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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000600018 

CASO CLÍNICO

 

Criptococcose cutânea primária em paciente imunocompetente*

 

 

Nilton NasserI; Nilton Nasser FilhoII; Andreza Guimarães VieiraIII

IDoutor em Dermatologia - Professor Titular Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) - Blumenau (SC), Brasil
IIMédico residente em dermatologia - Policlínica Geral do Rio de Janeiro (PGRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIIMédica - Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) - Blumenau (SC), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores relatam caso de Criptococcose cutânea primária, causada pelo Cryptococcus neoformans, em paciente imunocompetente, fazendeiro que desenvolveu extensivas lesões, no antebraço, após injúria provocada por galináceo, quando fazia limpeza de seu celeiro. Tratamento oral com fluconazol resultou em cura total. A literatura relata raridade de criptococcose cutânea primária em imunocompetentes e sua relativa frequência em imunodeprimidos.

Palavras-chave: Criptococcose; Cryptococcus neoformans; Fluconazol


 

 

INTRODUÇÃO

A criptococcose é uma infecção fúngica, causada por duas variedades de Cryptococcus neoformans, com 5(cinco) sorotipos, ou seja: a variedade C.neoformans var. neoformans (sorotipos A,D e AD) e C.neoformans var.Gatti (sorotipos B e C) 1,2

A criptococcose tem sido encontrada, principalmente, em pacientes com imunodeficiência, geralmente, em portadores da Síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA) e, raramente, observada em pacientes imunocompetentes. 1-5

Frequentemente, o C.neoformans variedade neoformans ocorre em pacientes imunodeprimidos e o C.neoformans variedade Gatti é mais comum nos imunocompetentes. 1-5 O tratamento mais utilizado, atualmente, para combater a criptococcose é o fluconazol, com dose diária de 600mg e duração média de 40 a 60 dias, com sucesso em todos os casos relatados na literatura.6,7,8

 

RELATO DO CASO

Paciente, 67 anos, masculino, residente em Blumenau-SC, avicultor, relata que, há 60 dias, enquanto trabalhava na limpeza de um galinheiro, quando foi arranhado por uma galinha no antebraço esquerdo. Houve o aparecimento de manchas eritematosas em volta das lesões, com "pequenas bolhas", e intensa coceira, que foram se espalhando pelo antebraço até o aparecimento de feridas abertas.

Ao exame dermatológico - Presença de lesões nodulares, com bordos altos e centro ulcerado e deprimido, cercado de múltiplas escoriações e lesões, ulceradas, na região da face anterior do antebraço direito, com exudação e supurações (Figuras 1 e 2).

 

 

 

 

Exame geral: Paciente lúcido, branco, hipertenso, pulso regular, pulmões livres a ausculta.

Exames laboratoriais - Glicose 89,0/ml; colesterol total 232; hemograma com hemoglobina 15,5, eosinófilos 2,0; plaquetas normais; sódio, 143 e potássio 5,5 mmo1/l. As imunoglobulinas aparecem dentro da normalidade: IgG (1027,0mg/dL), IgM (79,0mg/dL) e IgA (207,0mg/dl) .

Teste de HIV1 e HIV2 -Método: Quimioluminescência - CMIA (Architect i2000SR)

RESULTADO: Amostra não reagente para HIV -S/CO 0,10(Normal = < 1,0)

RX de pulmão sem alterações.

O exame micológico direto com "tinta da China" (nanquim) tornou visíveis as formas encapsuladas e, em gemulação típicas, de Cryptococcus sp. e a cultura mostrou crescimento de colônias leitosas típicas de Cryptococcus neoformans.(Figuras 3 e 4). Diante do resultado do micológico direto e cultura, não foi realizada a biópsia e o anatomopatológico.

 

 

 

 

O diagnóstico definitivo foi de Criptococcose cutânea primária em paciente imunocompetente.

O tratamento foi realizado com Fluconazol, na dose de 450 mg por dia(3 cápsulas/dia), durante 40 dias com completa cura mostrando regressão e cicatrização total das lesões (Figura 5). O acompanhamento após 60 dias mostrou paciente são com somente cicatrizes residuais.

 

 

DISCUSSÃO

Em nosso meio, a Criptococcose cutânea aparece, mais frequentemente, em pacientes com a Síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA) e apresentam múltiplas e variadas lesões simulando molluscum contagiosum, lesões acneiformes, nodulares, herpetiformes e celulites e ainda simulando queloides.8-10

No caso aqui relatado, as lesões são nodulares, eritematosas, com pequenas úlceras centradas, com exsudação. Este paciente imunocompetente mostrou uma resposta terapêutica completa ao fluconazol.

