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Cerâmica

Print version ISSN 0366-6913On-line version ISSN 1678-4553

Cerâmica vol.53 no.327 São Paulo July/Sept. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0366-69132007000300009 

Avaliação reológica de concretos refratários para projeção a úmido em aplicações siderúrgicas

 

Rheological evaluation of steel-making wet-shotcrete refractory castables

 

 

F. A. O. Valenzuela; T. L. Dong; V. C. Pandolfelli

Grupo de Engenharia de Microestrutura de Materiais - GEMM. Departamento de Engenharia de Materiais, Universidade Federal de S. Carlos. Rod. Washington Luiz, km 235, C.P. 676, S. Carlos, SP 13565-905. valenzuela@iris.ufscar.br, vicpando@power.ufscar.br

 

 


RESUMO

A crescente utilização de processos automatizados durante a etapa de bombeamento e na projeção de concretos refratários é o resultado do entendimento simultâneo das características microestruturais de empacotamento e da natureza reológica destes materiais. A projeção a úmido de concretos refratários desperta interesse tecnológico por não necessitar de moldes para o revestimento de equipamentos siderúrgicos. A técnica consiste em aplicar o material pulverizado sobre a superfície de instalação, onde a fluidez do concreto projetado é instantaneamente reduzida devido à ação de aditivos coagulantes, resultando em uma elevada taxa de deposição. O presente trabalho teve como objetivos identificar os fatores que influenciam o desempenho da projeção a úmido por meio da avaliação de concretos comerciais para canais de corrida, estabelecer critérios sistêmicos para formulação e aperfeiçoar uma técnica para caracterização reológica multi-estágios. Os resultados têm possibilitado o estabelecimento de critérios tecnológicos para a classificação de desempenho e para o desenvolvimento desta importante classe de materiais.

Palavras-chave: concreto refratário, projeção a úmido, empacotamento, propriedades reológicas, siderurgia.


ABSTRACT

The growing utilization of automated systems for pumping and projection of refractories castables is the result of the simultaneous understanding of packing´s microstructural characteristics and rheological nature of these materials. The wet-shotcrete of refractories castables presents a great technological interest because there is no need of molds for lining large areas. The process consist of applying the sprayed castable on the surface to be lined or repaired. As the material hits the surface to be coated the fluidity must be totally vanished by the action of setting additives, resulting in a high deposition rate. The present work has the objective to identify the factors that influence the performance of the wet-shotcrete through the evaluation of commercial castables for blast furnace trough. Additionally, a systemic criteria for rheological multi-characterization was established. The results obtained generated a technological path to classify the performance and the development of this important class of ceramic refractory materials.

Keywords: refractory castable, wet-shotcrete, packing, rheologic properties, steel-making.


 

 

INTRODUÇÃO

A contínua busca visando aumentar a produtividade e a qualidade dos processos siderúrgicos tem se intensificado nas últimas décadas. Um dos aspectos que mais contribuiu foi a redução do consumo específico de refratários, que passou de 30 kg por tonelada de aço produzido na década de 70 para cerca de 9 kg/ton nos dias atuais [1, 2].

Com o intuito de obter melhores resultados na siderurgia, os usuários estão, gradualmente, substituindo as peças conformadas (tijolos e pré-moldados) por concretos refratários que possam ser bombeados e projetados [1, 3].

Os equipamentos utilizados, por serem imprescindíveis na cadeia produtiva do aço, não podem ficar sujeitos a paradas por longos períodos durante os reparos dos refratários [4, 5]. Por isto, uma alternativa é melhorar o desempenho dos concretos refratários por meio da otimização granulométrica e da aditivação [6, 7].

O ajuste de tais fatores pode resultar em superior desempenho em serviço (maior resistência aos fatores de desgaste), com possibilidade de automação da aplicação por projeção a úmido, reduzindo assim, o tempo de instalação e o custo para aplicação [1, 4, 8].

A técnica de projeção de concretos a úmido consiste em bombear o concreto previamente misturado com a água até o local de aplicação. Na saída da tubulação é acoplado um dispositivo (bocal de projeção) que possui uma entrada para ar comprimido, responsável por gerar um spray de concreto sobre o local de recobrimento [9, 10].

