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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. vol.47 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042007000100003 

ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE

 

Padrões de imunofluorescência do fator antinuclear (FAN) em células HEp-2 de soros reagentes para anti-SSA/Ro

 

Antinuclear antibodies (ANA) immunofluorescent pattern’s in HEp-2 cells on samples positive for anti-SSA/Ro

 

 

Priscila Schmidt LoraI; Claudia Cilene Fernandes Correia LaurinoII; Adriana Estigarribia de FreitasIII; João Carlos T. BrenolIV; Odirlei MontecieloV; Ricardo Machado XavierVI

IFarmacêutica bioquímica, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas, Faculdade de Medicina /UFRGS
IIFarmacêutica, Ph.D. em Ciências Aplicadas à Pediatria, Serviço de Reumatologia HCPA/UFRGS
IIIEstudante de Farmácia UFRGS
IVProfessor adjunto, médico reumatologista, Ph.D. em Clínica Médica, Chefe do Serviço de Reumatologia, HCPA/UFRGS
VMédico, Residente do Serviço de Reumatologia, HCPA/UFRGS
VIProfessor adjunto, Ph.D. em Imunologia, médico reumatologista, Serviço de Reumatologia, HCPA/UFRGS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar os padrões de imunofluorescência do fator antinuclear (FAN) em soros reagentes para anticorpos anti-SSA/Ro e sua associação clínica.
MÉTODO: foi realizado um estudo transversal retrospectivo, no qual foram revisadas as solicitações de anticorpos antiantígenos nucleares extraíveis (anti-ENA) encaminhadas ao SPC/HCPA no período de dois anos. Das solicitações com resultado positivo para anti-ENA identificou-se qual ou quais auto-anticorpos estavam envolvidos (anti-SSA/Ro, anti-SSB/La, anti-RNP, anti-Sm, anti-Scl-70), bem como os padrões de imunofluorescência do FAN e os quadros clínicos dos pacientes anti-SSA/Ro positivo. As técnicas usadas para detecção e identificação foram FAN por imunofluorescência indireta (IFI) em células HEp-2 e anti-ENA por hemaglutinação.
RESULTADOS: das 392 solicitações analisadas 90 eram anti-ENA positivo. Houve um predomínio do sexo feminino (94%) (86/91) e a idade média foi de 42 anos. O anti-SSA/Ro foi o mais freqüente (67,8%) (61/90), sendo que todas as amostras anti-SSA/Ro positivas eram positivas para o FAN. O padrão de imunofluorescência nuclear pontilhado fino foi o predominante (68,9%) (42/61) nos pacientes com anti-SSA/Ro positivo, e o quadro clínico mais encontrado foi de lúpus eritematoso sistêmico, em 50,8% (31/61) dos pacientes.
CONCLUSÃO: o teste de FAN por IFI utilizando células HEp-2 é um bom método de triagem para detecção de auto-anticorpos anti-SSA/Ro, apresentando maior associação com o padrão nuclear pontilhado fino. Diferente do que tem sido descrito na literatura, não encontramos nenhuma amostra de pacientes com anti-SSA/Ro que tenham apresentado FAN falso-negativo na IFI. Pelo menos na nossa experiência, esses dados questionam o custo-efetividade da solicitação de rotina desse exame em pacientes FAN negativo pelo teste de IFI.

Palavras-chave: auto-anticorpo, fator antinuclear, anticorpos anti-SSA/Ro, anti-ENA.