A cultura mostrou o crescimento de colônias de Cryptococcus neoformans que pode ser da variedade neoformans e ou da variedade Gatti, da qual não foi possível determinar , porém a literatura relata que em pacientes imunocompetentes, como neste caso, a incidência mais comum é do Cryptococcus neoformans variedade Gatti. 1-5,11

O paciente agricultor possui uma pequena granja, com 12 galináceos, e, semanalmente, fazia limpeza do local cercado onde estavam confinadas, quando foi arranhado por uma delas.

Existe a possibilidade de que o paciente tenha sido contaminado por fezes das galinhas, no local da arranhadura.

Não relata a presença de pombos que são os principais veiculadores do criptococcos, pois foram encontrados criptococcos nas fezes dos mesmos. 12

Werchniak apresentou um caso de um fazendeiro imunocompetente desenvolveu criptococcose cutânea após sofrer injúria, no seu membro superior, quando fazia limpeza de seu celeiro.13

Micalizzi C, Persi A, Parodi A. relatam caso de tratador de pombos o qual desenvolveu criptococcose cutânea primária após traumatismo no dedo provocado pelos mesmos, sem a presença de nenhuma outra patologia. 14

Não há registro, na literatura, de Criptococcose cutânea primária, no Estado de Santa Catarina, provavelmente, pela raridade do caso e, no Rio Grande do Sul, existe um caso relatado de Criptococcose cutânea primária em imunocompetentes, provocada pelo Criptococcus neoformans var. Gatti. 11

Agradecimentos: Agradecemos o setor de Microbiologia do Hospital Santa Isabel de Blumenau-SC.

 

REFERÊNCIAS

1. Lacaz CS, Porto E, Martins JC. Micologia médica: fungos, actinomicetos e algas de interesse médico. 8 ed. São Paulo: Sarvier; 1991.         [ Links ]

2. Diaz MR, Boekhout T, Theelen B, Fell JW. Molecular sequence analysis of the intergenic spacer (IGS) associated with DNA of the two varieties of the pathogenic yeast Cryptococcus neoformans. Syst Appl Microbiol. 2000;23:535-45.         [ Links ]

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4. Speed B, Dunt D. Clinical and host differences between infections with the two varieties of Cryptococcus neoformans. Clin Infect Dis.. 1995;21: 28-34.         [ Links ]

5. Severo LC, Mattos Oliveira F, Londero AT. Cryptococcosis due to Cryptococcus neoformans var. Gattii in Brazilian patients with AIDS. Report of three cases. Rev Iberoamer Micol. 1999;16:152-4.         [ Links ]

6. Leão CA, Ferreira-Paim K, Andrade-Silva L, Mora DJ, da Silva PR, Machado AS, et al. Primary cutaneous cryptococcosis caused by Cryptococcus Gattii in an immunocompetent host. Med Mycol. 2011;49:352-5.         [ Links ]

7. Pau M, Lallai C, Aste N, Aste N, Atzori- Primary cutaneous cryptococcosis in an immunocompetent host. Mycoses. 2010;53:256-8.         [ Links ]

8. Soon CW, Izumi AK. Primary cutaneous cryptococcosis in Hawai'i. Hawaii Med J. 2007;66:14-5.         [ Links ]

9. Manrique P, Mayo J, Alvarez JA, Ganchegui X, Zabalza I, Flores M. Polymorphous cutaneous cryptococcosis: nodular, herpes-like, and molluscum-like lesions in a patient with the acquired immunodeficiency syndrome. J Am Acad Dermatol. 1992;26:122-4.         [ Links ]

10. Ricchi E, Manfredi R, Scarani P, Costigliola P, Chiodo F. Cutaneous cryptococcosis and AIDS. J Am Acad Dermatol. 1191;25: 335-6.         [ Links ]

11. Hecker MS, Weinberg JM. Cutaneous cryptococcosis mimicking keloid. Dermatology. 2001;202:78-9.         [ Links ]

12. Severo LC, Berta-E-Zardo I, Londero AT. Cutaneous cryptococcosis due to Cryptococcus neoformans var. Gattii. Rev Iberoam Micol. 2001;18:200-1.         [ Links ]

13. Werchniak AE, Baughman RD. Primary cutaneous cryptococcosis in an elderly man. Clin Exp Dermatol. 2004;29:159-60.         [ Links ]

14. Micalizzi C, Persi A, Parodi A. Primary cutaneous cryptococcosis in an immunocompetent pigeon keeper. Clin Exp Dermatol. 1997;22:195-7.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Nilton Nasser
Rua Curt Hering, 20 3º andar
CEP 8901030 - Blumenau-SC
E-mail: ninasser.bnu@terra.com.br

Recebido em 01.04.2011.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 10.05.2011.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado em Clinica Particular e Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) - Blumenau (SC), Brasil.