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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000600027 

IMAGENS EM DERMATOLOGIA

 

Aspectos dermatoscópicos do siringocistoadenoma papilífero associado a nevo sebáceo*

 

 

Carolina Barbosa BrunoI; Fernanda Nóbrega CordeiroI; Fernando do Espírito Santo SoaresII; Gustavo Henrique Soares TakanoIII; Larissa Sena Teixeira MendesIV

IPós-graduação. Médica residente de dermatologia do Hospital Universitário de Brasília - Universidade de Brasília (HUB-UnB) - Brasília (DF), Brasil
IIPós-graduação. Médico dermatologista do Hospital Universitário de Brasília - Universidade de Brasília (HUB-UnB) - Brasília (DF), Brasil
IIIProfessor de patologia da Universidade de Brasília (UnB) - Brasília (DF), Brasil
IVPós-graduação. Médica residente de patologia do Hospital Universitário de Brasília - Universidade de Brasília (HUB-UnB) - Brasília (DF), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O siringocistoadenoma papilífero é uma neoplasia anexial benigna rara, com frequente diferenciação apócrina. Localiza-se preferencialmente no couro cabeludo e está associado ao nevo sebáceo em 40% dos casos. Apesar da variabilidade clínica, a histologia é característica. Há relatos da dermatoscopia de tumores anexiais, como poroma écrino, hidradenoma e angio-histiocitoma; porém, até o momento, não há descrição da dermatoscopia do siringocistoadenoma. Apresentamos aspectos dermatoscópicos de um caso de siringocistoadenoma associado a nevo sebáceo, visualizando-se padrão vascular polimorfo e vasos em ferradura.

Palavras-chave: Avaliação; Dermoscopia; Diagnóstico; Neoplasias de anexos e de apêndices cutâneos; Neoplasias cutâneas


 

 

INTRODUÇÃO

O siringocistoadenoma papilífero é uma neoplasia anexial benigna incomum, presente em 50% dos casos ao nascimento e, em 15 a 30%, desenvolvida durante a puberdade.1,2 Localiza-se frequentemente no couro cabeludo e na face.3,4 Origina-se de células indiferenciadas com potencial de diferenciação apócrina e écrina, sendo mais comum a presença do componente apócrino.4,5,6 Na maioria dos casos, o siringocistoadenoma papilífero está associado a outras neoplasias benignas, das quais o nevo sebáceo participa em 40% dos casos.3,6 O siringocistoadenoma papilífero e o tricoblastoma são as neoplasias que mais se desenvolvem no nevo sebáceo, porém outras também podem ser encontradas: hidradenoma nodular, siringoma, epitelioma sebáceo, siringoma condroide, triquilemoma, tricoadenoma, carcinoma sebáceo, carcinoma basocelular, cisto triquilemal e proliferações epiteliais basaloides, as quais podem confundir-se com carcinoma basocelular.5

Clinicamente o siringocistoadenoma papilífero apresenta lesões variadas e inespecíficas. O diagnóstico deve ser confirmado por exame histopatológico, ferramenta segura, uma vez que apresenta histologia característica.5 A dermatoscopia, ou microscopia de superfície, é um método para visualização de estruturas localizadas abaixo do estrato córneo.7 Sua principal indicação é o diagnóstico e acompanhamento de lesões pigmentadas da pele, com o objetivo de detectar melanoma na sua fase inicial; entretanto, a sua utilização vem estendendo-se para o estudo de lesões não melanocíticas, patologias de couro cabeludo, unhas e para a avaliação do padrão vascular de neoplasias cutâneas.7 Autores relataram o padrão dermatoscópico de neoplasias anexiais como poroma écrino, hidrocistoma e angio-histiocistoma.8,9,10 Não há na literatura, até o momento, descrição da dermatoscopia do siringocistoadenoma papilífero. Relatamos a clínica, a dermatoscopia e a histopatologia de um caso de siringocistoadenoma papilífero associado a nevo sebáceo e siringoma em uma mulher de 50 anos.

 

RELATO DE CASO

Paciente feminina, 50 anos, fototipo III, funcionária pública, hígida, apresenta lesão assintomática no couro cabeludo desde o nascimento. Há 15 anos notou modificação da lesão com episódios ocasionais de sangramento após trauma ao escovar os cabelos. Ao exame clínico, placa papulosa alopécica e amareloalaranjada na região parietal esquerda do couro cabeludo. Na periferia dessa placa, evidenciava-se lesão eritematosa, lobular e exofítica, com superfície de aspecto úmido (Figuras 1 e 2).

 

 

 

 

O exame dermatoscópico da placa papulosa amarelo-alaranjada apresentava estruturas redondas e ovais, isoladas ou agrupadas, de diversos tamanhos e coloração amarelo-esbranquiçada (Figura 3). A dermatoscopia da lesão exofítica demonstrou fundo eritematoso aparentemente dividido por estruturas lineares esbranquiçadas, que delimitavam lóbulos de diferentes tamanhos e continham estruturas vasculares de diversas formas: vasos lineares irregulares, glomerulares, e alguns vasos formando imagem semelhante a uma ferradura (Figura 4). Realizada exérese de toda a lesão.

