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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000100036 

COMUNICAÇÃO

 

Reforma ortográfica da língua portuguesa no Brasil e na dermatologia*

 

 

Hélio Amante MiotI; Paulo Müller RamosII

IProfessor assistente doutor do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp) - Botucatu (SP), Brasil
IIResidente do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp) - Botucatu (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A reforma ortográfica da língua portuguesa promoveu modificações na escrita em menos de 2% das palavras do vocabulário, porém essas alterações têm-se mostrado sensíveis no cotidiano médico. Os autores apresentam as principais mudanças das regras ortográficas e reúnem um grupo de exemplos de palavras cuja grafia foi alterada pela nova reforma, enfatizando os termos dermatológicos.

Palavras-chave: Dermatologia; Linguagem; Vocabulário


 

 

A língua é uma das manifestações culturais mais características de um povo, constituindo-se em elemento de integração nacional. Seu caráter dinâmico é inquestionável, o que promove a necessidade de reformas periódicas.1

O acordo ortográfico da língua portuguesa de 2009, ou reforma ortográfica, vigora no Brasil desde janeiro de 2009, e espera-se sua implantação definitiva até 2012. Apesar de controversa, houve a finalidade de aproximar as culturas dos oito países que empregam a língua portuguesa como idioma.2

Embora menos de 2% do léxico tenha sofrido mudanças, elas têm-se mostrado sensíveis no cotidiano da medicina e, por enquanto, geram divergências mesmo entre distintos dicionaristas.

Não há, até o momento, publicações que orientem as alterações decorrentes da reforma ortográfica na escrita médica. A dermatologia é especialidade com vocabulário vultoso, recheada de adjetivos e nomenclaturas próprias, que igualmente sofreram modificações.

A acentuação das palavras foi a alteração mais significativa.

Nas palavras homógrafas, os acentos diferenciais foram abolidos, como em: pelo, polo, pela, pera, para. Porém, nos casos em que distinguem os tempos e os números verbais, foram mantidos: pode/pôde, intervém/intervêm, tem/têm, vem/vêm, detém/detêm, convém/convêm, mantém/mantêm. Também foi mantido o acento diferencial em pôr/por.

Palavras grafadas com trema deixam de apresentá-lo. Dessa forma, unguento, arguição, frequente, subsequente, sequela, consequente, cinquenta, consanguíneo, sequência e tranquilo têm nova escrita. Os tremas decorrentes de nomes próprios e seus derivados não foram alterados, como em: Köbner, Schönlein, Schüller, Löfgren, Löwestein, Sjögren, Björnstad, Gökerman, Könen, Vörner, Münchausen, Müller e mülleriano.

Os acentos circunflexos foram excluídos das palavras terminadas no hiato oo, decorrendo disso: enjoo, voo, magoo, perdoo e povoo. Também foi suprimido o acento das palavras terminadas em eem; assim, as terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo de alguns verbos passam a ter nova grafia: creem, leem, veem e deem.

Cai o acento agudo dos verbos arguir e redarguir na segunda e terceira pessoas do singular e na terceira do plural do presente do indicativo: arguis, argui, arguem.

Desaparece o acento agudo nos grupos gue, gui, que, qui de verbos: enxague, averigue, apazigue, argui. Da mesma maneira, nos verbos terminados em guar, quar e quir quando pronunciados com o u tônico no presente do indicativo, subjuntivo e imperativo: enxaguo, enxaguas, enxagua, enxaguam; enxague, enxagues, enxaguem. Porém, se pronunciados com a e i tônicos, essas vogais levam acento.

Paroxítonas com os ditongos abertos ói e éi perdem o acento (Tabela 1). Entretanto, oxítonas terminadas nos ditongos abertos éu, éus, éi, éis, ói, óis continuam acentuadas: herói, chapéu, troféu, papéis.

