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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. vol.49 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042009000600005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Aspectos da saúde reprodutiva em homens com miopatia inflamatória idiopática. Um estudo multicêntrico

 

 

Clovis Artur Almeida da SilvaI; Ana Julia Pantoja MoraesII; Marta Miranda LealIII; Adriana Maluf Elias SallumIV; Eloísa BonfáV; Claudia Tereza Lobato BorgesVI; Maria Odete Esteves HilárioVII; Maria Teresa TerreriVIII; Marcos RonchezelIX; Osmar SaitoX; Jorge HallakXI

IProfessor Livre Docente do Departamento de Pediatria da FMUSP. Médico Responsável pela Unidade de Reumatologia Pediátrica do Instituto da Criança (ICr) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
IIDoutor em Ciências pela FMUSP. Professora do Departamento de Pediatria da Universidade Federal do Pará
IIIMestre em Medicina pela FMUSP. Médica Assistente da Unidade de Adolescentes do ICr-HC-FMUSP
IVDoutora em Ciências pela FMUSP. Médica Assistente da Unidade de Reumatologia Pediátrica do ICr-HC-FMUSP
VProfessora Titular da Disciplina de Reumatologia do HC-FMUSP
VIDoutora em Medicina pela FMUSP. Médica Assistente da Disciplina de Reumatologia do HC-FMUSP
VIIProfessora Livre Docente do Departamento de Pediatria da UNIFESP. Médica Responsável pelo Setor de Reumatologia Pediátrica da UNIFESP
VIIIDoutora em Medicina pela UNIFESP. Médica Assistente do Setor de Reumatologia Pediátrica da UNIFESP
IXDoutor em Medicina pela UNIFESP. Médico Assistente do Setor de Reumatologia Pediátrica da Santa Casa de São Paulo
XDoutor em Radiologia pela FMUSP. Médico Responsável pela Setor de Ultrassonografia de Pequenas Partes do Departamento de Radiologia do HC-FMUSP
XIDoutor em Medicina pela FMUSP. Médico Assistente da Disciplina de Urologia do HC-FMUSP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a saúde reprodutiva de homens com miopatia inflamatória idiopática (MII) e compará-la com controles saudáveis.
MÉTODOS: Vinte e cinco pacientes com MII (dermatomiosite ou polimiosite) foram avaliados com relação aos dados demográficos, exame urológico (incluindo parâmetros pubertários e função sexual/erétil), ultrassonografia testicular, perfil hormonal, análise seminal, características clínicas e tratamento. O grupo controle incluiu 25 homens saudáveis.
RESULTADOS: A mediana da idade atual foi similar nos pacientes com MII e controles (24 versus 27 anos, P = 0,566). As frequências de atividade sexual, número de parceiras com gestações espontâneas após início da doença e uso de preservativo masculino foram significativamente menores nos pacientes com MII versus controles (60% versus 96%, P = 0,004; 16% versus 60%, P = 0,0031; 40% versus 76%, P = 0,021; respectivamente). Além disso, as frequências de atrofia testicular (28% versus 4%, P = 0,049), níveis elevados de FSH e/ou LH (25% versus 0%, P = 0,05) e alterações dos espermatozoides (40% versus 0%, P = 0,0006) foram estatisticamente maiores nos pacientes com MII quando comparados aos controles. As medianas das idades de início da doença e atual foram estatisticamente maiores nos pacientes com MII que apresentaram disfunção sexual/erétil versus sem disfunção (41 versus 12,5 anos, P = 0,014; 46 versus 21 anos, P = 0,027; respectivamente). Entretanto, comparando-se, pacientes com disfunção sexual/erétil e sem disfunção, nenhuma diferença foi evidenciada em relação à idade da espermarca, parâmetros de função gonadal, atividade da doença, enzimas musculares e tratamento.
CONCLUSÃO: Este foi o primeiro estudo que identificou alterações da saúde reprodutiva e disfunção gonadal em homens com MII. Reumatologistas devem discutir problemas sexuais e orientar contracepção aos seus pacientes.

Palavras-chave: saúde reprodutiva, função sexual, sêmen, hormônio, miopatia inflamatória idiopática, homem.