ABSTRACT

OBJECTIVE: to evaluate the pattern at immunofluorescence of the antinuclear antibodies (ANA) detected by the indirect immunofluorescence (IIF) technique in positive samples for anti-SSA/Ro autoantibody and the clinical associations.
METHODS: a retrospective transversal study was performed in a period of two years where the all the solicitations of testing for the presence of anti-extractable nuclear antigen (anti-ENA) antibodies delivered to the SPC/HCPA were analyzed. We selected the positive samples and identified which autoantibodies were involved (anti-SSA/RO, anti-SSB/La, anti-RNP, anti-Sm and anti-Scl70) as well as the immunofluorescence patterns by ANA testing and the clinical associations found in the patients presenting anti-SSA/Ro positive serum. IIF was used for ANA using HEp-2 cells and hemagglutination for anti-ENA antibodies detection.
RESULTS: 90 out of the 392 solicitations analyzed were anti-ENA positive, with a predominance of women (86/91 – 94%) and the mean age was 42 years old. The most frequent autoantibody was anti-SSA/Ro (61/90 – 67.8%) and all samples that were anti-SSA/Ro positive were also ANA positive. Speckled nuclear immunofluorescence was the most frequent ANA pattern (42/61 – 68.9%) among the anti-SSA/Ro positive samples and systemic lupus erythematosus was the most common clinical diagnosis (31/61 – 50.8%).
CONCLUSION: ANA testing by IIF using HEp-2 cells proved to be a good screening test for the detection of anti-SSA/Ro antibodies, that showed a strong positive association to the speckled nuclear IIF pattern. As opposed to what has been described in the literature, there was no ANA negative among the anti-SSA/Ro positive samples. At least in our experience, these data question the cost-effectiveness of performing routine screening for anti-SSA/Ro antibodies in ANA negative samples by IIF testing.

Keywords: autoantibody, antibodies antinuclear, anti-SSA/Ro autoantibody, ENA.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas doenças reumáticas, uma das principais características é a produção de auto-anticorpos, com alta afinidade contra constituintes intracelulares e extracelulares, fazendo com que estes sejam marcadores específicos dessas doenças. No entanto, esses auto-anticorpos somente possuem significado clínico quando estão associados a outras manifestações de doença(1).

A detecção dos auto-anticorpos tem prestado importante contribuição em diferentes aspectos: como marcadores diagnósticos, indicadores de prognóstico e na monitorização da atividade das doenças auto-imunes(1-3).

O desenvolvimento da técnica de imunofluorescência indireta (IFI) permitiu a detecção de diversos auto-anticorpos(3). Hoje, a pesquisa do fator antinuclear (FAN), usando como substrato células HEp-2 é a metodologia de escolha para rastreamento e identificação dos padrões de imunofluorescência à qual os diversos auto-anticorpos se associam. No entanto, o teste de FAN deve ser complementado pela pesquisa e identificação de auto-anticorpos e auto-antígenos específicos, muitos dos quais apresentam grande utilidade clínica(4).

Apesar de FAN positivo ser um dos 11 critérios estabelecidos pelo Colégio Americano de Reumatologia para a classificação de lúpus eritematoso sistêmico (LES)(5), sua presença não necessariamente indica um estado patológico. Tal situação foi demonstrada em um estudo feito em doadores de banco de sangue, em que 22,6% (113/500) dos doadores apresentavam FAN positivo e 20,4% destes com título de 1:80(6).

A pesquisa de antígenos nucleares extraíveis (ENA) é usada para identificação de um grupo de auto-anticorpos específicos que inclui o anti-SSA/Ro, anti-SSB/La, anti-RNP, anti-Sm, anti-Scl-70 e anti-Jo-1. Esses auto-anticorpos podem ser detectados por diversas metodologias, como contra-imunoeletroforese, immunoblot, imunodifusão, Elisa (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay) e hemaglutinação(2). Entretanto, podemos encontrar variações nos resultados, pois essas técnicas divergem em sensibilidade e especificidade(7).

O auto-antígeno SSA/Ro é uma ribonucleoproteína, composta de uma porção polipeptídica e outra de quatro pequenas moléculas de RNA. A junção dessas duas porções forma o complexo SSA/Ro RNAs, conhecido com hY RNAs, sendo a porção antigênica desse complexo molecular a parte polipeptídica(8).

A maior importância clínica do anti-SSA/Ro está relacionada à sua associação com o lúpus neonatal, o bloqueio congênito cardiovascular, em crianças nascidas de mães com esse auto-anticorpo, e lúpus eritematoso cutâneo subagudo(9-11). Esse auto-anticorpo é um dos critérios de diagnóstico dos pacientes com síndrome de Sjögren, sendo encontrado em 50-90% dos pacientes, geralmente também associado com outro complexo antigênico, o SSB/La. No LES é encontrado em cerca de 20-80% dos casos(3).

