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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. vol.52 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042012000200006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Uso da corrente catódica de alta voltagem sobre a dor em compressão nervosa experimental

 

 

Gladson Ricardo Flor BertoliniI; Cassiane Merigo do NascimentoII; Daniela Martins CunhaII; Elisangela Lourdes ArtifonII; Anamaria MeirelesIII

IDoutor em Ciências da Saúde Aplicadas ao Aparelho Locomotor, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo - FMRP-USP; Professor Adjunto, Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste
IIFisioterapeuta, Unioeste
IIIEstudante do curso de Graduação em Fisioterapia, Unioeste

Correspondência para

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o efeito da corrente catódica de alta voltagem sobre a dor em um modelo experimental de ciatalgia.
MÉTODOS: Foram utilizados 16 ratos Wistar, machos, submetidos a um modelo de ciatalgia experimental no membro pélvico direito. Os sujeitos foram divididos em grupo simulacro (GS) e grupo tratado com corrente catódica (GP-) por 20 min diários durante 10 dias. O modelo de compressão foi realizado com amarria por fio catgut 4.0 cromado, em quatro pontos ao longo do nervo isquiático. A avaliação da nocicepção foi realizada, de forma funcional, com o tempo de elevação da pata (TEP), e à pressão, pelo limiar de retirada, via analgesímetro eletrônico. Os dados foram coletados antes do modelo de ciatalgia (AV1), três dias depois da compressão (antes, AV2, e após o tratamento, AV3), após o quinto dia de tratamento (AV4) e em seguida ao décimo dia de tratamento (AV5).
RESULTADOS: Pela avaliação funcional, em ambos os grupos houve aumento da nocicepção, sem redução da mesma em qualquer momento da avaliação. À pressão, no entanto, o GS mostrou redução do limiar de retirada em todos os momentos, enquanto o GP- apresentou redução do limiar apenas inicialmente - em AV5 o limiar foi restaurado.
CONCLUSÃO:
Não houve alteração na nocicepção pela avaliação funcional; porém, à pressão, o tratamento com corrente catódica mostrou efeito com a somatória de terapias.

Palavras-chave: estimulação elétrica nervosa transcutânea, neuropatia ciática, medição da dor.


 

 

INTRODUÇÃO

Pacientes com sintomas de dor lombar relatam substancial melhora na dor e na função quando realizam tanto tratamento cirúrgico quanto conservador.1 A ciatalgia, porém, é um importante fator de pior prognóstico nesses casos,2 pois gera maior custo financeiro, além de maior incapacidade laboral e ausência no trabalho.3

Ciatalgia pode ser definida como dor neuropática originada por lesão do sistema nervoso, causada por compressão, diabetes mellitus, infecção, trauma e doenças autoimunes.4 Para alguns autores, o termo refere-se apenas a radiculopatias. Contudo, é amplamente conhecida como a dor que surge da região lombar baixa, ou ao longo do trajeto nervoso, e que irradia em direção à perna.5 É associada a parestesias, além de possível déficit neurológico, como paresia e alterações reflexas. A principal causa dos sintomas é uma reação inflamatória que resulta em irritação ou em compressão nervosa. A prevalência de sintomas varia muito na literatura, entre 1,6%-46%, o que pode ser explicado por diferenças nas definições, nos métodos de coleta de dados e nas populações estudadas. Hérnia discal e estenose lombar ou foraminal são doenças típicas que causam ciatalgia; porém, há diversas outras razões, como tumores, cistos ou outras razões extraespinhais.3 Postura inadequada, submissão à vibração corporal e longos períodos em posição sentada também relacionam-se com maior risco de desenvolvimento da ciatalgia.6

Os tratamentos são diversos. A terapia medicamentosa, apesar de ser a mais utilizada, tem efeitos colaterais que colocam em dúvida a relação riscos/benefícios.7 Outra modalidade terapêutica é a de intervenções não cirúrgicas, porém poucas delas se mostram efetivas.8 O tratamento cirúrgico apresenta-se como o mais efetivo em curto prazo, mas em longo prazo os benefícios diminuem.9 Finalmente, há o tratamento conservador, não farmacológico, incluindo modalidades fisioterapêuticas, para as quais os riscos são raros mas as evidências ainda são insuficientes.10

Desse modo, estudos que abordam modalidades fisioterapêuticas para o tratamento da ciatalgia ganham importância. Mostra-se útil o uso de animais de experimentação para avaliar, de forma pré-clínica, a nocicepção causada por lesões nervosas,11 como no modelo de compressão nervosa apresentado por Bennett e Xie,12 que simula um quadro de ciatalgia.

