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Rem: Revista Escola de Minas

Print version ISSN 0370-4467

Rem: Rev. Esc. Minas vol.64 no.3 Ouro Preto July/Sept. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672011000300002 

NOTAS DA REM

 

Prefácio do Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto nº 1, em 1881, por Claude-Henri Gorceix

 

 

 

A criação de uma revista periódica que se ocupe com o estado da indústria das minas no Brasil é complemento natural necessário da organização da Escola de Minas de Ouro Preto.

Uma e outra têm por fim estudar, tornar conhecidas as riquezas minerais do pais e vulgarizar os meios de aproveita-as.

Absorvido, durante os primeiros anos, pelos cuidados incessantes que requeria a organização da Escola de Minas, pelas dificuldades inúmeras que de todas as partes ameaçavam o futuro desta instituição, não me tinha sido ainda possível tratar de tal publicação.

Hoje, porém, podendo a Escola defender-se por si mesma, e estando concluída a primeira e a mais importante parte do programa que me foi confiado, cumpre-me tratar da segunda.

Assim como a execução da primeira exigiu o concurso de todos os homens que se interessam realmente pelo desenvolvimento da instrução, também ser-me-á ele preciso para bem terminar minha missão; e, pois, sob sua proteção ponho a revista da Escola de Minas de Ouro Preto.

É fácil expor o meu programa.

A revista que me proponho publicar deveria aparecer em períodos determinados, para o que seria mister dispor da soma necessária á impressão.

A experiência mostra infelizmente todos os dias que não é conveniente, mormente no começo, contarem as revistas cientificas demasiado com os recursos provenientes de assinaturas. Dispondo somente desse meio, ser-me-ia impossível contrair compromissos, que por força maior talvez fosse o brigado a não satisfazer.

Começarei mais modestamente, impetrando auxilias que me animem a abandonar os tímidos ensaios do começo. Por enquanto só me é permitido comprometer-me a fazer aparecer mais um numero, utilizando economias feitas no já muito sobrecarregado orçamento da Escola.

Reconheço todos os inconvenientes de semelhante incerteza de publicação; entretanto, por mais restrita que seja ela, Julgo-a muito preferível ao silencio completo.

Os Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto fornecerão os pormenores mais precisos que se puderem dar sobre a situação das minas exploradas no Império do Brasil e sobre o estado das diversas concessões feitas pelo governo, dos estudos sobre os estabelecimentos metalúrgicos existentes, dos trabalhos de mineralogia e geologia relativos ao pais, dos resultados das analises feitas no laboratório de docimasia da Escola.

Darão também noticias dos aperfeiçoamentos mais recentes introduzidos na exploração das minas e na metalurgia, e em fim informações sobre as questões financeiras ou jurídicas mais importantes, que interessem tanto a indústria mineira do Brasil, como a do resto do mundo.

Não desenvolverei mais este programa: porém afirmo bem alto que ele será realizado; e si este primeiro numero não corresponder cabalmente a meus desejos, esforçar-me-ei por conseguí-lo no segundo.

Como os Annaes das minas devem também ser enviados para o estrangeiro, poderia parecer conveniente imprimí-los em duas ou três línguas.

Não julgo isso necessário, nem mesmo uti1.

Além do acréscimo de despesa (questão capital), perderia a publicação sua homogeneidade e facilidade de leitura. Demais a língua portuguesa se aproxima assaz do latim, para que, sobretudo tratando-se de estudos cientificas, todas as pessoas que conhecerem um idioma que tenha a mesma origem possam compreender o sentido do que estiver escrito nos Annaes.

Nem discutirei mesmo a opinião, emitida por alguns, de escrevê-los em francês sob pretexto que essa língua é mais conhecida.

Uma revista publicada no Brasil interessa especialmente o pais.

O primeiro numero dos Annaes conterá os trabalhos seguintes:

1. Estudo químico e geológico das rochas do centro da província de Minas Gerais; 1" parte: Arredores de Ouro Preto, por H. Gorceix.

2. Estudo geológico das jazidas de topázios da província de Minas Gerais, por H. Gorceix.

3. Exploração das minas de galena do ribeirão do Chumbo, afluente do Abaeté, e estudo da zona percorrida de Ouro Preto até esse lugar, por Francisco de Paula Oliveira, engenheiro de minas.

4. Viagem de estudos metalúrgicos no centro da província de Minas, por Joaquim Candido da Costa Sena, engenheiro de minas.