 

 

INTRODUÇÃO

As miopatias inflamatórias idiopáticas (MII), entre elas dermatomiosite (DM), dermatomiosite juvenil (DMJ) e polimiosite (PM), são doenças autoimunes sistêmicas caracterizadas por inflamação muscular crônica e fraqueza muscular progressiva. As características clínicas e eletromiográficas são similares entre as doenças e a biópsia muscular é considerada o "padrão ouro" para o diagnóstico diferencial.1,2 A incidência anual das MII é de aproximadamente 0,5 a 8,4 casos por milhão de habitantes, com maior frequência entre duas faixas etárias (10 e 15 anos, 45 e 64 anos) e raramente evidenciadas no sexo masculino.1,2

Desde 1960, a sobrevida e o prognóstico dos pacientes com MII têm melhorado significativamente com a introdução dos corticosteroides e posteriormente dos imunossupressores.2 Estes aspectos reforçam a importância de estudos sobre a qualidade de vida relacionada à saúde, incluindo avaliação da função testicular e da saúde reprodutiva,3-6 como marcos pubertários, função sexual e potencial de fertilidade.3

Recentemente, estudando parâmetros da função gonadal exclusivamente em 10 homens adultos com DM e 10 controles pareados, sem avaliação da função sexual, identificamos nesses pacientes disfunção gonadal em frequência superior a dos seus controles saudáveis associada à atividade de doença.6 No lúpus eritematoso sistêmico (LES), essa alteração esteve associada com o uso de ciclofosfamida endovenosa.7-10

Há também um relato na literatura médica de alteração da saúde reprodutiva em adolescentes do sexo masculino com DMJ.4 Entretanto, nenhuma pesquisa avaliou a função sexual e/ou erétil em pacientes com MII e utilizou adequadamente o termo infertilidade, como preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A OMS reforça a necessidade da avaliação do casal e a infertilidade é definida como ausência de concepção após um período consecutivo de 12 meses de atividade sexual, sem a utilização de métodos contraceptivos.11

Assim sendo, o objetivo do presente estudo foi avaliar a função gonadal e a saúde reprodutiva de homens com MII, comparando-os a controles saudáveis. Além de estabelecer possíveis associações entre dados demográficos, parâmetros da função gonadal e da saúde reprodutiva, atividade da doença, enzimas musculares e tratamento dos pacientes que apresentam disfunção sexual e/ou erétil versus os pacientes que têm função normal.

 

PACIENTES E MÉTODOS

Pacientes com MII e controles

Quarenta pacientes do sexo masculino com idades entre 15 e 54 anos foram selecionados consecutivamente para este estudo entre janeiro de 2006 e janeiro de 2008. Esta população representa a totalidade dos pacientes que estavam em acompanhamento regular em quatro Serviços de Reumatologia da cidade de São Paulo: Unidade de Reumatologia Pediátrica do Instituto da Criança (ICr) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Ambulatório de Miopatias da Divisão de Reumatologia do HC da FMUSP, Serviço de Reumatologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo e Serviço de Reumatologia Pediátrica da Santa Casa de São Paulo. Todos os pacientes preenchiam os critérios de Bohan e Peter para o diagnóstico de MII.12 Nenhum deles apresentava câncer associado a MII.

Os critérios de exclusão foram hidrocele, hipospádia, criptorquidia, infecção testicular por caxumba, câncer testicular, orquite, vasculite testicular, disfunção ureteral, história de cirurgia escrotal ou inguinal, diabetes mellitus, história atual de uso de álcool ou tabagismo, e recusa a coletar amostra de sêmen ou avaliação incompleta. Quinze pacientes foram excluídos: oito por recusarem, cinco por avaliação incompleta dos exames, um por apresentar orquidopexia por criptorquidia e outro por ectopia testicular à esquerda. Os 25 pacientes restantes foram avaliados (13 DMJ, 10 DM e dois PM) e comparados com o grupo controle que consistia de 25 homens saudáveis: 10 adolescentes acompanhados na Unidade de Adolescência do ICr-FMUSP e 15 adultos da Divisão de Urologia do Ambulatório de Vasectomia da FMUSP. As classes socioeconômicas foram avaliadas de acordo a classificação da Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercados.13 O Comitê de Pesquisa e Ética do HC-FMUSP aprovou o estudo e o termo de consentimento livre e esclarecido foi assinado por todos os participantes e, quando necessário, de seus responsáveis.

