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Anais Brasileiros de Dermatologia

versión impresa ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.1 Rio de Janeiro enero/feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000100034 

COMUNICAÇÃO

 

Pomada de tacrolimo 0,1% no tratamento de vitiligo: série de casos*

 

 

Carla TamlerI; Bruna Duque-EstradaI; Patrícia Azevedo OliveiraII; João Carlos R. AvelleiraIII

IEspecialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia; preceptora no Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIEspecialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia; pós-graduada pelo Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIIDoutor em dermatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); professor associado do curso de pós-graduação do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e da Escola Médica de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O vitiligo é dermatose de difícil tratamento e de significativo impacto psicossocial. O objetivo deste estudo foi avaliar a resposta do tacrolimo 0,1% pomada no vitiligo. Dez pacientes completaram o estudo: seis com lesões nas regiões cefálica e cervical obtiveram mais de 75% de repigmentação. Nas extremidades e no tronco, os resultados variaram de bons a excelentes em 27% dos casos. A associação com outras formas de tratamento possivelmente aumentará a eficácia da terapêutica.

Palavras-chave: Resultado de tratamento; Tacrolimo; Vitiligo


 

 

O vitiligo se caracteriza por manchas acrômicas relacionadas à perda de melanócitos da epiderme e folículo piloso. Incide em qualquer idade, em ambos os sexos e acomete até 2% da população em algumas regiões. Apresenta considerável influência na qualidade de vida dos pacientes afetados. Dentre as alternativas terapêuticas, nenhuma é plenamente satisfatória, seja pelo curso imprevisível e necessidade de tratamento prolongado, seja pela possibilidade de efeitos colaterais e dificuldade operacional de aplicação. Diante desse fato realizamos estudo aberto, não controlado, avaliando a resposta ao tacrolimo 0,1%, 2x/dia, em lesões na face, região cervical, tronco e membros. Doze pacientes de fototipos III-VI e lesões simultâneas na região cefálica e nas extremidades foram tratados por um período de 120 dias, com avaliações clínicas a cada 15 dias. No tronco e nos membros utilizamos como controle homolateral as lesões do lado direito, nas quais não se aplicou a pomada (Figura 1A). Os critérios de exclusão foram: relato de repigmentação espontânea ou tratamento nos últimos seis meses. A resposta terapêutica foi observada de acordo com avaliação do médico e do paciente. A avaliação médica foi baseada em fotografias digitais padronizadas e num escore considerado de 0% de repigmentação ao início do tratamento e classificado ao final de acordo com os níveis de repigmentação: nenhuma (0%), repigmentação regular (1-25%), moderada (26-50%), boa (51-75%) ou excelente (> 75%). Todos os pacientes assinaram o termo de consentimento e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética para Pesquisa (CEP) da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ). Dez pacientes completaram o estudo (quatro mulheres e seis homens) e dois foram excluídos por falta de adesão. Na avaliação final (16ª semana), a melhor resposta foi observada em pacientes com fototipos de IV a VI. Seis pacientes com lesões nas regiões cefálica e cervical mostraram excelente resposta: mais de 75% de repigmentação (Figuras 1B e 1C). Nas extremidades e no tronco, os resultados variaram de bons a excelentes em 27% dos casos (Tabela 1). Pela avaliação dos pacientes, o nível de repigmentação de 50% foi cosmeticamente satisfatório. Queimação de intensidade leve que regrediu espontaneamente foi o único efeito adverso, observado em dois pacientes. Dentre as terapias estabelecidas, a fototerapia (UVB-NB) e a fotoquimioterapia (Puva) têm uso limitado por razões como reações adversas,1 dificuldade de acesso às fontes de luz e tempo despendido no tratamento. Estudo recente avaliou a eficácia e a tolerabilidade do tratamento com UVB-NB, pimecrolimo e tacrolimo tópico e considerou melhores resultados com uso de pimecrolimo e tacrolimo para lesões na face e de UVB-NB para lesões na região cervical.2 Em relação aos corticosteroides tópicos, estudo duplo-cego randomizado comparou o tacrolimo 0,1% ao clobetasol 0,05% pomada, com repigmentação de 49,3% relacionada ao clobetasol e de 41,3% ao tacrolimo. Apesar da melhor resposta, os efeitos colaterais associados aos corticoides, principalmente nas lesões acrofaciais, são de relevância.3 Os análogos da vitamina D3 apresentam melhores resultados quando combinados à fototerapia.4,5 Técnicas cirúrgicas e o excimer laser são limitados por variantes como atividade/extensão da doença, fenômeno de Köbner e alto custo.6 Em 2002, Grimes et al. demonstraram o papel do tacrolimo na repigmentação das lesões acrômicas.2 O tacrolimo é um macrolídeo imunossupressor derivado do fungo Streptomyces tsukubaensis que age inibindo a fosforilação dependente da calcineurina, o que leva à inibição da produção de várias citocinas inflamatórias derivadas dos linfócitos T. A hipótese do aumento da carcinogênese associado à combinação de tacrolimo e fototerapia não foi comprovada até o momento em humanos ou animais.4-6 Além disso, a ocorrência de câncer da pele em pacientes com vitiligo é incomum, o que sugere uma resistência inata ao desenvolvimento de malignidade cutânea na pele acometida pela dermatose.7 Grimes et al. demonstraram o aumento da expressão de citocinas como interferon γ (IFN-γ), fator de necrose tumoral α (TNF-α) e interleucina 10 (IL-10) em lesões de vitiligo e adjacências. A diminuição da expressão de TNF-αnas mesmas áreas após tratamento com tacrolimo (FK506) sugere que a supressão dessa molécula estaria envolvida no processo de repigmentação.8 É provável que os inibidores da calcineurina, além do bloqueio da produção de citocinas inflamatórias pelo linfócito T, promovam uma interferência na melanogênese. Em 2005, Lan et al. observaram crescimento e migração de melanócitos e melanoblastos in vitro sob a ação do tacrolimo. 9 Kang et al. confirmaram, em cultura de melanócitos, aumento da biossíntese de melanina pela maior atividade da tirosinase, além de aumento da migração dos melanócitos.10 Neste estudo, observamos a eficácia do tacrolimo tópico na repigmentação de lesões nas regiões cefálica e cervical. A possibilidade de sinergia com outras terapias possivelmente aumentará a efic&aacut e;cia dos tratamentos disponíveis para o vitiligo.

 

REFERÊNCIAS

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2. Stinco G, Piccirillo F, Forcione M, Valent F, Patrone P. An open randomized study to compare narrow band UVB, topical pimecrolimus and topical tacrolimus in the treatment of vitiligo. Eur J Dermatol. 2009;19:588-93.         [ Links ]

3. Lepe V, Moncada B, Castanedo-Cazares JP, Torres-Alvarez MB, Ortiz CA, Torres-Rubalcava AB. A double-blind randomized trial of 0.1% tacrolimus vs 0.05% clobetasol for the treatment of childhood vitiligo. Arch Dermatol. 2003;139:581-5.         [ Links ]

4. Grimes PE. Soriano T. Dytoc MT. Topical tacrolimus for repigmentation of vitiligo. J Am Acad Dermatol 2002;47:789-91.         [ Links ]

5. Castanedo-Cazares JP, Lepe V, Moncada B. Repigmentation of chronic vitiligo lesions by following tacrolimus plus ultraviolet-B-narrow-band. Photodermatol Photoimmunol Photomed. 2003;19:35-6.         [ Links ]

6. Nicolaidou E, Antoniou C, Stratigos A, Katsambas AD. Narrowband ultraviolet B phototherapy and 308-nm excimer laser in the treatment of vitiligo: a review. J Am Acad Dermatol. 2009;60:470-7.         [ Links ]

7. Schallreuter KU, Tobin DJ, Panske A. Decreased photodamage and low incidence of non-melanoma skin cancer in 136 sun-exposed caucasian patients with vitiligo. Dermatology. 2002;204:194-201.         [ Links ]

8. Grimes PE, Morris R, Avaniss-Aghajani E, Soriano T, Meraz M, Metzger A. Topical tacrolimus therapy for vitiligo: Therapeutic responses and skin Messenger RNA expression of proinflmmatory citokines. J Am Acad Dermatol. 2004;51:52-61.         [ Links ]

9. Lan CC, Chen GS, Chiou MH, Wu CS, Chang CH, Yu HS. FK506 promotes melanocyte and melanoblast growth and creates a favourable milieu for cell migration via keratinocytes: possible mechanisms of how tacrolimus ointment induces repigmentation in patients with vitiligo. Br J Dermatol. 2005;153: 498-505.         [ Links ]

10. Kang HY, Choi YM. FK506 increases pigmentation and migration of human melanocytes. Br J Dermatol. 2006;155:1037-40.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Carla Tamler
Av. Gilberto Amado, 1.020/201 Barra da Tijuca
Rio de Janeiro - RJ, Brazil
Tel./Fax: 21 9615 7667 / 21 2484 3285

Recebido em 27.10.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 18.04.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no ambulatório de fototerapia-vitiligo do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.