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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.86 no.4 supl.1 Rio de Janeiro July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962011000700045 

CASO CLÍNICO

 

Síndrome de Sweet e policondrite recidivante reveladores de síndrome mielodisplásica*

 

 

Filipa da Encarnação Roque DiamantinoI; Pedro Manuel Oliveira da Cunha RaimundoII; Ana Isabel Pina Clemente FidalgoIII

IDoutora - Residente em Dermatovenerologia do Hospital de Santo António dos Capuchos - Centro Hospitalar de Lisboa Central - Lisboa, Portugal
IIResidente em Medicina Interna do Hospital de São José - Centro Hospitalar de Lisboa Central - Lisboa, Portugal
IIIMédico - Especializando do Serviço de Dermatologia do Hospital de Santo António dos Capuchos - Centro Hospitalar de Lisboa Central - Lisboa, Portugal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Certas dermatoses, pertencentes ao grupo das síndromes paraneoplásicas mucocutâneas, podem ser o prenúncio de uma neoplasia previamente não conhecida. Tanto a síndrome de Sweet como a policondrite recidivante incluem-se neste grupo. A síndrome de Sweet e a PR são raramente encontradas em um mesmo paciente. A presença de policondrite recidivante e síndrome de Sweet em um mesmo paciente tem se revelado mais frequente em pacientes com neoplasias associadas, sobretudo hematológicas. Relata-se o caso de paciente do sexo masculino, 79 anos, com síndrome de Sweet e policondrite recidivante, em quem, subsequentemente, foi diagnosticada uma síndrome mielodisplásica.

Palavras-chave: Policondrite recidivante; Síndrome de Sweet; Síndromes paraneoplásicas


 

 

INTRODUÇÃO

Certas dermatoses, incluídas no grupo das síndromes paraneoplásicas, podem ser o prenúncio de uma neoplasia anteriormente não conhecida, permitindo sua detecção e tratamento precoces.

A síndrome de Sweet (SS), descrita pela primeira vez em 1964 por Robert Sweet, é uma dermatose neutrofílica febril aguda, rara, de patogênese não totalmente esclarecida, que se caracteriza pelo surgimento súbito de pápulas ou placas eritematosas, infiltradas, localizadas especialmente na face, pescoço e extremidades superiores, associadas a febre e leucocitose neutrofílica. 1 Pode ser classificada em cinco grupos: idiopático ou clássico, parainflamatório, paraneoplásico, associado à gestação e secundário a drogas.

A policondrite recidivante (PR) é uma doença multissistêmica incomum, descrita pela primeira vez em 1923 por Jakch Wartenhorst, de etiologia desconhecida, provavelmente de natureza imunológica. Caracteriza-se por inflamação recorrente e destruição dos tecidos cartilaginosos, nomeadamente nasais, auriculares e das vias aéreas superiores.2 Um número crescente de casos tem sido descrito associado a neoplasias, sobretudo à síndrome mielodisplásica e, menos frequentemente, a outras neoplasias hematológicas ou tumores sólidos.3

A síndrome mielodisplásica (SMD) é uma desordem clonal da hematopoiese, caracterizada por medula óssea displásica e citopenias periféricas.

Os autores descrevem o caso de doente com SS e PR, em quem foi diagnosticado, subsequentemente, uma SMD.

 

RELATO DE CASO

Paciente do sexo masculino, 79 anos, branco, seguido em consulta de Dermatologia por episódios recorrentes de surgimento súbito de placas eritematosas, pseudo-vesiculares, circulares, com centro levemente róseo, variando de 0,5 a 3 cm, dolorosas, localizadas no tronco, pescoço e membros superiores, sempre acompanhadas de febre (37,5-38ºC) (Figura 1). A revisão de sistemas era normal, sem evidências de linfoadenomegalias ou organomegalias. A biópsia de pele mostrou edema da derme papilar, infiltrado inflamatório perivascular denso, constituído predominantemente por neutrófilos, muitos com leucocitoclasia (Figura 2), achados histopatológicos compatíveis com o diagnóstico de SS. Os exames laboratoriais mostraram leucopenia (3400/ÌL) e aumento da velocidade de hemossedimentação (50 mm/h). Foi iniciada corticoterapia (deflazacorte 60 mg/dia, com retirada lenta e gradual), verificando-se remissão inicial, mas rápido reaparecimento das lesões com a sua suspensão. Para avaliação de etiologia associada, realizaram-se os seguintes exames complementares: avaliação laboratorial (função hepática, função renal, função tireoidiana, marcadores tumorais, serologias virais, ANA's, anti-DNA, anti-SSA, anti-SSB, anti-RNP, anti-SM), mielograma, endoscopia digestiva alta, colonoscopia, radiografia simples de tórax, tomografia axial computorizada do tórax, abdômen e pélvis, ultrassom abdominal, prostático e da glândula tiroideia, com resultados dentro dos limites da normalidade.

 

 

 

 

Cerca de 12 meses após o diagnóstico inicial de SS, o paciente é observado por dor e tumefação do pavilhão auricular esquerdo. Ao exame físico, havia edema, rubor e calor, poupando o lóbulo (Figura 3A). A biópsia da cartilagem auricular mostrou denso infiltrado inflamatório na cartilagem subcutânea e degenerescência de condrócitos marginais, compatíveis com condrite (Figuras 3B, 3C e 3D). Concomitantemente, inicia episódios de hiperemia conjuntival (Figura 4), tendo sido avaliado por oftalmologista que diagnosticou úlceras córneas periféricas superficias, bilaterais. O paciente foi medicado sintomaticamente.

 

 

Em acompanhamento no Ambulatório de Dermatologia ao longo de 15 meses, o paciente manteve lesões cutâneas recorrentes compatíveis com SS, assim como episódios repetidos de inflamação ocular e em ambos os pavilhões auriculares. Recebeu corticosteroide via oral nos surtos, obtendo remissão completa dos sintomas, mas com recidiva após término do tratamento. Ultimamente verificava-se emagrecimento e astenia e a avaliação laboratorial realizada periodicamente revelou uma anemia macrocítica não megaloblástica e neutropenia. Foram efetuados mielograma e biópsia da medula óssea, cujos achados foram compatíveis com síndrome mielodisplásica. O doente foi encaminhado para o Serviço de Hematologia /Oncologia.

 

DISCUSSÃO

As dermatoses paraneoplásicas são manifestações cutâneas, não neoplásicas, associadas a tumores viscerais ou hematológicos. Prever a coexistência de uma neoplasia, a partir de lesões mucocutâneas com determinadas peculiaridades clínicas, faz com que estas dermatoses adquiram um especial interesse.

A SS está relacionada a neoplasias em 20% dos casos, sendo que 85% destas estão relacionadas a distúrbios hematológicos e 15%, a tumores sólidos. A associação à SMD é comum e pode significar um prognóstico desfavorável em vista da possibilidade de conversão para leucemia mieloide aguda.

O diagnóstico da SS é baseado nos achados clínicos, na histologia e nos exames de laboratório, segundo os critérios de diagnóstico adaptados de Su e Liu1 (Quadro 1). O nosso paciente apresentava os dois critérios maiores (aspecto clínico das lesões e infiltrado neutrofílico denso na biópsia) e três menores (febre, doença associada e resposta à corticoterapia).

 

 

A forma paraneoplásica de SS tende a ter manifestações clínicas mais graves e atípicas do que a forma clássica. Não existe predileção por sexo, as lesões cutâneas tendem a ser vesiculosas, bolhosas ou mesmo necróticas e ulcerativas. Além da localização habitual, distribuem-se também nos membros inferiores, tronco e dorso. As manifestações sistêmicas de leucocitose neutrofílica e febre podem estar ausentes. As recorrências clínicas são frequentes.4

A presença de surtos recorrentes de placas dolorosas, limites bem definidos, com pseudovesiculação, predominantemente localizadas no tronco, sem neutrofilia, chamaram a atenção para a possível associação à doença de base e motivaram um acompanhamento rigoroso. O SMD foi diagnosticado cerca de 2 anos após o início dos sintomas cutâneos. As manifestações clínicas e a evolução do paciente relatado estão em concordância com os dados disponíveis na literatura. Numa revisão publicada de 9 casos, todos pacientes do sexo masculino, com lesões cutâneas atípicas e recorrentes, o SMD foi, finalmente, diagnosticado em todos, em média 3,5 anos após início do SS.4

Nosso paciente foi encaminhado ao Serviço de Oncologia para um tratamento mais agressivo do SMD, na expetativa de controlar com maior eficácia a doença dermatológica.

Na PR, a manifestação clássica é a condrite auricular aguda unilateral ou bilateral, com presença de sinais flogísticos, poupando o lóbulo, presente em 39% dos casos no momento do diagnóstico e manifestando-se em 85% dos pacientes em algum momento da doença. Outras manifestações clínicas frequentes que podem estar presentes são alterações da cartilagem nasal, artrite, sintomas oculares e sintomas relacionados à árvore traqueobrônquica. Aproximadamente 30% estão associadas à doença autoimune ou hematológica.2

O diagnóstico de PR é predominantemente clínico, tendo sido apoiado nos critérios estabelecidos por Damiani e Levine2 (Quadro 2). O paciente descrito tinha condrite bilateral do pavilhão auricular, úlceras de córnea periféricas superficiais, causando inflamação ocular, e achados histopatológicos compatíveis, reunindo critérios para PR.

 

 

Os sintomas oculares são os mais comuns, presentes em 60% dos pacientes, sendo a esclerite e a episclerite as mais frequentes. Apesar de menos comum, encontramos na literatura outros casos associados a úlceras de córnea.5

A PR e a SS são raramente encontradas no mesmo doente. Até esta data, apenas 23 casos foram descritos na literatura. Três destes pacientes eram de uma série de 48 pacientes da Mayo Clinic com SS.6 Em um estudo francês, envolvendo 200 pacientes com PR, 7 tinham SS.7 Em uma revisão de 9 doentes com SS e SMD, 4 desenvolveram PR.4

Le Gal et al descreveram 2 casos de SS associados à PR, 1 caso associado à mielodisplasia e outro precedendo a PR.8 Os outros 7 casos foram publicados isoladamente. Nestes, a SS precedeu o aparecimento de PR em 2 casos, foi subsequente em 4 e concomitante em um outro.9-15 Doze dos pacientes com SS e PR tinham uma neoplasia associada: SMD em 11 casos e neoplasia da bexiga em 1 caso.

Tanto a SS quanto a PR estão incluídas no grupo das síndromes paraneoplásicas mucocutâneas associadas a neoplasias hematológicas. Nosso paciente, em quem foi diagnosticado SS e PR, desenvolveu SMD. Apesar de pouco comum, mais de uma síndrome paraneoplásica tem sido descrita em um mesmo doente.3 O conhecimento de que tanto a SS quanto a PR podem ser manifestações iniciais de progressão para um SMD deve levar o clínico a considerar prontamente esta hipótese.

Tem sido especulado na literatura se a associação de SS à PR é mera coincidência em doentes com neoplasias hematológicas ou se ambas as condições podem estar etiologicamente relacionadas.13 Apenas a descrição de um maior número de casos, documentando a ocorrência de SS e PR em doentes com SMD, permitirá concluir se existe, de fato, uma associação significativa entre elas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Filipa da Encarnação Roque Diamantino Serviço de Dermatologia Hospital de Santo António dos Capuchos
Alameda Santo António dos Capuchos 1150
314 Lisboa - Portugal
E-mail: filipadiamantino@hotmail.com

Recebido em 22.11.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 22.12.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Dermatovenerologia do Hospital de Santo António dos Capuchos - Centro Hospitalar de Lisboa Central - Lisboa, Portugal.