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Rem: Revista Escola de Minas

Print version ISSN 0370-4467

Rem: Rev. Esc. Minas vol.62 no.3 Ouro Preto July/Sept. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672009000300018 

ENGENHARIA CIVIL

 

A restauração do Teatro Municipal de Ouro Preto - MG

 

The restoration of Ouro Preto's City Theater building

 

 

Elisângela Rodrigues da Silva AraújoI; Klaydson D. Lopes FrançaII; Ernani Carlos de AraújoIII; Henor Artur de SouzaIV

IEngenheira Civil, Escola de Minas, UFOP, Ouro Preto, MG. E-mail: ersmg@gmail.com.br
IIPrograma de Pós-Graduação em Engenharia Civil, DECIV, Escola de Minas,UFOP, Ouro Preto, MG. E-mail: klaydsongerais@yahoo.com.br
IIIProfessor, Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil, DECIV, Escola de Minas, UFOP, Ouro Preto, MG. E-mail: ecar_em@yahoo.com.br
IVProfessor, Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil, DECIV, Escola de Minas, UFOP, Ouro Preto, MG. E-mail: henor@em.ufop.br

 

 


RESUMO

Nesse trabalho, faz-se uma avaliação das intervenções, em sistemas estruturais, destinadas à restauração do teatro municipal de Ouro Preto-MG. O atual processo de intervenção se baseia em observações de outras intervenções, já realizadas ao longo da história, nas diretrizes estabelecidas pelo Comitê Internacional para Análise e Restauração de Imóveis do Patrimônio Arquitetônico (ICOMOS) e em análises laboratoriais. A recuperação de edificações de importância histórica deve ser precedida de um planejamento detalhado para que o processo de intervenção não venha a comprometer a construção original.

Palavras-chave: Edificações históricas, avaliação de intervenções, restauração.


ABSTRACT

This work presents the results of an assessment of interventions performed in structural systems for the restoration of Ouro Preto's City Theater building. The current process of intervention is based on observations of other interventions performed along the previous years, on guidelines established by the International Council on Monuments and Sites (ICOMOS), and on laboratory tests. The restoration of buildings of historical importance must be preceded by a detailed planning in order to avoid having an intervention process that compromises the original structure.

Keywords: Historical buildings, assessment of interventions, restoration.


 

 

1. Introdução

1.1 Vila Rica-MG e a importância do teatro

Desde os primórdios da colonização do Brasil, o teatro, aliado à religião, vem contribuindo para a formação da nação. Embora pareça que o objetivo dos colonizadores fosse a exploração das riquezas do país, houve, também, preocupação com o aspecto cultural, não só na Corte, mas em quase todas as vilas. Esse fato não foi diferente em Vila Rica, fundada em 1711. O ouro abundante propiciou um progresso jamais visto no interior do Brasil, transformando Vila Rica na maior cidade das Américas. A produção cultural era tão profícua quanto a aurífera na Capital das Minas Gerais. Assim, na Rua Santa Quitéria, em 1769/1770, inaugurava-se a Casa da Ópera de Vila Rica. João de Souza Lisboa, construtor e proprietário da obra, também o Contratador dos reais quintos e entradas, foi apoiado pelo Conde de Valadares, governador da Capitania, e por Cláudio Manoel da Costa, Secretário de Governo (CTAC, 1997).

Hoje, a Casa da Ópera de Vila Rica, é o Teatro Municipal de Ouro Preto, que ostenta, segundo a tradição, o título de mais antiga casa de espetáculos em funcionamento da América do Sul. A casa de espetáculo traz também no seu histórico o fato de ter sido o primeiro teatro onde mulheres pisaram em um palco no Brasil.

Em 1778, com a morte de seu fundador, a Casa da Ópera passou por sua primeira crise, ressurgindo, oito anos depois, nas festas dos desposórios do infante D. João, com três noites de ópera. A partir daí, a Casa da Ópera viveu altos e baixos, sem nunca deixar de funcionar.

No período de 1817 a 1820, o teatro passa por sua primeira reforma, consolidando-se como o centro cultural da sociedade, que o lotava semanalmente. Em 1882, o governo provincial planeja a construção de um novo teatro, mais digno de uma Capital. Segundo o governador que estava deixando o cargo, Francisco Diogo Pereira de Vasconcelos, o próximo governador, Herculano Ferreira Penna, deveria prover a Capital de uma casa de espetáculos maior e mais confortável, já que o antigo teatro estaria a desabar. Na verdade uma segunda reforma foi executada com perfeição e economia e devolveu o teatro à população, embora a idéia de um novo teatro não saísse da mente, nem dos governantes, nem da população.

Com a chegada do fonógrafo e do cinema no final do século XIX, a freqüência da Casa da Ópera minguou, levando algum tempo para que o novo e o antigo se harmonizassem, cada qual ocupando seu espaço.

