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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. vol.44 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042004000200009 

VINHETA IMAGENOLÓGICA IMAGENOLOGIC VIGNETTE

 

Osteocondrite (osteocondrose) dissecante (OCD)(*)

 

Osteochondritis (osteochondrosis) dissecans (OCD)

 

 

Flávia Aiko SakamotoI; André Yui AiharaI; Artur da Rocha Corrêa FernandesI; Jamil NatourII

IDepartamento de diagnóstico por imagem da EPM/Unifesp
IIDisciplina de Reumatologia da (EPM/Unifesp)

Endereço para correspondência

 

 

INTRODUÇÃO

Osteocondrite dissecante (OCD) é uma condição adquirida de etiologia desconhecida, caracterizada pela necrose focal do osso subcondral de articulações(1). A importância do diagnóstico precoce desta entidade deve-se ao potencial de cura espontânea num momento inicial. Ocorre geralmente em adolescentes e adultos jovens do sexo masculino, sendo o joelho o local mais acometido, seguido pelo tálus. O termo mais adequado para esta alteração é osteocondrose dissecante, pois se sabe que não há processo inflamatório local. Existem duas teorias quanto à etiopatogenia, são elas: a teoria traumática/mecânica, relacionada com o aumento da atividade e microtraumas repetitivos, e a predisposição familiar/hereditária(2). Entretanto, a correlação anátomopatológica e o curso in vivo da OCD ainda são baseados em observações cirúrgicas e histológicas, e em estudos experimentais(2). Inicialmente há demarcação do osso subcondral com necrose, sem comprometimento macroscópico da cartilagem sobrejacente. Posteriormente, adjacente ao osso necrótico, forma-se uma zona de transição, que é preenchida por tecido de granulação, composta por tecido fibrocartilaginoso e capilares vasculares. Nesta etapa, a lesão pode ter cura espontânea, ou evoluir com separação do fragmento ósseo com ou sem alteração cartilaginosa. Por fim, há extrusão do fragmento, com formação de corpo livre intra articular e cratera na superfície óssea(2,3). Há autores que separam a OCD em duas entidades, a OCD juvenil e a OCD do adulto, diferenciadas pelo início dos sintomas com relação ao fechamento da placa epifisária. O motivo dessa distinção deve-se ao melhor prognóstico das lesões na forma juvenil(3). Como também, a longo prazo, a OCD do adulto predispõe a alterações degenerativas secundárias, com antecipação dos sintomas em cerca de 10 anos quando comparado a indivíduos sãos(2). Não devemos confundir a OCD com osteonecrose pós corticoterapia, hemoglobinopatias, doença de Gaucher, doença de Caisson's(2) ou com a "osteonecrose espontânea"(2,4).

 

LOCALIZAÇÃO

O local mais comumente envolvido é o côndilo femoral (Figura 1), seguido pelo tálus (Figura 2), o capítulo do úmero (Figura 3) e a superfície superior do quadril. No fêmur, a face lateral do côndilo medial é acometida em 85% dos casos e o côndilo lateral em 15%(1). No tálus, as superfícies mais envolvidas são a medial e lateral do dômus, e menos comumente a central(2,1). Locais raramente comprometidos são a cabeça do I metatarso, cabeça umeral, escafóide(2,1) e a cavidade glenóide(5). Pode ser bilateral em cerca de 5% dos casos (Figura 4)(2).

 

 

 

 

 

 

 

 

AVALIAÇÃO CLÍNICA

Geralmente acomete indivíduos masculinos entre a segunda e quarta décadas. O quadro clínico pode ser assintomático, ou determinar sintomas intermitentes como dor em movimento dependente ao saltar, agachar ou subir escadas; limitação do movimento e estalidos. Algumas vezes está associada a edema discreto, mas nunca a hematoma. Caso haja corpos livres, pode haver travamento do joelho. Em razão dos sintomas frustros, o diagnóstico é feito freqüentemente após vários anos do início do quadro ou de forma incidental em estudos radiológicos(2,6).

 

ARTROSCOPIA

Gulh, em 1982, propôs uma classificação artroscópica das alterações morfológicas no joelho em quatro estágios. No primeiro estágio, a cartilagem está intacta, parcialmente amolecida e abaulada. No segundo, notam-se lesões/fissuras incipientes na cartilagem. No terceiro, há fragmento ósseo parcialmente destacado; e no quarto observam-se cratera e corpo livre. Novos e complexos esquemas foram criados, mas não têm relevância terapêutica(2).

 

DIAGNÓSTICO POR IMAGEM

Radiografia convencional

Os exames radiográficos geralmente estabelecem o diagnóstico de OCD corretamente. Entretanto, não fornecem dados que determinem uma conduta terapêutica apropriada, já que há freqüente discrepância entre os achados radiográficos e os cirúrgicos(2). O achado radiográfico característico é o foco radioluzente arredondado ou ovalado do osso subcondral, de contornos irregulares, que pode apresentar área de esclerose central, relacionada com fragmento ósseo impactado (Figura 5). As incidências preconizadas para a avaliação de OCD no joelho são a antero-posterior, lateral e do túnel; e as necessárias para estudar o tálus são a antero-posterior, oblíqua em 30º e a lateral(1,2,6).

 

 

Tomografia computadorizada (TC)

A TC fornece um bom delineamento anatômico da lesão osteocondral (Figuras 6a e 6b), entretanto não avalia o potencial de cura da lesão. Davies e Cassar-Pullicino, em 1989, utilizaram a artrotomografia no tornozelo e têm conseguido estabelecer o prognóstico de lesões da cartilagem talar(2).

 


 

Cintilografia

Aceitando a teoria isquêmica, Cahill e Berg, em 1983, propuseram a descrição e o estagiamento da OCD. Eles concluíram que a chance de cura correlacionava-se com a extensão da atividade local(2).

Ressonância magnética (RM)

A RM demonstra as alterações ósseas e cartilagíneas mais precocemente que a radiografia convencional(1,6), e tem acurácia semelhante ao exame artrográfico(7,8). Fornece dados sobre a extensão, morfologia e perfusão da lesão, além de ser um método não invasivo que avalia a condição local com alta sensibilidade(4). O aspecto clássico da OCD à RM corresponde à alteração focal do osso subcondral, com forma semi-oval ou semicircular, relativamente demarcada, com hipossinal em T1 e hipossinal heterogêneo em T2 (Figura 7). Numa fase inicial, em que há processo reparativo ativo, e a lesão está quase ou completamente vascularizada, observa-se realce difuso após a injeção endovenosa do meio de contraste paramagnético. A zona de transição, preenchida com tecido de granulação, tem hipossinal em T1, hipersinal em T2 e realce com contraste. Após a separação do fragmento, forma-se um espaço preenchido por líquido que, dependendo da separação ser completa ou parcial, haverá líquido em todo a periferia do fragmento ou não. À RM, este fluido apresenta hipossinal em T1, hipersinal em T2 e não tem realce após o contraste (Figura 8). Os sinais que indicam instabilidade do fragmento são hipersinal ao redor do fragmento em T2; áreas císticas focais com mais de 5 mm, localizadas profundamente à lesão da OCD; deformidade ou fissuras da cartilagem sobrejacente; e fluido circundando o fragmento(2,7,9). A RM também avalia as dimensões do leito ósseo e o corpo livre. O hipersinal ao redor do fragmento em T2 é o sinal de instabilidade mais freqüentemente observado; os demais, apesar de menos comuns, são 100% específicos(7). Outro parâmetro prognóstico é a dimensão da área da lesão. Quanto menor a área da superfície acometida, melhor será a evolução(9). Esses sinais de RM foram determinados para a OCD do joelho, mas podem ser aplicados para o tornozelo. É importante diferenciar a OCD da fratura aguda. Esta última apresenta extenso edema medular ósseo circunjacente(2). Outra condição a ser lembrada é que, na avaliação pós-cirúrgica de fixação do fragmento ósseo, pode haver o hipersinal em T2 por longo período, atribuído ao processo de reparação(2,10). Com o intuito de melhorar a avaliação da cartilagem articular, podese introduzir solução de contraste paramagnético na cavidade articular e realizar estudo com RM(2,6).

 

TRATAMENTO

Pode ser conservador ou cirúrgico, dependendo da estabilidade do fragmento. Numa lesão com aspecto estável determinado pela RM e/ou pelo estudo artrográfico, preconiza-se terapêutica conservadora, com retirada de carga do membro afetado por 6 a 12 meses. Caso persista dor e os achados de RM demonstrem redução do processo de reparação, é indicado o tratamento cirúrgico. Na OCD instável, também é recomendada a intervenção cirúrgica. Há melhor prognóstico dos pacientes jovens com placa epifisária aberta, e lesões que apresentam a cartilagem sobrejacente intacta. Nessas duas condições há maior incidência de evolução para cura espontânea(3,6,8).

Concluindo, a osteocondrite (osteocondrose) dissecante é uma lesão primariamente óssea com envolvimento da cartilagem articular secundariamente. Há formação de uma zona transicional após necrose óssea que tem potencial de cura, mas pode evoluir para deformidade óssea. Etiologicamente, a teoria mecânica/traumática é a mais aceita. A predisposição familiar/hereditária pode ser considerada um fator em alguns pacientes, particularmente em crianças e adolescentes. É grande a diferença no curso clínico e no prognóstico de pacientes com fise aberta e fechada. A OCD é geralmente diagnosticada pela radiografia simples, que não fornece dados quanto à instabilidade da lesão. A RM é o exame de escolha para o diagnóstico. A RM associada ao quadro clínico determina a conduta terapêutica da OCD. A RM também auxilia na indicação da realização de artroscopia e/ou artrotomia, bem como no seguimento da cicatrização(1).

 

REFERÊNCIAS

1. Rowe LJ, Yochum TR: Hematologic and vascular disorders. In: Essentials of Skeletal Radiology. Yochum TR, Rowe LJ: 2.a ed, Baltimore, Williams & Wilkins, 1295-301, 1996.         [ Links ]

2. Bohndorf K: Osteochondritis (osteochondrosis) dissecans: A review and new MRI classification. Eur Radiol 8: 103-12, 1998.         [ Links ]

3. Hughes JA, Cook JV, Churchill MA, et al: Juvenil osteochondritis dissecans: a 5-year review of the natural history using clinical and MRI evaluation. Pediatr Radiol 33: 410-17, 2003.         [ Links ]

4. Stoller DW, Cannon Jr WD, Anderson LJ: O joelho. In: Ressonãncia Magnética em Ortopedia & Medicina Desportiva. Stoller DW, 2.a ed, Philadelphia, Lippincott-Raven, 393-6, 2000.         [ Links ]

5. Yu JS, Greenway G, Resnick D: Osteocondral defect of the glenoide fossa: cross-sectional imaging features. Radiology 206: 35-40, 1998.         [ Links ]

6. Resnick D, Goergen TG: Phisical injury: concepts and terminology. In: Diagnosis of bone and joint disorders. Resnick D. 4.a ed, Philadelphia, W B Saunders Company, 2689-708, 2002.         [ Links ]

7. De Smet AA, Ilahi AO, Graf BK: Reassessment of the MR criteria for stability of osteochondritis dissecans in the knee and ankle. Skeletal Radiol 25: 159-63, 1996.         [ Links ]

8. Jürgensen I, Bachmann G, Schleicher I, et al: Arthroscopic versus conservative treatment of osteocodritis dissecans of the knee: value of magnetic resonance imaging in therapy planning and follow-up. Arthroscopy 18: 378-86, 2002.         [ Links ]

9. De Smet AA, Ilahi AO, Graf BK: Untreated osteochondritis dissecans of the femoral condyles: prediction of patient outcome using radiographic and MR findings. Skeletal Radiol 26: 463-7, 1997.         [ Links ]

10. Boutin RD, Januario JA, Newberg A, et al: MR imaging features of osteochondritis dissecans of the femoral sulcus. AJR 180: 641-5, 2003.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Artur da Rocha Corrêa Fernandes
Departamento de diagnóstico por imagem da EPM/Unifesp
Rua Botucatu, 740
CEP 04023-900, São Paulo, SP

 

 

Responsáveis: Artur da Rocha Corrêa Fernandes e Jamil Natour
* Departamento de diagnóstico por imagem da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp).

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