SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.51 issue319Sintering and second phase assignments in the SnO2-ZnO systemSiCf /SiC composites for thermal protection systems author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cerâmica

Print version ISSN 0366-6913On-line version ISSN 1678-4553

Cerâmica vol.51 no.319 São Paulo July/Sept. 2005

https://doi.org/10.1590/S0366-69132005000300016 

Biomateriais à base de Na2O-CaO-SiO2-P2O5 preparados com serragem e com glucose de milho: influência na porosidade e na cristalinidade

 

Biomaterials based on Na2O-CaO-SiO2-P2O5 prepared with sawdust or corn glucose: effects on porosity and crystallinity

 

 

S. D. de CamposI; É. A. de CamposI; C. B. da SilveiraII; R. A. BiniI

IUniversidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus Toledo, Toledo, PR 85902-900
IIUniversidade Federal de Santa Catarina, Campus Trindade, Florianópolis, SC 88040-900
sdc@unioeste.br

 

 


RESUMO

Neste trabalho biomateriais à base de Na2O-CaO-SiO2-P2O5 foram obtidos pelo método clássico de fusão e os biovidros submetidos ao tratamento térmico a diferentes temperaturas. A porosidade das peças foi controlada pela adição de serragem e/ou glucose de milho.A porosidade e a cristalinidade das amostras sintetizadas foram acompanhadas com auxílio das técnicas de Microscopia Eletrônica de Varredura e difração de raios X, respectivamente. Amostras tratadas termicamente a 800 °C mostraram uma reorganização estrutural e conseqüente aumento da dureza. Observou-se que em ambas as cerâmicas tanto a adição de serragem quanto de glucose de milho aumentou a porosidade das peças. Contudo, a estrutura mais organizada e poros mais homogêneos foram obtidos para a mistura vidro/glucose de milho.

Palavras-chave: biovidros, porosidade, cristalinidade.


ABSTRACT

In this work, biomaterials constituted of Na2O-CaO-SiO2-P2O5 were obtained by the classic method of melt and the bioglasses submitted to the thermal treatment at different temperatures, where the porosity of the pieces were controlled by the addition of sawdust and/ or corn glucose. Samples submitted to temperatures above 800 °C became completely opaque, indicating a reorganization of the structure and consequent increase of the hardness of the material. The influence of the sawdust in the process of crystallization of the glass was observed. Scanning Electron Microscopy was used in both ceramics and results showed the increase of the porosity as so much the sawdust or corn glucose was added. However the most organized structure and more homogeneous pores were obtained for the glass/corn glucose mixture.

Keywords: Bioglass, porosity, crystallinity.


 

 

INTRODUÇÃO

Historicamente, pode-se considerar que os biomateriais são tão velhos quanto os homens e o registro histórico de sua primeira utilização se refere a materiais de sutura e datam de 4000 a.C.. Há registros que os egípcios usaram placas metálicas para reparos em lesões cranianas e membros artificiais. Estas práticas também já eram conhecidas desde a época do império romano até a idade média [1].

Um biomaterial, do ponto de vista formal, é definido como sendo uma substância ou combinação de duas ou mais substâncias, de natureza sintética ou natural, que pode ser utilizado por um período de tempo para melhorar, aumentar ou substituir, parcial ou inteiramente, tecidos ou órgãos [2].

Em geral, os biomateriais não devem ter uma resposta do tecido hospedeiro e, para tanto, devem se assemelhar quimicamente ao mesmo. Essa característica estimula a ocorrência da biocompatibilidade, ou seja, não induz a respostas teciduais ou imunológicas adversas. Além disso, há o fato da biofuncionalidade só poder se manifestar caso a biocompatibilidade seja adequada. As características mais importantes associadas a um material que deverá substituir um tecido ósseo são a porosidade e a capacidade do material implantado de promover íons para o ambiente vizinho. Estas características são especialmente encontradas em um tipo especial de biomaterial: as biocerâmicas.