1.2 O Teatro Municipal de Ouro Preto

O estilo do Teatro Municipal de Ouro Preto é o chamado luso-brasileiro, possuindo uma fachada singela, lembrando a austeridade da arquitetura da época. A construção apresenta empena frontal, de vaga inspiração neoclássica, em contraste com aberturas em arco abatido, de tradição barroca, e elementos medievalizantes, óculo quadrilobado e arcaturas, acompanhando a cornija da empena (Figuras 1 e 2). Essa aparência de estilo eclético, provavelmente foi adquirida durante sua reforma e remodelação interna, ocorridas em 1882.

 

 

 

 

Ao longo de sua história, inúmeras reformas aconteceram, sendo a mais significativa em 1882, quando a estrutura das quatro ordens de camarotes foi também alterada, adquirindo a forma de ferradura e recebendo piso em declive. Todas essas modificações visaram a adaptá-lo às exigências de conforto dos usuários do século XIX. Durante o século XX, outras reformas se deram e a mais importante foi em 1985 com a descoberta de pinturas sobre dramas e comédias em cima da boca de cena e no camarote real (CTAC, 1997).

O Teatro Municipal de Ouro Preto está em nova fase. A casa de espetáculos, desde o início de 1993, apresenta novas diretrizes de programação. Uma reforma está sendo feita em etapas, para se adequar aos recursos disponíveis e não privar a comunidade ouro-pretana de uma de suas principais opções de cultura e lazer.

No decorrer de 1993, a Casa da Ópera teve reformada sua estrutura de camarins e banheiros, com o rebaixamento do piso das instalações internas e criação de uma sala de aquecimento e ensaio dos artistas. O projeto de reforma, assinado pelo arquiteto e cenógrafo Raul Belém Machado, incluiu a modernização de todo o equipamento de som, luz e vestimentas do palco, além da mudança na localização das cabines técnicas. Foi feito o restauro dos adornos em madeira no foyer de entrada e também o sistema elétrico foi substituído. O Teatro foi inteiramente pintado de acordo com a descrição feita pelo explorador inglês Richard Burton, que visitou Ouro Preto no século XIX.

Em 1998, foi dada uma concreta valorização do Teatro, tanto histórica quanto social, ressaltando o fato de que o Teatro, apesar de ser uma obra de extrema importância, não tinha tombamento individualizado e exclusivo.

Nesse século XXI, proporcionada pela Prefeitura Municipal de Ouro Preto, em parceria com o Projeto Monumenta/BID, ocorreu uma nova reforma importante no Teatro. Cabe aqui ressaltar que a Casa da Ópera é mais que um atrativo turístico, constituindo-se em um catalisador da arte, da cultura, da alma ouro-pretana (Figura 3) (Araújo, 2006).

 

 

2. A restauração

O teatro apresenta grande valor arquitetônico, isto no que diz respeito a todos os seus componentes, representando um produto único da tecnologia de construção específica de seu tempo. No processo de restauração, levam-se em consideração a complexidade histórica e as peculiaridades existentes na edificação.

Para a intervenção e/ou execução da restauração no Teatro Municipal da cidade de Ouro Preto, fez-se um levantamento sobre a história da edificação e analisaram-se os documentos sobre intervenções anteriores já realizadas, além de um levantamento fotográfico. Numa segunda etapa, foram estudadas e observadas as normas e diretrizes sugeridas pelo Comitê Internacional para Análise e Restauração de Imóveis do Patrimônio Arquitetônico (ICOMOS, 2001). Durante o processo de intervenção, foram, também, realizadas análises laboratoriais da argamassa encontrada.

Como já citado, o teatro passou por diversas intervenções, sendo a maior delas concluída em 1882 e que alterou significativamente, sua arquitetura. Após essa data, ocorreram outras intervenções, consideradas inadequadas, que estão sendo corrigidas, na medida do possível, na atual restauração. A cada nova etapa, de execução no projeto de restauração, são reavaliadas e buscadas informações que podem retornar a edificação às características originais.

A seguir são apresentadas algumas destas peculiaridades e tratamentos desenvolvidos que levam em consideração os critérios éticos e técnicos de conservação e restauração.

• Todos os funcionários foram orientados a mostrar e guardar todo e qualquer material encontrado. Na remoção das caixas d'água do palco foram encontradas inscrições e no telhado foram encontradas telhas e madeiras datadas, fazendo-se, assim, remoção e substituição das peças determinadas (Figuras 4 e 5). Nas frisas e platéia, foram encontrados um barrote datado e um carrinho inglês. Nas áreas de escavação, foi realizado peneiramento e todo inseto encontrado foi coletado.

 

 

 

 

• As pinturas da Boca de Cena do Camarote e Foyer foram protegidas contra poeira ficando o acesso facilitado para avaliação e elaboração do Projeto de Restauração.

• As cadeiras da platéia foram todas mapeadas antes da remoção para seu tratamento.

• Antes da execução dos rebocos foram realizados testes laboratoriais para determinação do traço da argamassa original. As prospecções foram realizadas em 4 pontos distintos.