A consolidação do material sobre a superfície é proporcionada por um aditivo coagulante injetado juntamente no bocal de projeção (cloretos, silicatos ou polímeros), responsável pela perda instantânea da fluidez do concreto.

Independentemente da simplicidade de seu conceito, a utilização da técnica de projeção a úmido é uma operação complexa que envolve as etapas de mistura, bombeamento e aplicação do concreto. Para permitir um melhor controle sobre as propriedades dos materiais que serão submetidos ao wet-shotcrete sem a necessidade do uso de grandes quantidades e com obtenção de parâmetros reprodutíveis e embasados cientificamente, pode ser utilizado um protocolo de caracterização reológica.

Desta forma, utilizando a técnica para caracterização multi-estágios proposta por Pileggi e Pandolfelli [9, 11] foram identificados neste trabalho os fatores que mais influenciam o desempenho da projeção a úmido, utilizando concretos comerciais cujas propriedades já são conhecidas por consumidores e fornecedores. Isto permitiu a aferição da confiabilidade dos ensaios.

Assim, foi possível estabelecer um critério sistêmico para formulação e classificação do desempenho reológico de concretos para projeção a úmido para aplicações siderúrgicas, podendo ser estendido para outras classes de concretos refratários projetáveis.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Usualmente, a avaliação do desempenho da engenharia da formulação dos concretos refratários (granulometria e aditivação) se restringe a testes de consolidação sobre uma superfície padrão (perda por rebote) [8, 12, 13]. Estas técnicas apresentam características empíricas, que além de envolverem elevados custos, requerem a aplicação de grandes quantidades de material, o que dificulta o seu estudo em laboratório [9-11].

Como alternativa para avaliações em escala laboratorial foi desenvolvido um reômetro específico para concretos refratários, a partir de trabalhos de Pileggi et al (Fig. 1) [14].

 

 

De forma simples, um reômetro pode ser descrito como um equipamento que avalia as propriedades dinâmicas dos fluidos. Devido a sua extensa distribuição granulométrica, concretos não podem ser definidos como fluidos monofásicos, homogêneos e contínuos [2, 6, 15]. Por isto, a relação de estado reológico para concretos refratários deve ter uma abordagem específica, relacionando o torque aplicado com a rotação de um elemento cisalhante.

O reômetro para concretos utilizado neste trabalho foi concebido em arquitetura planetária com controle digital microprocessado de rotação e torque, realizado por meio de um servo-controlador WEG® e de uma plataforma de programação em ambiente Linux, com maiores precisões de medida e aquisição de dados. A interface computacional, desenvolvida em parceria com a empresa Ragnar Solutions® possibilita a criação de protocolos de ensaios pré-programáveis, tornando a execução dos testes totalmente automatizada.

Com a grande versatilidade de recursos fornecida pelo reômetro para concretos, foram realizados diversos estudos buscando desenvolver uma técnica de caracterização reológica multi-estágios para concretos de wet-shotcrete que permitisse simular as várias solicitações encontradas durante a aplicação por projeção a úmido [9, 10, 12].

O protocolo experimental é constituído de quatro etapas principais: mistura do concreto, ensaios de fluidez em função do tempo, ciclo de cisalhamento com volume restrito e o teste de consolidação (Fig. 2).

 

 

Mistura do concreto

Antes de ser iniciada a avaliação reológica, o concreto é homogeneizado a seco por dois minutos em um misturador duplo cone para evitar a possibilidade de segregação entre as matérias-primas.

Em seguida, o material é misturado no reômetro a uma rotação constante de 33 rpm. Após 30 s de mistura a seco, inicia-se a adição gradual de 75% do teor de água recomendado pelos fabricantes. Após aproximadamente 200 s de mistura inicia-se o processo de aglomeração, originado pela associação das forças atrativas capilares e secundárias, gerando uma máxima coesão indicativa do estágio de virada do concreto (Fig. 4). O torque máximo deve ser limitado em 12 Nm para evitar excessivo aquecimento. Após a adição do restante da água (25%-p), o concreto é homogeneizado por 60 s antes das demais etapas [15-17].