Uma das modalidades de eletroestimulação utilizadas na prática clínica é a corrente de alta voltagem. Segundo Davini et al.,13 há evidências de que essa terapia diminui a dor e facilita o reparo tecidual. A corrente de alta voltagem pode ser descrita como pulsada, monofásica, de pico duplo, com duração de pulso de 5-100 µs, amplitude de pico elevada, de alta voltagem (acima de 100 V). Essas características possibilitam uma estimulação relativamente agradável, capaz de atingir as fibras nervosas sensoriais e motoras, além daquelas responsáveis pela condução de impulsos nociceptivos. Ela tem aplicações especialmente em casos de úlceras cutâneas e para redução de edema, principalmente com estimulação catódica. Assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar o aumento de nocicepção, advindo de quadro de ciatalgia experimental, com uso de corrente catódica de alta voltagem.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Grupos experimentais

Foram utilizados 16 ratos (Rattus norvergicus) da linhagem Wistar, machos, com peso de 376,80 ± 24,68 g e 14 ± 2 semanas de idade. Os animais foram alojados em caixas de polipropileno, submetidos a ciclo claro/escuro de 12 horas, com temperatura de 25 ± 1 ºC, e receberam água e ração ad libitum durante todo o período experimental.

Os animais foram divididos aleatoriamente em dois grupos:

• Grupo simulacro (GS, n = 8): submetido a ciatalgia no membro pélvico direito e a tratamento placebo;

• Grupo tratado com corrente catódica (GP-, n = 8): submetido a ciatalgia e tratado com corrente catódica no local da cirurgia.

O projeto foi conduzido segundo as normas internacionais de ética em experimentação animal, e aprovado pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal e Aulas Práticas da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), sob protocolo número 0209.

A Tabela 1 apresenta a sequência temporal da pesquisa.

 

 

Protocolo de lesão experimental

Os animais foram anestesiados com xilazina (12 mg/kg) e quetamina (95 mg/kg) intraperitoneal e, em seguida, realizou-se a tricotomia no local do procedimento cirúrgico. Uma incisão paralela às fibras do músculo bíceps femoral da coxa direita do animal foi realizada, expondo, assim, o nervo isquiático. Seguindo o modelo descrito por Bennett e Xie,12 efetuou-se a compressão ao redor do nervo em quatro regiões distintas ao longo do mesmo, com distância aproximada de 1 mm uma da outra, utilizando-se fio catgut 4.0 cromado, reproduzindo os sintomas de ciatalgia. Em seguida, realizou-se sutura por planos.

Teste de incapacidade funcional

Os animais foram submetidos ao teste de incapacidade funcional, descrito originalmente por Tonussi e Ferreira,14 que avaliaram a nocicepção durante a marcha em um cilindro com aproximadamente 30 cm de diâmetro recoberto por uma tela de aço inoxidável, que girava a 3 rpm acionado por um motor elétrico. Nas patas posteriores dos animais foram acopladas botas de metal. A bota da pata posterior direita transmitia informações ao computador, no qual um programa indicava os valores de tempo de ausência de contato da bota do animal ao deambular em um minuto. Dessa forma foi possível mensurar o tempo (em segundos) em que o membro pélvico direito manteve-se no cilindro, além do tempo em que ficou sem contato (tempo de elevação da pata - TEP). A pata posterior esquerda permaneceu com a bota, mas sem transmitir informações, no intuito de que ambos os membros experimentassem as mesmas sensações. Tonussi e Ferreira14 descreveram que, normalmente, animais sem alterações exibem em sua marcha, durante 1 min, a manutenção da pata no ar por cerca de 10 s.