Mesmo o FAN por IFI, que utiliza células HEp-2 como substrato, possuindo uma alta sensibilidade para a detecção de auto-anticorpos anti-ENA, incluindo anti-SSA/Ro, podemos encontrar pacientes com anti-SSA/Ro positivo, características de doença auto-imune e FAN negativo, conforme demonstrou Hoffman et al (12) .

Esse trabalho pretende avaliar de forma retrospectiva a correlação dos soros anti-SSA/Ro positivo com os padrões de imunofluorescência do FAN, bem como os dados clínicos desses pacientes.

 

PACIENTES E MÉTODOS

CASUÍSTICA

Neste trabalho foi realizado um estudo transversal retrospectivo. Foram revisadas todas as solicitações de pesquisa de anti-ENA encaminhadas ao Serviço de Patologia Clínica (SPC) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), no período de janeiro de 2004 a março de 2006. Em seguida, foram selecionadas as solicitações com resultados de anti-ENA positivo, e destas se pesquisou nos prontuários qual ou quais auto-anticorpos estavam envolvidos, anti-SSA/Ro, anti-SSB/La, anti-RNP, anti-Sm e anti-Scl 70, bem como sua associação com os padrões de IFI do FAN e os dados demográficos e quadros clínicos dos pacientes anti-SSA/Ro positivo. Os diagnósticos das doenças auto-imunes foram estabelecidos conforme os critérios do Colégio Americano de Reumatologia (American College of Rheumatology)(13-17).

IFI

A IFI para células HEp-2 (Wama Diagnóstica, Brasil) foi realizada de acordo com o protocolo proposto pelo fabricante. As células foram incubadas com os soros diluídos nas seguintes titulações 1:80, 1:160, 1:320, 1:640, 1:1280 em tampão salina fosfato pH 7,2 (PBS) por 30 minutos em câmara úmida à temperatura ambiente. Em seguida, as lâminas foram lavadas duas vezes por 10 minutos em PBS e incubadas por 30 minutos com anticorpos secundários anti-IgG humana conjugada com isotiocianato de fluoresceína (FITC) em câmara escura à temperatura ambiente. Após a incubação, as lâminas foram lavadas em PBS e montadas com glicerina tamponada e lamínula. A leitura foi feita em microscópio de fluorescência, modelo Olympus BX 50 sob aumento de 500 vezes(3).

ENA POR HEMAGLUTINAÇÃO

O teste do ENA foi realizado de acordo com o protocolo proposto pelo fabricante (Virgo/Hemagem, EUA). As hemácias foram previamente sensibilizadas com os antígenos RNP, Sm, SSA/Ro, SSB/La e Scl-70; e incubadas com soros diluídos 1:50 (50µl) em solução salina por 90 minutos à temperatura ambiente. Após a incubação, foi feita a interpretação dos resultados. Para os soros que apresentaram reação positiva nessa primeira etapa de rastreamento, foi feita a identificação dos auto-anticorpos específicos, individualmente, para os diferentes ENA.

ESTATÍSTICA

Utilizamos a estatística descritiva para apresentação dos dados demográficos e proporções de testes positivos em uma planilha Excel (Microsoft, versão 2003).

 

RESULTADOS

Foram analisados 392 soros de pacientes com solicitações para anti-ENA no período de janeiro de 2004 a março de 2006. Encontramos nessa amostra 90 pacientes com anti-ENA positivo e 302 negativo.

Os pacientes com resultado de anti-ENA positivo apresentaram uma faixa etária de 10 a 84 anos, com média de 42 e desvio-padrão de 18,6 anos, havendo um evidente predomínio do sexo feminino de 94% (86/90).

Na Tabela 1, mostramos a relação entre os testes de anti-ENA positivo e o FAN. Encontramos associação entre anti-ENA positivo e FAN positivo em 97,7% (88/90). Todos os pacientes com anti-SSA/Ro positivo apresentaram FAN positivo. Somente dois pacientes apresentaram anti-ENA positivo e FAN negativo. O quadro clínico de um desses pacientes era paniculite, nódulos subcutâneos e alopecia (paciente anti-RNP positivo), e o do outro era LES em remissão (paciente anti-RNP e anti-Sm positivos) em tratamento com glicocorticóide.