O gesso (CaSO4.½H2O) foi a primeira cerâmica a ser usada como substituinte ósseo, e sua utilização remonta a 1894 [3]. Esse tipo de material não possui atrativos para sua utilização já que o mesmo é rapidamente absorvido pelo organismo e sua resistência mecânica é muito baixa. Em substituição ao gesso, foram utilizadas, em 1920 [3], cerâmicas de fosfato tricálcico para regenerar um defeito ósseo e para a formação do novo tecido. Com o passar do tempo surgiram diferentes materiais cerâmicos a base de fosfato de cálcio.

A porosidade, para materiais cerâmicos utilizados em implantes, surge como uma característica importante destes materiais. Apesar do aumento da porosidade diminuir a resistência mecânica do material isoladamente, a existência de poros com dimensões adequadas podem favorecer o crescimento do tecido através do material o que aumenta a resistência in vivo [4]. Outras propriedades relacionadas à biocompatibilidade destas cerâmicas consideram o tamanho e a forma das partículas [5-6], rugosidade de sua superfície [3] e solubilidade [7-8].

A grande biocompatibilidade e similaridade química com o tecido ósseo propiciaram a utilização das cerâmicas, a base de fosfato tricálcio, na substituição óssea, onde se destacam materiais cujo constituinte principal é a hidroxiapatita [3-11]. O uso clínico de cerâmicas é bastante difundido, porém limitado devido a sua lenta biodegradação [12].

Estudos demonstraram que a hidroxiapatita começa a ser reabsorvida gradualmente após 4 ou 5 anos de implante [13]. A reabsorção é uma característica desejada em alguns tipos de implantes, nos quais o processo de degradação é concomitante com a reposição do osso em formação. As aplicações da hidroxiapatita estendem-se desde a ortopedia para correções (buco-maxilo-faciais), traumatismos requimedulares e coluna cervical; tumores músculo-esquelético, entre outras aplicações [13] e na odontologia nos casos de doenças peridontais, implantes dentários, preenchimento de cavidades císticas ou mesmo aumentos de rebordo ósseo alveolar, além de outras aplicações [11, 12].

Este trabalho teve como objetivo a obtenção de biocerâmicas baseadas em sistemas Na2O-P2O5-CaO-SiO2, sintetizadas utilizando-se o método de fusão clássico e verificar a influência do uso da serragem e da glucose de milho no aumento da porosidade do material. Para tanto, fez-se a caracterização das biocerâmicas utilizando-se das técnicas de difração de raios X, e microscopia eletrônica de varredura equipada com microssonda de energia dispersiva.

 

EXPERIMENTAL

Reagentes

Os reagentes precursores utilizados na preparação das biocerâmicas foram carbonato de cálcio (Nuclear PA), carbonato de sódio (Nuclear PA), fosfato de amônio dibásico (Nuclear PA), sílica gel (Aldrich PA), glucose de milho comercial (Karo®) e serragem com granulometria de 230 mesh.

Preparação e fusão dos biovidros

Foram preparadas duas amostras de biovidros com proporção Ca/P variada. As composições utilizadas encontram-se descritas na Tabela I, considerando a massa total da mistura para cada 10 g da amostra. Os reagentes em forma de pó foram misturados em almofariz de ágata por cerca de 60 min, no intuito de homogeneizar os mesmos, antes do processo de fusão. As amostras foram colocadas em cadinho de platina e levadas à fusão num forno EDG-1800. O programa de temperatura utilizado para a fusão das amostras foi de 20 °C/min até atingir 1180 °C, onde as amostras permaneceram 120 min.

 

 

Tratamento térmico dos biovidros

As amostras A1 e A2 foram quebradas em nove partes de tamanhos aproximadamente iguais. Os pedaços obtidos das amostras A1 e A2 foram tratados termicamente em um forno EDG-1800, em temperatura distintas, conforme a Tabela II. As amostras permaneceram por 90 min na temperatura estipulada e o resfriamento procedeu-se de forma lenta, dentro do forno.