O experimento foi iniciado após o terceiro dia de treinamento dos animais, que consistia em deambulação sobre o cilindro. Iniciou-se a coleta de dados antes da cirurgia (primeira avaliação, AV1). No dia seguinte ao término dos treinos foi realizado o modelo experimental de ciatalgia, procedendo com a coleta de dados do teste de incapacidade ao terceiro dia de pós-operatório (PO), antes e após o primeiro tratamento (AV2 e AV3), depois do quinto dia de tratamento (AV4) e, finalmente, em seguida ao décimo dia de tratamento (AV5). As avaliações que ocorreram depois da terapia foram realizadas 30 min após a recuperação anestésica dos animais.

Avaliação do limiar de retirada

A nocicepção também foi avaliada pelo limiar de retirada do membro ao estímulo mecânico. O equipamento utilizado para realizar o teste de nocicepção foi o analgesímetro eletrônico de pressão da marca Insight®. O equipamento consiste em um braço transdutor com uma ponteira de polipropileno descartável, com variação de 0,1-1.000 g, ligado a uma caixa amplificadora, medindo a pressão realizada sobre a superfície do animal.

Os animais foram contidos manualmente, e a ponteira de polipropileno foi aplicada na região da compressão nervosa, perpendicularmente à área, com gradual aumento de pressão. Assim que o animal retirou o membro posterior direito, o teste foi interrompido para registro do limiar de retirada. Houve um tempo de adaptação e treino dos animais com duração de três dias. As avaliações ocorreram sempre na sequência do TEP.

Protocolo de tratamento

No terceiro dia PO deu-se início ao tratamento, de forma diária, por 10 dias seguidos, por 20 min cada terapia, utilizando-se o equipamento de alta voltagem Neurodyn High Volt, da marca IBRAMED®, com certificado de calibração válido para o período da pesquisa.

Para a aplicação da corrente de alta voltagem, especificamente sobre a incisão cirúrgica, os animais foram anestesiados e posicionados em decúbito lateral esquerdo. Os eletrodos utilizados eram de borracha-silicone, e foram posicionados sobre a região da incisão cirúrgica e na região lombar dos animais. O eletrodo ativo (local da cirurgia) tinha 1 cm2, e o eletrodo passivo (região lombar) tinha 4 cm2 de área. A intensidade da corrente era aumentada até que se observasse contração muscular - então, era reduzida em 10% desse valor, produzindo, assim, estimulação apenas no nível sensitivo. A frequência utilizada foi de 50 Hz.

Análise dos resultados

A normalidade dos resultados foi analisada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Os resultados foram expressos por meio da estatística descritiva (média e desvio-padrão) e analisados pela estatística inferencial, com uso da análise de variância com medidas repetidas, com pós-teste de Tukey para análise intragrupo, e teste t não pareado para análise intergrupos, respectivamente. Em ambos os testes o nível de significância foi α = 0,05.

 

RESULTADOS

Teste de incapacidade funcional

Os resultados foram analisados comparando-se os momentos pré-lesão com os momentos posteriores e os valores pós-lesão com os subsequentes. Para o GS houve aumento significativo da nocicepção entre o momento pré-lesão e todos os momentos posteriores. Não houve diminuição significativa ao se comparar o momento prévio ao primeiro tratamento (AV2) com os seguintes (Figura 1).

 

 

Na avaliação da nocicepção foi possível observar, com o teste de incapacidade funcional, que a corrente catódica não produziu diminuição do quadro nociceptivo de forma significativa. Em nenhum momento de avaliação posterior ao AV1 houve restauração dos valores. Também não houve diminuição significativa ao comparar o AV2 (momento prévio à primeira terapia) com os momentos seguintes, ou em comparação com o GS. Ou seja, a funcionalidade permaneceu prejudicada pelo aumento da nocicepção, percebida pelo animal devido à ciatalgia experimental (Figura 2).

 

 

Não houve variação significativa na comparação entre o GS e o GP- nos diferentes momentos de avaliação.