 

 

Os padrões de imunofluorescência do FAN e as freqüências dos auto-anticorpos ENA específicos estão dispostos na Tabela 2. O auto-anticorpo anti-SSA/Ro apresentou a maior freqüência do grupo, com 67,7% (61/90), sendo 31 soros exclusivos para anti-SSA/Ro e 30 com associação com outros auto-anticorpos. Nessas 30 associações, foram encontrados os seguintes anticorpos concomitantemente ao anticorpo anti-SSA/Ro: anti-SSB/La (26,6%); anti-RNP (26,6%); anti-SSB/La e anti-RNP (6,6%); anti-RNP e anti-Sm (16,6); anti-SSB/La e anti-Sm (10%); anti-SSB/La, anti-RNP e anti-Sm (6,6%); e anti-SSB/La, anti-RNP, anti-Sm e anti-Scl-70 (6,6%). O segundo auto-anticorpo mais freqüente foi anti-RNP, representando 48,8% da amostra, seguido por anti-SSB/La (17,7%), anti-Sm (16,6%) e anti-Scl-70 (1,1%).

 

 

Os padrões de imunofluorescência do FAN apresentados pelas amostras anti-SSA/Ro positivo foram: nuclear pontilhado fino, nuclear pontilhado grosso, nuclear homogêneo e nuclear pontilhado pontos isolados (< 10 pontos). E, em oito soros anti-SSA/Ro positivo, observamos a presença de mais de um padrão, estes foram identificados como padrão misto. O padrão de imunofluorescência mais freqüente para anti-SSA/Ro positivo foi nuclear pontilhado fino (42/61).

Os quadros clínicos dos pacientes anti-SSA/Ro positivo estão demonstrados na Tabela 3; LES foi o quadro clínico mais encontrado em 33 dos 61 pacientes. Somente três pacientes não apresentavam características de doença auto-imune, nestes, os quadros clínicos associados eram neoplasia de mama, neoplasia de útero e quadro inflamatório.

 

 

DISCUSSÃO

Usualmente, o teste anti-ENA é solicitado para identificação de auto-anticorpos específicos, após o paciente com quadro clínico de doença auto-imune sistêmica ter apresentado um teste de FAN positivo. Muitos trabalhos têm relatado uma sensibilidade inferior a 100% das células HEp-2 na detecção de anticorpos anti-SSA/Ro(18-22). Bossuyt et al (20) sugere que esse fato possa acontecer por uma possível perda desse auto-antígeno durante o processo de fixação dessas células, usado na produção dos kits de FAN com células HEp-2.

No período de dois anos, identificamos 90 pacientes com anticorpos anti-ENA positivos testados no Serviço de Patologia Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, maioria de mulheres (94%), com idade média de 42 anos (desvio-padrão de 18 anos), em concordância com os achados prévios(23,24).

Nessa amostra, o anticorpo anti-SSA/Ro foi o de maior prevalência, tendo sido identificado em 67,7% (61/90) dos pacientes anti-ENA reagente, dados semelhantes aos relatados por Sanchez-Guerrero J et al (19), que encontraram anti-SSA/Ro positivo em 40% de sua amostra, e por Pollock and Toh(21), que encontraram em sua amostra 65% de anti-SSA/Ro nos anti-ENA positivos.

Observamos que, dos 61 pacientes positivos para anti-SSA/Ro, 30 possuíam associação com outros auto-anticorpos. A coexistência em uma mesma doença auto-imune de diversos auto-anticorpos contra distintos constituintes de um mesmo complexo molecular já foi estudada anteriormente por Tan(25), sugerindo que esse fato pode ser explicado pela formação de complexos supramoleculares como SSA/SSB e Sm/RNP.

Nossos resultados mostram que 97% dos pacientes anti-ENA reagentes eram também reagentes para FAN. Todos os pacientes positivos para o auto-anticorpo anti-SSA/Ro foram positivos também para o teste FAN com células HEp-2, mostrando 100% de sensibilidade desse teste para a detecção de anti-SSA/Ro. Sendo assim, concordamos com Kavanaugh et al (7), sugerindo que, aos pacientes com FAN negativo, não há indicação de outro teste. Contudo, encontramos dois pacientes com FAN negativo e anti-ENA positivo. Um desses pacientes apresentava anti-RNP positivo e tinha evidências de doença auto-imune, e o outro apresentava anti-RNP e anti-Sm positivos com um diagnóstico de LES em remissão com uso de glicocorticóides. Encontramos na literatura um caso em que um paciente com LES apresentava anti-RNP positivo e FAN negativo(12).

No entanto, no passado, quando o substrato utilizado para o FAN era tecido de animal (fígado e rim de ratos), podia-se verificar FAN negativo em pacientes anti-SSA/Ro positivo devido à diminuída expressão desse antígeno quando comparado às células HEp-2(13). Porém Hoffman et al (12) realizaram um estudo com 494 amostras, no qual foram utilizados dois substratos para FAN por IFI, células HEp-2 e células HEp-2 geneticamente modificadas, com superexpressão do auto-antígeno SSA/Ro (HEp-2000® Immunoconcepts, EUA), encontrando três pacientes com anti-SSA/Ro positivo que só apresentaram positividade para FAN por IFI quando o substrato utilizado era células HEp-2 geneticamente modificadas(19).

Apesar de a sensibilidade do FAN para LES ser de 95-100%(7,25), podem-se encontrar pacientes com esse diagnóstico sem um teste de FAN positivo. Ainda não se sabe se esses pacientes formariam um subgrupo de LES ou se isso seria um resultado falso-negativo de FAN(26).

O padrão de imunofluorescência do FAN predominante dos pacientes anti-ENA positivos foi o nuclear pontilhado fino, tanto naqueles com anti-SSA/Ro positivos (68,9%) (42/61) quanto nos outros auto-anticorpos. A correlação encontrada entre anticorpos anti-SSA/Ro e o padrão nuclear pontilhado fino já foi demonstrada por outros autores(3,19,27) e não deve ser usada como único parâmetro, pois esse padrão também foi o mais prevalente nas amostras sem a presença desse anticorpo, o que pode ser explicado talvez pela coexistência do anticorpo anti-SSB/La, que também costuma apresentar esse padrão de imunofluorescência.

Os quadros clínicos mais encontrados nos pacientes anti-SSA/Ro positivos foram o LES e a síndrome de Sjögren, condizendo com o que se esperava encontrar, pois essas patologias estão fortemente relacionadas com a presença desse auto-anticorpo(22,27,28).

É importante ressaltar que em nosso trabalho foi utilizada hemaglutinação para a detecção de anticorpos anti-ENA, podendo assim diferir na sensibilidade e especificidade de outros métodos (Elisa, contra-imunoeletroforese, imunodifusão etc.), como já foi relatado por inúmeros autores(26,29-33). Novas pesquisas sobre essas diferentes metodologias que não só comparem técnicas de detecção dos auto-anticorpos, mas que também analisem os pacientes quanto aos seus dados clínicos e acompanhem o curso das doenças nos pacientes, são necessárias para uma melhor utilização das tecnologias disponíveis hoje(34).

O teste de FAN em células HEp-2 por IFI mostrou ser um bom método de rastreamento para a detecção de auto-anticorpos anti-SSA/Ro, apresentando maior associação com o padrão nuclear pontilhado fino e com os quadros clínicos de LES e síndrome de Sjögren.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos funcionários do Serviço de Reumatologia e do Serviço de Patologia Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, especialmente às bioquímicas Marta Bergman Senger, Maria Clara Medina Correa e Dra. Carolina Sichinger Moura de Souza.

Declaramos a inexistência de conflitos de interesse.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Ricardo Machado Xavier
Rua Ramiro Barcelos, 2.350, sala 645
CEP 90035-003, Porto Alegre, RS, Brasil
telefone (51) 2101-8340
e-mail: rmaxavier@hcpa.ufrgs.br

Recebido em 03/10/06.
Aprovado, após revisão, em 22/11/06.

 

 

Serviços de Reumatologia e Serviço de Patologia Clínica (SPC), Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Fundo de Incentivo à Pesquisa e Eventos (Fipe).