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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000200029 

COMUNICAÇÃO

 

Aumento da incidência de carcinoma basocelular em hospital universitário: 1999 a 2009*

 

 

Juliano Vilaverde SchmittI; Valquíria Pessoa ChinemII; Mariângela Esther Alencar MarquesIII; Hélio Amante MiotIV

IEspecialista - médico dermatologista - Mestrando pelo departamento de patologia cirúrgica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (FMB - UNESP). Preceptor do serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba - Curitiba (PR), Brasil
IIEspecialista - médica dermatologista - Mestre pelo departamento de patologia cirúrgica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (FMB - UNESP) - Botucatu (SP), Brasil
IIIProfessora Doutora - Professora do departamento de patologia cirúrgica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (FMB - UNESP) - Botucatu (SP), Brasil
IVProfessor Doutor - Professor adjunto do departamento de dermatologia e radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (FMB - UNESP) - Botucatu (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A incidência do carcinoma basocelular vem aumentando em todos os países. Realizou-se estudo ecológico de 5169 laudos de carcinoma basocelular, da FMB-Unesp, entre janeiro/1999 e dezembro/2009. O incremento médio da incidência para o período foi de 90,6%, projetando-se um diagnóstico para cada 15 pacientes encaminhados à dermatologia. Tal tendência se manteve, mesmo quando indexada pelo número de laudos histopatológicos, movimento hospitalar, atendimentos da dermatologia e população de Botucatu.

Palavras-chave: Carcinoma basocelular; Epidemiologia; Fatores de risco; Incidência; Raios ultravioleta


 

 

O Carcinoma basocelular (CBC) é a neoplasia maligna humana mais comum, seu risco cumulativo na população branca é de mais de 30%, e a incidência vem aumentando em todos os países a uma taxa de 3 a 7% ao ano, configurando problema de saúde pública.1,2

As razões para tal progressão ainda não são esclarecidas, podendo envolver a melhor conscientização da população e treinamento médico para diagnósticos precoces; maior exposição à radiação UV e tempo disponível para o lazer (desprotegido); cultura da pele bronzeada, depleção da camada de ozônio, aumento da longevidade e proporção de idosos na população.3

A terapêutica de escolha permanece a exérese cirúrgica, favorecendo a recuperação de dados informatizados de serviços de patologia, assim como se pode correlacioná-los com indicadores demográficos e de demanda do sistema de saúde.

Realizou-se estudo ecológico envolvendo 5169 laudos de CBC, registrados no serviço de Patologia da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), São Paulo, no período de janeiro/1999 a dezembro/2009. Incidências anuais foram comparadas ao número de exames histopatológicos, movimento hospitalar, atendimentos da dermatologia e a população da cidade de Botucatu.

Dados foram tabulados em MS Excel 2007 e correlacionados por regressão linear simples. Considerou-se significativo valor de p<0,05.

Incidência de CBC na instituição mostrou franco crescimento, mesmo quando comparada com outros índices populacionais (Tabela 1 e Gráfico 1). O incremento médio estimado para o período foi superior a 90%, o que projeta uma expectativa de 650 CBC, no serviço, para o ano de 2010.

O aumento mais pronunciado ocorreu em relação a casos novos dermatológicos, que diminuíram em número absoluto, sugerindo que maior proporção de CBC vem ocupando o cotidiano da especialidade.

Considerando-se que a proporção anual de CBC primários diagnosticados no serviço seja de 65,4%, há a expectativa para 2010 de um CBC para cada 15 pacientes encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde à triagem da instituição, configurando um aumento de 73,2% em 11 anos.

No Reino Unido, a incidência de CBC aumentou de 174 para 265/100.000 hab/ano em 10 anos. Nos EUA, a taxa dobrou em 20 anos. No Brasil,

o percentual de crescimento dos cânceres de pele, como um todo, evoluiu 113% entre 2001 e 2006. Além disso, os estudos internacionais confirmam a elevação na incidência, mesmo quando ajustados por sexo e idade, sendo o aumento mais pronunciado em idosos, mulheres jovens e para as lesões no tronco.3-10

Os estudos ecológicos são naturalmente associados a vieses, objetivando, principalmente, um diagnóstico de saúde e identificando tendências.

Nesse ínterim, alguns CBC foram certamente registrados duplamente por referirem-se a pacientes que realizaram biópsia prévia à cirurgia, em outros casos, a exérese simultânea de mais que um CBC fora contabilizada como apenas um laudo. Acredita-se que haja homogeneidade da distribuição desse tipo de erro durante os anos, minimizando seu impacto na estimativa do crescimento.

O hospital sofreu greves nesse período, o que pode levar à subestimativa dos denominadores nesses momentos, já que cirurgias agendadas previamente foram pouco afetadas. Porém, o aumento da incidência de CBC foi maior que o crescimento populacional da cidade, o que corrobora com a tendência ao crescimento.

A demanda hospitalar da Unesp é, quase completamente, formada por pacientes do SUS, e representa o maior volume de cirurgias ambulatoriais da região, porém, essa avaliação não permite a estratificação do comportamento da incidência do CBC, de acordo com classe social. Apesar disso, as tendências observadas em outros estudos não identificaram diferenças nesse aspecto.3-5

Até 98% dos CBC operados na instituição, são oriundos da região de Botucatu, sendo que 45% provêm da própria cidade, apesar da instituição atender à demanda regional de quase 700.000 habitantes e mais de 40 municípios. Dada sua representatividade populacional na amostra, indexouse a ocorrência de CBC pela população de Botucatu, na tentativa de estimar a variação regional.

A análise do incremento, em tumores primários estratificados, quanto ao gênero, idade, topografia acometida e tipo histológico, pode substanciar os achados deste estudo e favorecer a identificação de subgrupos de risco.

O aumento de taxas anuais de incidência de CBC indexados por parâmetros de diferentes naturezas, somados aos dados de outros países, evidenciam a tendência ao crescimento e devem alertar o sistema de saúde para esse agravo.

Os dermatologistas devem estar atentos para o aumento expressivo de CBC, planejar as medidas sanitárias de prevenção primária na população, promover a resolutividade dos casos diagnosticados, aperfeiçoar as campanhas de detecção, incentivar a promoção de programas educacionais nas escolas e comunidades, otimizar as ações de saúde pública e saúde do trabalhador, consequentemente, diminuindo morbidade e custos ao sistema de saúde pelo reconhecimento e tratamento precoces das lesões.

 

REFERÊNCIAS

1. Roewert-Huber J, Lange-Asschenfeldt B, Stockfleth E, Kerl H. Epidemiology and aetiology of basal cell carcinoma. Br J Dermatol. 2007;157(Suppl 2):47-51.         [ Links ]

2. Kopke LFF, Schmidt SM. Carcinoma basocelular. An Bras Dermatol. 2002;77:249-85.         [ Links ]

3. Bath-Hextall F, Leonardi-Bee J, Smith C, Meal A, Hubbard R. Trends in incidence of skin basal cell carcinoma. Additional evidence from a UK primary care database study. Int J Cancer. 2007;121:2105-8.         [ Links ]

4. Hoey SE, Devereux CE, Murray L, Catney D, Gavin A, Kumar S, et al. Skin cancer trends in Northern Ireland and consequences for provision of dermatology services. Br J Dermatol. 2007;156:1301-7.         [ Links ]

5. Staples MP, Elwood M, Burton RC, Williams JL, Marks R, Giles GG. Non-melanoma skin cancer in Australia: the 2002 national survey and trends since 1985. Med J Aust. 2006;184:6-10.         [ Links ]

6. Demers AA, Nugent Z, Mihalcioiu C, Wiseman MC, Kliewer EV. Trends of nonmelanoma skin cancer from 1960 through 2000 in a Canadian population. J Am Acad Dermatol. 2005;53:320-8.         [ Links ]

7. de Vries E, Louwman M, Bastiaens M, de Gruijl F, Coebergh JW. Rapid and continuous increases in incidence rates of basal cell carcinoma in the southeast Netherlands since 1973. J Invest Dermatol. 2004;123:634-8.         [ Links ]

8. Koh D, Wang H, Lee J, Chia KS, Lee HP, Goh CL. Basal cell carcinoma, squamous cell carcinoma and melanoma of the skin: analysis of the Singapore Cancer Registry data 1968-97. Br J Dermatol. 2003;148:1161-6.         [ Links ]

9. Souza RJSP, Mattedi AP, Rezende ML, Correa MP, Duarte EM. Estimativa do custo do tratamento de câncer de pele tipo melanoma no Estado de São Paulo - Brasil. An Bras Dermatol. 2009;84:237-43.         [ Links ]

10. Brasil. Ministério da Saúde. Estimativas 2008: Incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2007. 94 p.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Juliano Vilaverde Schmitt
Rua Estados Unidos, 1454 / 1202
82510-050 Curitiba/PR
E-mail: julivs@gmail.com

Recebido em 21.01.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 22.01.10.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de dermatologia da faculdade de medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (FMB - UNESP) - Botucatu (SP), Brasil.

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