Avaliação do limiar de retirada

A avaliação do limiar nociceptivo à pressão mostrou diminuição do limiar de retirada para ambos os grupos - ao comparar os valores pré-cirurgia (AV1) com os valores pré-tratamento no terceiro PO (AV2), houve redução de forma significativa, fato que permaneceu após a primeira terapia (AV3). No entanto, o GP- (Figura 3) apresentou restauração dos valores iniciais nas avaliações posteriores à quinta e décima terapias, fato não observado para o GS (Figura 4), que continuou diferente estatisticamente em relação ao AV1. Além disso, o AV5, no GP-, apresentou diferença significativa em comparação com o AV2, demonstrando aumento significativo do limiar nociceptivo à pressão. Na comparação entre GS e GP- nos diferentes momentos de avaliação, foi possível observar que não houve diferença significativa de AV1 até AV4, com grupos para AV5.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Visto que o nervo isquiático é o maior nervo do corpo humano e está sujeito a diversos tipos de lesões, como esmagamento, transecção, estiramento e congelamento, tornam-se importantes os estudos que investigam métodos para o tratamento do mesmo quando exposto a lesões. Modelos experimentais de compressão nervosa em ratos são utilizados devido à sua semelhança com o nervo de humanos.15 É preciso levar em consideração também que experimentos com animais, além de gerar conhecimento, podem ser reprodutíveis e servem como fonte valiosa de informações para a saúde em geral - experimentos com medidas comportamentais de dor neuropática em animais estão se tornando cada vez mais comuns.11 Neste estudo optou-se pelo modelo de compressão nervosa descrito por Bennett e Xie,12 que reproduz a sintomatologia da ciatalgia visando a avaliar o efeito da corrente de alta voltagem, com uso do polo negativo atuando como polo ativo (corrente catódica) sobre a evolução da nocicepção, com dois diferentes estímulos - um funcional e um pressórico. Vale salientar que a nocicepção é definida como "resposta a estímulos potencialmente capazes de lesar tecidos".16 Assim, o processo de nocicepção tem por finalidade detectar estímulos de dano presente ou potencial.17 De acordo com Sandercock et al.,18 alterações no limiar mecânico nociceptivo podem demonstrar hiperalgesia primária ou redução da mesma - ou seja, o aumento do limiar mecânico pode demonstrar a diminuição do quadro de hiperalgesia.

O sistema nociceptivo existe para concentrar atenção em um estímulo perigoso, iniciar uma resposta de fuga ou suprimir esses reflexos para permitir uma resposta motora mais bem organizada. O estímulo doloroso é transmitido da periferia para a medula espinhal e para o tronco cerebral por fibras pequenas mielinizadas Aδ e fibras C amielínicas. As primeiras fibras recrutadas são de alto limiar, e as fibras Aδ transmitem a "primeira dor", percebida como claramente localizada e discriminada por sua duração, proporcional à aplicação do estímulo doloroso. No caso de estímulos mais intensos, a ativação de nociceptores polimodais promove um espalhamento desagradável e persistente da sensação dolorosa, com maior duração que a dor aguda e com ligeiro atraso no início. Essa "segunda dor" é associada a características afetivas e aspectos motivacionais, e pode tornar-se proeminente durante o curso de dor crônica.16

As avaliações mostraram que houve aumento da nocicepção no terceiro PO para os dois grupos, pois os valores tanto do TEP quanto da pressão necessária para a retirada do membro apresentaram diferença significativa com relação aos valores iniciais. Segundo Bertolini et al.,19 em animais submetidos ao modelo de compressão nervosa os valores do TEP são maiores que 10 s, levando-se em consideração que para animais sem aumento da nocicepção esperam-se valores próximos a 10 s.14Tal fato vai de encontro ao observado neste estudo para os dois grupos.

No teste de incapacidade funcional foi possível observar que a corrente catódica não produziu diminuição do quadro nociceptivo. Ou seja, os animais continuaram claudicando devido ao aumento da nocicepção percebida em razão da ciatalgia experimental, indicando que o TEP, apesar de utilizado em outros estudos para analisar a dor neuropática do isquiático,19,20 tem menor sensibilidade a pequenas variações, como a avaliação por pressão local. Resultado idêntico foi encontrado quando utilizada metodologia semelhante de lesão, porém com tratamento com corrente de alta voltagem anódica.2

De acordo com Bennett e Xie,12 os animais apresentam, após o modelo de compressão do nervo isquiático, claudicação da pata submetida à cirurgia. Tanto humanos quanto animais tendem a apresentar a disfunção no uso do membro lesado. Bennett21 relata que o aumento da nocicepção nos animais inicia a partir do segundo PO, atingindo seu máximo por volta do 10º ao 14º dias. Assim, no presente estudo foram avaliados a nocicepção e o efeito do tratamento a partir do terceiro PO, compreendendo um período no qual a literatura aponta haver diminuição do limiar nociceptivo. Tais alterações foram analisadas neste estudo, refletindo diretamente no contato da pata com o solo, o que foi observado nos testes antes e após a cirurgia.

