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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000100017 

CASO CLÍNICO

 

Angioma em tufo e síndrome dolorosa miofascial*

 

 

Roberto Souto da SilvaI; Aline Lopes BressanII; Lívia Barbosa NascimentoIII; Bernard Kawa KacIV; Luna Azulay-AbulafiaV

IMestrando em Medicina pela FCM-UERJ, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia
IIEspecialista em Clínica Médica; Graduada em Dermatologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIIMestranda em Medicina pela UFF, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia
IVPreceptor do curso de pós-graduação do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
VPhD em Dermatologia, Professora Adjunta em Dermatologia da UERJ, Preceptora dos cursos de pós-graduação em Dermatologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ). Prof. da Universidade Gama Filho (UGF) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O Angioma em tufo é considerado um raro tumor vascular cutâneo adquirido. Caracteriza-se por máculas purpúrico-violáceas, dolorosas que podem evoluir para placas com pápulas angiomatosas. Tem natureza benigna, mas o envolvimento extenso é comum, gerando alteração funcional do membro afetado em caso de dor. Os autores relatam um caso de angioma em tufo associado à síndrome dolorosa miofascial, em que o elemento predisponente foi a presença deste tumor desde a infância. A dor local prejudicou a utilização da musculatura e possibilitou o surgimento da síndrome relatada. A realização de bloqueio anestésico de pontos-gatilhos no membro afetado, levou à melhora total dos sintomas.

Palavras-chave: Anestesia local; Hemangioma; Síndrome da dor miofascial


 

 

INTRODUÇÃO

O Angioma em tufo (AT) foi descrito, em 1949, por Nakagawa. Considerado um tumor vascular cutâneo adquirido raro, geralmente, ocorre antes dos cinco anos de idade.1 Entretanto casos congênitos,1,2 durante a adolescência, gravidez e em adultos foram descritos. Ocorre comumente no pescoço, parte superior do tórax e ombros, mas pode acometer parte proximal dos membros, face e couro cabeludo. Clinicamente apresenta máculas purpúrico-violáceas que podem evoluir para placas com pápulas angiomatosas sobrepostas. O AT, na maioria dos casos é doloroso, endurecido, não compressível; apresenta crescimento lento, e pode apresentar hipertricose e hiperidrose sobrejacente.3 Embora, de natureza benigna, o envolvimento extenso é comum, gerando aparência desfigurante e comprometimento funcional no caso de haver dor. A evolução natural é de um crescimento lento e progressivo com estabilização na maioria dos casos, podendo inclusive ocorrer involução espontânea.4,5 Histopatologicamente apresenta vasos na derme superficial e profunda com padrão em bola de canhão (Figura 1).6 Diversos tratamentos já foram tentados, nenhum sendo considerado de primeira linha. Entre eles: a excisão cirúrgica, corticosteroide tópico e oral, interferon-alfa, pulseddye laser.

 

 

RELATO DO CASO

Jovem do sexo feminino, 20 anos com lesão eritemato-violácea no braço esquerdo (Figura 2), desde um ano de idade,7 com crescimento lento até os dez anos de idade (Figura 3). Apresenta como sintoma principal dor espontânea e à palpação, com piora nos últimos cinco anos, associado à disestesia no braço esquerdo. Acompanhou em outro serviço onde realizou biópsia (laudo histopatológico de AT). Foi tratada com clobetasol tópico e amitriptilina oral, porém sem melhora. Procurou o nosso ambulatório sendo prescrito capsaicina 0,025% tópica com melhora inicial. Apesar da resposta favorável, ocorreu recidiva da sin-tomatologia, sendo solicitado parecer para a Clínica da Dor. Nesse momento, foi feito diagnóstico de síndrome dolorosa miofascial (SDM), com inicio de amitriptilina, gabapentina e realização de bloqueio anestésico de pontos-gatilhos na região dorsal superior ipsilateral ao membro afetado. Após duas infiltrações houve desaparecimento da dor local. Antes da realização da terceira infiltração a paciente engravidou o que apesar de não contra-indicar a infiltração, impossibilitou tratamentos sistêmicos para o angioma.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A idade de aparecimento da lesão vascular na nossa paciente e a sua localização é compatível com os dados na literatura.2,3 Com o passar dos anos a lesão foi aumentando de tamanho, porém na puberdade houve estabilização. Entretanto ocorreu intensificação da dor chegando a dificultar o movimento do membro acometido,8 que já apresentava uma leve hipotrofia. A terapêutica escolhida foi o uso tópico de capsaicina 0,025%. Apesar de uma melhora inicial, houve recidiva da dor, sendo encaminhada para a Clinica da Dor, que concluiu o diagnóstico de SDM.9 Esta caracterizase pela presença de dor regional, ou seja, acometendo apenas um membro ou uma parte do corpo sendo associada à presença de pontos-gatilho.10 O principal fator causador é o mau uso da musculatura, devido à falta de atividade física, traumas e compressões. Em nossa paciente, o elemento predisponente foi o AT desde a infância, que devido à dor local prejudicou a utilização da musculatura. A parte mais importante no processo diagnóstico é o exame físico, no qual o médico deve realizar a palpação cuidadosa da região dolorosa identificando os pontos-gatilho.9,10 No tratamento, algumas etapas básicas devem ser seguidas: administração de medicamentos, terapia local e correção de fatores perpetuantes.11 Em nossa paciente o difícil manejo do AT através de procedimentos ablativos,12 além do impedimento do uso de interferon pela gravidez, impossibilitou a exclusão do fator perpetuante.2,8 A estabilidade da lesão e o não acometimento de estruturas nobres permitem uma conduta expectante. Os medicamentos indicados incluem desde analgésicos até antidepressivos tricíclicos, conforme a gravidade.11 As intervenções localizadas são mais eficientes para a desativação dos pontos-gatilho. Estas melhoram a função muscular, por meio de exercícios ou procedimentos diretamente sobre os pontos-gatilho, como infiltração de lidocaína. Em nossa paciente foi iniciado tratamento com antidepressivos triciclicos e realizado bloqueio anestésico, com melhora acentuada da dor e do movimento do membro afetado após duas aplicações. Em determinadas situações a exclusão do fator precipitante não é possível, sendo o alívio da dor a única forma de controle.9

No caso apresentado constatou-se a rara coexistência das duas condições: AT e SDM. O difícil diagnóstico dessa síndrome nos remete à grande importância da interconsulta com outra especialidade. Por ser o AT uma condição crônica em geral dolorosa, na maioria das vezes de início na infância, apesar da sua estabilização logo após a puberdade, ele possibilita o desenvolvimento de tal síndrome. O não acometimento de estruturas nobres e a dificuldade de tratamento definitivo permitem considerar a analgesia oral e localizada como uma excelente possibilidade terapêutica, como o realizado na nossa paciente, até o momento do início da gestação.

 

REFERÊNCIAS

1. Heagerty AH, Rubin A, Robinson TW. Familial tufted angioma. Clin Exp Dermatol. 1992;17:344-5.         [ Links ]

2. Wong S-N, Tay YK. Tufted angioma: a report of five cases. Pediatr Dermatol. 2002;19:388-93.         [ Links ]

3. Herron MD, Coffin CM, Vanderhooft SL. Tufted angiomas: variability of the clinical morphology. Pediatr Dermatol. 2002;19:394-401.         [ Links ]

4. McKenna KE, McCusker G. Spontaneous regression of a tufted angioma. Clin Exp Dermatol. 2000;25:656-658.         [ Links ]

5. Jang KA, Choi JH, Sung KJ, Moon KC, Koh JK. Congenital linear tufted angioma with spontaneous regression. Br J Dermatol. 1998;138:912-4.         [ Links ]

6. Lam WY, Mac-Moune Lai F, Look CN, Choi PC, Allen PW. Tufted angioma with complete regression. J Cutan Pathol. 1994;21:461-6.         [ Links ]

7. Satter EK, Graham BS, Gibbs NF. Congenital tufted angioma. Pediatr Dermatol. 2002;19:445-7.         [ Links ]

8. Bernstein EF, Kantor G, Howe N, Savit RM, Koblenzer PJ, Uitto J. Tufted angioma of the thigh. J Am Acad Dermatol. 1994;31:307-11.         [ Links ]

9. Yeng LT, Kazyiama H. Síndrome dolorosa miofascial. Rev Med. 2001;80:94-110.         [ Links ]

10. Sande LP, Parizzoto N, Castro CES. Síndrome dolorosa miofascial - Artigo de Revisão. Rev Bras Fisioter. 1999;4:1-9.         [ Links ]

11. Simons DG. Understanding e effective treatments of myofascial trigger points. J Bodyw Mov Ther. 2002;6:81-8.         [ Links ]

12. Cardoso AEO, Tayti T, Oliveira JP, Torezan LA, Sotto MN, Vilela MA, et al. Angioma em tufos: relato de um caso tratado com laser corante pulsado. An. Bras. Dermatol. 2006;81(5 Supl 3):S273-6.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Roberto Souto da Silva
Praia João Caetano 81 apt. 602
24210-405 Niteroi - RJ
Tel: 21 2618 3021 / 8671 5671
E-mail: rs_souto@yahoo.com.br

Recebido em 07.10.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 11.05.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.