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Rem: Revista Escola de Minas

Print version ISSN 0370-4467On-line version ISSN 1807-0353

Rem: Rev. Esc. Minas vol.54 no.1 Ouro Preto Jan./Mar. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672001000100008 

Expressão Gráfica e Novos Meios Educativos

 

Ensino de geometria descritiva: inovando na metodologia

 

Regina Coeli Moraes Kopke
Departamento de Fundamentos de Projeto
Universidade Federal de Juiz de Fora
Professora Adjunto IV Licenciada em Desenho e Plástica UFJF
Mestranda em Comunicação e Cultura UFRJ/UFJF
E-mail: rekopke@engprod.ufjf.br

 

 

Resumo

Com base na observação, durante anos de magistério superior, na área de desenho, dos alunos de Engenharia, Matemática, Arquitetura e Artes, quanto às dificuldades encontradas por eles no aprendizado de desenho, em especial da Geometria Descritiva, é que nos propusemos, em 1999, lecionar essa disciplina para os cursos de Arquitetura e Artes, adotando uma metodologia diferente da convencional, para despertar, no aluno, o gosto pela disciplina e o desenvolvimento de uma habilidade pouco trabalhada na escola: a visão espacial. Mostrar para os alunos que essa disciplina não é difícil, mas apenas diferente daquilo que estudaram até então, tornou-se nossa meta. A visão espacial é uma habilidade mental localizada no lado direito do cérebro e, assim, quanto mais lúdica for esta aprendizagem, será mais bem assimilada. A proposta é iniciada no sentido de se trabalhar primeiro com sólidos: neles estarão os pontos, retas e planos normalmente abordados na metodologia convencional, nessa ordem. Como conclusão, tem-se que o importante é ressaltar o grande avanço que a Geometria Descritiva traz para quem quer representar graficamente qualquer coisa. Onde há planejamento, projeto e representação gráfica, aí estará a Geometria Descritiva.

Palavras-chave: Ensino de Geometria Descritiva, Lúdico na Pedagogia, Metodologia.

Abstract

During many years observing the teaching of design at the Engineering, Mathematics, Architeture and Arts courses, we can note the difficulties of the students to learn it, specially the descriptive geometry. Because of that, we decided to teach this discipline to the Architeture and Arts courses, using a new metodology to make the students motivated to study and to learn, and trying to develop their their spatial vision. We want to show to the students that this discipline is not so difficult as they think, but show them that is only different. The spatial vision is a mental skill found at the right side of the brain and the more soft the learning is, the more it is assimilated by the brain. The proposal begins with the use of the solids: at them are the points, lines and plans used by the conventional metodology, in this order. It is important to note the Descriptive Geometry contribuiton to demonstrate grafically any thing. Where is planning, project and grafical presentation, that is the Descriptive Geometry.

Keywords: Descriptive Geometry Teaching, Teaching and Playing Metodology.

 

 

Introdução

Com base na observação, durante anos de magistério superior, na área de desenho, dos alunos de Engenharia Civil e Elétrica, Matemática, Arquitetura e Artes, quanto às dificuldades encontradas por eles no aprendizado de desenho em geral, em especial da Geometria Descritiva, é que nos propusemos, em 1999, lecionar essa disciplina, em turmas específicas para os cursos de Arquitetura e Urbanismo e Artes, adotando uma metodologia diferente da convencional, buscando despertar, no aluno, o gosto pela disciplina e a descoberta de possibilidades, o desenvolvimento de uma habilidade pouco ou nada adquirida durante a vida escolar: a visão espacial.

Mostrar para os alunos que essa disciplina não é difícil, mas apenas diferente do que estudaram até então, tornou-se assim nossa meta ao ensinar Geometria Descritiva, assim como demonstrar para os alunos que, durante toda a vida escolar, as pessoas desenvolvem mais o hemisfério esquerdo de seus cérebros, deixando o direito "preguiçoso". A visão espacial é uma habilidade mental que tem seus mecanismos localizados do lado direito, do cérebro, daí ser totalmente diferente seu aprendizado. E, por estar mesmo do lado direito, é que, quanto mais lúdica for esta aprendizagem, mais rapidamente é apreendida e assimilada. A maioria dos alunos não foi estimulada suficientemente para trabalhar com a visão espacial, daí toda a dificuldade em se aprender, da forma tradicional.

Tudo isso permite supor que dar um caráter ativo ao ensino técnico é uma das condições mais importantes para a formação de 'habilidades' técnicas e versáteis, transferíveis a novas condições de atividades técnicas. Os métodos usados atualmente para a formação de habilidades técnicas não levam em contam essa condição fundamental, assim como os estudantes, durante sua vida escolar, não são educados através de um contato criativo com tarefas práticas. (Silveira apud Milerian, 1998).

 

Metodologia

Normalmente, a maioria da bibliografia específica em Geometria Descritiva aborda esse conteúdo a partir do estudo de pontos, passando para o de retas e finalmente, planos. A partir daí apresentam-se outras abordagens e exercícios.

Nossa proposta é iniciada de maneira radical, no sentido de se trabalhar primeiro com sólidos (Montenegro, 1991). Propusemos aos alunos que observassem objetos simples, de uso cotidiano, buscando aplicações específicas para Arquitetura e Artes. Partimos, então, do todo para as partes, do concreto para o abstrato, aprendendo a analisar as formas expressas por planos, inclinações e descobrindo a maneira correta de representação; tendo acesso, então, ao estudo dos sistemas projetivos.

Primeiro os alunos redesenham alguns objetos que lhes são apresentados em sala-de-aula, como a caixa-de-giz, uma caixa de papelão, um cilindro para guardar desenhos, uma maquete simples de uma casa, o retroprojetor e a própria sala-de-aula.

O importante é fazer com que eles representem esses objetos da maneira como os entendem. Aqui é verificada a capacidade que têm para representar objetos em perspectiva (Edwards, 1984). Uma noção desse tipo de desenho é logo passada ou revisada, no sentido de aprimorar algumas dificuldades com essa representação.

Para o desenho, estimulamos o uso de grafites macios e o desenho à mão livre e uso da cor, quando dos arremates. Ao apresentarem seus trabalhos, orientamos para que o façam em formato de portfólio, o que é diferente de os alunos apenas irem arquivando, em pastas, trabalhos já feitos e corrigidos pelo professor. Com a idéia do portfólio, eles aprendem a organizar suas apresentações e, assim, os trabalhos contêm mais do que simplesmente desenhos, contêm mais informações, como folha de identificação, índice, folhas de rosto separando assuntos, fundamentação teórica e bibliografia de apoio. Também a editoração e a forma como é apresentado são levadas em conta (Figura 1/ Figura 2).

 

Figura 1 - Portfólio de Gisele Corni Ribeiro (Arquitetura/UFJF).

 

Figura 2 - Portfólio de Cláudia H. Marques (Arquitetura/UFJF).

 

Impactos previstos

Ao observarem os sólidos ou objetos, logo os alunos perceberão, na realidade, que precisam representar, no desenho, suas faces, arestas e vértices e é aí que estarão contidos os planos, retas e pontos, abordados na metodologia convencional da Geometria Descritiva (Figura 3).

 

Figura 3 - Seqüência metodológica (sólido, plano, reta e ponto).

 

Dessa forma, os alunos compreendem bem a espacialidade e sua conseqüente representação com muita facilidade e com prazer, algo importante para ser resgatado, já que o ensino tradicional da Geometria Descritiva, em sua grande maioria, traz consigo listas de reprovação e evasão de alunos, pois, a partir do momento que não entendem o assunto, acham-no difícil. Se persistem, muitos acabam sendo reprovados ou desistem no meio do caminho. Como geralmente não são levados a partirem do concreto para o abstrato, a observarem primeiro os sólidos e depois, sim, representá-los através de sua perspectiva e projeções, analisando aos poucos que tais desenhos representam faces, arestas e vértices, que são os planos, retas e pontos abordados na Geometria Descritiva, o aprendizado de fato se torna difícil. Uns poucos privilegiados conseguem entender e são tidos como gênios por seus colegas.

Portanto, passada essa fase inicial, é que podemos considerar que os alunos estão preparados para aprenderem toda a conceituação e fundamentação da Geometria Descritiva (Figura 4 / Figura 5).

 

Figura 4 - Portfólio de Cláudia H. Marques (Arquitetura/ UFJF).

 

Figura 5 - Portfólio de Sabrina Beloti (Arquitetura/UFJF).

 

Agora, conhecer planos, retas e pontos, por suas nomenclaturas e classificações, ajuda na organização do aprendizado e essa fase é desenvolvida através de desenhos espaciais, que visam a representar o tridimensional, e as épuras, representando o bidimensional. A Figura 6 apresenta outros exemplos de trabalhos dos alunos.

 

Figura 6 - Páginas do Portfólio de Flávia Cristo Vago (Arquitetura/ UFJF).

 

Conclusão

No ensino da Geometria Descritiva, quanto mais se trouxerem, para a sala de aula, exemplos concretos, permitindo aos alunos raciocinarem do todo para as partes, percebendo as aplicações da teoria e conceituação no mundo que o cerca, através de seus objetos, mais facilmente eles irão aprender a raciocinar espacialmente.

A Geometria Descritiva apresenta toda uma possibilidade de se trabalharem no plano, as questões do espaço e, para alunos de Engenharia, Arquitetura e Artes, que, à princípio, trabalham com projetos ainda não construídos, materializados ou reformados, isso é fundamental (Arantes, 1998).

Para esses alunos que acabam de ingressar em seus cursos, o importante, sobretudo, é ressaltar, através de exemplos conhecidos, a grande contribuição que a Geometria Descritiva traz para quem quer representar graficamente ou projetar qualquer coisa. Onde há planejamento, projeto e representação gráfica, aí estará a Geometria Descritiva.

 

Agradecimentos

Aos alunos, pois sem sua criatividade e ousadia, esse trabalho não poderia estar sendo publicado.

Ao amigo professor Gildo Montenegro, que há 16 anos vem nos ensinando, encorajando e incentivando a ousar também como professora, referindo-se sempre à Geometria Descritiva com imenso prazer.

Ao professor e colega de departamento, Jorge Arbach, também atual Editor da UFJF, cuja orientação quanto ao uso de imagens, da cor e da digitalização tem sido sempre rica e valiosa.

 

 

Referências Bibliográficas

ARANTES, Otília. O lugar da arquitetura depois dos modernos. São Paulo: Edusp, 1995.         [ Links ]

CAVALCANTI, Zélia. Arte na sala de aula. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995         [ Links ]

EDWARDS, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1984.         [ Links ]

GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Desenhando: um panorama dos sistemas gráficos. Santa Maria: Edufsm, 1998.         [ Links ]

MONTENEGRO, Gildo de A. Didática da geometria descritiva. Gildo Montenegro, 1985.         [ Links ]

______________. Geometria Descritiva. São Paulo: Edgard Blücher, 1991.         [ Links ]

SILVEIRA, Maria Helena, Org. Imagem, tecnologia, educação: características psicológicas da transferência de capacidade dos estudantes de escolas politécnicas. Rio de Janeiro: NCP/UFRJ, 1998.         [ Links ]

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 1989.         [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 06/11/2000.

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