Em ambos os grupos houve diminuição do limiar nociceptivo à pressão. Tal diminuição se manteve para o GS, enquanto para o GP- houve aumento significativo dos valores após a quinta e a décima terapias, apontando que, se não houve restauração de valores, ao menos o limiar que estava baixo no terceiro PO aumentou na comparação com o oitavo e o 13º PO. Essa diferença entre os grupos ficou evidente na comparação entre ambos em AV5, pois o GP- apresentou limiar nociceptivo mais alto, indicando efeito somatório analgésico da corrente. Deve-se levar em consideração que os animais eram avaliados somente depois de se recuperarem da anestesia, e que também não foi observada analgesia após a primeira terapia, havendo, assim, necessidade de somação de terapias. Ou seja, prováveis efeitos analgésicos, como a teoria das comportas, ou o bloqueio da condução nervosa, podem ser descartados como causa da redução da nocicepção aqui encontrada.22

A corrente de alta voltagem tem, em diversos trabalhos, apresentado efeitos positivos quando utilizada com estimulação de corrente catódica.23-27 O presente estudo teve por objetivo, portanto, avaliar o uso dessa corrente sobre a nocicepção de animais submetidos à ciatalgia experimental, tanto com avaliação funcional quanto com avaliação por pressão local.

Segundo Davini et al.,13 há evidências de que a corrente de alta voltagem possa reduzir o quadro álgico. Porém, ainda são necessários mais estudos relacionados ao uso da corrente de alta voltagem em casos de ciatalgia, experimental ou em casos clínicos, e até mesmo com relação à analgesia em modelos experimentais.

Stralka et al.28 utilizaram alta voltagem em indivíduos com lesões por esforços repetitivos e observaram que, além da redução do edema e do ganho de força, houve diminuição da dor. No entanto, Holcomb et al.,29 utilizando a corrente de alta voltagem catódica para inibir o estímulo doloroso da eletroestimulação neuromuscular, possibilitando, assim, maior intensidade de corrente e consequentemente maior torque muscular, não observaram resposta neuromuscular facilitada. Vale ressaltar que o estudo trabalhou com indivíduos saudáveis, ou seja, que não apresentavam qualquer doença capaz de induzir a dor - o que os autores desejavam era a alteração no limiar da percepção dolorosa.

É possível inferir que prováveis efeitos anti-inflamatórios da corrente tenham ocorrido, como aumento do fluxo linfático,30 redução de edema23-27 e aceleração do reparo tecidual.31 Tais efeitos podem ter auxiliado na remoção de substâncias álgicas e na redução na estase, favorecendo um possível efeito analgésico da corrente, porém não suficiente para melhorar uma prova funcional, como o TEP.

Ressalta-se, como limitações técnicas do presente estudo, a ausência de avaliação dos parâmetros histológicos ou eletrofisiológicos, o que aprofundaria as respostas sobre os mecanismos de efeitos, deixando-se essas sugestões para futuras pesquisas. Além disso, sugere-se também comparar a eletroestimulação com corrente de alta voltagem a outras formas já estabelecidas para tratamento de ciatalgia, como anti-inflamatórios não hormonais, por exemplo.

 

CONCLUSÃO

Com base nos resultados encontrados e na metodologia utilizada, conclui-se que não houve redução da nocicepção, favorecendo a função do animal. Contudo, o limiar nociceptivo à pressão foi reduzido de forma significativa, após cinco e 10 dias de terapia.

 

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Correspondência para:
Gladson Ricardo Flor Bertolini
Rua Universitária, 2069 - Jardim Universitário. Colegiado de Fisioterapia
CEP: 85819-110. Caixa Postal: 711. Cascavel, PR, Brasil
E-mail: gladson_ricardo@yahoo.com.br

Recebido em 14/06/2011.
Aprovado, após revisão, em 14/12/2011.
Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse.
Suporte Financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Processo 480748/2008.

 

 

Comitê de Ética: 0209.
Laboratório de Estudo das Lesões e Recursos Fisioterapêuticos, Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste.