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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000500030 

QUAL O SEU DIAGNÓSTICO?

 

Caso para diagnóstico

 

 

Angela Cristina BortoncelloI; Sandra Lopes Mattos e DinatoII; José Roberto Paes de AlmeidaIII; Rafael Lirio BortoncelloIV; Ângelo SementilliV; Ney RomitiVI

IMédica especializanda em dermatologia no Serviço de Dermatologia Prof. Dr. Ney Romiti do Hospital Guilherme Álvaro, Centro Universitário Lusíada (Unilus) - Santos (SP), Brasil
IIDoutora em dermatologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); professora assistente do Centro Universitário Lusíada (Unilus) - Santos (SP), Brasil
IIIMestre em dermatologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); professor assistente do Centro Universitário Lusíada (Unilus) - São Paulo (SP), Brasil
IVAcadêmico de medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) - Curitiba (PR), Brasil
VEspecialista em patologia pela Sociedade Brasileira de Patologia; doutor em patologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
VIProfessor emérito; titular da disciplina de clínica e patologia da dermatologia do Centro Universitário Lusíada (Unilus) - Santos (SP), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Tumor glômico é neoplasia dolorosa derivada do glomo terminal, cuja função é regular a circulação sanguínea e a temperatura corpórea. Apesar da sua raridade, merece atenção especial por seus sintomas de dor paroxística, sensibilidade à pressão local e ao frio, além da sua localização típica na falange distal. Manifestação extradigital é de ocorrência eventual. Lesões únicas são mais comuns em adultos do sexo feminino, enquanto as múltiplas prevalecem em crianças e adolescentes, geralmente com história familiar positiva. O diagnóstico é clínico, auxiliado pela ultrassonografia e ressonância nuclear magnética. A confirmação é feita pelo exame histopatológico.

Palavras-chave: Diagnóstico; Resultado de tratamento; Tratamento domiciliar; Tumor glômico


 

 

RELATO DO CASO

Paciente branco, do sexo masculino, 44 anos, relatou o aparecimento de lesão dolorosa ao tato, de crescimento lento, com dificuldade progressiva à deambulação, localizada na região plantar esquerda, há 7 anos. Ao exame apresentava nódulo eritêmato-violáceo, de superfície lisa, com 1 cm de diâmetro, doloroso à palpação (Figura 1). Negou casos familiares.

 

 

Realizada ultrassonografia do pé esquerdo, que evidenciou imagem hipoecoica, contendo pequena área anecoica, irregular, circunscrita, no subcutâneo da região plantar. Ao Doppler color, sem alteração na vascularização.

Foi submetido à exérese cirúrgica da lesão, cujo exame histopatológico revelou proliferação de vasos sanguíneos na derme, circundados por células arredondadas com núcleos uniformes no estroma e envoltos por cápsula fibrosa (Figura 2). A reação para actina de músculo liso evidenciou expressão difusa e de forte intensidade (Figura 3).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O tumor glômico foi descrito inicialmente por William Wood em 1812.1 É lesão neoplásica benigna pouco usual, derivada de células musculares lisas modificadas (glômicas). Essas células revestem o canal de Sucquet-Royer nos glomera cutâneos, cuja função é regular a circulação sanguínea e a temperatura corpórea. Caracteriza-se por paroxismos de dor, a qual pode ser ou não desencadeada por traumatismos ou alteração de temperatura.2

Há duas formas de apresentação: solitária e múltipla. O tumor glômico solitário ocorre preferencialmente no adulto, na região subungueal, apresentandose como mácula ou nódulo eritêmato-violáceo, em geral inferior a 2 cm de diâmetro, doloroso à palpação ou sensível a alterações térmicas. Pode ser encontrado em setores mais profundos, como tendões, ligamentos, músculos esqueléticos, articulações, nervos e ossos.3 A localização nos pés, como neste relato, é referida em aproximadamente 3% dos casos.4

De número variável, os tumores glômicos múltiplos acometem indivíduos mais jovens, apresentando-se sob dois padrões de distribuição: 1) segmentar, com lesões em um membro, poupando face e tronco; e 2) disseminado, com lesões em todo o tegumento.3 Parsons e col. observaram história familiar positiva em 60% dos casos de tumores glômicos múltiplos, transmitida por herança autossômica dominante, com penetrância incompleta, sendo o gene responsável localizado no cromossomo 1p21-22.3,5,6 Tumores glômicos ectópicos são relatados nos pulmões, rins, ossos, traqueia e estômago.7

O diagnóstico clínico é realizado quando há a tríade de dor espontânea, sensibilidade à pressão e sensibilidade às alterações de temperatura.8 No estudo retrospectivo de tumores glômicos extradigitais, Schiefer e col. encontraram dor e sensibilidade localizada em 86% dos pacientes, porém a queixa de intolerância a alterações de temperatura ocorreu somente em 2% deles. No presente relato, a dor decorrente de alterações térmicas não foi encontrada - talvez pela menor exposição dos pés ao frio -, mas sim uma importante sensibilidade à pressão em virtude da localização plantar. A radiografia pode evidenciar lise óssea na falange acometida. A ultrassonografia descreve tumores glômicos como massas hipoecoicas bem circunscritas e os achados ao Doppler são inconstantes, como neste relato. A ressonância nuclear magnética elucida casos duvidosos, porém seu uso é limitado pelo alto custo.8,9 À histopatologia, esses tumores apresentam três componentes: células glômicas, vasculatura e células musculares lisas, sendo subdivididos em tumores sólidos (predomínio de células musculares lisas), glomangiomas (predomínio do componente vascular) e glomangiomiomas (mistos).3,10 Constituem-se de lesões circunscritas na derme, compostas por espaços vasculares organizados em delicado estroma fibroso, com células glômicas circundando a proliferação vascular.2 As células glômicas apresentam imunorreatividade para actina e vimentina.10

Neuroma, neurofibroma, cisto mucoso, fibroma, osteocondroma, melanoma amelanótico e melanoblastoma subungueal são diagnósticos diferenciais.

O tratamento consiste na excisão cirúrgica do tumor, associada ou não à cauterização do leito tumoral com bisturi elétrico bipolar. A permanência dos sintomas nos três primeiros meses é sugestiva de retirada parcial do tumor, enquanto o retorno dos sintomas após um ano indica recidiva tumoral.2,8

 

REFERÊNCIAS

1. Vanti AA, Cucé LC, Chiacchio ND. Tumor glômico subungueal: estudo epidemiológico e retrospectivo, no período de 1991 a 2003. An Bras Dermatol 2007;82:425-31.         [ Links ]

2. Souza CP, Aramaki O, Galbiatti JA, Durigan Júnior A, Mizobuchi RR, Morais Filho DC, et al. Tumor glômico Retrospectiva de nove casos: do diagnóstico ao tratamento. Rev Bras Ortop. 2000;35:214-8.         [ Links ]

3. D'Acri AM, Luz FB, Ferreira JA, Lima AAB. Tumor glômico. An Bras Dermatol. 1994;69:405-11.         [ Links ]

4. Yoshida Y, Koga M, Nakayama J. Clinicopathologic challenge. Glomus tumors. Int J Dermatol. 2007;46:669-70.         [ Links ]

5. Anakwenze OA, Parker WL, Schiefer TK, Inwards CY, Spinner RJ, Amadio PC. Clinical features of multiple glomus tumors. Dermatol Surg. 2008;34:884-90.         [ Links ]

6. Murthy PS, Rajagopal R, Kar PK, Grover S. Two cases of subungual glomus tumor. Indian J Dermatol Venereol Leprol. 2006;72:47-9.         [ Links ]

7. Schiefer TK, Parker WL, Anakwenze OA, Amadio PC, Inwards CY, Spinner RJ. Extradigital glomus tumors: A 20year experience. Mayo Clin Proc. 2006;81:1337-44.         [ Links ]

8. Song M, Ko HC, Kwon KS, Kim MB. Surgical treatment of subungual glomus tumor: a unique and simple method. Dermatol Surg. 2009;35:786-91.         [ Links ]

9. Takemura N, Fujii N, Tanaka T. Subungual glomus tumor diagnosis based on imaging. J Dermatol. 2006;33:389-93.         [ Links ]

10. Gombos Z, Zhang PJ. Glomus tumor. Arch Pathol Lab Med. 2008;132:1448-52.         [ Links ]

 

 

Endereço para Correspondência:
Angela Cristina Bortoncello
Rua Dr. Cunha Moreira, 223, ap. 504 Encruzilhada
11050-240 Santos, SP
E-mail: angelabortoncello@bol.com.br

Recebido em 07.10.2010
Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 22.11.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia Prof. Dr. Ney Romiti do Hospital Guilherme Álvaro, Centro Universitário Lusíada (Unilus) - Santos (SP), Brasil.