Avaliação da saúde reprodutiva

História clínica e exame urológico

Estas avaliações incluíram: dados demográficos (idade de início da doença, tempo de duração da MII e idade atual), índice de massa corpórea (IMC que corresponde ao peso corpóreo em quilogramas dividido pela altura em metros quadrados), idade da primeira ejaculação percebida (espermarca por masturbação, polução noturna ou atividade sexual), idade de início da atividade sexual, realização e número de atividade sexual no último mês, parceiras com gestações, presença de disfunção sexual ou ejaculatória pela história clínica [libido reduzida, disfunção erétil, ejaculação precoce, ausência de orgasmo (anorgasmia) e/ou insatisfação da vida sexual].11,14 Infertilidade foi definida como ausência de concepção após um período consecutivo de um ano de atividade sexual, sem a utilização de métodos contraceptivos.

Um exame clínico sistemático da genitália foi realizado nos pacientes e controles pelo mesmo urologista do Centro de Reprodução Humana do HC-FMUSP e incluiu avaliação dos testículos, epidídimos, vasos deferentes, escroto e pênis.11 As características sexuais foram avaliadas de acordo com os critérios pubertários propostos por Tanner, através da distribuição dos pelos pubianos e características da genitália.15 Os volumes testiculares foram medidos usando o orquidômetro de Prader, que consiste de 12 modelos elipsóides graduados de 1 a 25 mL (1 a 6, 8, 10, 12, 15, 20 e 25 mL).16 Em adolescentes pós-púberes e homens adultos, atrofia testicular foi definida quando volume testicular era < 12 mL.17

Avaliação da função gonadal

Ultrassonografia testicular com Doppler

Ultrassonografia testicular foi realizada em todos os pacientes e controles pelo mesmo ultrassonografista do Departamento de Radiologia do HC-FMUSP, especialista em exame testicular, usando um scanner de 14-MHz (Logic 9-GE- Milwaukee, Wisconsin, Estados Unidos da América), de maneira cega, à análise da saúde reprodutiva e dos outros parâmetros da função gonadal. A ultrassonografia testicular tem maior acurácia e precisão para mensurar o tamanho dos testículos em relação a orquidometria de Prader.3 Os testículos foram mensurados nos planos axial e longitudinal e foram obtidas pelo menos duas medidas de largura, comprimento e espessura. A maior medida em cada dimensão foi gravada e usada para calcular o volume testicular de acordo com a forma para uma elipsoide (largura X comprimento X espessura X 0,52). Em adolescentes pós-púberes e homens adultos, atrofia testicular pela ultrassonografia testicular foi definida quando volume testicular era < 7 mL.18

Perfil hormonal e hipogonadismo primário

As determinações hormonais foram realizadas no início do estudo no Laboratório de Investigação Médica (LIM 36) do Departamento de Pediatria da FMUSP. Resultados anormais foram repetidos para confirmação. O hormônio folículo estimulante (FSH), o hormônio luteinizante (LH) e a testosterona total foram dosados através de imunofluorescência usando kits DELPHIAR time-resolved fluoroimmunoassay (WALLAC Ou, Turku, Finlândia). Os coeficientes de variação intra e inter-análise foram 3,5% e 2,1%, respectivamente. Os valores normais foram: FSH (1 - 10,5 UI/L), LH (1 - 8,4 UI/L) e testosterona total (271 - 965 ng/dL). Hipogonadismo primário foi definido como níveis séricos elevados de gonadotrofinas hipofisárias (FSH e/ou LH) e reduzidos de testosterona total.19