 

 

 

 

Medidas de fluidez livre em função do tempo

Após a mistura e homogeneização do concreto no reômetro, preenche-se com aproximadamente 500 g de material um tronco de cone não-maciço padronizado pela norma ASTM C860 (100 x 70 x 60 mm).

Em seguida, o cone é deslocado verticalmente, permitindo o escoamento do concreto. Passados 60s mede-se o diâmetro final do fluxo e se calcula a fluidez porcentual descontando-se do valor medido o diâmetro inicial (100 mm) do cone.

Repete-se este procedimento em intervalos de 15 min até a fluidez livre do concreto atingir 20%. Este ponto corresponde ao tempo de trabalhabilidade (início do endurecimento ou "pega") do material.

O valor da fluidez livre inicial obtida logo após a mistura é utilizado, tradicionalmente, para classificar o método de instalação dos concretos. Uma fluidez livre inicial entre 0 e 40% caracteriza concretos socados, enquanto valores compreendidos entre 40 e 80% indicam concretos vibrados ou bombeáveis sobre pressão (Fig. 5).

 

 

Materiais com excessiva fluidez livre inicial, ou seja, superiores a 80%, apesar de serem classificados como auto-escoantes, podem apresentar segregação entre a matriz e os agregados durante o bombeamento [12, 18].

Em concretos para projeção, procura-se ajustar a fluidez inicial entre 40 e 80%, além de controlar o tempo de trabalhabilidade em valores maiores que 90 min [1, 12].

Apesar de sua aparente simplicidade, o ensaio de consistência baseado na fluidez dos concretos refratários possui grande complexidade de interpretação, pois é resultante de contribuições simultâneas da tensão de escoamento e da viscosidade da matriz, por isto deve sempre ser complementado com outros ensaios reológicos para permitir uma real avaliação do material [4, 6, 15].

Ciclo de cisalhamento com restrição de volume

Após o concreto estar adequadamente misturado, troca-se o elemento cisalhante ("raquete") do reômetro e acopla-se um dispositivo que permite restringir o volume do material em análise durante a realização do ciclo de cisalhamento. Esta constrição simula as condições encontradas pelo concreto no interior da tubulação de transporte durante o bombeamento. Em seguida, por meio de programações computacionais realizadas no reômetro, são feitas rampas de rotação ascendentes e descendentes, com patamares de 30 s, entre 5 e 80 rpm (Fig. 6). Com os dados coletados é possível determinar a relação de estado reológico entre a rotação (taxa de cisalhamento) e o torque (tensão de cisalhamento), indicando o comportamento reológico típico do concreto (pseudoplástico ou dilatante) [7, 14, 16]. Além deste parâmetro, também podem ser extraídos dos ciclos de cisalhamento duas outras importantes variáveis experimentais: o nível máximo de torque (esforço) durante o cisalhamento e a área de histerese. O primeiro está relacionado à potência dos equipamentos necessários para o bombeamento do material, enquanto a área de histerese, que é inversamente proporcional a eficiência de mistura, indica o nível de desaglomeração do concreto [7, 16].

 

 

A histerese é gerada durante a quebra dos aglomerados porosos da matriz que disponibilizam a água aprisionada em seu interior em virtude da energia adicional fornecida pelo intenso cisalhamento (Fig. 6) [1, 14, 17].

Testes de consolidação

O último ensaio que compõe a caracterização reológica multi-estágios proposta para avaliar e desenvolver concretos refratários avançados, tais como os aplicados por projeção a úmido em canais de corrida, é o de consolidação no cone de projeção [9, 11]. Este ensaio consiste em manter o concreto sob rotação de 33 rpm por 50 s após a mistura e, subitamente, elevar a rotação para 75 rpm no mesmo instante que se adiciona o aditivo coagulante (p.e. solução de cloreto de cálcio), mantendo-se esta elevada rotação por apenas 10 s. O pulso de rotação que o elemento cisalhante de geometria triangular é submetido projeta o concreto em fase de consolidação (consistência viscoelástica) contra as paredes de um dispositivo cônico com rugosidade superficial controlada (lixa grão 80) e, também, ancora o material em uma região de compactação (tela polimérica), situada na base do dispositivo. Após o ensaio, o sistema compreendido pela cuba de mistura do reômetro, pelo dispositivo cônico de adesão e pelo concreto consolidado é vertido por 120 s sobre uma balança digital que coleta a massa de concreto desprendida, ou seja, o material perdido por rebote [9]. A diferença entre a massa de concreto total utilizada para mistura e a quantidade de concreto desprendida, é considerada a porcentagem consolidada total. Este parâmetro pode ser subdividido, em casos mais específicos de análises, em consolidação por adesão e por compactação. Neste trabalho, foi apenas considerado o índice total de consolidação.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Este trabalho apresenta os resultados das avaliações dos concretos comerciais A, B e C para aplicação no revestimento de canais de corrida de ferro gusa em alto-fornos siderúrgicos.

