SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.86 issue3Case for diagnosisDo you know this syndrome? author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • Have no similar articlesSimilars in SciELO

Share


Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.3 Rio de Janeiro May/June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000300036 

SÍNDROME EM QUESTÃO

 

Você conhece esta síndrome?*

 

 

Isabela Guimarães Ribeiro BaetaI; Ana Carolina Figueiredo PereiraI; Antônio Carlos Martins GuedesII; Luciana Baptista PereiraIII

IMédica residente em Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC - UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil
IIDoutorado - Professor Associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil
IIIMestrado - Professora Assistente de Dermatologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Docente do Ambulatório de Genodermatoses do Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A síndrome KLICK é uma genodermatose rara, autossômica recessiva, caracterizada pela associação de queratodermia palmo-plantar difusa e transgressiva, com esclerodactilia, placas hiperqueratóticas lineares localizadas preferencialmente em flexuras e ictiose congênita. Não há alterações em fâneros ou mucosas, assim como sintomas sistêmicos associados. O tratamento consiste no uso de queratolíticos tópicos e retinóides orais.

Palavras-chave: Ceratodermia palmar e plantar; Ceratose; Ictiose


 

 

RELATO DO CASO

Paciente, do sexo masculino, branco, 19 anos, apresenta desde o nascimento descamação em toda a superfície cutânea, que evoluiu para ictiose generalizada e surgimento de pápulas e placas hiperqueratóticas, de arranjo linear localizadas simetricamente em axilas, joelhos, cotovelos, fossas antecubitais (Figura 1A) e poplíteas (Figura 1B). Na região palmoplantar, há hiperqueratose difusa e transgressiva, levando ao afilamento dos dedos e formação de bandas de constrição (pseudoainhum) (Figura 2).

 


 

 

 

O paciente não apresenta nenhum outro sintoma associado e não há alterações em pelos e unhas ou mucosas. Apresenta audição normal, assim como desenvolvimento neuropsicomotor, dentro da normalidade.

Os pais são consanguíneos (primos de primeiro grau) e não apresentam lesões cutâneas. Tem 2 irmãs, sendo uma, com quadro clínico semelhante e outra, sem lesões.

A histopatologia de biópsia de pele da região antecubital mostrou hiperqueratose ortoqueratótica, papilomatose, acantose irregular, hipergranulose com células, apresentando grânulos de queratohialina grandes, numerosos e arredondados (Figura 3).

 

 

Fez uso de acitretina, dos oito aos 18 anos de idade, com melhora importante do quadro. Com a suspensão do retinoide sistêmico, houve recrudescência do quadro cutâneo, o que possibilitou o diagnóstico da síndrome em questão. Neste período, fez tratamento com queratolíticos tópicos. Há cerca de um mês, a acitretina foi reintroduzida e o paciente já apresentou melhora importante das lesões cutâneas.

 

DISCUSSÃO

A síndrome KLICK é uma genodermatose rara, que consiste na associação de queratodermia palmoplantar transgressiva, muitas vezes esclerosante, com ictiose congênita e placas hiperqueratóticas lineares localizadas, preferencialmente, em regiões flexoras e axilas. Normalmente, não são descritas alterações em fâneros ou mucosas, assim como sintomas sistêmicos não estão associados.

Em 1989, Pujol et al. relataram quatro casos de queratodermia palmoplantar difusa, esclerosante, associada à ictiose congênita e múltiplas pápulas e placas queratóticas dispostas em arranjo linear, simetricamente distribuídas em flexuras. Os pacientes eram irmãos, membros de uma mesma família consanguínea, quando foi sugerido um padrão de herança autossômico recessivo.1 Em 1997, Vahlquist et al. descreveram um caso isolado de um paciente com quadro clínico semelhante, com destaque para as lesões de arranjo linear, predominantemente, em regiões flexoras, sem evidência de fenômeno de Koebner associado.2 Foi proposto, assim, o acrônimo KLICK (em inglês) para designar esta nova entidade -Keratosis (K) linearis (L) with ichthyosis (I) congenita (C) and sclerosing keratoderma (K). Desde então, poucos casos foram descritos na literatura e, apesar de alguns casos isolados como o descrito por Vahlquist et al., o padrão de herança autossômico recessivo é o aceito atualmente.3,4,5 O heredograma do paciente em questão sugere herança autossômica recessiva, concordando com os dados da literatura. Desde 1997, a síndrome KLICK foi incluída na base de dados OMIM (McKusichk 601952) como uma entidade distinta, autossômica recessiva.6