Alterações dos espermatozoides

A análise dos espermatozoides foi realizada de acordo com as diretrizes da OMS11,20 por dois biomédicos experientes do Centro de Reprodução Humana do HC-FMUSP, de maneira cega aos outros parâmetros da saúde reprodutiva e função gonadal. Todos os pacientes e controles coletaram duas amostras de sêmen por masturbação numa sala de coleta, após 48 a 72 horas de abstinência sexual, no período de até um mês após a admissão ao estudo. Após a coleta, as amostras foram processadas dentro de uma hora de liquefação e analisadas pela contagem manual, assim como pelo sistema de análise dos espermatozoides assistida por computador sob uma ampliação de 400X, usando um HTM-2030 (Hamilton Thorne Research, Beverly, Massachusetts, Estados Unidos). Cada diapositivo foi escaneado para estimar o número de espermatozoides por campo equivalente a 1 mL, para obter uma concentração de espermatozoide aproximada em milhões de espermatozoides por mililitro de sêmen. A motilidade dos espermatozoides foi determinada através da análise de pelo menos cinco campos microscópicos de maneira sistemática para classificar 200 espermatozoides. A morfologia dos espermatozoides incluiu a avaliação da cabeça do espermatozoide, pescoço, peça intermediária e cauda.11 Oligozoospermia foi definida quando a concentração espermática foi < 20 milhões/mL, astenozoospermia quando a motilidade dos espermatozoides < 50%, teratozoospermia quando a morfologia normal dos espermatozoides foi < 15% segundo a OMS e oligoastenoteratozoospermia foi definida por alterações das três variáveis.11 A morfologia dos espermatozoides foi também avaliada de acordo com o critério estrito de Kruger, no qual morfologia normal < 14% está associada a subfertilidade.21

Anticorpos antiespermatozoides

A pesquisa de anticorpos antiespematozoides foi realizada na primeira amostra de sêmen no Centro de Reprodução Humana do HC-FMUSP. Estes foram determinados pelo teste direto de Immunobead que utiliza reagentes contendo imunoglobulinas de coelho dirigidas contra anticorpos anti-espermatozoides humanos (IgA, IgG e IgM) (Irvine Scientific, Santa Ana, Califórnia, Estados Unidos da América). Os testes diretos com anticorpos marcados detectam anticorpos que se ligam à superfície celular do espermatozoide (cabeça do espermatozoide, parte intermediária e/ou cauda). Pelo menos 50% dos espermatozoides móveis devem estar revestidos com anticorpos marcados antes do teste ser considerado clinicamente significativo.20 O controle de qualidade foi definido conforme recomendado pelo fabricante (Irvine Scientific, Santa Ana, Califórnia, Estados Unidos).

Avaliações dos escores da MII, enzimas musculares e tratamento

No momento da realização de todos os parâmetros da saúde reprodutiva e função gonadal, as avaliações de atividade global da doença pelo médico e pelo paciente foram realizadas através da escala visual analógica (EVA)22 de zero cm (doença inativa) a 10 cm (atividade máxima)]. Além disso, as seguintes enzimas musculares foram aferidas: creatinoquinase (CK), desidrogenase lática (DHL), aldolase, aminotransferase alanina (ALT) e aminotransferase aspartato (AST). O tratamento foi também avaliado com a utilização de prednisona, ciclofosfamida, azatioprina e metotrexato.

Análise estatística

Resultados foram apresentados em mediana (variação) para variáveis contínuas e número (%) para variáveis categóricas. Os resultados foram comparados pelos testes t ou Mann-Whitney para variáveis contínuas para determinar diferenças entre pacientes com MII versus controles e entre pacientes com MII de acordo com dois grupos: com e sem disfunção sexual e/ou erétil. Para as variáveis categóricas, as diferenças foram calculadas pelo teste exato de Fisher. Valores de P £ 0,05 foram considerados estatisticamente significativos.

