígenos de agentes infecciosos aos receptores toll like, nas CD e queratinócitos, também pode levar à ativação dessas células. As CD e os queratinócitos ativados produzem inúmeras quimiocinas, citocinas e fatores de crescimento.1-5

Uma vez ativada, a CD processa um antígeno (ambiental ou endógeno, ainda não definido), e migra para o lifonodo regional onde o apresenta aos linfócitos T (LT). Para que a ativação do LT ocorra, é necessária a ligação do antígeno (acoplado à molécula do complexo de histocompatibilidade principal na membrana da CD) ao receptor de membrana do LT, além da ligação de proteínas da membrana plasmática da CD (ICAM-1; LFA-3; CD80/CD86) à proteínas da membrana do LT (respectivamente LFA-1; CD2; CD28).3 Portanto, para a ativação linfocitária ocorrer deve ser estabelecida uma "sinapse imunológica" entre proteínas da membrana da célula apresentadora de antígeno (APC) e do LT.

Os LT ativados dos doentes com psoríase diferenciam-se, preferencialmente em LTCD4+ tipo1 (LTh1; produtores de INF-γ, TNF-αe IL-2) e tipo 17 (LTh17; produtores de IL-17, TNF-α, IL-6; IL-22) e LTCD8+ tipo 1 (LTc1; produtores de TNF-α, INF-γ, perforinas e granzima B).1-5

Os LT ativados migram para a pele através da ligação de moléculas de adesão expressas na sua membrana plasmática (CLA e LFA-1) às moléculas de adesão presentes na membrana da célula endotelial cutânea ativada (E-selectina e ICAM-1). Os LTc1 concentram-se na epiderme e os LTh na derme.1,3

Na derme os LTh se encontram e interagem com as CD e macrófagos, formando novas "sinapses imunológicas". A interação entre essas células leva a produção de inúmeras citocinas, que mantêm e amplificam o processo inflamatório.1,3

As CD e os macrófagos ativados produzem IL12 e IL-23.4 A IL-12 favorece a proliferação dos LTh1 e a IL-23 dos LTh17.4,5 A proliferação dos Th17 e Th1, na psoríase, é também atribuída à diminuição de LT reguladores (responsáveis pela supressão da ativação desses linfócitos).1,5,6

Na psoríase as CD dérmicas mais abundantes são do tipo mielóide (CD11c+).1,5 Estas células funcionam como APC para os LT e também como células inflamatórias (CDi), grandes produtoras de IL-20, sintetase indutora da produção de óxido nítrico (iNOS), bem como de IL-23 e TNF-α. 1,5 A IL-20 estimula a proliferação dos queratinócitos e o óxido nítrico a vasodilatação. A IL-23 favorece a proliferação dos LTh17 e conseqüente produção de IL22 e IL6 (que estimulam a proliferação dos queratinócitos), além de IL-17 e TNF-α. A IL-17 estimula o queratinócito a produzir defensivas (proteínas que impedem a infecção das lesões) e IL-8. O TNF-αestimula no queratinócito a produção de IL-8 e IP-10 (proteínas quimiotáticas para neutrófilos e LT respectivamente), de IL-1 e do próprio TNF-α, além de fatores de crescimentos que favorecem a angiogênese. Assim, as citocinas Th17 estimulam os queratinócitos a proliferar e a produzir inúmeras proteínas inflamatórias (Figura 1). 1,5,7,8

 

 

A proliferação dos LTh1, induzida pela IL-12, leva a produção de TNF-αe INF-γ. O INF-γtambém estimula a produção de IL-12, IL-8, IP-10, IL-23, defensinas e iNOS pelos queratinócitos e CD. 7-8

Interferons, TNFs e IL-20 são ativadores de fatores de transcrição (STAT-1, STAT-3 e fator nuclear κB) os quais, por sua vez, na psoríase, controlam vários grupos de genes que codificam diversos mediadores inflamatórios. 1,5,9

Estudos recentes em doentes tratados com etanercepte revelam que o TNF modula a ativação e maturação das CD na psoríase.7,8 O bloqueio do TNF por este agente terapêutico diminui a ativação e maturação das CD e, consequentemente, isto inibe a ativação dos linfócitos e a produção de citocinas, quimiocinas e fatores de crescimento pelos LT, CD e queratinócitos. 7,8

Vale ressaltar que a IL-6, o TNF-αe a IL-17 são citocinas envolvidas na patogenia da aterosclerose, o que justifica a maior incidência de doenças cardiovasculares e da síndrome metabólica nos doentes com psoríase. 2,10

Concluindo, o conhecimento das principais interações entre o SII e o SIA é essencial para a melhor compreensão da imunopatogênese da psoríase, bem como dos mecanismos de ação dos medicamentos imunossupressores e biológicos empregados no seu tratamento.

 

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Endereço para correspondência:
Ana Paula Galli Sanchez
Rua do Oratório, 1606, sala 507
03116 000, São Paulo - SP
Tel./Fax: 11 3876 0028
email: apc-med@hotmail.com

Recebido em 13.03.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 14.04.2010.
Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: None
Suporte financeiro: Nenhum / Financial funding: None

 

 

* Trabalho realizado em clínica privada - São Paulo (SP), Brasil