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Rem: Revista Escola de Minas

versão impressa ISSN 0370-4467versão On-line ISSN 1807-0353

Rem: Rev. Esc. Minas v.60 n.3 Ouro Preto jul./set. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672007000300014 

ENGENHARIA CIVIL

 

Comportamento hidrológico de bacias hidrográficas: integração de métodos e aplicação a um estudo de caso

 

Hydrologic response of watershed to land use changes: integration of methods and application to a case study

 

 

Herlander Mata–LimaI; Hugo VargasII; Julia CarvalhoIII; Marcia GonçalvesII; Hugo CaetanoII; Andreia MarquesIV; Cristina RaminhosV

IDepart. de Matemática e Engenharias, Univ. da Madeira. Portugal. E–mail: hlima@uma.pt
IICMRP–Instituto Superior Técnico (IST) E–mail: hugo.vargas@ist.utl.ptmgoncalves@ist.utl.ptpcl42082@popsrv.ist.utl.pt
IIICoordenadora de Projectos Ambiente e Biofísica, SINFIC, S.A.R.L. E–mail: jcarvalho@sinfic.com
IVERM Iberia – Environmental Resource Management Spain. E–mail: andreia.marques@erm.com
VEngenheira dos Recursos Hídricos da Universidade de Évora, Portugal. E–mail: c_raminhos@sapo.pt

 

 


RESUMO

O tempo de concentração é uma variável que assume um papel fulcral na determinação do caudal e hidrograma do escoamento numa bacia hidrográfica.
Esse trabalho pretende constituir uma fonte exaustiva de informação sobre os diferentes métodos de cálculo do tempo de concentração e vazão de ponta na bacia hidrográfica. Subdividem–se os métodos em estritamente empíricos e semi–empiricos, evidenciando–se as vantagens e constrangimentos de aplicação de cada um deles a partir dos resultados obtidos para a bacia hidrográfica da ribeira do Livramento na região de Setúbal (Portugal). Os tempos de concentração obtidos pelos métodos empíricos e semi–empíricos são depois utilizados no cálculo da vazão de ponta pelos métodos Racional e de Soil Conservation Service (SCS) para ilustrar o impacto nos resultados bem como a vantagem de aplicação de cada um dos métodos.
Os resultados demonstram que os métodos semi–empíricos possibilitam a avaliação do impacto das intervenções de engenharia no comportamento hidrológico da bacia, visto que permitem considerar a variabilidade espacial e espácio–temporal das características biofísicas da bacia hidrográfica.

Palavras–chave: Tempo de concentração, método estritamente empírico, método semi–empírico, vazão de ponta, variabilidade espácio–temporal.


ABSTRACT

This article intends to present different methods to calculate the concentration time (tc) and discharge in watersheds. The methods are divided into empirical and process–based and were applied to the Livramento watershed in Portugal.
Due to the watershed's spatial heterogeneity and space–time variability, one suggests use of the process–based method rather than the empirical in order to achieve more accurate results, since watershed occupation does not remain the same over time. The time of concentration obtained by empirical and process–based methods are then used to compute watershed discharge through the Rational and Soil Conservation Service methods. With this procedure one can predict the impact of man–made projects on watershed hidrology.
The results show that process–based methods can be useful to assess the impact of a project in hydrologic system.

Keywords: Time of concentration, empirical method, process–based method, flood discharge, space–time variability.


 

 

1. Introdução

Não obstante existirem vários métodos de cálculo do tempo de concentração em bacias, é comum recorrer–se aos métodos estritamente empíricos, provavelmente devido à facilidade associada à sua aplicação, descurando as limitações dos mesmos em representar a situação real – sobretudo quando se tratam de bacias fisiográfica e ocupacionalmente heterogêneas.

O tempo de concentração (tc) é o tempo de percurso da água precipitada desde o ponto cinematicamente mais afastado da bacia hidrográfica até a secção de referência. Sendo o tempo de concentração uma grandeza fundamental para a compreensão do escoamento produzido na bacia hidrográfica e também para o dimensionamento de sistemas de drenagem, armazenamento e controle, a sua determinação deve ser tão rigorosa quanto possível.

O trabalho analisa, de modo comparativo, os diferentes métodos de cálculo do tempo de concentração e a sua influência na vazão de ponta de bacias hidrográficas. Houve a preocupação de subdividir os métodos em dois grupos:

i) Estritamente empíricos.

ii) Semi–empíricos.

Consideram–se métodos semi–empíricos todos aqueles que, não sendo fisicamente baseados, permitem ter em conta a heterogeneidade espácio–temporal da bacia no que concerne às características biofísicas (e.g. tipo de vegetação e densidade, tipo de ocupação e uso do solo, topografia) que, como se sabe, varia no espaço e no tempo. Essa variabilidade espácio–temporal leva a que os modelos distribuídos, i.e., que não consideram a bacia como uma unidade única e homogênea, conduzam a resultados mais condizentes com a realidade.

O trabalho faz referência, ainda, ao domínio de aplicação dos métodos, bem como à adequação dos mesmos às diferentes situações.

Os resultados obtidos para os diferentes métodos são apresentados, de modo comparativo, entre si, com o fim de evidenciar a relação entre os mesmos.

 

2. Metodologia

2.1 Aspectos gerais

Como já foi referido, o tempo de concentração é uma grandeza fundamental no estudo hidrológico da bacia, visto que representa a influência conjugada de diferentes fatores (e.g. o tipo de ocupação e uso, a rugosidade da superfície do terreno, a geometria dos canais e planos de escoamento e o declive).

2.1.2. Rugosidade da superfície

Bacias rurais produzem pouco escoamento comparativamente a bacias urbanas (ver Figura 1). As bacias rurais possuem terrenos com maior capacidade de infiltração e o escoamento sofre retardamento provocado pelo coberto vegetal que funciona como macrorugosidade, oferecendo resistência ao escoamento (Chaveca, 1999; Raminhos, 2002). Por outro lado, a intercepção da precipitação pelo coberto (e.g. árvores e arbustos) é fundamental para redução da quantidade e o impacto do escoamento.

 

 

No caso de bacias urbanas, a quantidade de precipitação que atinge a superfície do solo (ou precipitação efetiva) e o escoamento são manifestamente superiores pelos seguintes motivos: i) reduzida intercepção pelo coberto vegetal; ii) fraca infiltração conseqüente da elevada percentagem de área impermeabilizada; e iii) o escoamento ocorre segundo planos e canais muito bem definidos (e.g. estradas, valas, coletores pluviais, etc.). Todos esses fatores contribuem para que o tempo de concentração seja inferior em bacias com características urbanas.

2.1.3. Precipitação e teor de humidade do solo

De acordo com Ramser (apud Hotchkiss & McCallum, 1995), o tempo de concentração varia ligeiramente com a intensidade de precipitação e o teor de humidade inicial do solo. Portanto o tempo de concentração é tanto menor quanto maior for a intensidade de precipitação e o teor de humidade inicial do solo.

2.1.4 Geometria dos canais e planos de escoamento

Em bacias não–urbanas, o tempo de concentração depende, essencialmente, do escoamento sobre o terreno. Contudo o crescimento urbano reduz, progressivamente, o escoamento sobre o terreno, substituindo–o pelo escoamento em canais prismáticos. Visto que esses canais possuem elevada "eficiência hidráulica", a velocidade do escoamento é elevada, o que diminui, consideravelmente, o tempo de concentração das bacias hidrográficas.

2.1.5 Declive

No que diz respeito ao declive, a situação não é óbvia como nos casos anteriores. O crescimento urbano (ou urbanização) de uma dada bacia não significa, necessariamente, o aumento do declive, pois tudo dependerá da geomorfologia da região e da perícia do projetista. Porém sabe–se que, após a urbanização da bacia, os efeitos do declive, no escoamento, ganham maior significado se houver a tendência de se construirem canais impermeáveis (em betão), retilíneos e perpendiculares aos planos de encostas para recolher e drenar a água pluvial.

MOTH (1998) apresenta os seguintes valores mínimos do tempo de concentração (tc) recomendados para diferentes tipos de bacias de pequenas dimensões: i) urbana – 5 minutos; ii) residencial – 10 minutos; e iii) rural – 15 minutos.

Também WSDOT (1997) afirma que o valor de tempo de concentração a adotar no estudo hidrológico não deve ser nunca inferior a 5 minutos.

Informação mais exaustiva sobre os fatores que afetam o tempo de concentração constam de Laurenson et alii. (1985), Schueler (1987), ASDOT (1995) e Wong et alii. (1998).

O tempo de concentração (tc) influencia a forma e o pico do hidrograma do escoamento e vários autores publicaram estudos nesse âmbito (ver, e.g., Marsh, 1983, Correia, 1984; Portela et alii., 2000). É, por conseguinte, uma grandeza fundamental na avaliação hidrológico–ambiental da bacia.

Nesse trabalho, os métodos de cálculo do tempo de concentração são subdivididos em duas categorias: i) estritamente empíricos; e ii) semi–empíricos.

2.1.6 Métodos estritamente empíricos

Resultam da análise estatística de grandes volumes de informação de campo que conduzem à obtenção de equações de regressão. Esses métodos baseiam–se no estabelecimento de uma relação entre o tempo de concentração e as características fisiográficas da bacia através da análise de regressão linear múltipla, o que leva a que a sua aplicação seja mais segura em situações que estiveram na base do seu desenvolvimento. São, por isso, métodos rígidos e estáticos, que não consideram a variabilidade espacial e temporal da bacia. Porém são métodos expeditos (não exigem dados de entrada detalhados), importantes para a fase preliminar do estudo (estudo prévio ou anteprojeto) de uma dada bacia.

2.1.7 Métodos semi–empíricos

Nesse trabalho, consideram–se métodos semi–empíricos (ou process–based methods) aqueles que não são estritamente empíricos e estáticos por incluírem parâmetros que variam em função das características ocupacionais da bacia, denotando, portanto, flexibilidade no uso. Trata–se de métodos particularmente importantes por permitirem analisar os diferentes cenários e, sobretudo, por viabilizarem a previsão do comportamento hidrológico face às alterações propostas (Mata–Lima, 2006). É com base nesses métodos que se deve avaliar a necessidade de adotar sistemas de controle do escoamento, tais como bacias de retenção e detenção, entre outros.

Dos vários métodos semi–empíricos existentes, o método do Soil Conservation Service (SCS, 1972) é daqueles que se podem considerar menos empírico por reflectir, de certo modo, os processos que ocorrem na bacia, visto incluir o número do escoamento na sua expressão de cálculo.

 

2.2 Métodos de cálculo do tempo de concentração nas bacias hidrográficas

Esse subitem apresenta os diferentes métodos, estritamente empíricos (ver Quadro 1) e semi–empíricos (ver Quadro 2), utilizados para calcular o tempo de concentração nas bacias hidrográficas.

Ainda sobre o método designado por SCS Lag (equação 14a do Quadro 2) convém realçar os seguintes aspectos:

O parâmetro CN procura definir, mediante um valor numérico, a influência do terreno no comportamento do escoamento superficial. A atribuição do CN está associada à constituição geológica da área e ao tipo de ocupação e uso do solo.

USDA (1997) chama atenção para o fato de o declive médio da bacia (i) na equação (14a) ser obtido através do mapa topográfico medindo–se os declives das encostas na direção do escoamento sobre o terreno, sendo (i) a média dos declives dos terrenos medidos:

onde: i é o declive médio da bacia [%], A é a área da bacia [m²], Lc é o comprimento total da curva de nível [m] e Ic é a equidistância entre as curvas de nível [m].

Esse método reflete, essencialmente, o escoamento concentrado. É apontado como aquele que se pode considerar mais fisicamente baseado por refletir, de certa forma, os processos que ocorrem na bacia (USACE, 1994), daí a possibilidade de se obterem valores diferentes para o período de pré e pós–desenvolvimento, permitindo testar a influência dos diferentes cenários de ocupação da bacia hidrográfica.

Cálculo do tempo de concentração nos planos de escoamento

Para o cálculo do tempo de concentração nos planos de escoamento (e.g. encostas), recomendam–se, nesse trabalho, os métodos semi–empíricos, uma vez que a informação necessária para aplicação dos mesmos é acessível. Além disso, a magnitude de erro resultante da aplicação de uma metodologia imprópria é muito mais acentuada no caso de encostas devido à pequenez do universo do estudo, que não permite a atenuação sucessiva do erro. (Quadro 3).

2.3. Atribuição do coeficiente de escoamento da fórmula racional (C) e número de escoamento (CN) à bacia hidrográfica

O método racional é, inquestionavelmente, o método de cálculo da vazão mais divulgado. Uma das razões que contribuem para o maior uso do método racional é a sua relativa simplicidade.

Por outro lado, o método do Soil Conservation Service (SCS) é de aplicação mais complexa, designadamente no que concerne à atribuição do número do escoamento (curve number, CN), que, tal como o coeficiente de escoamento (C) da fórmula racional, caracteriza as condições biofísicas da bacia hidrográfica. A dificuldade advinda da atribuição do parâmetro CN às bacias inibe a aplicação desse método em situações de projeto, por isso as entidades de consultoria em engenharia realizam estudos hidrológico–ambientais baseados, essencialmente, no método racional.

Com o intuito de ultrapassar esta dificuldade, apresenta–se, nesse trabalho, uma equação empírica que relaciona o parâmetro CN com o coeficiente do escoamento C, com a precipitação total (Ptot) e com o parâmetro fa = Ia/S (ver Smith, 2004).

Visto que existe o conhecimento suficiente para a atribuição tão rigorosa quanto possível do coeficiente C às bacias, o parâmetro CN pode ser aproximado com base na equação (22) (Smith, 2004):

onde: Ptot é a precipitação total, Ia são perdas iniciais da precipitação, S é a máxima capacidade de retenção do solo e C é o coeficiente de escoamento da fórmula racional. Os valores de Ptot, Ia e S são expressos em polegadas (25.4 mm).

A equação anteriormente apresentada vem facilitar, sobremaneira, a aplicação dos métodos semi–empíricos, de cálculo do tempo de concentração, que permitem ter em consideração a evolução das condições biofísicas da bacia (i.e. condição de ocupação e uso da bacia), sendo, por essa razão, métodos dinâmicos. Os métodos semi–empíricos são fundamentais para avaliar o impacto das intervenções de engenharia no meio natural.

2.4 Métodos de cálculo da vazão de cheia

Para o cálculo da vazão de cheia, consideram–se dois métodos, a saber: i) método Racional modificado (ver, e.g., Chow at alii., 1988, WSDOT, 1997, DIDM, 2001, GDOE, 2001, VDOT, 2001, DMR, 2002) e ii) método do Soil Conservation Service – SCS (ver, e.g., SCS, 1972, 1986; Mata–Lima et alii., 2006; Mata–Lima, 2006).

A obtenção da vazão de cheia pelo método Racional corresponde à seguinte equação:

onde: Qp é a vazão de ponta um determinado período de retorno [m³/s], A é a área da bacia [ha], I é a intensidade de precipitação [mm/h], a e b são parâmetros da curva I–D–F (ver quadros 3 e 5), C é o coeficiente de escoamento [–] (ver, e.g., GDOE, 2001, VDOT, 2001); kf é o factor de frequência do período de retorno (assume o valor de 1.25 para o período de retorno de 100 anos – ver, e.g., WSDOT, 1997, VDOT, 2001).

Quando se considera kf igual à unidade, independentemente do período de retorno considerado, o método racional diz–se simples (ou convencional).

A aplicação do método do SCS é mais complexa relativamente ao método Racional e implica a resolução das seguintes equações:

onde: R é o escoamento acumulado ou precipitação efetiva [mm], P é a precipitação acumulada (escoamento potencial máximo) [mm], S é a capacidade máxima de armazenamento no solo [mm], Ia são as perdas iniciais (de precipitação) devido à intercepção pelo coberto vegetal, infiltração e retenção em depressões de terreno [mm], CN é o número do escoamento, que varia em função do tipo de solo e da ocupação e uso da bacia hidrográfica, Qp é a vazão de ponta para um determinado período de retorno [m³/s]. Detalhes acerca da aplicação do método de SCS pode ser consultado em Mata–Lima et alli. (2006).

