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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000500027 

IMAGENS EM DERMATOLOGIA

 

Metástase cutânea de sarcoma de bexiga: quando devemos considerar essa hipótese? uma revisão bibliográfica*

 

 

Márcia LopesI; Carlos Baptista BarcauiII; Airá Novello VilarIII

IMédica - Pós-graduanda do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay - Santa casa de Misericórdia do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIDoutor em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP) - Professor Associado Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay - Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIIMédica - Médica Patologista e Pós-graduanda do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay - Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

A incidência de metástases cutâneas é de, aproximadamente, 0,7 a 10%. As de origem urotelial correspondem a menos de 1%. Dos tumores do trato genitourinário, o carcinoma de células transicionais é mais comum. O sarcoma de bexiga é raro, correspondendo a 0,3%. Podem ter múltiplas apresentações clínicas, sendo o nódulo mais comum. O diagnóstico é realizado pela anamnese, quadro clínico e histopatologia. O tratamento é cirúrgico. O prognóstico é muito reservado e depende de um acompanhamento multidisciplinar.

Palavras-chave: Dermoscopia; Metástase neoplásica; Neoplasias da bexiga urinária; Sarcoma


 

 

INTRODUÇÃO

A metástase cutânea de neoplasias internas tem baixa incidência. Representa, aproximadamente, 0,7 a 10% de todas as metástases. Manifestam-se, principalmente, como nódulos subcutâneos ou lesões ulceradas.1-3 Outras formas de apresentação são: a alopecia neoplásica, o carcinoma erisipeloide, o eritema anular- like, as lesões herpetiforme ou zosteriforme, a lesão em alvo-like, a piodermite e as lesões morfeialike. A neoplasia mais comumente envolvida nas metástases é o câncer de mama em mulheres, com 69%dos casos e pulmão, em homens, correspondendo de 24 a 29%.4,5

As metástases cutâneas de origem urotelial, correspondem a menos de 1%. Na literatura, são muito infrequentes e pouco relatadas. Representam a disseminação da doença, com um prognóstico reservado. O pronto reconhecimento dessas lesões pelo dermatologista é imprescindível, valorizando a importância da história clínica atual e pregressa.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 61 anos, branco, casado, natural do Rio de Janeiro. Com a queixa principal de "furúnculo". Refere-se a surgimento de nódulos eritematosos, de crescimento rápido, na coxa direita e abdome, há 4 semanas. Relatava dor no MID, dificultando a deambulação.

Ao exame dermatológico, nódulo eritematoso, de consistência endurecida, com telangiectasias, na face anterior da coxa direita e região inferior do abdome (Figuras 1 e 2). À dermatoscopia, o nódulo apresentava áreas esbranquiçadas, sugerindo fibrose e proliferação de vasos, irregulares, em toda lesão (Figuras 3 e 4). Restante do exame físico, sem alterações.

 

 

 

 

 

 

 

 

Na história patológica pregressa, o sarcoma de bexiga há 1 ano tratado com ressecção cirúrgica e BCG local. Estava em investigação para massa tumoral pericárdica.

Nossas hipóteses diagnósticas foram: o xantoma, o histiocitoma, o melanoma amelanótico, o carcinoma cutâneo e a metástase cutânea. Procedeu-se o exame histopatológico que revelou infiltrado difuso de células atípicas epitelioides, com figuras de mitose e áreas de células gigantes. Pela imuno-histoquímica, revelou-se positividade para anticorpo antivimentina, fator XIIIA, alfa 1 antitripsina, CD68 e Ki-67. Negativo para proteína S100, actina músculo liso, desmina, CD34, citoqueratinas coquetel. Concluiu o diagnóstico de Sarcoma pleomórfico indiferenciado, mesmo tipo histológico do tumor da bexiga.

O paciente foi submetido à ressecção cirúrgica e análise histopatológica confirmando o diagnóstico de metástase cutânea por sarcoma de bexiga. O paciente faleceu em menos de 2 meses de acompanhamento.

 

DISCUSSÃO

Os tumores do trato genitourinário (TGU) representam menos de 1% de todas as metástases cutâneas. Dentre esses, o de células transicionais é o mais comum.

Os Sarcomas compõem um grupo heterogêneo de tumores malignos, derivados do mesoderma.6 Estes possuem múltiplas classificações, sendo dividido a partir de sua origem: Osteosarcoma, condrosarcoma, sarcomas de tecidos moles, dentre outros. Os sarcomas de tecidos moles, são classificados de acordo com sua característica histopatológica em: lipossarcoma, leiomiossarcoma, rabdomiossarcoma, dermatofibrosarcoma, angiosarcoma, fibrosarcoma, hemangiosarcoma, Sarcoma de Kaposi, linfosarcoma, linfohemangiosarcoma, neurofibrosarcoma, etc. Sendo o mais comum, o leimiossarcoma.

De todos os sarcomas, o do TGU corresponde a menos de 5%. O sarcoma genitourinário é raro, cerca de 1 a 2% de todos os cânceres do TGU, e o de bexiga corresponde a 0,3%.6,7 A raridade de sarcomas do TGU é o maior obstáculo para esclarecimento clínico e evolutivo do tumor. Dados na literatura são limitados.

