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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.4 supl.1 Rio de Janeiro July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000700037 

CASO CLÍNICO

 

Psoríase eritrodérmica com regressão após profilaxia com isoniazida e terapia antidepressiva : relato de caso*

 

 

Isabella Portela RedighieriI; Tatiana de Carvalho MaiaI Millena Accetta NadalII; Tatiana Romeu Lorenzon CalimanII; Maria de Fátima Maklouf Amorim RuizIII; Valeria PetriIV

IMédico estagiário do Serviço de Dermatologia do Hospital Ipiranga (HI) - Ipiranga (SP), Brasil
IIMédico dermatologista da Unidade de Psoríase da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) - São Paulo (SP), Brasil
IIIMédico dermatologista preceptor da Unidade de Psoríase da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) - São Paulo (SP), Brasil
IVProfessor Titular do Departamento de Dermatologia da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Mulher idosa apresentou psoríase em placas do tipo grave, com tendência eritrodérmica, e foi submetida a tratamento de acordo com o algoritmo consensual (fototerapia, acitretina, ciclosporina). Resultados clínicos insuficientes, recorrência e agravamento do quadro laboratorial orientaram no sentido da introdução de terapia biológica. A avaliação preliminar revelou PPD de 30mm. A resolução completa das lesões se verificou quando realizada profilaxia antituberculose e administrado antidepressivo.

Palavras-chave: Acitretina; Antidepressivos; Ciclosporina; Isoniazida; Psoríase; Tuberculose


 

 

INTRODUÇÃO

A psoríase é doença imunológica crônica, de base genética e caráter inflamatório, que compromete a pele, os anexos cutâneos e as articulações. Atinge aproximadamente 2% da população mundial e acarreta danos psicossociais significativos.1,2 As infecções bacterianas, os medicamentos e o estresse emocional estão entre os fatores desencadeantes. Os indivíduos resistentes ao tratamento clássico de consenso podem ser orientados para o tratamento imunobiológico, capaz de promover o controle do processo.3-8 A tuberculose é infecção que contraindica o emprego de imunobiológicos e a quimioprofilaxia pode atuar eliminando o provável agente desencadeante.

 

RELATO DO CASO

Mulher de 83 anos, branca, natural de Ururai (SP), residente em São Paulo, capital, há 18 meses, apresentou lesões eritemato-descamativas disseminadas (PASI = 7,2). O exame histopatológico foi compatível com psoríase. Submetida à fototerapia (PUVA e, a seguir, UVB narrow band, duas sessões semanais por 18 meses), sem melhora significativa, foi tratada com acitretina (10mg/dia), com resolução importante do quadro, mas com alterações significativas das enzimas hepáticas. Descontinuada a medicação, prosseguiu-se com tratamento tópico emoliente e fototerapia (UVB - narrow band). Houve a piora do quadro clínico, com aumento do PASI para 14.6 (Figuras 1 e 2). Além disso, apresentou PPD de 16 mm, que impôs avaliação pneumológica, em que não foi identificada a tuberculose ativa. Normalizado o perfil laboratorial após oito meses, iniciou-se o tratamento com ciclosporina (200mg/dia), e, após cinco meses, observou-se melhora do PASI (4.8). A recidiva se deu progressivamente com a redução gradual da ciclosporina (50mg/semana), cuja dose inicial foi reintroduzida. A dermatose foi controlada durante dez meses, quando houve a alteração da função renal. Foi indicado tratamento biológico, e, ao realizar-se o screening preconizado, o teste PPD foi de 30mm. Excluída a tuberculose ativa, teve início a profilaxia com isoniazida 300mg/dia, por seis meses.1 Simultaneamente, o estado de depressão emocional da doente foi tratado com sertralina (50mg/dia). Após 90 dias de tratamento houve regressão total do quadro (Figuras 3 e 4), sem recidivas nos meses subseqüentes.

 

 

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A psoríase é doença frequente, com prevalência mundial em torno de 2 a 3% e estão implicados no desenvolvimento da doença a determinação genética, os agravos ambientais (traumatismos, hábitos de vida, medicamentos), as infecções e o estresse psíquico.9, 10,11 A terapêutica é individualizada e deve ser orientada de acordo com a forma clínica e a gravidade de cada caso. A eliminação dos prováveis fatores desencadeantes é passo essencial e preliminar na abordagem terapêutica. Diante da resistência e intolerância à terapêutica convencional da psoríase, as drogas imunobiológicas constituem recurso capaz de promover o controle da doença, a reinserção social e a melhora da qualidade de vida.12 O fator de necrose tumoral (TNF-alfa) desempenha papel central, na fisiopatologia da psoríase cutânea e artropática, e, ao mesmo tempo, é capaz de prevenir a infecção primária da tuberculose, evitar a reativação e manter o agente causal em estado de latência.13-17 Há evidências suficientes de que os inibidores do TNF-alfa estão relacionados ao aumento do número de casos de tuberculose ativa.18,19 Deve ser considerada, portanto, a possibilidade de reativação de tuberculose latente e o rigoroso rastreamento nas regiões endêmicas.19-24 Além disso, a viragem tuberculínica é observada durante o tratamento com ciclosporina, droga capaz de suprimir a imunidade e facilitar a reativação de focos latentes ou favorecer a própria infecção primária.22 No caso apresentado, o tratamento anterior com ciclosporina pode ter sido responsável por imunodepressão relativa capaz de reativar foco latente ou favorecer desenvolvimento de infecção tuberculosa primária. O controle do processo infeccioso latente pela quimioprofilaxia resultou, portanto, em melhora do quadro grave de psoríase e o controle medicamentoso do estado depressivo pode ter desempenhado papel adicional.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Isabella Portela Redighieri
Instituto da Pele (Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo)
Rua Borges Lagoa, 783 - 9º Andar Vila Clementino
04038 901 São Paulo SP
E-mail: isabellapr@hotmail.com

Recebido em 20.10.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 08.12.2011.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no: Instituto da Pele - Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) - São Paulo (SP), Brasil.