 

3. Estudo de caso: bacia hidrográfica da ribeira do Livramento

Recorre–se a um caso de estudo de modo a ilustrar as metodologias anteriormente descritas. Considera–se a bacia hidrográfica da ribeira do Livramento, afluente do estuário do Sado, cujo limite de jusante corresponde à entrada em coletor no início da cidade de Setúbal – de acordo com a Figura 2 (Rego & Correia, 2000)

O Quadro 4 sintetiza as principais características fisiográficas da bacia, de acordo com Rego e Correia (2000). Os parâmetros da curva Intensidade–Duração–Frequência (I–D–F) da precipitação utilizados são os correspondentes à região de Setúbal (Quadro 5).

 

4. Resultados e discussão

Nessa seção, apresentam–se, de modo comparativo, os resultados da aplicação dos diferentes métodos empíricos e semi–empíricos, anteriormente descritos, privilegiando–se a informação gráfica de modo a facilitar a sua interpretação.

Os resultados revelam uma grande amplitude de variação entre os valores de tc obtidos para os diferentes métodos. Merece destaque o fato de os valores do tempo de concentração, apresentados na Figura 3a, permitirem a subdivisão em dois grandes grupos:

i) 164 < tc [min] < 235 (Ventura, Temez, B. Williams, Pasini & Giandotti).

ii) 56 < tc [min] < 100 (Kirpich, Ven Te Chow, Picking, CHPW & Epsey).

Estabelecendo a analogia com a Figura 3b, constata–se que os grupo (i) e (ii) possuem uma ordem de grandeza próxima do valor obtido para os métodos de SCS Lag e Federal Aviation Administration, respectivamente. Importa salientar que os métodos enquadrados no grupo (i) simulam resultados (ver Figura 4) mais próximos dos observados para a bacia de Livramento que constam de Rego e Correia (2000) e Correia et alii. (1999).

Finalmente, é importante ter em atenção o fato de que, em situações de projeto, os métodos enquadrados no grupo (ii) simulam a caudais de ponta mais elevados e menor duração do hidrograma do escoamento.

 

 

 

4.1 Evolução do tempo de concentração e caudal em função das condições biofísicas da bacia hidrográfica

A análise comparativa entre os métodos estritamente empíricos e semi–empíricos, cujos resultados constam da Figura 4, revela a vantagem de aplicação dos métodos semi–empíricos relativamente aos primeiros. Os resultados dos métodos semi–empíricos demonstram uma evolução temporal em função das condições de ocupação de uso da bacia contrariamente aos dos métodos estritamente empíricos, que são completamente estáticos (i.e. constantes no tempo). Essa diferença de comportamento dos dois métodos deve–se ao facto de os métodos semi–empíricos terem em consideração um parâmetro (e.g. CN, C) que reproduz as características biofísicas da bacia hidrográfica, não se limitando, apenas, aos parâmetros geométricos da mesma.

 

5. Conclusões

O tempo de concentração é função das características biofísicas (e.g. ocupação e uso do espaço) da bacia e a sua magnitude influencia o pico e a forma (designadamente a largura da base) do hidrograma do escoamento na bacia, sendo, por conseguinte, uma grandeza fundamental para avaliação hidrológica das bacias.

Os métodos estritamente empíricos são de aplicação mais simples, uma vez que consideram apenas os parâmetros geométricos da bacia e, por essa razão, são mais utilizados na prática de engenharia. No entanto, os métodos semi–empíricos têm a vantagem de permitir considerar as características biofísicas da bacia, geralmente representadas pelo coeficiente de escoamento (C) ou pelo número de escoamento (CN), parâmetros úteis para se avaliar o impacto das intervenções de engenharia (e.g. obras que provocam a impermeabilização da superfície) no comportamento hidrológico da bacia (ver Figura 4). Tal vantagem deve–se ao fato de esses métodos integrarem parâmetros que caracterizam a variabilidade espácio–temporal da bacia hidrográfica.

Convém realçar, também, que a determinação dos parâmetros que definem as características de ocupação e de uso da bacia (e.g. coeficiente de escoamento, número de escoamento e coeficiente de rugosidade) deve basear–se em modelos distribuídos (distributed models), uma vez que os modelos concentrados (lumped models) não permitem ter em consideração a heterogeneidade espacial da bacia.

 

6. Agradecimento

Os autores aproveitam o ensejo para expressar agradecimento aos referees pelas contribuições apresentadas.

 

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Artigo recebido em 21/03/2006 e aprovado em 07/12/2006.

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