 

 

Introdução de poros

As amostras A1 e A2 foram trituradas, separadamente, num almofariz de ágata, resultando um pó branco. O pó obtido foi então misturado com serragem, ou glucose de milho antes da sinterização para formação da biocerâmica.

Uso da serragem: O pó de serragem foi lavado com água destilada e seco em estufa. Fez-se adição da serragem ao biovidro em pó na proporção 0,5:1. A mistura resultante foi compactada, na forma de pastilha e sinterizada a 800 ºC por um período de 60 min.

Uso da glucose de milho: Para 0,2 g do biovidro pulverizado adicionou-se uma gota de glucose de milho. A mistura foi modelada na forma de pastilha, e sinterizada a 800 ºC por um período de 60 min.

Difração de raios X

Os difratogramas de raios X das amostras foram obtidos mediante a utilização de radiação Ka do cobre (1540,6 eV). Os difratogramas foram obtidos na faixa de 2q de 5° a 120° em um difratômetro Shimadzu XD 3A.

Microscopia eletrônica de varredura

Para obtenção das micrografias e das análises químicas, as amostras foram colocadas num suporte metálico e recobertas com uma fina camada de ouro, utilizando-se de um metalizador modelo SEM COATING E5000. Utilizou-se de um Microscópio Eletrônico de Varredura, modelo Philips XL-30 equipado com Microssonda de Energia Dispersiva (EDS), de fabricação EDAX.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As amostras fundidas apresentaram elevada viscosidade, o que dificultou o escoamento das mesmas para o molde. A amostra A1 apresentou menor viscosidade, em relação à amostra A2, o que foi atribuído a uma maior concentração do óxido fundente (Na2O) na composição final.

Os biovidros com suas respectivas composições finais, em mol% de óxidos, estão dispostos na Tabela III. Estes mostraram um aspecto vítreo com pequenas ilhas ao longo de sua estrutura, sendo estas ilhas atribuídas a um pequeno ordenamento estrutural e ao tamanho de partículas cristalinas que compõe o material.

 

 

As amostras permaneceram com a aparência vítrea até o tratamento térmico a 400 °C. A partir de 500 °C a aparência vítrea diminuiu e a opacidade das peças aumentou. Na temperatura de 800 °C, o material tornou-se totalmente opaco indicando a transformação total do biovidro em biocerâmica. Uma característica importante das biocerâmicas é que estes compostos apresentam uma estrutura ordenada. O aumento no grau de cristalinidade das amostras foi acompanhado por meio de difração de raios X. Para a amostra de biovidro, apenas um parâmetro de halo que caracteriza material amorfo, pode ser observado (Fig. 1a). Entretanto, quando o biovidro é submetido ao tratamento térmico, picos de difração começam a surgir nos difratogramas das amostras submetidas ao aquecimento a temperaturas acima de 400 ºC, o que sugere um aumento na organização estrutural e conseqüente cristalização das amostras (Fig. 1b). As atribuições dos picos de difração nos difratogramas das amostras encontram-se na Tabela IV.

 


 

 

 

Pelos dados da Tabela IV, pode-se verificar a presença de fases cristalinas distintas, que foram atribuídas ao silicato de sódio hidratado, silicato de cálcio e sódio, hidrogênio fosfato de cálcio hidratado e hidroxiapatita, compostos primordiais quando se trata de biocerâmicas. Outro fator importante na utilização de materiais bioativos é a presença de poros nos mesmos. Com a finalidade de se aumentar a porosidade da biocerâmica, adicionou-se serragem e glucose de milho às amostras sintetizadas. Apesar do aumento da porosidade diminuir a resistência mecânica do material isoladamente, a existência de poros com dimensões adequadas favorecem o crescimento do tecido através do material, o que aumenta a resistência in vivo [4]. Podese observar que, em ambas as cerâmicas, a adição tanto de serragem quanto de glucose de milho contribuiu para um aumento da porosidade das peças. Entretanto, as análises de difração de raios X (Fig. 2) revelaram que para a amostra A2, na qual serragem foi utilizada para obtenção dos poros, ocorreu diminuição de cristalinidade da amostra, o mesmo não acontecendo para a amostra A1 (Fig. 2) indicando a influência da composição do material na cristalinidade das amostras de biocerâmicas.

 

 

A microscopia eletrônica de varredura foi utilizada para avaliar a morfologia da superfície das biocerâmicas. As micrografias das amostras A1 e A2 encontram-se apresentadas na Fig. 3. Na micrografia da Fig. 3a, observa-se que a superfície do biovidro apresenta-se com incrustações irregulares. Entretanto, quando a mesma amostra é tratada termicamente a 800 ºC, uma maior homogeneidade é conseguida e pode-se observar duas fases distintas compondo esta superfície (Fig. 3b).

Nas micrografias das Figs. 4 e 5 nota-se que em ambas as cerâmicas a adição tanto de serragem quanto de glucose de milho contribuiu para um aumento da porosidade das peças. Entretanto, conforme a micrografia mostrada na Fig. 4 verifica-se um maior aglomerado superficial para a amostra A1, com poros irregularmente definidos, o que sugere uma quebra na cristalinidade da amostra pela presença da serragem. Nota-se, ainda, a formação de um sistema fibroso recobrindo a superfície (Fig. 5a). Já para amostra onde a glucose de milho foi utilizada para formação dos poros, nota-se uma superfície estruturalmente melhor definida com poros mais homogêneos (Figs. 4b e 5b).

 

CONCLUSÕES

Observou-se que, em ambas as cerâmicas, tanto a adição de serragem, quanto de glucose de milho contribuiu para um aumento da porosidade das peças. A estrutura mais organizada e distribuição mais homogênea de poros foram obtidas para a mistura biovidro/glucose de milho, enquanto que as biocerâmicas obtidas com o uso de serragem apresentaram menor cristalinidade.

 

AGRADECIMENTOS

R. A. Bini agradece ao CNPq pelo apoio financeiro. (PIBIC/CNPq/UNIOESTE).

 

REFERÊNCIAS

[1]. F. Silver, C. Doillon, Biocompatibility, Interactions and Implantable Materials 1, New York, VCR (1989).         [ Links ]

[2] J. Park, Biomaterials Science and Engineering, Plenum Press, New York (1984).         [ Links ]

[3] L. L. Hench, Bioceramics, J. Am. Ceram. Soc. 74 (1991) 1487.         [ Links ]

[4] F. Fernandesg, M. C. M. Laranjeira, Quím. Nov. 23 (2000) 441.         [ Links ]

[5] P. Frayssinet, Biomaterials 5 (1984) 169.         [ Links ]

[6] T. A. P. C. Klein, A. A. D. Riessem, K. Groot, Biomaterials 5 (1984) 157.         [ Links ]

[7] E. J. Evans, Biomaterials 12 (1991) 574.         [ Links ]

[8] H. Ohgushi, J. Bio. Mater. Res. 24 (1990) 1563.         [ Links ]

[9] T. Levit, J. Biomed. Res. 3 (1969) 683.         [ Links ]

[10] J. W. Smith, Nature 219 (1968) 157.         [ Links ]

[11] A. Osaka, J. Mater. Sci. (1976) 2027.         [ Links ]

[12] J. J. Videau, V. Dupuis, Eur. J. State Inorg. Chem. 28, 1 (1991) 303.         [ Links ]

[13] H. AOKI, Science and medical applications of hydroxiapatite, Japanese Association of Apatite Science, Tokyo (1991).        [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License