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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.4 supl.1 Rio de Janeiro July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000700041 

CASO CLÍNICO

 

Retalho de Karapandzic e retalho de Bernard-Burrow-Webster na reconstrução do lábio inferior*

 

 

Ana BrincaI; Pedro AndradeI; Ricardo VieiraII; Américo FigueiredoIII

IMédico (a) Interna de Dermatologia - Serviço de Dermatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra - Coimbra, Portugal
IIEspecialista em Dermatovenereologia - Assistente Hospitalar de Dermatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra - Coimbra, Portugal
IIIProfessor Doutor - Diretor de Serviço de Dermatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra - Coimbra, Portugal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O carcinoma de células escamosas é a neoplasia maligna mais frequente dos lábios, e em cerca de 90% dos casos, localiza-se no lábio inferior, por causa da maior exposição cumulativa à radiação ultravioleta. Os autores apresentam duas técnicas cirúrgicas para a reconstrução de grandes defeitos do lábio inferior, resultantes da excisão cirúrgica tumoral, exemplificando-as e comparando-as através de dois casos clínicos.

Palavras-chave: Carcinoma de células escamosas; Neoplasias labiais; Retalhos cirúrgicos


 

 

INTRODUÇÃO

O carcinoma de células escamosas é a neoplasia maligna mais frequente dos lábios, localizando-se no lábio inferior, em cerca de 90% dos casos, em virtude da maior exposição cumulativa à radiação ultravioleta, o principal fator etiopatogênico.1,2 Outros possíveis fatores favorecedores são os hábitos tabágicos e alcoólicos, a imunossupressão e a infecção crónica pelo vírus papiloma humano. O tratamento de primeira linha é a excisão cirúrgica, com margem livre adequada. Tendo em conta a importância funcional e estética dos lábios, a reconstrução dos defeitos resultantes constitui um desafio, estando descritos vários procedimentos reconstrutivos a selecionar, de acordo com a dimensão e localização do defeito, com as características específicas do doente (comorbilidades) e com a experiência do cirurgião. 3-5

Para pequenos tumores, a abordagem cirúrgica é a preferida, já que permite bons resultados estéticos e funcionais, assim como a análise histológica da peça operatória, permitindo assim verificar se a exérese tumoral foi completa, ao contrário do tratamento com radioterapia. Frequentemente, A técnica mais realizada é a excisão em cunha, com encerramento direto, complementada ou não com vermelhectomia. No caso de tumores de maiores dimensões que após a excisão cirúrgica originam defeitos superiores a 50% do comprimento labial, outras técnicas são utilizadas, como os retalhos de Karapandzic6-8 e de BernardBurrow-Webster9,10, os métodos utilizados pelos autores, nos casos clínicos descritos, ambos referentes a defeitos criados pela excisão de carcinomas de células escamosas do lábio inferior, demonstraram bons resultados clínicos, funcionais e estéticos, revelandose, deste modo, como boas opções terapêuticas.

 

RELATO DE CASOS

CASO 1: Um homem de 57 anos, fumante desde os 7 anos, com uma carga tabágica de cerca de 40 unidades-maço-ano (UMA), com hábitos etílicos moderados e com mau estado dentário, apresentava uma placa infiltrada, com bordos irregulares, moderadamente definidos e um pouco elevados, com superfície erosivo-crostosa, medindo 2,5 cm de maior eixo, ocupando o terço médio do vermillion labial inferior (Figura 1). A lesão tinha 6 meses de evolução. Não eram palpáveis adenopatias regionais.

O diagnóstico clínico de carcinoma de células escamosas foi confirmado através de biopsia incisional.

O doente foi submetido à excisão radical da lesão, resultando um defeito mediano o qual ocupava cerca de 50% do comprimento do lábio inferior e interessava a sua espessura total. Optou-se pela reconstrução através da técnica de Karapandzic, baseada em dois retalhos de deslizamento-rotação. A confecção destes retalhos consistiu na realização de incisões periorais bilaterais, iniciadas nos bordos inferiores do defeito cirúrgico e prolongadas pelos sulcos mentolabiais e nasolabiais (Figura 2). O músculo orbicularis oris foi libertado das estruturas neurovasculares, lateralmente às comissuras, de modo a permitir a rotação de dois retalhos miocutâneos, preservando a sensibilidade e a mobilidade labiais (Figura 3).

 

 

 

 

Os retalhos foram deslizados medialmente, suturando-se a mucosa, o orbicularis oris e a pele em três planos sucessivos, permitindo a restauração da continuidade do orbicularis oris, e, portanto, da continência do esfíncter oral.

O resultado estético e funcional foi satisfatório, já que as suturas ocuparam os sulcos naturais, a continência oral foi preservada, bem como a sensibilidade e a mobilidade labiais (Figura 4). Condicionou, no entanto, uma ligeira microstomia sem impacto funcional (Figura 4).

 

 

O doente apresenta 3 anos de seguimento, sem sinais de recidiva local ou de metastização locorregional.

CASO 2: Um homem de 43 anos, fumante (35 UMA), com hábitos alcoólicos marcados, foi referenciado à consulta por um tumor com 3 cm, ulcerado, localizado no terço médio do vermillion labial inferior, evoluindo desde há 7 meses (Figura 1). A biopsia incisional revelou tratar-se de um carcinoma de células escamosas. Não eram palpáveis adenopatias regionais.