Na Tabela I pode-se observar a análise química dos concretos avaliados. Todos são aluminosos (Al2O3 > 55%-p) com elevado teor de carbeto de silício (SiC > 20%-p), adicionado à composição para aumentar a resistência ao choque térmico do refratário [1]. Adicionalmente, o concreto B possui ultra-baixo teor de cimento de aluminato de cálcio (CaO < 0.6%-p), favorável para o aumento da refratariedade, enquanto o A e o C têm teores de cimento um pouco mais elevados (0.6%-p < CaO < 1.5%-p), o que aumenta a probabilidade de geração de fases com menor ponto de fusão [1, 10]. Todas as composições contêm carbono, que atua como agente anti-molhante para escória e metal fundidos, e contribui para elevar a vida útil do revestimento refratário. Adicionalmente, a incorporação de carbono pode melhorar as propriedades termomecânicas, tais como energia de fratura e resistência ao dano por choque térmico. A sílica presente neste tipo de concreto é geralmente amorfa e ultra-fina (microssílica), possibilitando a mulitização in situ devido as elevadas temperaturas dos processos [13, 19]. Os óxidos de ferro e titânio são impurezas oriundas do bauxito, utilizado como matéria-prima na eletrofusão dos agregados de alumina marrom, empregada na composição destes concretos.

 

 

Por meio do procedimento de análise reversa, que consiste no peneiramento do concreto comercial baseado na norma ASTM D6913 e posterior emprego de um programa computacional de controle granulométrico (PSDesigner®, GEMM/ALCOA), foi possível determinar a distribuição do tamanho de partículas dos concretos avaliados (Fig. 3) [20].

É importante lembrar que a literatura estabelece, baseada em ensaios reológicos e termomecânicos, que concretos com coeficiente de empacotamento q = 0,26 e diâmetro máximo de partículas entre 4,75 e 8,00 mm possuem a maior versatilidade de uso, sendo muitas vezes chamados de multifuncionais [9, 10, 18].

Sua multifuncionalidade decorre da fluidez livre facilmente variável que estes concretos podem assumir, quer sejam socados (Finicial < 40%) ou auto-escoantes (Finicial > 80%), apenas com uma pequena variação de água entre 4 e 5%-p. Isto ocorre pelo balanço adequado entre forças mássicas oriundas da fração grossa, com as forças de superfície geradas pela matriz [6, 12, 20].

Quando concretos com coeficientes de empacotamento baixos (0,21) ou elevados (0,31) são avaliados comparativamente aos multifuncionais, fica evidente que além das propriedades reológicas de concretos 0,26 serem mais adequadas ao bombeamento e à projeção a úmido, são também obtidos baixos níveis de porosidade, e retração a verde e após a sinterização [12, 17, 18].

A partir das distribuições granulométricas foi possível calcular alguns parâmetros teóricos de empacotamento (Tabela II), tais como o coeficiente de ajuste granulométrico acumulado (R2 Acum), o diâmetro máximo de partículas (Dmax), o coeficiente de empacotamento segundo modelo de Andreasen (q) e a porosidade teórica da formulação (Pot).

 

 

Estes dados são importantes na correlação com os resultados reológicos experimentais, pois permitem uma melhor compreensão dos mecanismos envolvidos nas solicitações das diversas etapas da caracterização multi-estágios, possibilitando controlar a formulação e a reologia dos concretos.

No entanto, por melhor ajustadas que estejam as distribuições granulométricas teóricas (baixo R2), na prática as partículas irregulares, principalmente da fração grosseira, sempre gerarão uma porosidade intergranular residual maior que a esperada [2, 6, 20].

