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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000600034 

COMUNICAÇÃO

 

Melanoma cutâneo: estudo prospectivo de 42 casos*

 

 

Nurimar Conceição FernandesI; Roberto CalmonII

IDoutor; professor-associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIDoutor; médico do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho - Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF - UFRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Estudo longitudinal prospectivo de 42 casos de melanoma cutâneo revelou: 71,2% entre 50 e 79 anos; distribuição etária homogênea entre os gêneros masculino (45,1%) e feminino (54,7%); predominância de brancos (88%); localização no tronco (54,7%) (p=0,039); tipo clínico-histológico expansivo superficial (52,3% / 26,1%) (p=0,02); 16 casos (38,1%) IA e nove melanomas in situ (21,4%).

Palavras-chave: Diagnóstico; Epidemiologia; Melanoma; Neoplasias cutâneas; Patologia


 

 

São fatores de risco para o melanoma cutâneo a exposição solar, o fenótipo do paciente, a história familiar e melanoma prévio. O estádio do tumor no momento do diagnóstico é o principal fator prognóstico. Cirurgia é o tratamento-padrão inicial para doença localizada. A biópsia do linfonodo sentinela é a abordagem indicada para o estadiamento nodal. Em pacientes metastáticos, a bioterapia ou quimioterapia sistêmica pode ser tentada, enquanto a radioterapia deve ser considerada paliativa.

No período de 2004-2008, em estudo longitudinal prospectivo, 42 casos de melanoma cutâneo no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro, foram submetidos a:

a) biópsia excisional com margem de 1cm (na face ou em caso de linfonodo sentinela); o índice de Breslow definiu as margens ótimas: < 1mm (1cm) e >1mm (2cm), e a necessidade de ampliação de margens;1,2

b) biópsia incisional (punch 6mm) na face, no pavilhão auricular, nas regiões palmoplantares e subungueais;1,2

c) estadiamento clínico: palpação dos linfonodos regionais; se assimétricos, duros ou pétreos, ultrassonografia (USG) para avaliação de metástase (aspecto globoso, hipoecogenicidade; superfície bosselada com/sem alterações hilares; aumento de volume); USG com Doppler para avaliação de angioarquitetura.3,4 Em seguida, punção nodal com agulha fina para citologia do aspirado e/ou biópsia.5,6 Dissecção ganglionar terapêutica quando confirmado o comprometimento nodal;

d) hemograma, velocidade de hemossedimentação (VHS), desidrogenase lática (LDH), hepatograma, radiografia (RX) de tórax (na ausência de sinais e sintomas);

e) TC (crânio, tórax, abdominopélvica), cintilografia óssea, RX de esqueleto (nos casos com sintomas à distância);

f) abordagem cirúrgica foi realizada no setor de Cirurgia Dermatológica e Serviços de Cirurgia Plástica (ressecção de lesões), Cirurgia-Geral (punção / biópsia de linfonodo / esvaziamento ganglionar) e Ortopedia (amputações).

g) análise estatística pelo teste quiquadrado.

A rotina de seguimento deste tratamento é baseada no índice de Breslow, por tempo indeterminado, exceto para melanomas in situ, que permitem alta dos pacientes.1 O American Joint Committee on Cancer (AJCC 2002/2009) não define rotinas especiais.7,8 A técnica do linfonodo sentinela atendeu as recomendações do AJCC 2002/2009 (linfonodos regionais clinicamente negativos, Breslow 1mm e 4mm) e às do GBM (Breslow³ 0,76mm; <0,76mm associado a ulceração e/ou regressão histológica).

A distribuição etária entre os gêneros foi homogênea, predominando brancos e a faixa de 70-79 anos (38%) (p=0,79) (Tabela 1). O melanoma expansivo superficial (MES) ocorreu em 22 casos (52,3%), sendo 15 mulheres (p=0,022) (Tabela 2). A localização no tronco ocorreu em 23 casos (54,7%) (p=0,039). Histologicamente, 11 MES (26,1%), dez melanomas in situ (23,8%), sete melanomas lentigo maligno (MLM) (16,6%), três lentiginosos acrais (MLA) (7,1%), um desmoplásico (2,3%) e dez (23,8%) não foram classificados. Segundo estadiamento AJCC 2002 e 2009, houve nove (T0), 16 (IA), dois (IB), cinco (IIA), quatro (IIB), um (IIIA), um (IIIC), três (IV) e um (Tx).1,7,8 O caso de melanoma desmoplásico e neurotrópico evoluiu com duas recorrências locais.1

Os dois casos de melanoma ungueal submetidos à amputação do hálux evoluíram com doença linfonodal e metástases (pele/pulmão/fígado) no intervalo de um ano. O melanoma subungueal, variante do MLA, surge, em geral, a partir da matriz ungueal no hálux ou polegar. Para o MLA, não há forma de prevenção e seus fatores de risco são totalmente desconhecidos.9,10 É um tipo raro: em todos os casos de melanoma na população geral, as incidências relatadas ficaram entre 0,7% e 3,5%. É também o de pior prognóstico, com a sobrevida em cinco anos, variando de 16-87%.