5. Análises feitas nos laboratórios de química e docimasia da Escola de Minas de Ouro Preto.

6. Estatística da produção do ouro na província de Minas Gerais durante o ano de 1879.

A esses trabalhos poderia ajuntar um estudo sobre o futuro e processos empregados na exploração dos depósitos diamantíferos; uma noticia sobre gemas do Brasil: aguas marinhas, berilos, granadas, turmalinas, etc.

Tais assumptos, bem como outros que interessam ainda mais diretamente a indústria do pais, quais sejam: a exploração do ferro em Minas Gerais, presente e futuro dessa indústria, ensaios sobre a natureza das diversas terras vegetais, serão reservados para uma segunda publicação, cujo aparecimento dependerá do acolhimento que tiver a primeira.

Não faltam materiais para a execução da obra que empreendemos. O estudo da mineralogia e geologia do Brasil e de suas aplicações á indústria está ainda inteiramente por fazer.

Mui poucas das riquezas do solo brasileiro são conhecidas, e hoje que o melhoramento das vias de comunicação e os progressos do pais em todas as outras ordens de ideias permitem dar á indústria mineira nova impulsão, é do nosso dever fazer conhecer essas riquezas e vulgarizar noções exatas sobre sua constituição geológica.

É admirável ver quão pouco espalhadas estão as noções mais elementares sobre a natureza das rochas e dos terrenos das diversas partes do Império, e surpreende-nos ainda mais ver citar e tomar para guias as obras menos cientificas e mais eivadas de erros, desconhecendo-se memorias cheias de factos interessantes, bem observados e bem discutidos.

É mais que tempo de sair de tão deplorável caminho.

O tempo das discussões frívolas sobre palavras e teorias, simples especulações do espirito legadas pela idade media, das quais ha muito o velho mundo desembaraçou-se, já passou.

É absolutamente preciso estudar factos, observar fenômenos.

É enganar a mocidade, é desencaminhá-la com grande detrimento do bem publico, ensinar-lhe uma ciência de palavras, composta de teorias, sem duvida mui engenhosas, mui belas, porém teorias que somente os mestres, no fim de sua carreira, têm O direito de expor como resumo de uma vida toda de trabalhos, de observação e de pesquisas experimentais.

Certamente é interessante discutir sobre a origem das rochas, dos terrenos; mas é preciso que se tenha antes adquirido conhecimento dessas rochas, desses terrenos: e para conseguir isso não ha outro meio senão estudá-los com o martelo e o espirito: "cum mente et malleo". É a divisa que escolhi para a publicação que hoje empreendo.

Acharei colaboradores entre os alunos da Escola de Minas de Ouro Preto, aos quais espero que a divisa dos Annaes servirá de guia; porém apesar disso a missão estaria acima de minhas forças sem o auxilio dos que se interessam pelo progresso da ciência e pela prosperidade de pais.

 

Claude-Henri Gorceix

 


 

Pensamentos do Prof. Claude-Henri Gorceix

 

 

Leis para as empresas

A meu ver, e é princípio admitido por todos, todas as empresas industriais, de qualquer natureza que sejam, devem encontrar no Governo toda animação e auxílio possível. Ora, como primeira consequência desse princípio, a administração não deve embaraçar de nenhum modo a iniciativa particular, quer pelas leis que ela apresenta ao Parlamento, quer pelos regulamentos que devem reger a execução dessas leis.

 

Ensino primário e secundário

Sem ensino primário não há ensino secundário, sem o secundário não há o superior e sem o superior não terá o Brasil engenheiros nem homens úteis ao país.

Dedicando-me ao professorado por gosto e por educação e desejando prestar ao país os maiores serviços possíveis na posição que tenho a honra de ocupar, não posso deixar de insistir sobre um estado de coisas que traz as mais desastrosas consequências, questão de interesse tão palpitante para o país. Ainda uma vez, repito, bem poucos alunos têm uma educação científica secundária suficiente quando entram para os cursos superiores. Daí vem a inferioridade em que ficará sempre o primeiro desses ensinos e uma causa de esterilidade para todas as medidas por meio das quais procurar-se-ia elevá-lo sem dar-lhe a base que lhe falta.

Obs: Gorceix tentou em vão lecionar para as professoras primárias e secundárias naquela época.

