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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000500036 

COMUNICAÇÃO

 

Tratamento da unha encravada: comparação da taxa de cura entre a técnica de fenolização clássica e a técnica de fenolização associada à curetagem da matriz ungueal - é necessária a associação?*

 

 

Glaysson TassaraI; Mônica Alberto MachadoII; Mabely Araújo Duarte GouthierIII

IPreceptor de cirurgia dermatológica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil
IIMédica graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); especializanda do Serviço de Dermatologia do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais (HPM) - Belo Horizonte (MG), Brasil
IIIMédica graduada pela Faculdade de Medicina de Barbacena, Fundação José Bonifácio Lafayette de Andrada (Fame); especializanda do Serviço de Dermatologia do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais (HPM) - Belo Horizonte (MG), Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

No Brasil, alguns serviços associam a curetagem da matriz ungueal à fenolização, como tentativa de aumentar a eficácia do tratamento da unha encravada. O objetivo deste trabalho foi comparar a taxa de cura entre a fenolização e a fenolização associada à curetagem da matriz. Foi realizado um estudo retrospectivo e incluídos 271 cantos encravados. Recorreram 5% após a realização da fenolização, e 7,7% após a fenolização com curetagem da matriz. Não houve diferença estatística entre as duas técnicas, mostrando não ser necessária a associação com a curetagem da matriz. A fenolização mostrou-se eficiente mesmo para o grau III.

Palavras-chave: Curetagem; Doenças da unha; Fenol; Unhas; Unhas encravadas


 

 

Diversas técnicas de tratamento para onicocriptose são citadas pela literatura médica, contudo existem evidências de que a técnica de fenolização é a mais eficiente.1,2 No Brasil, a disseminação da técnica deve-se a Di Chiacchio.3 Entretanto, em alguns serviços, emprega-se a fenolização associada à curetagem da matriz ungueal, como tentativa de reduzir o índice de recorrência.

No período entre 2000 e 2006, realizou-se uma revisão dos pacientes com unha encravada (286) tratados por uma das duas técnicas: fenolização, como único tratamento, e fenolização associada à curetagem da matriz. O objetivo consistiu em comparar as taxas de cura das duas técnicas. A comparação levou em conta o universo total de pacientes tratados (graus I, II e III), bem como apenas os pacientes com o grau III.

De acordo com os fatores de inclusão, foram avaliados pacientes que apresentaram unha encravada, tratados com a técnica de fenolização. Dessa forma, foram selecionados 148 pacientes, que apresentaram 271 cantos encravados. Todas as cirurgias foram realizadas pelo mesmo cirurgião, em clínica privada.

Em um grupo de pacientes, a fenolização (garroteamento, avulsão parcial do canto afetado, aplicação de estilete embebido em fenol 88% por três vezes consecutivas, durante um minuto, neutralização e retirada do garrote) foi empregada como único tratamento, enquanto que no outro grupo, além da fenolização, foi utilizada a curetagem da matriz como método coadjuvante.4-6 Os pacientes foram reavaliados após um, 21, 90 e 180 dias e com dois anos de pós-operatório. Classificaram-se os pacientes quanto ao grau de unha encravada (graus I, II e III).7-8

A análise estatística utilizou medidas descritivas para as variáveis quantitativas e distribuições de frequências para as variáveis qualitativas. Adotaram-se tabelas de contingência para associar o estado da unha encravada (cura ou recorrência), nos pacientes da amostra total e da amostra grau III, com a variável técnica (fenolização isolada e fenolização associada à curetagem). O teste qui-quadrado foi adotado para testar a significância estatística da associação entre tais variáveis. Para avaliar o efeito da técnica (fenolização isolada e fenolização associada à curetagem) em relação à cura ou recorrência da unha encravada, utilizouse o modelo de regressão logística simples. Em todos os testes estatísticos utilizados, foi considerado um nível de significância de 5% (P < 0,05). Utilizou-se o software estatístico SPSS, em uma versão mais atualizada.