Por isto, um controle granulométrico adequado não apenas influencia a etapa de mistura, mas pode impor aos concretos refratários características reológicas desejadas para as diversas solicitações de instalação e uso [7, 16, 18].

Curvas de mistura

Resultados anteriores encontrados na literatura mostram que apesar das características granulométricas teóricas dos concretos refratários (q, Dmax, R2) serem importantes, os procedimentos experimentais de processamento, tal como a homogeneização a seco, a adição de água na mistura e o tempo de homogenização ("virada") também possuem grande relevância para impor um maior nível de desempenho aos concretos durante a aplicação e o serviço [7, 16].

Com o uso do reômetro para concretos foram obtidas as curvas de mistura sob rotação constante de 33 rpm (Fig. 4) para os concretos refratários comerciais. O teor de água usado foi recomendado pelos fabricantes e o procedimento experimental baseado na norma ASTM C862.

Pode ser observado que os concretos B e C apresentam curvas de mistura com picos de virada caracterizados pela elevação do torque (esforço), como resultado associado das forças capilares e secundárias originadas pela saturação com água da porosidade interparticular [7, 20]. Este aumento de torque impõe um elevado cisalhamento sobre as partículas, promovendo uma melhor desaglomeração da matriz, gerando menor consumo de água e melhores propriedades reológicas, físicas e mecânicas.

Alguns parâmetros importantes de serem calculados a partir das curvas de mistura são a energia de mistura - EM (área sob a curva), associada à potência e ao gasto energético dos equipamentos de mistura, e o nível de torque final após a mistura - Tf, que pode ser relacionado com a fluidez livre do material e com o método mais indicado para instalação (vibração, auto-nivelamento e projeção). Estes dois parâmetros (EM e Tf) estão correlacionados com a porcentagem de matriz presente nos concretos, uma vez que é a responsável pelo distanciamento dos agregados (MPT), pelo empacotamento de partículas mais efetivo e pelos efeitos de superfície que podem gerar coagulação e maior demanda de água [6, 14, 18].

O concreto B apresenta 22%-p de partículas menores que 100 µm, as quais são consideradas constituintes da matriz (Tabela II). Quando comparado ao A, que possui 18% de matriz, é possível notar que o maior teor de finos do B impõe uma maior coesão durante o processamento.

Apesar da energia de mistura ser elevada como conseqüência desta maior coesão do concreto, o cisalhamento intenso promove uma mistura mais eficiente. Isto gera uma maior desaglomeração (disponibiliza mais água para separação das partículas) que se reflete em um nível de torque final menor, indicando uma maior fluidez livre do B, em relação ao concreto A.

Ensaios de fluidez livre

A etapa subseqüente da avaliação reológica multi-estágios é composta por ensaios de fluidez livre adaptados da norma ASTM C860.

Baseados nestes resultados foram obtidos dois parâmetros importantes: a fluidez inicial (F0), a qual define o comportamento reológico tradicional dos concretos (socado, vibrado e auto-escoante), e o intervalo de trabalhabilidade (ttrab), que é o tempo para que a fluidez livre atinja 20%. Em concretos para projeção, o tempo de trabalhabilidade também é um fator de controle e deve ser maior que 90 min [1, 18].

Pode ser observado na Fig. 5 que os concretos B e C apresentam fluidez livre elevada, que concorda com o menor nível de torque registrado pelo reômetro após a mistura. Tal resultado contrasta com o concreto A, o qual não apresenta pico de virada durante o processamento. Adicionalmente, o nível elevado de torque final indica a fluidez livre nula. O concreto A apenas flui sob a ação de intensa vibração caracterizando-se como um concreto vibrado. Por outro lado, o B e o C apresentam um comportamento típico de concretos para bombeamento e projeção, ou seja, fluidez livre elevada e tempo de trabalhabilidade maior que 90 min.

Para entender melhor os fatores que estão diferenciando as propriedades reológicas dos concretos A, B e C, pode-se correlacionar alguns parâmetros de empacotamento, tais como, coeficiente de ajuste granulométrico acumulado - R2 Acum, diâmetro máximo de partículas - Dmax e coeficiente de empacotamento - q, com a fluidez livre inicial (F0) e o teor de água consumido durante a mistura dos concretos.