 

RESULTADOS

Dados demográficos, índice de massa corpórea, aspectos da saúde reprodutiva e função gonadal em homens com MII e controles saudáveis

A idade atual e o IMC foram similares entre pacientes com MII e grupo controle (24 versus 27 anos, P = 0,566; 23 versus 21 kg/m2, P = 0,149; respectivamente). Todos os pacientes e controles apresentavam maturação sexual completa segundo os critérios de Tanner, com pelos pubianos adultos atingindo superfície interna das coxas (P5) e genitais adultos em tamanho e forma (G5).15 Não houve diferença estatística em relação a idade da espermarca nos dois grupos estudados (13 versus 12 anos, P = 0,093). Houve um predomínio da raça parda em 100% dos pacientes com MII e 96% nos controles (P = 1,0). As frequências de classes socioeconômicas B e C foram similares em pacientes com MII e controles (80% versus 80%, P = 1,0). A primeira ejaculação percebida por masturbação foi similar em ambos os grupos (72% versus 60%, P = 0,551). Houve uma diferença estatística entre uma menor frequência da utilização de preservativo masculino entre MII e controles (40% versus 76%, P = 0,021).

Com relação aos aspectos da saúde reprodutiva, atividade sexual no último mês foi relatada por 60% dos pacientes com MII e por 96% dos controles saudáveis, com diferença estatisticamente significativa (P = 0,004). Além disso, o percentual de parceiras com gestações espontâneas após o início da doença foi estatisticamente menor nos pacientes com MII versus controles (16% versus 60%, P = 0,0031). A mediana do tempo de doença dos quatro pacientes com MII cujas parceiras tiveram gestação espontânea foi de sete anos (1-10).

Por sua vez, não houve diferença estatística entre idade da primeira atividade sexual, número de atividade sexual no último mês, presença de disfunção sexual/erétil (libido reduzido, disfunção erétil, ejaculação precoce e/ou anorgasmia) e insatisfação da vida sexual nos pacientes com MII versus controles saudáveis (P > 0,05, Tabela 1).

 

 

Um aspecto relevante do presente estudo foi que infertilidade foi diagnosticada em apenas um homem com MII aos 38 anos de idade e nenhum controle saudável (P = 1,0). A esposa deste paciente com MII foi avaliada no Centro de Reprodução Humana do HC-FMUSP, tinha ciclos menstruais ovulatórios, sem história prévia de abortamento e todos os exames complementares preconizados para avaliação da mulher do casal infértil foram normais: ultrassonografia pélvica e hormônios (tireoidianos, FSH, LH, estradiol e prolactina). O paciente em questão tinha uma doença ativa (EVA do médico foi de três e EVA do paciente foi de quatro), não utilizou ciclofosfamida previamente e apresentava teratozoospermia. Apresentava disfunção erétil e foi orientado a utilizar citrato de sildenafil 25 mg, 30 minutos antes da atividade sexual, com posterior normalização da ereção. Está em acompanhamento no Centro de Reprodução Humana do HC-FMUSP e ainda sem procriar.

Com relação à função gonadal, 40% dos pacientes com MII versus nenhum controle apresentaram alterações dos espermatozoides [azoospermia (ausência de espermatozoides) ou teratozoospermia (morfologia anormal de espermatozoides) associada com oligozoospermia (baixa concentração de espermatozoides) e/ou astenozoospermia (baixa motilidade de espermatozoides)] (P = 0,0006). A trofia testicular avaliada pela orquidometria de Prader e elevações das gonadotrofinas hipofisárias (FSH e/ou LH) foram mais evidenciadas nos pacientes com MII do que nos controles (28% versus 4%, P = 0,049 e 25% versus 0%, P = 0,05; respectivamente). Entretanto, nos dois grupos estudados não houve diferença estatisticamente significativa entre as frequências dos outros parâmetros da função gonadal: atrofia testicular por ultrassonografia, hipogonadismo primário, redução da testosterona total e presença de anticorpos antiespermatozoides (P > 0,05, Tabela 1).

Aspectos da saúde reprodutora e da função gonadal em pacientes com MII com e sem disfunção sexual e/ou erétil

Três pacientes (12%) com MII apresentaram disfunção sexual/ erétil e 22 pacientes (88%) tiveram função normal. Um dos pacientes com MII que apresentava disfunção erétil e infertilidade foi previamente descrito e os outros dois pacientes com disfunção sexual são também descritos.