 

 

 

 

O exame histopatológico mostrou lesão hamartomatosa, caracterizada por acantose, papilomatose e várias glândulas sebáceas maduras superficializadas, compatível com diagnóstico de nevo sebáceo (Figura 5). Além disso, em área central da epiderme, a papilomatose era mais pronunciada, associando-se a invaginações e projeções papilares, cujo revestimento era cuboidal duplo. A camada luminal estava representada por células com núcleo oval, citoplasma eosinofílico e presença de secreção por decapitação, havendo evidência de debris celulares no lúmen. A camada externa consistia de células cuboidais com citoplasma claro e escasso. No estroma tumoral, presença de infiltrado plasmocitário discreto. Essas alterações caracterizam o siringocistoadenoma papilífero (Figuras 6 e 7). Por fim, foram visualizadas estruturas tubulares compostas por duas fileiras de células claras e com debris amorfos em seu lúmen, compatíveis com siringoma. Feito o diagnóstico de nevo sebáceo, siringocistoadenoma papilífero e siringoma em uma mesma lesão.

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O uso da dermatoscopia para auxílio diagnóstico de tumores cutâneos não melanocíticos é relativamente novo se comparado à sua aplicação nas neoplasias cutâneas melanocíticas.10 Há poucos casos na literatura sobre a dermatoscopia de neoplasias anexiais, e os casos relatados referem-se à dermatoscopia de neoplasias anexiais como o poroma écrino, hidrocistoma e angio-histiocistoma.8,9,10 Entretanto, até o presente momento, não se sabe muito sobre a dermatoscopia do siringocistoadenoma papilífero e do novo sebáceo.

A dermatoscopia do nevo sebáceo mostra estruturas arredondadas com tom amarelo-esbranquiçado, agrupadas ou isoladas, que podem corresponder aos aglomerados de glândulas sebáceas maduras e superficializadas. A dermatoscopia do siringocistoadenoma chama a atenção para um padrão vascular polimorfo em um fundo rosa-leitoso. Esse padrão vascular polimorfo mostra vasos lineares, irregulares e glomerulares, sendo alguns envolvidos por um halo esbranquiçado e outros agrupados, formando o desenho de uma ferradura.

O dermatoscópio é uma ferramenta não invasiva que auxilia no diagnóstico e seguimento evolutivo de lesões dermatológicas, principalmente as melanocíticas.7 Diariamente aprendemos e definimos novos conceitos na dermatologia a partir da dermatoscopia. Não se sabe ainda o seu real valor no diagnóstico das neoplasias anexiais, que costumam ser incaracterísticas ao exame clínico; entretanto, no futuro, espera-se que possa contribuir para a identificação também desse grupo de lesões.

 

REFERÊNCIAS

1. Böni R, Xin H, Hohl D, Panizzon R, Burg G. Syringocystadenoma papilliferum. A study of potencial tumor supressor genes. Am J Dermatopathol. 2001;23:87-9.         [ Links ]

2. Karg E, Korom I, Varga E, Ban G, Turi S. Congenital Syringocystadenoma papilliferum. Pediatr Dermatol. 2008;25:132-3        [ Links ]

3. Philipone E, Chen S. Unique case: Syringocystadenoma papilliferum Associated with an eccrine nevus. Am J Dermopathol. 2009;30:806-7.         [ Links ]

4. Townsend TC, Bowen AR, Nobuhara KK. Syringocystadenoma papilliferum: an unusual cutaneous lesion in a pediatric patient. J Pediatr. 2004;145:131-3.         [ Links ]

5. Lever WF, Ahmed TSS. Tumors of the epidermal appendages. In: Elder DE, Elenitsas R, Johnson BL Jr, Murphy GF, Xu g, editors. Lever's Histopathology of the Skin. 10th. ed. Philadelphia: JB Lippincott; 2009. p. 879-80        [ Links ]

6. Barbarino S, McCormick A, Lauer SA, Milman T. Syrincocystadenoma Papilliferum of the Eyelid. Ophtal Plast Reconstru Surg. 2009;25:185-8.         [ Links ]

7. Rezze GG, Sá BCS, Neves RI. Dermatoscopia: o método de análise de padrões. An Bras Dermatol. 2006;81:261-8.         [ Links ]

8. Ferrari A, Buccini P, Silipo V, Simone P, Mariani G, Marenda S, et al. Eccrine poroma: a clinical-dermoscopic study of seven cases. Acta Derm Venereol. 2009;89:160-4.         [ Links ]

9. Sgambato A, Zalaudek I, Ferrara G, Giorgio CM, Moscarella E, Nicolino R, et al. Adnexal tumors: clinical and dermoscopic mimickers of basal cell carcinoma. Arch Dermatol. 2008;144:426        [ Links ]

10. Zalaudek I, Kreusch J, Giacomel J, Ferrara G, Catricalá C, Argenziano G. How to diagnose nonpigmented skin tumors: a review of vascular structures seen with dermoscopy : part II. Nonmelanocytic skin tumors. J Am Acad Dermatol. 2010;63:377-86.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Carolina Barbosa Bruno
SGAN 604/605, Asa Norte
70840-050 Brasília, DF
E-mail: carolina.bruno@gmail.com

Recebido em 28.11.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 24.03.11.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Hospital Universitário de Brasília - Universidade de Brasília (HUB-UnB) - Brasília (DF), Brasil.