Por exemplo, os concretos B e C possuem coeficiente de empacotamento igual a 0,26, o qual facilita o bombeamento e é mais adequado às solicitações reológicas oriundas da projeção a úmido, em relação ao material A com q = 0,28, conforme já relatado [9, 12, 18].

Os concretos B e C também apresentam bons ajustes granulométricos (baixos valores de R2 Acum), o que pode reduzir o consumo de água e melhorar ainda mais a fluidez do concreto.

Adicionalmente, a distribuição do tamanho de partículas no C é mais aberta (Dmax = 8 mm) que nos materiais A e B (Dmax = 4,75 mm). A presença de agregados maiores aumenta o efeito cisalhante sobre a matriz durante a mistura e homogenização do concreto, o que resulta em maiores níveis de fluidez livre considerando um mesmo teor de água.

Ciclos de cisalhamento

Dentre as principais características que um concreto para projeção deve apresentar podem ser destacadas uma baixa área de histerese, indicando boa eficiência de mistura, um comportamento pseudoplástico e um nível máximo de torque durante o cisalhamento com restrição de volume menor que 10 Nm [9].

Na Fig. 6 podem ser destacadas duas regiões citadas pela literatura como ótimas para bombeamento em baixas e altas taxas de cisalhamento (rotação). Na região referente a rotações baixas (1 a 5 rpm) podem ser identificadas eventuais tendências a segregação do concreto, caso não ocorra resposta de torque com o aumento da rotação [15, 17, 18].

A região delimitada para rotações elevadas (70 a 80 rpm) é importante para limitar o torque máximo em valores proporcionais àqueles fornecidos pelos equipamentos industriais de bombeamento. Acima de 10 Nm o excesso de atrito acelera o endurecimento do concreto, elevando a energia para bombeamento, além de gerar maior desgaste por abrasão na bomba, mangueira e bocal de projeção [10, 18].

Pode-se também observar (Fig. 6) que o concreto B mesmo quando submetido ao ciclo de cisalhamento sob volume restrito não apresentou elevação significativa da área de histerese e do torque máximo, mantendo também, seu comportamento pseudoplástico.

Por outro lado, o A, que anteriormente já apresentava características não tão bem ajustadas para a aplicação por bombeamento e projeção a úmido (p.e. baixo teor de matriz e fluidez livre nula), quando submetido a limitação de volume exibe um perfil tipicamente dilatante em rotações elevadas resultando em um torque máximo (16 Nm) muito acima do adequado (10 Nm) para aplicações por projeção a úmido [9, 18].

Testes de consolidação

O último ensaio que compõe a caracterização reológica multi-estágios proposta pela literatura [9, 11] para avaliar e desenvolver concretos refratários avançados aplicados por projeção a úmido em canais de corrida é o de consolidação no cone de projeção. Este ensaio foi desenvolvido a partir de aperfeiçoamentos baseados em estudos de Yauhiro para otimização de aditivos coagulantes utilizados em concretos para projeção [5].

Para ser possível correlacionar os aspectos granulo-métricos e reológicos com as situações típicas que podem ocorrer com o concreto projetado foi utilizado um dispositivo cônico com rugosidade superficial controlada (lixa grão 80) e com uma região de compactação (tela polimérica), que simulam juntamente com o elemento cisalhante adequado, a etapa de pulverização e consolidação do concreto [9].

Apesar do teste de consolidação ser uma ferramenta importante para caracterizar e desenvolver concretos para projeção a úmido em laboratórios, ele apresenta apenas um caráter comparativo, e impõe condições de análise mais severas que a prática [11, 18].

Os principais fatores que levam as condições laboratoriais a serem mais rigorosas que na prática são: a pequena distância do ponto de projeção à superfície e o ângulo de projeção muito agudo [9, 11]. Apesar de parecer um ponto desfavorável à técnica, na verdade é positivo.

Um concreto que obtiver um elevado nível de consolidação nas adversas condições impostas pelo dispositivo cônico, passa a ter maior probabilidade de apresentar superior desempenho, quando for aplicado em condições industriais.

O ensaio de consolidação utiliza como aditivo coagulante 1%-p de solução de cloreto de cálcio com concentração de 400 g/L. Os resultados observados na Fig. 7 revelaram que o concreto B, que já vinha apresentando resultados coerentes com as especificações sugeridas para concretos projetáveis, tais como distribuição granulométrica ajustada e elevada fluidez livre, possui o maior nível de consolidação (89%), com praticamente o mesmo teor de água total (água de mistura + solução de CaCl2) dos outros concretos.

 

 

Este índice de 89% obtido no dispositivo cônico indica que em aplicações reais como em canais de corrida, o nível de adesão do concreto B tende a ser ainda mais elevado (praticamente sem nenhuma perda por rebote), principalmente considerando que a geometria do canal de corrida favorece uma maior consolidação [1].

Em outros equipamentos siderúrgicos, como o carro torpedo, já são esperadas menores taxas de deposição em virtude do acesso menos favorável dos bocais de projeção à superfície de consolidação [1, 2].

Este resultado comprova a grande dependência da etapa de projeção, em relação aos passos anteriores de processamento (mistura e bombeamento). Isto pode ser constatado no material B, o qual apresentou durante todas as etapas da avaliação multi-estágios propriedades adequadas para atender às solicitações impostas pelas simulações de uma aplicação por bombeamento e projeção a úmido.

Classificação de desmpenho

Após a execução de todas as etapas propostas pela caracterização reológica multi-estágios, realizou-se uma classificação de desempenho entre os três concretos comerciais avaliados com o intuito de verificar qual seria o resultado da correlação de todos os dados obtidos nas diversas etapas, e assim, comprovar a validade dos critérios granulométricos e reológicos propostos por este trabalho.

Foram selecionados 15 parâmetros considerados relevantes, sendo cinco teóricos relacionados ao empacotamento de partículas, e 10 baseados nos diversos resultados coletados durante as etapas experimentais da avaliação multi-estágios. Em cada parâmetro selecionado para comparação foram atribuídos pontos de 1 (pior conceito) a 3 (melhor conceito), sendo que a soma dos pontos acumulados nas 15 variáveis determina o material de maior desempenho global, ou seja, com melhor otimização granulométrica e com respostas reológicas dentro dos limites considerados adequados.

Na Tabela III são descriminados todos os parâmetros que são considerados para a classificação final de desempenho, assim como, os valores numéricos para cada uma das variáveis que são consideradas na pontuação para determinação do concreto de maior desempenho. Utilizando este critério é possível observar que o concreto B apresenta a maior pontuação (39 pontos), resultando no concreto com melhor desempenho.

A segunda colocação foi alcançada pelo C (35 pontos), e em último lugar está o material A (21 pontos).

É importante lembrar que esta classificação se relaciona apenas aos aspectos de preparação, bombeamento e projeção. Uma avaliação completa do concreto necessitaria, adicionalmente, de testes como choque térmico, resistência a oxidação, ataque por escória, erosão e módulo de ruptura a quente.

 

CONCLUSÕES

A crescente automação na aplicação de concretos refratários deve-se ao entendimento simultâneo das solicitações da técnica de instalação e da natureza reológica destes materiais. Contudo, procedimentos convencionais de análise como o ensaio de consistência ou testes pós-cura são insuficientes para avaliar todas as solicitações que os concretos são submetidos durante o bombeamento e a projeção.

Com o emprego de formulações comerciais, neste trabalho foi possível consolidar a técnica multi-estágios como ferramenta de caracterização e desenvolvimento de concretos refratários. Adicionalmente, constatou-se sua confiabilidade e eficiência na classificação de desempenho granulométrico e reológico de concretos refratários.

Quando um concreto é submetido aos protocolos classificatórios propostos neste trabalho, os quais consideram a somatória de todas as características, tanto granulométricas quanto reológias, e ele culmina na melhor classificação frente aos outros avaliados, é um forte indicativo que as características práticas também serão superiores.

 

AGRADECIMENTOS

Ao PIBIC/CNPq pelo suporte oferecido e às empresas que fornecem os materiais para o testes.

 

REFERÊNCIAS

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(Rec. 18/12/2006, Ac. 11/05/2007)

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