A histopatologia revela epiderme com acantose, hipergranulose e hiperqueratose.2,3 À microscopia eletrônica, são encontrados numerosos grânulos de queratohialina, nos queratinócitos da camada granulosa. Vahlquist et al, em 1997, sugeriu que um defeito genético afetaria a formação de grânulos de queratohialina, interferindo assim na diferenciação das células produtoras de queratina da epiderme.2 Em 2010, Dahlqvist et al. descreveram uma mutação homozigótica, com deleção na posição c.-95 do gene transcritor da proteína de maturação do proteassoma (POMP), localizado no braço longo do cromossomo 13 (13q12.3). Isto resultaria em uma distribuição alterada do proteassoma durante a formação da camada córnea. Proteassoma é uma enzima não lisossomal, com atividade proteolítica, que age tanto no citoplasma quanto no núcleo celular. A mutação nesta enzima levaria a um prejuízo, na degradação proteica, e, consequentemente, em um defeito na diferenciação das camadas superiores da epiderme.6,7

O diagnóstico diferencial deve incluir as queratodermias palmoplantares transgressivas, como: a síndrome KID, Vohwinkel, Olmsted e Meleda, assim como as ictioses congênitas generalizadas e as eritroqueratodermias. O diagnóstico diferencial mais importante se faz com a síndrome de Vohwinkel,8 pois de forma semelhante à síndrome KLICK apresenta lesões hiperqueratóticas lineares e tendência a formar bandas de constrição. As lesões estriadas nas dobras flexurais, os achados histopatológicos, de hipergranulose com grânulos de queratohialina anormais, a ausência da queratodermia em padrão de "favo de mel" e o padrão de herança autossômico recessivo ajudam a diferenciação de KLICK, com a síndrome Vohwinkel. Além disso, na síndrome KLICK não há sintomas sistêmicos associados e nem acometimento dos anexos cutâneos. Do ponto de vista citogenético, a ausência de mutações nos genes que codificam a loricrina e conexina suporta a hipótese de que a síndrome KLICK é uma desordem diferente da síndrome de Vohwinkel (hiperceratose palmoplantar mutilante), síndrome KID (Keratitis, Icthyosis, Deafness) e eritroqueratodermias.8

Já o tratamento consiste no uso de queratolíticos, assim como no uso de retinoides orais, como a acitretina, que produz melhora importante do quadro, mas com recorrência após suspensão da mesma. 2,3,5 O paciente em questão apresenta melhora importante do quadro cutâneo com doses baixas de acitretina.

 

REFERÊNCIAS

1. Pujol RM, Moreno A, Alomar A, De Moragas JM. Congenital ichthyosiform dermatosis with linear keratotic flexural papules and sclerosing palmoplantar keratoderma. Arch Dermatol. 1989;125:103-6.         [ Links ]

2. Vahlquist A, Pontén F, Pettersson A. Keratosis linearis with ichthyosis congenita and sclerosing keratoderma (KLICK-syndrome): a rare, autosomal recessive disorder of keratohyaline formation? Acta Derm Venereol. 1997;77:225-7.         [ Links ]

3. Chaves AJ, Merchán-García R, Fernández-Recio JM, Rodríguez-Nevado I, de Argila D. Keratosis linearis with ichthyosis congenita and sclerosing keratoderma (KLICK syndrome). Actas Dermosifiliogr. 2006;97:342-4.         [ Links ]

4. Van Steensel MA, Van Geel M, Steijlen MP. A new type of erythrokeratoderma. Br J Dermatol. 2005;152:155-8.         [ Links ]

5. Van Steensel MAM, Van Geel M, Steijlen MP. A new type of erythrokeratoderma, or KLICK syndrome? Br J Dermatol. 2005;153:461.         [ Links ]

6 . Pubmed.gov [internet]. Keratosis linearis with ichthyosis congenita and sclerosing keratoderma. OMIM (Online Mendelian Inheritance in Man). Johns Hopkins University; inc.;c1966-2007[updated 2010 Apr 30; cited 2010 July 13]. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/        [ Links ]

7. Dahlqvist J, Klar J, Tiwari N, Schuster J, Törmä H, Badhai J, Pujol R, et al. A single-nucleotide deletion in the POMP 5? UTR causes transcriptional switch and altered epidermal proteasome distribution in KLICK genodermatosis. Am J Hum Genet. 2010;86:596-603.         [ Links ]

8. Cavalcante LIS, Holanda EM, Almeida TLP, Aciolly-Filho JW. Ceratodermia mutilante de Vohwinkel: relato de três casos em uma família. An Bras Dermatol. 2003;78:311-8.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Luciana Baptista Pereira
Rua Domingos Vieira,300 sala 505 Santa Efigênia
30150-240 Belo Horizonte MG
e-mail: lucianabpereira@terra.com.br

Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 03.08.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Ambulatório de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil.