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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000600032 

COMUNICAÇÃO

 

Prevalência de problemas dermatológicos durante uma clínica assistencial no interior do Brasil*

 

 

Tatiana Federige OliveiraI; Carolina MontegutiII; Paulo Eduardo Neves Ferreira VelhoIII

IEnfermeira da entidade Asas de Socorro - Belém (PA), Brasil
IIAcadêmica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) - Curitiba (PR), Brasil
IIIDocente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Campinas (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os médicos não dermatologistas muitas vezes têm dificuldade em diagnosticar/conduzir dermatoses prevalentes. O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência destas em uma clínica de assistência à saúde a uma população da Ilha de Marajó, sem médico no município há meses. Dos pacientes atendidos, 36,5% procuraram atenção por um problema dermatológico. São apresentados os diagnósticos feitos. O conhecimento em dermatologia mostrou-se fundamental para a prática clínica do médico não especialista.

Palavras-chave: Currículo; Dermatologia; Dermatopatias; Ensino


 

 

As doenças cutâneas são um importante problema de saúde pública em países em desenvolvimento.1 Existe uma escassez de estudos sobre a prevalência de dermatoses na literatura médica.2,3 Estratégias de educação médica em dermatologia para médicos não dermatologistas devem considerar essa demanda, sobretudo aquela de serviços de atenção primária à saúde, quer em unidades básicas, quer em serviços de pronto atendimento.4,5,6

Um estudo brasileiro mostrou que aproximadamente um em cada dez usuários que procuraram atenção médica em unidades básicas de saúde (UBS) o fez por uma dermatose e um em cada quatro usuários atendidos nessas UBS apresentou uma queixa ou um achado dermatológico que exigiram orientação e/ou conduta médica.7

A entidade Asas de Socorro, entre outras coisas, leva atendimento voluntário na área da saúde a regiões do Brasil onde o acesso é difícil e onde a atenção governamental não acontece, é ocasional ou insuficiente. O treinamento local de agentes de saúde e a orientação à comunidade fazem com que, no decorrer dos anos, haja uma mudança no padrão sanitário dessas localidades. Em uma viagem inicial ao município de Santa Cruz do Arari, no interior da Ilha de Marajó (PA), nos dias 01-03 de novembro de 2007, uma equipe coordenada por uma enfermeira da organização e composta por um médico especialista em dermatologia e infectologia, docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma graduanda em medicina do quarto ano, uma técnica em enfermagem e dois dentistas ofereceu atenção básica de saúde a uma população de aproximadamente 5.510 habitantes que havia seis meses não dispunha de um médico.

O objetivo deste estudo retrospectivo foi avaliar a prevalência de problemas dermatológicos como queixa principal entre os atendimentos médicos realizados e determinar os diagnósticos mais frequentes nessa amostra.

Materiais e Métodos: Foram reavaliados os diagnósticos principais e secundários feitos pela graduanda e pelo médico com quem os casos foram discutidos, durante os três dias de atendimento, e listados todos os diagnósticos dermatológicos. Foram feitas análises descritivas e comparação entre a presença ou não de dermatoses relacionadas ao sexo e à idade dos pacientes utilizando o odds ratio.

Resultados: Dos 200 atendimentos médicos, 73 (36,5%) pacientes procuraram atenção médica por um problema dermatológico.

Os diagnósticos clínicos que exigiam conhecimentos dermatológicos são apresentados na tabela 1.

 

 

Não houve significância estatística nos dados avaliados, embora os homens tenham apresentado 1,46 vez risco maior de ter problemas dermatológicos que as mulheres; e as crianças, risco 3,55 vezes maior que os idosos (Tabela 2).

São poucos os dados nacionais que avaliam a prevalência de dermatoses em serviços de pronto atendimento ou em UBS.7 Há mais trabalhos que discriminam essa demanda em serviços especializados.2,8

Muitos médicos não dermatologistas têm dificuldade em diagnosticar e conduzir dermatoses prevalentes ou se sentem inseguros para tanto.6,9

Este estudo confirmou a impressão dos autores de que a prevalência das dermatoses em clínicas assistenciais a populações que não dispõem de atenção médica regular é alta: 36,5% dos pacientes que procuraram atenção o fizeram por um problema dermatológico.

Na grande maioria dos casos, tratava-se de doenças cutâneas prevalentes que o médico não especialista deveria ter capacitação para diagnosticar e tratar. Entre os casos desses três dias de atendimento, foram diagnosticados clinicamente dois pacientes com hanseníase multibacilar e outros dois com DST (papulose bowenoide e herpes simples genital).

Apesar de infrequente, o caso de uma paciente com manifestação cutânea extensa sugestiva de mucinose e quadro clínico típico de hipotireoidismo, que se manifestaram progressivamente nos cinco anos que antecederam a sua avaliação, ressalta a importância das dermatoses no exercício da clínica médica.

Dentre os diagnósticos não dermatológicos, foram atendidas uma paciente com parto distócico por incoordenação da contratura uterina, uma criança de sete anos com malária e outra paciente com apendicite aguda.

Em relação à prevalência, 30 de 85 (28,33%) pacientes com algum diagnóstico dermatológico apresentavam problemas dermatológicos infecciosos, 19 de 85 (22,35%) apresentavam lesões eczematoides e oito de 85 (9,41%), lesões acneiformes.

Essas informações devem contribuir para a definição de condutas para o ensino da dermatologia a graduandos e residentes em medicina de família, clínica médica e pediatria.

 

REFERÊNCIAS

1. Aboobaker J, Taylor M, Coovadia H. Skin disorders in primary health care in Kwazulu-Natal, South Africa. Proceedings of the 21st World Congress of Dermatology; 2007 Sep 30-Oct 5; Buenos Aires, Argentina. Buenos Aires: International League of Dermatological Societes; 2007.         [ Links ]

2. Lopes LRS, Kundman D, Duarte I. Assessment of frequency of skin diseases at a community dermatology service. Proceedings of the 21st World Congress of Dermatology; 2007 Sep 30-Oct 5; Buenos Aires, Argentina. Buenos Aires: International League of Dermatological Societes; 2007.         [ Links ]

3. Antic M, Conen D, Itin PH. Teaching effects of dermatological consultations on nondermatologists in the field of internal medicine. A study of 1290 inpatients. Dermatology. 2004;208:32-7.         [ Links ]

4. Leiva A, Yutronic J, Espinoza M, Bello MP, Correa F, Saavedra T, Zemelman V. Paediatric skin disorders encountered at the emergency department of the Clinical Hospital University of Chile. Proceedings of the 21st World Congress of Dermatology; 2007 Sep 30-Oct 5; Buenos Aires, Argentina. Buenos Aires: International League of Dermatological Societes; 2007.         [ Links ]

5. Yutronic J, Leiva A, Espinoza M, Bello MP, Correa F, Saavedra T, Zemelman V. Adult skin disorders encountered at the emergency department of the Clinical Hospital University of Chile. Proceedings of the 21st World Congress of Dermatology; 2007 Sep 30-Oct 5; Buenos Aires, Argentina. Buenos Aires: International League of Dermatological Societes; 2007.         [ Links ]

6. Awadalla F, Rosenbaum DA, Camacho F, Fleischer AB Jr, Feldman SR. Dermatologic disease in family medicine. Fam Med. 2008;40:507-11.         [ Links ]

7. Santos Júnior A, Andrade MGG, Zeferino AB, Alegre SM, Moraes AM, Velho PENF. Prevalência de dermatoses na rede básica de saúde de Campinas, São Paulo - Brasil. An Bras Dermatol. 2007;82:419-24.         [ Links ]

8. Sociedade Brasileira de Dermatologia. Perfil nosológico das consultas dermatológicas no Brasil. An Bras Dermatol. 2006;81:549-58.         [ Links ]

9. Santos Jr. A, Andrade MGG, Zeferino AMB, Passeri SMRR, Souza EM, Velho PENF. Avaliação de habilidades médicas: conduta diante de lesões dermatológicas prevalentes. Educ Med. 2010;13:47-52.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Paulo Velho
Departamento de Clínica Médica, FCM/Unicamp - Cidade Universitária Zeferino Vaz, s/n
13.081-970, Campinas, SP, Brasil
Tel./Fax: +55 19 3289 4107
E-mail: pvelho@unicamp.br

Recebido em 22.04.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 21.09.09.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Asas de Socorro; prefeitura do município de Santa Cruz do Arari - Ilha do Marajó (PA), Brasil

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Campinas (SP), Brasil.