As metástases cutâneas podem ocorrer por disseminação sanguínea, principalmente, ou linfática.8 Cerca de 20% dos pacientes apresenta acometimento desde o diagnóstico.9,10 A localização mais frequente, das de origem genitourinária, são a região inguinal e/ou umbilical, por sua anatomia. Fatores como: o tipo histológico, grau de diferenciação e acometimento de margens cirúrgicas, determinam a disseminação metastática e morbimortalidade.11

A lesão apresentada pelo paciente, por suas características pouco específicas, tem como principais diagnósticos as doenças inflamatórias ou neoplásicas, como: o furúnculo, as micoses subcutâneas ou carcinomas. Os achados dermatoscópicos, de telangiectasias irregulares nas bordas da lesão, sugerindo angiogênese e a área amorfa esbranquiçada, favorecem o diagnóstico de neoplasia. Associando à clínica, localização, história prévia de sarcoma de bexiga, ao seu achado dermatoscópico, aumenta ainda mais a suspeição, o que contribui para o diagnóstico precoce.

Na suspeita de metástase, todo rastreamento clínico deve ser preconizado, sendo a anamnese o passo inicial e mais importante. Os exames de rotina devem ser solicitados, e a análise histopatológica da lesão cutânea pode contribuir para esclarecimento da origem do tumor. No caso relatado, a presença de células atípicas e figuras de mitose aumentaram a suspeição favorecendo a solicitação de imuno-histoquímica direcionada, para a conclusão diagnóstica do caso.

As metástases são sinais iniciais de disseminação de doença neoplásica. Reduzem a taxa de sobrevida, e, nos casos de tumores do TGU, chega a menos de 3 meses após o surgimento das lesões cutâneas.2 Dessa forma, fica evidente que uma anamnese minuciosa é fundamental para o diagnóstico dessa e de outras dermatoses. Enfatizando a importância do diagnóstico precoce. Atualmente, a dificuldade no diagnóstico pelos médicos, em razão do desconhecimento das características clínicas e pela anamnese rápida e mal direcionada, faz com que esta condição seja subdiagnosticada ou, tardiamente, diagnosticada. O dermatologista tem que estar atento, frente a esta alteração, elevando a suspeita, valorizando a anamnese e direcionando a investigação para conclusão diagnóstica.

 

REFERÊNCIAS

1. Guillou L, Aurias A. Soft tissue sarcomas with complex genomic profiles. Virchows Arch. 2010;456:201-17.         [ Links ]

2. Arteaga CM, Martín SM, Olmedo CC, Garcia-Ripoll JRT, Del Busto EF. Metástasis cutánea solitaria de carcinoma vesical. Arch Esp Urol. 2007;60:1215-8.         [ Links ]

3. Gowardhan B, Mathers ME, Feggetter JGW. Twenty-three years of disease-free survival following cutaneous metastasis from a primary bladder transitional cell carcinoma. Inter J Urol. 2004;11:1031-2.         [ Links ]

4. Rolz-Cruz G, Kim CC. Tumor Invasion of the Skin. Dermatol Clin. 2008;26:89-102.         [ Links ]

5. Wollina U, Graefe T, Konrad H, Schönlebe J, Koch A, Hansel G, et al. Cutaneous metastases of internal cancer - Clinical study. Acta Dermatoven. 2004;13:79-84.         [ Links ]

6. Lewis JR JS, Ritter JH, EL-Mofty S. Alternative epithelial markers in sarcomatoid carcinomas of the head and neck, lung, and bladder-p63, MOC-31, and TTF-1. Mod Pathol. 2005;18:1471-81.         [ Links ]

7. Arrabal-Polo MA, Arias-Santiago SA, Aneiros-Fernandez J, Burkhardt-Perez P, Arrabal-Martin M, Naranjo-Sintes R. Cutaneous metastases in renal cell carcinomas: a case report. Cases J. 2009;2:7948.         [ Links ]

8. Campbell IT, Friedman H, Alchorne MMA. Metástases cutâneas de neoplasias: estudo de 27 pacientes. Ana Bras Dermatol. 1995;70:409-18.         [ Links ]

9. Dotan ZA, Tal R, Golijanin D, Snyder ME, Antonescu C, Brennan MF, et al. Adult Genitourinary Sarcoma: The 25-Year Memorial Sloan-Kettering Experience. J Urol. 2006;176:2033-8.         [ Links ]

10. Abed R, Grimer RJ, Carter SR, Tillman RM, Abudu A, Jeys L.Soft-tissue metastasis: their presentacion and origin. J Bone Joint Surg Br. 2009;91:1083-5.         [ Links ]

11. Mirza SB, Puttasidiah P, Panesar SS, French JA, Jones DR, Stock D. Sarcoma of the bladder with metastasis to the left ventricle. Can Urol Assoc J. 2008;2:143-4.         [ Links ]

 

 

Endereço para Correspondência:
Márcia Lopes
Rua Santa Luzia, 126 - Centro
CEP: 20020-020, Rio de Janeiro - RJ
E-mail: marcinha_ralopes@yahoo.com.br

Recebido em 01.10.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 18.11.10.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay - Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.