Os resultados mostraram que, da amostra de 148 pacientes, 50,68% eram do sexo feminino e 49,32%, do masculino. Em relação à faixa etária, os examinados tinham idade entre 13 e 88 anos e, em média, apresentaram uma idade de 35,59 anos, com um desvio-padrão de 16,31 anos. Quanto ao grau da unha encravada, a maioria dos casos tratados foi classificada como grau III, totalizando 117 cantos. O tempo de seguimento foi dois anos, o recomendado para avaliar a cura.5,9 Os 148 pacientes apresentaram um total de 271 cantos tratados, sendo 180 pela técnica de fenolização e 91 pela técnica de fenolização e curetagem da matriz. Apenas 16 cantos recorreram, sendo nove (5%) após fenolização isolada e sete (7,7%) após fenolização e curetagem (Tabela 1). Ao analisar essa amostra total (271 cantos), não houve diferença estatística significante entre as técnicas utilizadas quanto à cura, ou seja, as duas técnicas foram independentes entre si e mostraram-se eficientes, demonstrando que não há a necessidade da associação da curetagem.

Ao verificar apenas os casos com grau III, 116 cantos foram tratados, sendo 66 com fenol clássico e 50 com fenol e curetagem da matriz (Tabela 2). Houve 12 cantos com recorrência, sendo sete com fenol clássico (10,6%) e cinco (10%) com fenol e curetagem. Da mesma forma, ao analisar os resultados, não houve diferença estatística significante entre as técnicas. As duas foram eficientes e, portanto, não há a necessidade da associação da curetagem.

Utilizando o modelo de regressão logística simples, o p-valor do parâmetro associado ao fator técnica foi superior a 5%, podendo-se dizer que o tipo de técnica empregada não influencia na cura ou recorrência após o tratamento, considerando-se tanto a amostra total, como a amostra de pacientes com grau III. Para o intervalo de confiança de 95%, a razão de chances gira entre 0,227 e 1,754 (amostra total, graus I, II e III) e entre 0,318 e 3,585 (apenas grau III). Isso favorece, também, a utilização apenas da técnica de fenolização, sem a associação com curetagem.

Portanto, considerando-se tanto o universo total de pacientes tratados (graus I, II ou III), como apenas os pacientes com grau III, as duas técnicas mostraram-se eficientes para o tratamento da unha encravada e não influenciaram os resultados de cura. Assim, não houve benefícios ao associar a curetagem da matriz à fenolização para aumentar a taxa de cura.

Alguns trabalhos preconizam a fenolização apenas para os graus I e II.10-11 O resultado mostrado neste trabalho - de recorrência em 10% para os casos de grau III - confirma que a técnica mostrou-se eficiente, mesmo em casos avançados. É importante lembrar que esse número de recorrência encontrado (10%) foi baseado em apenas um tratamento. Apesar de não ter sido objeto deste trabalho, a grande maioria dos pacientes que apresentou recorrência sofreu um novo tratamento e obteve a cura.

Concluindo, a fenolização da matriz ungueal é eficiente para o tratamento da unha encravada - incluindo os graus avançados - e é de fácil e rápida execução técnica, promovendo um pós-operatório com pouquíssima dor e com rápido retorno às atividades diárias.4,3 A associação da curetagem da matriz não traz vantagens, além de aumentar o tempo do procedimento.

 

REFERÊNCIAS

1. Criado PR, Brandt HRC, Moure ERD, Pereira GLS, Sanches JA Jr. Reações tegumentares adversas relacionadas aos agentes antineoplásicos - Parte II. An Bras Dermatol. 2010;85:591-608.         [ Links ]

2. Rounding C, Bloomfield S. Surgical treatments for ingrowing toenails. Cochrane Database Syst Rev. 2005;18:CD001541.         [ Links ]

3. Di Chiacchio N, Belda W Jr, Di Chiacchio NG, Kezam Gabriel FV, de Farias DC. Nail matrix phenolization for treatment of ingrowing nail: technique report and recurrence rate of 267 surgeries. Dermatol Surg. 2010;36:534-37.         [ Links ]

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11. Persichetti P, Simone P, Li Vecchi G, Di Lella F, Cagli B, Marangi GF. Wedge excision of the nail fold in the treatment of ingrown toenail. Ann Plast Surg. 2004;52:617-20.         [ Links ]

 

 

Endereço para Correspondência:
Glaysson Tassara
Av. do Contorno, 9.636, salas 1.206 e 1.208 Barro Preto
30110-063 Belo Horizonte, MG, Brasil
E-mail: gtassara@terra.com.br

Recebido em 16.05.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 22.06.11.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado em clínica privada de Belo Horizonte (MG), Brasil.