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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.3 Rio de Janeiro May/June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000300030 

COMUNICAÇÃO

 

Múltiplos carcinomas basocelulares na região pubiana em uma paciente fototipo IV - relato de caso*

 

 

Cristiani Banhos FerreiraI; Lucia Martins DinizII; João Basilio de Souza FilhoIII

IMestranda em Doenças Infecciosas pela Universidade Federal do Espírito Santo - Vitória (ES), Brasil
IIDoutora em Dermatologia pela Universidade Federal do RJ - Professora adjunta da clínica médica (dermatologia) da Universidade Federal do Espírito Santo- Vitória (ES), Brasil
IIIProfessor titular da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória - Vitória (ES), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O carcinoma basocelular é a neoplasia maligna cutânea mais comum em humanos, localizando-se, frequentemente, em áreas expostas e em indivíduos de pele clara. Relata-se o caso de uma paciente de 62 anos, faiodérmica, com múltiplas lesões de bordas discretamente elevadas, eritemato-acastanhadas na região pubiana, cujo diagnóstico clínico foi carcinoma basocelular pigmentado, confirmado através do estudo histopatológico. A imunoistoquímica das lesões foi negativa para a pesquisa de papiloma vírus.

Palavras-chave: Carcinoma Basocelular; Imunoistoquímica; Neoplasias Cutâneas


 

 

Os cânceres cutâneos não melanoma são as neoplasias mais comuns em humanos, com um crescente aumento nas últimas décadas.1 Os carcinomas basocelular e o espinocelular representam cerca de 95% destes tumores, sendo o primeiro a neoplasia epitelial mais frequente, contando com, aproximadamente, 75% dos casos. 1,2

O carcinoma basocelular (CBC) localiza-se, de preferência, em áreas expostas à radiação solar, sendo que 85% dos tumores são evidenciados na região da cabeça e do pescoço, visto que o efeito cumulativo da radiação ultravioleta, em indivíduos susceptíveis, parece ser o maior fator desencadeante.3 Mais frequentemente, acomete o sexo masculino, a partir da quarta década de vida e os pacientes com fototipos I e II de Fitzpatrick. Além da radiação ultravioleta, são observados outros fatores de risco para o CBC: a exposição crônica a agentes mutagênicos químicos e físicos, a história patológica pregressa ou familiar de CBC, os fatores genéticos e as síndromes hereditárias.1,4

Nos últimos anos, além do aumento da incidência, graças à maior conscientização da população para procurar o especialista, ao menor sinal de lesões cutâneas, assim como a adesão de clínicos mais atentos ao diagnóstico da moléstia, observam-se alterações na apresentação do CBC, como o comprometimento de áreas fotoprotegidas e a tendência maior no sexo feminino.5,6

Estima-se uma incidência de 10 a 15% de todos os CBC diagnosticados, em áreas cobertas, sendo que os fatores responsáveis por esta distribuição anatômica, ainda não estão bem elucidados.6 Os locais considerados incomuns são: mama, região periungueal, palma, planta, glúteos e áreas intertriginosas (axilas, região inguinal e genitália).6,7

Uma paciente de 62 anos, sexo feminino, faiodérmica (fototipo IV) compareceu a um serviço de dermatologia apresentando múltiplas lesões discretamente elevadas, de bordas nítidas, eritematopigmentadas, na região pubiana, de aparecimento há oito meses. Não tinha história pessoal ou familiar de câncer de pele ou imunodeficiência, nem exposição a alcatrão ou à radiação ionizante. Há trinta anos, havia realizado histerectomia total por conta de câncer de colo uterino.

Ao exame dermatológico, além das lesões na região pubiana, observava-se fotoenvelhecimento moderado, mas sem lesões neoplásicas em áreas fotoexpostas (Figura 1). O estudo histopatológico das lesões pubianas evidenciou a presença de brotamentos de células tumorais basaloides, desde a epiderme até a derme reticular, com disposição em paliçada na periferia, assim como melanócitos e melanófagos no estroma tumoral, confirmando a hipótese clínica de carcinoma basocelular pigmentado (Figura 2). A imunoistoquímica, com emprego da técnica estreptavidina-biotina-peroxidase foi negativa para a pesquisa do papiloma vírus (HPV). A paciente foi submetida à terapia fotodinâmica com aminolevulinato de metila, duas sessões (intervalo de uma semana). Não havia neoplasias após sessenta dias do tratamento.

 

 

 

 

Nas últimas décadas, fundamentalmente, o CBC tem experimentado um considerável aumento pela redução da camada de ozônio, maior exposição da população à radiação ultravioleta, aumento da expectativa de vida e o maior grau de conscientização tanto da população quanto da classe médica.7 Apesar do aspecto característico das lesões, o achado fora dos locais de eleição, pode tornar a hipótese clínica mais difícil e retardar o diagnóstico e a terapêutica.6

Nos últimos anos, observa-se aumento no número de casos de CBC no sexo feminino, justificável pela maior integração da mulher ao mercado de trabalho e em atividades antes consideradas masculinas;5 em idades mais precoces e em áreas não fotoexpostas,6,7 condições essas que merecem mais estudos para melhor compreensão da patogênese deste tumor.

Embora a radiação ultravioleta represente o fator mais importante para o aparecimento de CBC, a ocorrência em áreas fotoprotegidas sugere a possibilidade de outros agentes, como a exposição à radiação ionizante ou arsênio, imunossupressão, história pessoal prévia de câncer de pele, injúrias locais, pele clara, genodermatoses, nevos sebáceos, idade avançada e fatores mutagênicos.3, 8, 9

Neste relato de caso, chama a atenção o acometimento neoplásico, exclusivo de área não fotoexposta (região pubiana), apesar das evidências de fotoenvelhecimento nas áreas expostas, com elastose, melanoses e leucodermias solares, além da paciente ser faiodérmica. A pesquisa do vírus HPV foi solicitada nas lesões de basocelular, tentando-se elucidar o fator desencadeante das mesmas, já que paciente havia realizado histerectomia para câncer de colo de útero no passado, e esta tumoração está relacionada à ação virótica, mas no caso das lesões pubianas o exame foi negativo.

Os autores salientam a importância do exame dermatológico minucioso na descoberta de lesões neoplásicas em áreas incomuns, e a partir desta prática, diagnósticos em fases precoces da doença.

 

REFERÊNCIAS

1. Kopke LFF, Schimidt SM. Carcinoma basocelular. An Bras Dermatol. 2002;77:249-82.         [ Links ]

2. Martinez MAR, Francisco G, Cabral LS, Ruiz IRG, Festa Neto C. Genética molecular aplicada ao câncer cutâneo não melanoma. An Bras Dermatol. 2006;81:405-19.         [ Links ]

3. Giorgi V, Salvini C, Massi D, Raspollini MR, Carli P. Vulvar basal carcinoma: a retrospective study and review of literature. Gynecologic Oncology. 2005;97:192-4.         [ Links ]

4. Sampaio SAP, Rivitti EA. Dermatologia. 2 ed. São Paulo: Artes Médicas; 2001. p.839-42.         [ Links ]

5. Mantese SAO, Berbert ALCV, Gomides MDA, Rocha A. Carcinoma basocelular - Análise de 300 casos observados em Uberlândia - MG. An Bras Dermatol. 2006;81:136-42.         [ Links ]

6. Niwa ABM, Pimentel ERA. Carcinoma basocelular em localizações incomuns. An Bras Dermatol. 2006;81(Supl. 3):S281-4.         [ Links ]

7. Miranda CG, Ker RS, Porto JA, Nascimento LV. Estudo das localizações incomuns dos epiteliomas basocelulares. An Bras Dermatol. 1992;67:301-4.         [ Links ]

8. Gibson GC, Ahmed I. Perianal and genital basal cell carcinoma: a clinicopathologic review of 51 cases. J Am Acad Dermatol. 2001;41:68-71.         [ Links ]

9. Nouri K, Ballard CJ, Bouzari N, Saghari S. Basal cell carcinoma of the aréola in a man. J Drugs Dermatol. 2005;4:352-4.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Cristiani Banhos Ferreira
Rua Aleixo Netto, 1003- apto402. Praia do Canto
29055-145 Vitória - ES, Brasil
Celular: 27 9941-8499
E-mail: crisbanhos@hotmail.com

Recebido em 16.02.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 09.05.10.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Hospital Santa Casa de Misericórdia de Vitória - Vitória (ES), Brasil.