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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000600009 

INVESTIGAÇÃO

 

UVB suscetibilidade como fator de risco para o desenvolvimento da hanseníase virchowiana*

 

 

Mecciene Mendes RodriguesI; Ricardo Arraes de Alencar XimenesII; Mecleine Mendes da S. DantasIII; Thaísa Delmondes BatistaIV; Alzírton de Lira FreireV

IMédica dermatologista do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) e da Secretaria Estadual de Saúde - Recife - PE, Brasil; supervisora da Residência em Dermatologia do IMIP; mestre em Medicina Tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); tutora da Faculdade Pernambucana de Saúde - Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (FPS/Imip) - Recife (PE), Brasil
IIDoutor; professor adjunto do Departamento de Medicina Tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - Recife - PE, Brasil
IIIMédica dermatologista; residência em Dermatologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil; médica dermatologista da Secretaria de Saúde do Estado de PE - Recife (PE), Brasil
IVMédica pediatra do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) - Recife - PE, Brasil
VMédico reumatologista; doutor em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas - Campinas (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: A radiação ultravioleta B (RUVB) é o mais importante fator ambiental capaz de modificar a função imunológica da pele humana.
OBJETIVO: estudar a associação entre o fenótipo de suscetibilidade ou resistência à radiação RUVB e as formas polares da hanseníase.
MATERIAL E MÉTODOS: foram avaliados 38 pacientes com hanseníase virchowiana (MHV) e 87 pacientes com hanseníase tuberculoide (MHT) de acordo com a classificação de Ridley e Jopling (1966). Todos os pacientes foram submetidos ao teste para determinação do fenótipo de suscetibilidade ou resistência à RUVB por meio da aplicação de um disco de dinitroclorobenzeno (DNCB) a 2% em uma área de pele previamente irradiada com duas vezes a dose eritematosa mínima (DEM). Após 21 dias, outra aplicação de um disco similar de DNCB a 0,05% na região escapular (área não exposta à RUVB) foi realizada para avaliar se houve sensibilização, com leitura após 48 horas. Os pacientes que apresentaram reação positiva ao DNCB foram considerados UVB-resistentes e o oposto foi considerado para aqueles que não apresentaram resposta (UVB-suscetíveis).
RESULTADOS: A frequência de UVB-suscetíveis foi de 63,2% (24 pacientes) no grupo MHV e 34,4% (30 pacientes) no grupo MHT (OR = 3,26; IC = 1,36-7,87; x2 = 7,73; p = 0,005).
CONCLUSÃO: Os resultados sugerem que a UVB-suscetibilidade é um fator de risco para o desenvolvimento da MHV.

Palavras-chave: Fotobiologia; Hanseníase; Hanseníase virchowiana


 

 

INTRODUÇÃO

A radiação ultravioleta B (RUVB) representa o fator ambiental mais importante que modifica a estrutura e a função da pele humana.1,2,3,4 Seu potencial efeito depressor da imunidade mediada por célula (CMI) e supressor da resposta imunológica, de determinação genética, é objeto de estudos em algumas doenças infecciosas, especialmente, naquelas cuja imunidade mediada por célula (CMI) está intimamente relacionada com a capacidade do organismo de combater os patogênicos intracelulares, a exemplo do Mycobacterium leprae, agente causador da hanseníase.5 A hanseníase é uma doença infecciosa crônica predominantemente neurocutânea, caracterizada pelo amplo espectro de apresentação clínica, com polo tuberculoide (TT), estável e de forte resistência imunológica; a forma virchowiana ou lepromatosa (LL) se caracteriza pela possibilidade de disseminação para outros tecidos devido a uma completa ausência de resistência imunológica específica.6,7,8 Em países tropicais com altos índices de prevalência da doença, provavelmente, as condições ambientais, incluindo a exposição à RUVB, podem se constituir em fator de risco para o desenvolvimento da hanseníase virchowiana em pacientes suscetíveis (UVB-S)134.5,6

 

MATERIAL E MÉTODOS

Pacientes e controles

O estudo foi feito em 38 pacientes com hanseníase virchowiana (MHV) (16 mulheres e 22 homens entre 16 e 60 anos) e 87 pacientes com hanseníase tuberculoide (MHT) (66 mulheres e 21 homens entre 16 e 60 anos), de acordo com a classificação de Ridley e Jopling (1966).6 Os pacientes foram selecionados pelos autores deste estudo por busca ativa em várias comunidades das cidades de Recife e São Lourenço da Mata, ambas situadas no nordeste do Brasil, nos anos de 2001 e 2002. Houve exclusão de pessoas já em tratamento naquele momento ou que tinham histórico de câncer de pele, herpes simples recidivante, doenças autoimunes, uso de drogas imunossupressoras, complicações devido a algumas reações de hanseníase e/ou deficiências nutricionais.

Determinação do fenótipo de suscetibilidade à radiação UVB (UVB-S) ou de resistência à radiação UVB (UVB-R)

Realizou-se a determinação do fenótipo de suscetibilidade à radiação UVB (UVB-S) ou de resistência à radiação UVB (UVB-R) em todos os pacientes mediante a aplicação de um disco embebido de dinitroclorobenzeno a 2% (DNCB) em uma área previamente irradiada (24 horas antes) com duas vezes a dose eritematosa mínima (DEM). Após 21 dias, fez-se outra aplicação de um disco semelhante embebido de DNCB a 0,05% em região escapular (área que não é exposta à radiação solar), para verificar se teria havido sensibilização, com leitura após 48 horas. As pessoas que apresentaram reação positiva ao DNCB a 0,05% foram consideradas resistentes (UVB-R); as que não desenvolveram resposta foram consideradas suscetíveis (UVB-S). A DEM foi definida como o tempo essencial para a origem de um eritema discreto, com bordas bem definidas, depois de exposição à radiação UVB através da fonte emissora Psora-Comb Dermalight (Dr. K. Honle Gmbh, Alemanha), colocada a 2,5cm da pele, em dorso, sendo expresso como energia por unidade da superfície (kJ/m2). O resultado para o DNCB a 0,05% foi considerado positivo quando houve o desenvolvimento de eritema com ou sem edema, bolhas e/ou úlceras. Os autores deste trabalho fizeram todas as padronizações.

Comissão de ética

A Comissão de Ética da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) revisou e aprovou o estudo. Somente após esclarecimento aos pacientes e coleta de suas assinaturas de termo de consentimento é que os testes foram aplicados e os dados, obtidos.

Análise estatística

Os dados foram arquivados em um programa da Microsoft Office Excel 2003. A comparação entre os casos como a frequência do UVB-S foi feita com o teste x2. Os resultados foram considerados significantes quando o valor p foi menor que 0,05. A margem de erro foi calculada pelo índice de probabilidade (odds ratio - OR).

 

RESULTADOS

Observou-se uma associação estatisticamente significante entre o fenótipo da suscetibilidade à radiação UVB e a forma virchowiana da hanseníase (p = 0,005) (Tabela 1). O risco de apresentar a forma virchowiana foi 3,26 vezes maior em pacientes UVB-S.

 

 

DISCUSSÃO

Dentro do espectro eletromagnético da luz solar, a radiação UVB (280nm-320nm) foi entendida como o principal agente ambiental que interfere com os componentes de imunidade da pele.1 Essas mudanças ocorrem, principalmente, em pessoas geneticamente suscetíveis aos efeitos da exposição ao UVB.9,10-12 A hanseníase mostra grande variação na sua apresentação clínica, sabendo-se que a eficiente resposta imunológica celular é fundamental para a luta contra a infecção pelo M. leprae.6,13-14 A resposta imunológica celular na hanseníase pode ser avaliada pela reação provocada pelo antígeno lepromina. Em portadores da forma virchowiana, essa resposta é levemente positiva ou negativa.5,6 Existem poucos relatos sobre a relação entre a exposição à radiação ultravioleta B e o curso clínico dos pacientes com hanseníase. Cestari et al. mostraram, claramente, alterações na resposta provocada pelo antígeno lepromina em áreas previamente expostas à radiação solar quando comparada à resposta em áreas não irradiadas na mesma pessoa.5 França verificou uma alta frequência do fenótipo UVB-S em portadores de formas classificadas como multibacilares das hanseníase.15 O presente estudo também encontrou uma frequência mais alta da suscetibilidade aos efeitos imunológicos da exposição à radiação UVB em grupos de pacientes com hanseníase virchowiana. Nossos resultados sugerem que a suscetibilidade ao UVB é fator de risco para o desenvolvimento da forma virchowiana da hanseníase. Como conclusão, sugerem-se medidas de prevenção de exposição à RUVB em portadores da hanseníase, evitando-se a indução de limitações na resposta imunológica que, supostamente, possam ocorrer nesses pacientes.

 

AGRADECIMENTOS

Ao doutor Valdir Bandeira da Silva, que, na ocasião, era patologista do Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC/UFPE) - Recife - PE, Brasil, pela leitura de todas as lâminas de histopatológico de todos os pacientes da amostra estudada, pelas orientações e esclarecimentos da histologia; ao professor doutor Márcio Lobo Jardim (in memoriam), então chefe do Serviço de Dermatologia do HC/UFPE; à equipe da Dermatologia e ao atual chefe do Serviço, doutor Josemir Belo, pelo acolhimento por ocasião da realização da pesquisa no referido serviço; ao professor doutor Itamar Belo dos Santos, do Centro de Estudos Dermatológicos do Recife - Recife - PE, Brasil, por seus ensinamentos na especialidade e em Hansenologia; ao professor doutor Emmanuel França, chefe do Serviço de Dermatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE) - Recife - PE, Brasil, pelo suporte técnico e orientações quanto aos procedimentos para o teste da UVB-suscetibilidade.

 

REFERÊNCIAS

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15. França ER. A UVB-suscetibilidade na hanseníase [Tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1996.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Mecciene Mendes Rodrigues
Rua Ana Camelo da Silva, 256/701 - Boa Viagem
51111 040 Recife - PE
E-mail: mecciene@gmail.com

Recebido em 20.08.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 22.10.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Pibic Capes CNPq

 

 

* Trabalho realizado no Mestrado em Medicina Tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - Recife (PE), Brasil.