No caso de melanoma amelanótico - variante rara e de comportamento mais agressivo - apesar do tratamento com interferon, ocorreram metástases dois anos após diagnóstico. Foi observado um caso de MES na região interescapular associado a resíduos de nevo melanocítico intradérmico. O percentual de transformação de nevo melanocítico em melanoma varia de 1-20%.1 O caso de MLA no pé e metástase para quatro linfonodos inguinais recebeu tratamento adjuvante com interferon. Após tratamento, evoluiu com manchas acrômicas na face, que involuíram com hidrocortisona 1% tópica. Ainda que a co-ocorrência de melanoma metastático e de despigmentação semelhante à provocada pelo vitiligo seja conhecida, a relação causal permanece controversa.

Em um paciente, o melanoma se desenvolveu em úlcera de estase tibial esquerda, com satelitose e metástases em trânsito. Ele foi submetido a amputação infrapatelar e esvaziamento ganglionar inguinal (sem metástase). O tecido subcutâneo de uma úlcera está exposto aos agentes ambientais (colonização bacteriana) e a estase venosa pode desencadear hiperplasia epidérmica e proliferação das cristas interpapilares. Dois pacientes com MLA foram submetidos à linfadenectomia ileoinguinal. Do exame patológico cuidadoso da base linfonodal ressecada inferem-se as seguintes determinantes do estadiamento: número de linfonodos metastáticos; se o tumor é microscópico (clinicamente oculto); se é macroscópico (clinicamente aparente por exame físico e radiológico).

O melanoma cutâneo nesta série mostrou padrão semelhante à anterior (1993-2003), delineando perfil em hospital terciário.

 

REFERÊNCIAS

1. Fernandes NC, Calmon R, Maceira JP, Cuzzi T, da Silva CSC. Melanoma cutâneo: estudo prospectivo de 65 casos. An Bras Dermatol. 2005;80:25-34.         [ Links ]

2. Lotze MT, Dallal RM, Kirkwood JM, Flickinger JC. Cutaneous melanoma. In: De Vita Jr VT, Hellman S, Rosenberg AS, editors. Cancer: principles and practice of Oncology. Philadelphia: Lippincot Williams & Wilkins; 2001. p.2012-2069.         [ Links ]

3. Frija J, Bourrier P, Zagdanski AM, De Kerviler E. Diagnosis of a malignant lymph node. J Radiol. 2005;86:113-25.         [ Links ]

4. Calvo López MJ, Vallejos Roca E, Muñoz Alcántara I, Navarro Díaz F, García Palacios MV. Ultrasonographic and power Doppler appearance of locoregional metastases from cutaneous melanoma. Radiologia. 2008;50:483-8.         [ Links ]

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6. van Rijk MC, Teertstra HJ, Peterse JL, Nieweg OE, Olmos RA, Hoefnagel CA, et al. Ultrasonography and fine-needle aspiration cytology in the preoperative evaluation of melanoma patients eligible for sentinel node biopsy. Ann Surg Oncol. 2006;13:1511-6.         [ Links ]

7. Balch CM, Buzaid AC, Soong SJ, Atkins MB, Cascinelli N, Coit DG, et al. Final version of the American Joint Committee on Cancer Staging System for cutaneous melanoma. J Clin Oncol. 2001;19:3635-48.         [ Links ]

8. Balch CM, Gershenwald JE, Soong SJ, Thompson JF, Atkins MB, Byrd DR, et al. Final version of 2009 AJCC melanoma staging and classification. J Clin Oncol. 2009; 27:6199-206.         [ Links ]

9. Lebsa-Weber A, Nunes DH, Souza Filho JJ, Carvalho-Pinto CJ. Avaliação de 496 laudos anatomopatológicos de melanoma diagnosticados no município de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. An Bras Dermatol. 2007;82:227-32.         [ Links ]

10. Maia MA de OF, Funchal CSRZ, Ferrari Jr NM, Ribeiro MCS de A. Melanoma acrolentiginoso: um desafio ao diagnóstico precoce. An Bras Dermatol. 2003;78:553-60.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Nurimar C. Fernandes
Rua Alexandre de Gusmão, 28 / 201
20520-120 Rio de Janeiro - RJ
Telefax: (21) 2568-4158
E-mail: nurimarfernandes@terra.com.br

Recebido em 07.05.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 27.12.10.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado nos Serviços de Dermatologia e Anatomia Patológica e Oncologia Clínica do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho - Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF - UFRJ) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.