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Rem: Revista Escola de Minas

versão impressa ISSN 0370-4467

Rem: Rev. Esc. Minas v.54 n.1 Ouro Preto jan./mar. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672001000100013 

Expressão Gráfica e Conhecimento

 

Pensamento visual e inteligência

 

Gildo A. Montenegro
Ex-Professor do Departamento de Desenho da Universidade Federal de Pernambuco
E-mail:gildomon@uol.com.br

 

Resumo

O ensino de Desenho nas escolas brasileiras, nesses últimos anos, raras vezes tem ido além da memorização de seqüências ou algoritmos para solucionar problemas geométricos. Assim, suprimida sua função cultural, o Desenho acabou alijado da escola elementar e média. Contudo pesquisas sobre o funcionamento do cérebro permitem avaliar a importância da expressão gráfica para a formação integral da pessoa. Isto permite concluir que a volta do Desenho à escola deve ser feita em um novo padrão, capaz de estimular as capacidades mentais, utilizando a habilidade manual, a sensibilidade artística e a expressão gráfica para desenvolver a inteligência intuitiva, sem esquecer o lado racional, lógico e seqüencial do cérebro. Esse trabalho mostra alguns exercícios para chegar a esse objetivo, como um primeiro passo para mudar o sistema educacional dentro de um esforço integrado por Psicologia, Pedagogia, Neurociências e professores de Desenho.

Palavras-chave: Desenho, Inteligência Intuitiva, Capacidades Mentais, Cérebro, Neurociências.

Abstract

The teaching of Drawing in Brazilian schools has become less common in modern times. The rote memorizing of sequences or algorithms to solve geometrical problems has suppressed its cultural function. Drawing has moved away from the Primary and Intermediate levels. However, research on the functioning of brain allows us to evaluate the importance of graphic expression for its development. This allows to conclude that re-introduction of Drawing for schools must be made in new model capable of stimulating mental abilities, use manual dexterity, artistic sensitivity and graphic expression to help develop intuitive intelligence, but without forgetting rational, sequential, logical thinking. This work shows some exercises to advance this objective, as an initial stage to change the educational system in an effort to integrate Psychology, Pedagogy and Neurosciences with Drawing.

Keywords: Drawing, Intuitive Intelligence, Mental Abilities, Brain, Neurosciences.

 

 

1. Introdução

O desenho e a pintura acompanham o homem desde tempos pré-históricos. É visível (!) o acentuado crescimento da utilização da imagem visual a partir do advento da fotografia e, em seqüência, do cinema, da televisão e do computador. Paralelamente, vem ocorrendo o uso freqüente da sinalização em placas (nos ambientes externos ou em interiores) cada vez mais simbólicas: os pictogramas eliminam ou reduzem as legendas.

Não por acaso, "a percepção visual é a principal fonte de informação sobre o mundo exterior."(Lambert, 1985). Quase com as mesmas palavras Sagan (1977) endossa esta afirmação.

Mais: "Nenhum outro sentido [a não ser a visão] envolve tantas células nervosas, o que mostra bem o quanto precisamos da visão para aprender sobre o nosso ambiente."(Lambert, 1985).

Indo na direção contrária, portanto, a escola no Brasil está deixando de ensinar desenho; quando deveria, isto sim, deixar a criança garatujar mais cedo, incentivando o uso da cor e a coordenação motora, num primeiro momento. Utilizando o lápis de cor ou o giz de cera ou, de outra forma, dando expressão tridimensional à linha, pode a criança tirá-la da superfície plana e bidimensional do papel, fazendo riscos com o dedo na areia ou no barro úmido.

 

2.Começar Cedo

Isto pode ser feito já aos 6 a 12 meses de idade e é ótimo recurso para incentivar a criatividade infantil segundo o psicólogo norte-americano Sparling (1979). Ele recomenda falar e, sobretudo, fazer linhas retas, onduladas, quebradas, curvas, com traço fino de um só dedo, traço grosso juntando vários dedos, traços paralelos, assim como o uso de um graveto para riscar na areia ou no barro ou para fazer marcas como as dos antigos sumérios - a escrita cuneiforme.

Reconhecer as diferenças entre essas linhas é uma forma básica da educação visual; não apenas conhecer, mas FAZER, aplicar, usar as mãos em coordenação com a visão. Isto vem a estimular conexões neurais que levarão, aos poucos, a tarefas mais complexas como garatujar, desenhar e escrever. É assunto que o Professor Luiz Vidal (1996) trata muito bem no "Desenhismo" e noutros livros; livros que necessitam ser bem divulgados entre os professores, quer sejam de desenho ou não.

Através de sucessivas etapas, que autores como Lowenfeld, Samples e Sternberg abordam com detalhes, a criança chega à adolescência... para descobrir, com tristeza, que no processo de crescimento (?) perdeu sua autoconfiança e, com ela, sua capacidade de desenhar.

A precoce iniciação no modo racional de pensamento ocidental talvez resulte no abafamento da intuição, com a conseqüente falta de uso da criatividade, da inteligência intuitiva (i.e., não acadêmica) e da imaginação. A ênfase no racional tende a supervalorizar a sociedade de consumo, colocando a matéria sobre a mente, a fala e a escrita sobre o desenho, o dinheiro sobre a felicidade.

Absolutamente não se trata de considerar isto ou aquilo mais importante, na conceituação bem típica do pensamento aristotélico de "certo ou errado", mas admitir que todo excesso ou exclusividade tende a ser prejudicial. Claro que é muito importante saber se expressar oralmente e pela escrita; contudo não é menos válido saber expressar-se pelo desenho.

Ninguém pensaria em amarrar uma das pernas antes de caminhar, mas nós estamos aceitando abafar o modo intuitivo da mente, como se fosse coisa secundária e de menor importância. No antigo relógio de molas, hoje peça de museu, não haviam engrenagens mais ou menos importantes; ou elas estavam todas lá ou o conjunto não funcionava. Assim é a nossa mente. Ou usamos todo o nosso potencial, todas as nossas capacidades ou dons, ou nos candidatamos a problemas psíquicos: a alma pode falhar. E, quando ela falha, repercute no corpo; apesar de ele ser "material" como se diz, é também psíquico e espiritual, embora essa concepção vá de encontro ao secular hábito acadêmico que separa pedaços, classifica e não torna a juntar. Trata-se de reminiscência do pensamento tomista, a raiz do ensino que sobreviveu ao seu criador e impregnou, como um vírus, durante séculos, o pensamento ocidental.

 

3. Emoção e Grafismo

Falar do psíquico é falar de emoção. Emoção se expressa graficamente, também. E o nosso potencial de expressão gráfica, de fazer traços e marcas, é de tamanha importância que ele se manifesta do modo inequívoco antes das primeiras frases articuladas pela criança. O fato de o risco vir antes da fala (Greenspan, 1999) pode significar que é arriscado abafar a espontaneidade do traço infantil.

Afinal, para que ou por que abafar a expressão gráfica? Queremos pessoas felizes ou escravos cegos, calados e obedientes? O senso comum ou sabedoria popular percebe que uma emoção, sentimento ou pensamento expressado libera a alma. Não é outra a afirmação do provérbio "Quem canta, seus males espanta." O ditado pode ser generalizado para toda expressão do mundo interior, seja cantada, falada, escrita, imitada em movimento, ou DESENHADA.

 

4. Controvérsia Duradoura

Se deixarmos o campo do folclore para a área da Filosofia, vemos que o mundo se move, como já o dissera Galileu. Movendo-nos para o começo desse século, veremos desencadear-se formidável controvérsia. De um lado, o grande matemático David Hilbert afirmava que a lógica matemática sozinha poderia explicar todas as regras do raciocínio matemático; no campo oposto, estava Henri Poincaré assegurando que os conceitos da geometria se apóiam nas sensações corporais e no movimento. Mesmo com a adesão de Einstein às idéias de Poincaré, o mundo matemático ficou dividido em dois campos. Até que as Neurociências mostrassem suas evidências, passaram muitas décadas, quase um século. Hoje, os neuroanatomistas asseguram que a coordenação dos atos está profundamente na origem das funções cognitivas mais elevadas do cérebro humano.

Chamo a atenção para "a coordenação dos atos"; pois isto significa que o controle motor (processo mental) literalmente equilibra as partes com o todo. Ignoro até onde esse conceito apóia a moderna Robótica e os sistemas dinâmicos não lineares ou se teria sido ao contrário: a tecnologia levando aos conceitos. Deixo a discussão para os filósofos, pois aqui importa aplicar o conceito ao ensino do desenho.

A coordenação motora pode ser desenvolvida por meio de exercícios os mais variados. Em lugar de laboratórios sofisticados e computadores de última geração, vamos considerar o ambiente da escola sem verbas, onde seja fácil a coleta de sucata. Com criatividade e disposição, o professor faz o resto. Exemplos estao mostrados nos itens 5,6,7 e 8 seguintes:

 

5. Exercício 1

Utilizando palitos de picolé, criar uma estrutura capaz de suportar um adulto pesando 60 kg. A ligação dos palitos pode ser feita com cola rápida do tipo epóxi ou o adesivo utilizado para soldar canos plásticos para água. Será permitida, ou não, a utilização de faca.

Orientação: um bloco de palitos amontoados não caracteriza uma estrutura. Por outro lado, uma estrutura eficiente deve comportar menor quantidade de palitos que outra com muitas peças. Para melhor comparação dos trabalhos, se for o caso, podem-se fixar as medidas da base (22 x 11cm), estabelecendo ou não a altura.

 

6. Exercício 2

Tipos de traços:

A caneta esferográfica nasceu de um jogo infantil: mergulha-se uma bola de gude na tinta e deixa-se que ela risque sua trajetória, ora empurrada, ora levantando-se o papel. Lenda ou verdade, o inventor teve uma idéia criadora, fruto de aguda observação e de capacidade de representação simbólica e analógica.

E se, em lugar de esferas, as pessoas trabalhassem com outras formas? Vamos começar com um círculo e seu centro. Se o círculo se movimenta para a direita, seu centro descreve um movimento retilíneo como em A, na Figura 01.

 

Figura 01 - Trajetória do ponto A.

 

Um ponto excêntrico, como em B, na Figura 02, descreve a curva chamada ciclóide. Se o ponto estiver em C, na Figura 03, a trajetória passa a ser uma ciclóide encurtada. Bons livros apresentam variantes. O que não está neles é a mudança da figura; assim, se a figura for um triângulo eqüilátero, a trajetória fica como em D, na Figura 4.

 

Figura 02 - Trajetória do ponto B.

 

Figura 03 - Trajetória do ponto C.

 

Figura 04 - Trajetória do ponto D.

 

E se o ponto que risca a trajetória estiver em E, na Figura 05? Sugerimos, antes de fazer o traçado, esboçar a trajetória vendo mentalmente o que ocorre. A fim de exercitar a inteligência visual propomos os exercícios indicados na Figura 06.

 

Figura 05 - Qual a trajetória do ponto E?

 

Figura 06 - Determinar a trajetória de cada um dos pontos.

 

7. Exercício 3

Material: tábuas estreitas de caixotes de frutas ou madeira compensada de 3mm.

Finalidade: Observar o comportamento estrutural de:

a) Tábuas simplesmente empilhadas e recebendo carga.

b) Tábuas empilhadas e unidas por pregos ou parafusos com porca.

c) Tábua arqueada e atirantada.

 

8. Exercício 4

Material: garrafa plástica de 2 litros, cabos de vassoura, arame e pregos.

Finalidade: Construção de uma cadeira.

Variantes:

a) Usar arame para travar as peças.

b) Fazer pequenos armários, depósitos ou mesa de centro acrescentando pedaços de madeira prensada ou compensada ou papelão.

Esse exercício pode ser adaptado para a escola de 1º grau mediante substituição dos cabos de vassoura por canudos de refrigerante reforçados com vareta da palma de coqueiro no interior. Montando cubos e tetraedros, com as varetas amarradas por barbante, pode-se comparar o comportamento estrutural nos dois casos. Para construir brinquedos ou peças decorativas, as ligações podem ser feitas com arame de alumínio ou fio de cobre decapado.

 

9. Muitas Respostas

Além de serem ligados à vida cotidiana, os exercícios envolvem a aplicação de pensamento visual, de desenho e de coordenação motora: uma combinação ideal para desenvolver a inteligência intuitiva pela capacidade de antecipar mentalmente trajetórias ou o comportamento estrutural de um conjunto de barras. Em resumo: os exercícios fazem o aluno raciocinar a partir de suas próprias experiências. Isto os situa num ponto muito adiante da memorização de teoremas e algoritmos, da repetição mecânica de seqüências operacionais ou da ruminação infrutífera de raciocínios matemáticos.

Nem um só dos exercícios propostos faz parte de manuais acadêmicos convencionais. As respostas serão obtidas, ora pela imaginação espacial, ora pela confecção de modelos, e resultam num somatório de experiências novas: raciocínio lógico e seqüencial, raciocínio intuitivo e arte. Esses três aspectos diferentes da capacidade intelectual permitirão a descoberta de soluções múltiplas, individuais ou em equipe. Não há um produto acabado para ser engolido ou decorado, não há resposta única, nem certa, nem conhecida. Daí que o professor deve ter a humildade de reconhecer que pode saber tanto quanto seus alunos, ou até menos do que eles, sem que isto ameace sua posição de gerenciador da aprendizagem.

Assim, nos exercícios sobre trajetórias, poderemos considerar não um ponto fixo, o vértice de rotação da figura, mas seu deslizamento simultâneo à rotação. Mais: o eixo poderia deixar de ser uma reta, transformando-se em circunferência; são variáveis novas e desafiadoras. E qualquer dos demais exercícios comporta alternativas que aguçam a curiosidade e estimulam o espírito criativo e empreendedor. E, obviamente, amedrontam o menos aventureiro.

O que ainda falta aqui é a formulação de um esquema amplo de quais capacidades mentais seriam desenvolvidas com tais e quais exercícios. É tarefa para uma equipe multidisciplinar e inovadora, formada por pessoas que se dediquem ao estudo da inteligência visual; e isto ainda não foi feito ou sequer planejado, até essa data. Os cientistas, previsivelmente, mas de modo muito limitado, dedicaram seus esforços ao campo dos números e da lingüística. Com bons resultados, aliás, como são os casos de Dehaene e Pinker.

 

10. Arte & Imaginação

Qualquer dos exercícios sugeridos comporta tratamento artístico e toques de cores, ou seja, habilidade manual + geometria + arte, levando à compreensão da estabilidade estrutural (lógica racional). Se entendi bem a leitura de Herbert Read (Educação pela Arte), ele acreditava que a atividade artística desenvolve na pessoa um modo de experiência integral (racional + intuitivo, segundo presumo) e que, para desenvolver o pensamento lógico, não é necessário sacrificar a imaginação. Coisa que, em outras palavras, havia sido percebida ainda no começo desse século por Lênin (1986), entre outros.

Dewey, que não era artista, porém um educador de primeira ordem, foi mais longe ao escrever: "A função própria da imaginação é a visão de realidades e de possibilidades... Seu objetivo é penetrar no remoto, no ausente, no obscuro." E logo lembra que diversas disciplinas, entre elas geometria e aritmética, " contêm uma quantidade de argumentos sobre os quais a imaginação deve operar, para que possam ser compreendidos." (Os grifos são meus.)

Faço essas citações primeiro, porque todo trabalho intelectual aparenta menor valor se não tiver apoio de autor conceituado e, em segundo lugar, porque reforça o que venho pregando há muito: a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Aliás, essa frase não é minha e deveria estar entre aspas, pois foi dita na Academia de Ciências da Suécia no discurso em que Einstein agradecia o prêmio Nobel que acabava de receber. Em 1921!

A ciência e a tecnologia avançaram muito nesses 80 anos, mas uma parte do ensino está ainda presa às idéias adotadas na produção em massa há 150 anos e adaptadas para uma escola massificada. Naquele momento, por coincidência bem estranha, a fabricação industrial tinha o prestígio de que desfruta hoje o computador.

 

11. A Imagem Fala

Para compreender o mundo de hoje, a lógica linear e seqüencial têm se mostrado insuficientes; necessitamos, além disto, de uma percepção ampla e aberta e de uma lógica intuitiva (não racional), que são os fundamentos da inteligência visual.

A complexidade crescente da vida pede respostas criativas e, no entanto, a inteligência visual, sem treinamento, bloqueia o pensamento criativo e desestimula o crescimento espiritual e a expressão gráfica; daí acabamos sem entender o inter-relacionamento das coisas.

Vamos pensar em uma mudança mental que tire a exclusividade do puro pensamento racional, que tem se mostrado limitador do pensamento, e que leve à compreensão de que as imagens têm um poder de comunicação maior do que as palavras e de que essas imagens podem condicionar atitudes e formar pensamentos. Por quê?

A imagem fala diretamente com a emoção e com a parte mais profunda da mente e ela pode ser uma chave para desenvolver o lado psíquico da pessoa, aquilo que nos caracteriza como humanos. Ou haverá outro animal que desenha imagens?

 

12. Ilusão Perdida

A Professora Rejane M. Rego, em palestra apresentada no CEFET-PE (1999), chama a atenção para a "ilusão de que a máquina resolve tudo a um simples apertar de botões". Ela cita, nesse trabalho, uma frase de Manuel Castells, resumindo o que tenho escrito e falado nesses últimos anos: "... o uso do cérebro humano é agora a mais importante força produtiva na nossa economia".

Na verdade, a contabilidade financeira ainda não descobriu uma maneira de contar e de incluir em seus balanços essa mercadoria intangível que é o capital intelectual, que está muito além da moeda e dos títulos acadêmicos, pois, embora pertença ao nosso mundo interior, dá formidáveis resultados em idéias e produtos, que irão resultar em moeda, venda e renda.

Nós, professores, temos de abrir a mente dos colegas, cegos por uma formação obsoleta, para que as novas gerações não sejam contaminadas pelo vírus do racionalismo exacerbado, pelo confronto entre o certo e o errado: se isto está certo, aquilo está errado. A vida cotidiana não é tão simplória assim!

 

13. A Vez da Intuição

A intuição já foi incorporada pela Física (resultou na Física Quântica, um ramo inovador), pela Matemática (nos trabalhos do Professor Geraldo Azevedo, de Goiás), pela Pedagogia (nos estudos e aplicações do Professor Luiz Machado, PhD da UERJ), pela Medicina (nos trabalhos de Carl Simonton, Deepak Chopra, Mona Lisa Schultz e outros), pela Religião (de Confúcio e Buda, com milênios de antecipação, até os atuais líderes indianos como Krishnamurti, Paramahansa Iogananda, etc.), nos negócios e na economia (Wall Street Journal, MBA Magazine, Fortune). Por que o Desenho ficaria de fora? Essa mudança de mentalidade deixa o raciocínio lógico e seqüencial como mero ponto de passagem no desenvolvimento mental, e não como seu estágio final.

Não se trata de "filosofia" de botequim elaborada por um velho professor. Trata-se de uma questão de estratégia vital ou de sobrevivência do Desenho dentro do ensino. Na linha racional, o desenho esgotou, há muito tempo, sua possibilidade de crescimento, limitando-se a ruminar as mesmas idéias abstratas que estão em qualquer manual técnico, tanto que se viu excluído do currículo de 1º e 2º graus e se sente ameaçado no 3º grau. Ao aderir à linha intuitiva, seguindo a orientação das Neurociências, o Desenho volta a ser peça fundamental no ensino: desde a fase infantil (desde os primeiros dias!) até a idade avançada. Com essa orientação, o desenho volta a ser um dos meios de expressão para a liberação dos estados da alma, retornando à pujante linguagem expressiva que foi em outras épocas.

O que parece atrasar esse retorno à simplicidade, essa volta ao estilo pessoal de cada indivíduo é: 1) o medo de adotar metodologias educacionais novas, embora testadas; 2) a ênfase em estilos artísticos de tal ou qual escola ou indivíduo. Essa postura indecisa acaba tirando ao aluno a possibilidade de ser, ele mesmo, uma pessoa única e excepcional. Não estou propondo que se deixe de ensinar e de estudar modas, estilos e escolas artísticas; falemos disto, sim, apontando características de um ou mais artistas, porém sem jamais insinuar sequer que o aluno "imite" fulano. Afinal, cada um de nós tem algo válido, algo único, que não existe em nenhuma outra pessoa e que deve ser respeitado.

 

14. Missão Possível

Guarde-se, contudo, o professor de querer ser o descobridor desse "algo" inimitável. O professor apenas pode mostrar caminhos, pois a descoberta de si próprio é uma busca absolutamente pessoal. Seguir regras, sejam criadas pela pessoa ou impostas por outros, é uma maneira de aprisionar sentimentos.

Ser cativo ou ser livre há de ser uma opção pessoal. E quem optar pela liberdade deve estar consciente de que o tamanho dela será função da maior ou menor separação entre o que desejamos ser e o que os outros esperam que sejamos.

Já se vê que a missão do professor vai muito além de dar conhecimento. Como educador ele tem de fazer o aluno descobrir a si próprio, encontrar seu talento e, a partir daí, se sentir bem. Tão bem quanto possível, a maior parte do tempo e o mais freqüentemente possível.

Como o educador sabe que cumpriu sua missão? É simples. Basta que o aluno seja melhor do que o mestre.

 

 

Referências Bibliográficas

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GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Desenhismo. Santa Maria, RS: Universidade Federal de Santa Maria, 1996.         [ Links ]

GREENSPAN, Stanley I. A Evolução da mente. Rio de Janeiro: Record, 1999. p.55.         [ Links ]

LAMBERT, David et al. The brain: a user's manual. New York: Berkley Books, 1985. p.136.         [ Links ]

LÊNIN, Vladimir Ilitch. Obras completas. Moscow: Progresso, 1986. v. 45, p. 125.         [ Links ]

REGO, Rejane de Moraes. Expressão gráfica: conhecimento e criatividade no contexto atual de desenvolvimento tecnológico. Salvador: Trabalho apresentado no Encontro Nacional do CEFET-PE, 1999.         [ Links ]

SAGAN, Carl. Os dragões do éden. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. p.118.         [ Links ]

SPARLING, Joseph. Learningames. New York: Walker, 1979.         [ Links ]

Expressão Gráfica e Conhecimento

 

Artigo recebido em 06/11/2000.