 

O professor

O professor deve encontrar no valor do seu ensino e na sua influência moral, a força necessária para impor aos seus discípulos o respeito e a consideração que devem eles ter para com ele não só na Escola como fora dela.

 

Os alunos

Quando a experiência da vida e a maturidade da idade lhes permitirem compreender bem as relações que devem existir entre os diversos membros de uma mesma sociedade e quando encararem a vida em sua realidade e não através de prismas de ilusão da mocidade, serão os primeiros a reconhecer a utilidade dos Regulamentos que hoje atacam.

Devem os alunos ser habituados a resolverem problemas cujas soluções dependam das teorias expostas no curso, de modo a desenvolver neles o espírito inventivo sem o qual haverá esterilidade na ciência. Não conheço melhor ginástica intelectual que esta para ensinar aos alunos a raciocinar e habituar o espírito a pesquisas. É bom, sem dúvida, conhecer-se tudo o que produziram os grandes homens dos outros povos; porém muito melhor é saber servir-se do que eles fizeram para fazer novas descobertas.

Este espírito inventivo é adquirido desde a infância, nos bancos de colégios e escolas.

 

Sobre os alunos pobres

A instalação da Escola esteve ameaçada de não se realizar a 12 de outubro de 1876. Admitidos à matrícula na Escola, os alunos Francisco de Paula Oliveira, Antônio Veríssimo de Mattos Júnior e Leandro Dupré Júnior enviaram ao Ministro do Império, José Bento da Cunha e Figueiredo um abaixo-assinado pedindo concessão de auxílio pecuniário a fim de poderem se manter na Província de Minas Gerais por serem pobres e, sem ele, seriam forçados a desistir de suas matrículas.

Gorceix comenta esse pedido dizendo: "O orçamento da Escola para o ano 1876-7 está estabelecido de tal forma que mesmo com esse acréscimo de despesa ser-me-ia ainda possível realizar economias. Mas, se razões de ordem superior não nos permitirem vir em auxílio desses alunos e, por conseguinte, tornariam impossível a abertura da Escola, eu seria muito feliz e muito glorioso em ser chamado a facilitar a instalação de um estabelecimento que eu tive a honra de organizar. Peço-lhe pois, Sr. Ministro, retirar do meu ordenado a metade da quantia necessária para suprir a manutenção de três alunos na Escola de Minas de Ouro Preto, solicitando de vossa generosidade o complemento desse socorro.

Educado na Escola Normal Superior de Paris sob condições análogas, contraí para com o meu país uma dívida que, feliz, quitarei no Brasil onde tenho a honra de estar no serviço que meus mestres me ensinaram a amar seja qual for o país que eu deva servir."

 

Gorceix e a política de seu tempo

Gorceix, ao dar início a seu trabalho para o funcionamento da Escola se encontrava sobrecarregado com a reconstrução do velho edifício a ela destinado a com todas as tarefas exigidas na sua organização, como a obrigação de, constantemente, se dirigir à Corte para a resolução de casos que a todo instante surgiam.

Gorceix admitiu como coadjuvante o Francisco Luiz Maria de Brito e, verificando a sua capacidade para o serviço lutou para conseguir sua nomeação para Secretário da Escola. A proposta não podia ser aceita: havia candidato de mais peso, bacharel e com assento na Assembléia Legislativa. O máximo conseguido por Gorceix foi a designação daquele cidadão para, durante suas ausências fiscalizar as obras de reconstrução do prédio, cuidar da conservação dos objetos da Escola tendo a seu cargo todos os trabalhos referentes à Biblioteca e à Secretaria, para os quais tinha aprovação total de Gorceix, prestando serviços até chegada do secretário que veio a ser nomeado: Bel. José Eufrosino Ferreira de Brito (o pesadelo de Gorceix): "Minha idade, minha qualidade de estrangeiro, talvez dessem pouco peso às observações que eu procurava dirigir a um homem que, por sua posição política se considerava bem acima do Diretor e usava dessa posição para diminuir a autoridade deste", comentou.

Em vista dos absurdos cometidos pelo bacharel, Gorceix se viu obrigado a dizer ao ministro: em tais condições, Sr. Conselheiro, ser-me-á impossível continuar a dirigir a obra que me foi confiada, e é grande minha fadiga, que tive que abandonar meus trabalhos de pesquisas.

José Eufrosino acabou dispensado e isso refletiu fortemente na Assembleia Legislativa Provincial.

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