 

 

Palavras paroxítonas com i e u tônicos, quando precedidos de ditongo, deixam de ser acentuadas, como: feiura, baiuca e Bocaiuva. Contudo, oxítonas terminadas em i ou u seguidos ou não de s permanecem acentuadas; por exemplo: Piauí e tuiuiú.

A hifenização nunca foi assunto de lida fácil e constitui a maior polêmica da reforma. Usa-se o hífen diante de palavras iniciadas em h com os prefixos anti, macro, mini, proto, auto, sobre, super, ultra (Tabela 2 - linha a).

Por outro lado, quando o prefixo termina em vogal diferente da que inicia a segunda palavra, o hífen não é usado (Tabela 2 - linha b). Da mesma forma, não levam hífen palavras cujo prefixo termina em vogal e a primeira letra do segundo elemento começa com consoante diferente de r e s (Tabela 2 - linha c).

Não levam hífen e duplicam as letras as palavras cujo prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa em r ou s (Tabela 2 - linha d), exceto quando os prefixos terminam com r, como em: hiper-requintado, inter-resistente e super-revista.

São hifenizadas as palavras cujo prefixo termina com a mesma vogal que começa o segundo elemento (Tabela 2 - linha e).

Não levam hífen palavras com prefixo re seguido por elemento começando com letra e (Tabela 2 - linha f). Perdem o hífen as palavras cujo prefixo é póstero, assim como não são hifenizadas palavras que seguem o prefixo co, devendo-se suprimir a letra h do segundo elemento (Tabela 2 - linha g).

Levam hífen palavras cujo prefixo sub precede palavra iniciada com r: sub-região, sub-raça; assim como as palavras iniciadas por m, n e vogal precedidas pelos prefixos circum e pan (Tabela 2 - linha h).

Ganham hífen as palavras: tique-taque, tim-tim, mega-hertz e chá-da-índia. Por outro lado, passam a ser escritas sem hífen as palavras: xiquexique e tão só.

Composições de origem tupi-guarani exigem o hífen, como Mogi-mirim e jacaré-açu, bem como palavras precedidas pelos prefixos vice, ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró (Tabela 2 - linha i).

Palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constituem unidade semântica, além de palavras ligadas à taxonomia, permanecem com hífen (Tabela 2 - linha j). São exceções as palavras que, pelo uso, perderam a noção de composição, não levando hífen: mandachuva, paravento, paraquedas, paraquedista, pontapé.

Deve-se ainda repetir o hífen no início da nova linha se, no final da anterior, a partição de uma palavra ou a combinação de palavras coincidirem com o hífen.

O alfabeto reincorporou as letras k, w e y, totalizando 26 elementos e autorizando símbolos de unidades e medidas (kg, km e W), estrangeirismos e seus derivados (bowenoide, show).

Casos de fonética ambígua, como clitóris e clítoris, mantêm as duas formas de acentuação.

Mais que simples erudição, ou para minimizar o trabalho dos revisores de periódicos e de editoras, as mudanças ortográficas são definitivas e devem ser incorporadas à prática da escrita diária, pois são pertinentes à adequada comunicação profissional para as próximas gerações.3,4

 

REFERÊNCIAS

1. Kirby S, Dowman M, Griffiths TL. Innateness and culture in the evolution of language. Proc Natl Acad Sci U S A. 2007;104:5241-5.         [ Links ]

2. Tufano D. Michaelis. Guia prático da nova ortografia. São Paulo: Melhoramentos; 2008.         [ Links ]

3. Dirckx JH. The doctor's dyslexicon: 101 pitfalls in medical language. Am J Dermatopathol. 2005;27:86-8.         [ Links ]

4. Ferguson WJ, Candib LM. Culture, language, and the doctor-patient relationship. Fam Med. 2002;34:353-61.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Hélio Amante Miot
Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina da Unesp
Campus Universitário de Rubião Jr
18618-000 Botucatu - SP, Brasil
Tel./fax: 14 3882 4922
E-mail: heliomiot@fmb.unesp.br

Recebido em 13.08.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 27.11.09.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp) - Botucatu (SP), Brasil.