• Ao ser iniciado o tratamento da fachada principal, foi observado que a maior parte do revestimento era composto por cimento. Tal revestimento apresentava-se em péssimo estado, devido a areia empregada ser de má qualidade e por não ser adequada à construção. Optou-se, então, por se remover totalmente esse revestimento, e retornar a técnica antiga utilizando cal e areia.

• Sobre o frontão, há um lajeado de pedra, local de infiltrações. O rejuntamento foi refeito e aplicado silicone para se evitarem futuras infiltrações.

• O nível das salas de aquecimento e o nível do piso dos camarins foram rebaixados em intervenção anterior, ficando como registro desse nível as bases dos pilares existentes, sendo em pedra revestidos com madeira. Em avaliação da fiscalização e IPHAN, definiu-se a remoção de duas bases deixando uma como registro (Figura 6).

 

 

• Todo o madeiramento recebeu tratamento contra insetos xilófagos. Alteraram-se o produto especificado e a técnica por produto de maior efeito residual e eficácia.

• No remanejamento e substituição do tabuado de piso, observou-se a necessidade de substituição do barroteamento, que, pela proximidade das paredes, se deteriorou. O novo barroteamento recebeu aplicação de manta asfáltica, junto às paredes, para proteção contra umidade. Os tabuados de pisos da platéia e frisas, substituídos em intervenção anterior por tábuas de 10 cm, não seriam substituídos, mas, devido a existência de tabuado não uniforme (tábuas com largura e tamanho diferentes), decidiu-se pela substituição total, seguindo as dimensões encontradas. O barroteamento da platéia estava deteriorado pela proximidade do solo. Nesse caso, foi aumentado o espaçamento para maior ventilação. Definiu-se a criação de câmara de ventilação para conservação do tabuado de piso e do barroteamento da sala de aquecimento (Figura 7).

 

 

• No tratamento do suporte do fechamento sob o palco, foram realizados pequenos enxertos, consolidações, contenção de rachaduras e colocação de molduras para sua fixação junto ao piso, evitando a utilização de pregos. Para a realização dos serviços, as tábuas foram mapeadas e foram tomados os cuidados com a policromia.

• No tratamento do telhado, foram encontrados vestígios do forro original, sendo liso e, aproximadamente, 15 cm acima do forro tipo saia e camisa existente.

• No tratamento do tabuado de piso dos diferentes níveis, observou-se coloração em seu verso. Por meio de prospecções e policromia encontrada, presume-se que não havia forros anteriormente, tanto no Foyer, como nos níveis dos Camarotes e Frisas. Assim, decidiu-se pela remoção do forro saia e camisa existentes no Foyer e pela restauração da pintura dos barrotes e tabuados.

• As pinturas das paredes internas apresentam várias camadas de repinturas. O projeto decidiu-se pela utilização de tinta à base de resina PVA (acetado de vinila), continuando o que existia. No entanto, o processo será alterado de modo que toda a pintura à base de resina PVA existente será removida e se retornará à técnica original utilizando-se caiação.

• Nos elementos como tabiques, escadas, guarda-corpos e colunas, foram realizadas novas prospecções resultando em alterações das cores. O processo de tratamento dos citados elementos será realizado por pessoal capacitado.

 

3. Comentários finais

Na recuperação e/ou restauração de edificações antigas, de importância histórica, deve-se fazer um planejamento detalhado para que o processo de intervenção não venha a comprometer a edificação original. Na intervenção realizada, foram observadas as diretrizes do Comitê Internacional para Análise e Restauração de Imóveis do Patrimônio Arquitetônico como referências básicas e adequadas em intervenções históricas.

 

4. Referências bibliográficas

ARAÚJO, E. R. S. Restauração do Teatro Municipal de Ouro Preto. Ouro Preto: Curso de Engenharia Civil, Universidade Federal de Ouro Preto, 2006. 80 p. (Relatório de Estágio Supervisionado, Engenharia Civil).         [ Links ]

CTAC - CENTRO TÉCNICO DE ARTES CÊNICAS. Teatros do Brasil. 1997. Disponível em: <http://www.ctac.gov.org.br/tdb/portugues/teatro_ouropreto.asp>. Acesso em: 6 jul. 2006.         [ Links ]

ICOMOS - COMITÊ CIENTÍFICO INTERNATIONAL PARA ANÁLISE E RESTAURAÇÃO DE IMÓVEIS DO PATRIMÔNIO ARQUTETÕNICO. Recomendações para análise, conservação e restauração estrutural do patrimônio arquitetônico. 2001. 42 p. Disponível em: <http://www.icomos.org.br/icomos/>. Acesso em: 8 mar. 2006.         [ Links ]

NETO, G. Teatro Ouro Preto. Ouro Preto, MG, 2002. 1 fotografia.         [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 07/03/2007 e aprovado em 18/05/2009.