Paciente 1 - 46 anos, apresentava três anos de diagnóstico de DM (critérios de Bohan & Peter).12 Sua primeira ejaculação percebida foi aos 12 anos e aos 17 anos iniciou atividade sexual, sem relações sexuais no último mês. Relatava ejaculação precoce, sem alterações da libido, ereção e orgasmo. Não faz uso de preservativo masculino e no momento está insatisfeito sexualmente. Com 41 anos de idade sua parceira engravidou espontaneamente. Apresentava atrofia testicular esquerda [orquidometria de Prader e ultrassonografia testicular (10 mL e 3,4 mL, respectivamente)]. Os níveis séricos hormonais evidenciaram: FSH 22,7 UI/L (1-10,5), LH 7,7 UI/L (1-8,4) e testosterona total 296 ng/dL (271 - 965). As duas amostras de sêmen apresentaram teratooligozoospermia e a pesquisa de anticorpo antiespermatozoide foi negativa. Este paciente apresentava doença ativa com EVA do médico de cinco e EVA do paciente de quatro. As seguintes enzimas musculares foram aferidas: CK 420 UI/L (39-308), ALT 28 UI/L (24-49), AST 14 UI/L (10-36), DHL 485 UI/L (240-480), aldolase 5 UI/L (< 7,6). A terapêutica usada para controle da doença foi prednisona (dose atual de 15 mg/dia e dose cumulativa de 5 gramas) e azatioprina (dose atual de 150 mg/dia e dose cumulativa de 17 grama.

Paciente 2 - 38 anos, apresentava há um ano diagnóstico de DM (critérios de Bohan & Peter).12 A primeira ejaculação percebida ocorreu aos 16 anos e sua primeira atividade sexual foi aos 17 anos, sem relações sexuais no último mês. No interrogatório da função sexual referia redução da libido e anorgasmia, sem dificuldade na ereção e na ejaculação. Não faz uso de preservativo masculino e no momento está insatisfeito sexualmente. Não reporta gravidez. Os volumes testiculares direito e esquerdo foram normais [orquidometria de Prader (25/25 mL) e ultrassonografia (13/15,7 mL)]. Os valores dos hormônios foram: FSH 3,9 UI/L, LH 1,2 UI/L e testosterona total 231 ng/dL. As duas análises do sêmen demonstraram teratozoospermia e a pesquisa de anticorpo antiespermatozoides foi negativa. No momento da avaliação da saúde reprodutiva apresentava atividade cutânea da doença (EVA do médico de quatro e EVA do paciente de três). As enzimas musculares foram normais CK 68 UI/L, ALT 24 UI/L, AST 19 UI/L, DHL 454 UI/L, aldolase 4 UI/L. A terapêutica usada para controle da doença foi prednisona (dose atual de 15 mg/dia com dose cumulativa de 4,5 gramas) e azatioprina (dose cumulativa de 15 gramas).

 

DISCUSSÃO

O presente estudo multicêntrico inédito avaliou simultaneamente aspectos da saúde reprodutiva e da função testicular em pacientes com miopatias inflamatórias e demonstrou uma redução da atividade sexual, assim como uma maior frequência de disfunção gonadal em homens com MII versus controles.

A função sexual refere-se à capacidade de finalizar o ciclo sexual que inclui interesse, desejo ou vontade sexual (libido), ereção, ejaculação, orgasmo e satisfação.23 Neste estudo, todas estas características da função sexual foram avaliadas por dados da história clínica, como sugerido pela OMS para avaliação da infertilidade masculina,11 não sendo aplicado um instrumento genérico ou específico de função sexual e/ou depressão. Disfunção e redução da atividade sexual, conforme evidenciadas em homens com MII neste estudo, têm sido descritas em populações masculinas com doenças reumáticas crônicas, principalmente: artrite reumatoide,24 espondilite anquilosante25 e LES.26,27 Por sua vez, pesquisas avaliando a função sexual em pacientes com MII são escassas, com apenas relatos de casos de gravidez em populações de mulheres com estas doenças.28-30 No presente estudo, 12% da população com miopatia apresentou disfunção sexual, com predomínio em homens de meia idade e que iniciaram tardiamente a sua doença. De fato, disfunção sexual global ou específica (como disfunção erétil, ejaculação precoce, anosgamia e insatisfação sexual) ocorre progressivamente com o aumento da idade.31 A disfunção sexual poderia também ocorrer pela atividade da doença, por mialgia, fraqueza ou contratura muscular dificultando o ciclo sexual, o que não foi observado nos nossos pacientes.