Da excisão radical da lesão, resultou um defeito mediano que ocupava cerca de 60% do comprimento do lábio inferior e que interessava a sua espessura total. Optou-se, neste caso, por o defeito ser de maiores dimensões, pela reconstrução através da técnica de Bernard-Burrow-Webster, englobando a confecção de dois retalhos de deslizamento (Figura 5). Realizaram-se incisões de espessura total, lateralmente às comissuras, a curvar, ligeiramente para cima, cada uma com cerca de metade do comprimento do defeito cirúrgico. Duas outras incisões menores foram realizadas a partir das extremidades inferiores do defeito cirúrgico, ao nível do sulco mentolabial, curvando-se ligeiramente para baixo (Figura 5). Isto resulta em dois retalhos, grosseiramente retangulares, os quais são posteriormente suturados junto à linda média, por planos (mucosa, músculo, pele). Os triângulos de Burrow, colocados sobre os sulcos nasolabiais, foram excisados, preservando, no entanto, o plano mais profundo, mucoso, foi suturado ao bordo superior do retalho miocutâneo para reconstruir o novo vermillion. Antes de excisar os bordos lateral e medial do triângulo mucoso, identificou-se o meato do canal de Stenon, evitando-se, deste modo, a sua lesão inadvertida (Figura 5).

Observamos, neste segundo caso, uma retração do lábio inferior como complicação do procedimento cirúrgico (Figura 6).

 

 

Presentemente, contamos com 4 anos de seguimento, mantendo-se o doente livre de doença, sem recidiva local ou metástases locorregionais.

 

DISCUSSÃO

O retalho de Karapandzic6-8 e o retalho de Bernard-Burrow-Webster9-11 são duas das opções mais utilizadas para a reconstrução de grandes defeitos labiais, tendo a vantagem de serem métodos cirúrgicos de tempo único. O retalho de Karapandzic é adequado para defeitos os quais ocupem desde 1/3 a 2/3 do comprimento do lábio inferior, dado que, no caso de defeitos maiores, a microstomia resultante condiciona este procedimento. Nos defeitos labiais totais ou subtotais, ao contrário da técnica precedente, o retalho de Bernard-Burrow-Webster mantém-se como uma boa opção reconstrutiva. Enquanto o retalho de Bernard-Burrow-Webster requer habitualmente anestesia geral, o retalho de Karapandzic pode, eventualmente, ser realizado sob anestesia locorregional.

O retalho de Karapandzic tem como principal virtude a preservação da mobilidade e sensibilidade do lábio inferior, bem como da continência oral. Contudo, pode condicionar a microstomia (a qual poderá obrigar a comissuroplastia corretiva, caso tenha um impacto importante na vida do doente, como nos que usam próteses dentárias) e distorção das comissuras orais. 12 O retalho de Bernard-Burrow-Webster, apesar de não produzir microstomia, resulta, habitualmente, em alguma incontinência do esfíncter oral11, em particular nas comissuras. Além disso, pode condicionar uma retração do lábio inferior em relação à posição esperada.

 

REFERÊNCIAS

1. Emil D, Ivica L, Miso V. Treatment of squamous cell carcinoma of the lip. Coll Antropol. 2008;32(Suppl 2):199-202.         [ Links ]

2. Parizi ACG, Barbosa RL, Parizi JLS, Nai GA. Comparação entre a concentração de mastocitos em carcinomas espinocelulares da pele e da cavidade oral An Bras Dermatol. 2010;85:811-8.         [ Links ]

3. Coppit GL, Lin DT, Burkey BB. Current concepts in lip reconstruction. Curr Opin Otolaryngol Head Neck Surg. 2004;12:281-7.         [ Links ]

4. Futran ND, Alsarraf R. Microvascular free-flap reconstruction in the head and neck. JAMA. 2000;284:1761-3.         [ Links ]

5. Lee P, Mountain R. Lip reconstruction. Curr Opin Otolaryngol Head Neck Surg. 2000;8:300-4.         [ Links ]

6. Karapandzic M. Reconstruction of lip defects by local arterial flaps. Br J Plast Surg. 1974;27:93-7.         [ Links ]

7. Ethunandan M, Macpherson DW, Santhanam V. Karapandzic flap for reconstruction of lip defects. J Oral Maxillofac Surg. 2007;65:2512-7.         [ Links ]

8. Ducic Y, Athre R, Cochran CS.The split orbicularis myomucosal flap for lower lip reconstruction. Arch Facial Plast Surg. 2005;7:347-52.         [ Links ]

9. Bernard C. Cancer de la levre inferieure: restauratio a l'aide de lembeaux quadrilataires-lateraux querison. Scalpel.1852;5:162-4.         [ Links ]

10. Williams EF 3rd, Setzen G, Mulvaney MJ. Modified Bernard-Burow cheek advancement and cross-lip flap for total lip reconstruction. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 1996;122:1253-8.         [ Links ]

11. Konstantinovic VS. Refinement of the Fries and Webster modifications of the Bernard repair of the lower lip. Br J Plast Surg.1996;49:462-5.         [ Links ]

12. Closmann JJ, Pogrel MA, Schmidt BL. Reconstruction of perioral defects following resection for oral squamous cell carcinoma. J Oral Maxillofac Surg. 2006;64:367-74.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Ana Brinca
Hospitais da Universidade de Coimbra Serviço de Dermatologia
Praceta Dr. Mota Pinto
3000-075 Coimbra, Portugal
Tel.: 0035 12 3940 0490
anabrinca@gmail.com

Recebido em 18.07.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 12.10.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra - Coimbra, Portugal.