Além disto, o preservativo masculino nas relações sexuais rotineiras foi utilizado em apenas 40% dos homens com MII deste estudo. A orientação contraceptiva envolve o conceito de dupla proteção, ou seja, proteção contra gravidez e doenças sexualmente transmissíveis (incluindo síndrome da imunodeficiência adquirida e papiloma vírus humano). Dessa forma, deve ser enfatizado o uso de preservativo masculino em todas as relações sexuais, na orientação contraceptiva dos pacientes com MII.13,29 Com relação ao sexo feminino, a prática da atividade sexual desprotegida tem aumentado as gestações nestas pacientes, conforme evidenciado em nossas pacientes com DMJ29 e em recente estudo multicêntrico brasileiro com LES juvenil, envolvendo 12 Serviços de Reumatologia Pediátrica distribuídos em quatros estados.32

Um aspecto interessante é que tanto os pacientes com MII como os controles iniciaram sua atividade sexual precocemente (mediana de 15,7 versus 16 anos). Este dado foi similar em dois de nossos outros estudos em mulheres com doenças crônicas, cujo início da vida sexual em adolescentes com LES foi similar ao grupo controle (média de 15,3 anos),33 o mesmo observado em adolescentes com epilepsia versus controles pareados (mediana de 15 anos).34

A espermarca representa um marco pubertário importante da capacidade reprodutora nos homens, assim como é a menarca no sexo feminino.8 A idade da primeira ejaculação percebida não foi atrasada nos pacientes com miopatias inflamatórias quando comparada aos controles. Este achado foi distinto em pacientes do sexo feminino com LES, cuja menarca ocorreu aproximadamente um ano após, quando comparadas com adolescentes saudáveis brasileiras.33,35

Na avaliação da função gonadal do homem, as reduções dos volumes testiculares avaliadas pela orquidometria de Prader e alterações dos espermatozoides sugerem uma agressão grave aos túbulos seminíferos nos pacientes com MII. Além disto, os níveis de gonadotrofinas hipofisárias foram maiores nestes pacientes. De fato, FSH é um marcador de função do epitélio seminífero9-11 e níveis elevados sugerem lesão testicular, conforme evidenciado por nosso grupo previamente em homens com LES, e reforça a necessidade de criopreservação do sêmen, mesmo sem uso prévio de imunossupressores, como a ciclofosfamida.9,10 Outro aspecto relevante é que apesar da disfunção testicular observada no nosso estudo, a maioria dos pacientes tem ainda uma função sexual satisfatória, apesar de uma reduzida frequência de parceiras com gestações após o início da doença. Outra pesquisa sobre avaliação da função gonadal baseada na disfunção das células de Sertoli será realizada. Esta disfunção será avaliada através do hormônio inibina B, produzido exclusivamente pelo testículo.

Em conclusão, saúde reprodutiva e função gonadal estão comprometidas nos homens com MII. O atendimento ao paciente deve incluir discussão dos aspectos da sexualidade e contracepção, prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, teratogenicidade de algumas drogas utilizadas para tratamento, assim como conscientização dos riscos da doença e dos medicamentos sobre a sua fertilidade.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Profa. Thelma Suely Okay, pela realização dos hormônios, e ao Dr. Ulysses Dória-Filho, pelo auxílio à análise estatística.

 

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Endereço para correspondência:
Prof. Dr. Clovis Artur Almeida da Silva
Rua Araioses, 152/81 - Vila Madalena
São Paulo - SP. CEP: 05442-010
Fax: (11) 3069-8503
E-mail: clovis.silva@icr.usp.br

Recebido em 09/04/2009.
Aprovado, após revisão, em 28/09/2009.

 

 

Esse estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (Grant 05/56482-7 para CAAS), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPQ (Grants 300248/2008-3 para CAAS e 305468/20065 para Eloísa Bonfá) e da Federico Foundation (Grant para Eloísa Bonfá). Clovis Artur Almeida da Silva recebeu auxílio dos fundos remanescentes da SBR.