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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. vol.52 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042012000500015 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Bloqueio cardíaco completo em espondilite anquilosante

 

 

Juan Pablo RestrepoI; María Del Pilar MolinaII

IMédico Reumatologista; Professor, Universidad del Quindío
IIClínico Geral

Correspondência para

 

 


RESUMO

A espondilite anquilosante é uma doença reumática crônica de homens jovens que afeta principalmente o esqueleto axial e está associada ao HLA-B27 em 90% dos casos. A incidência de envolvimento cardiovascular em casos de espondilite anquilosante varia entre 10%-30%; foram descritos distúrbios de condução em 1%-9% dos pacientes com a doença. A maior parte do grupo acometido demonstra uma relação com doença de longa data. Este é o primeiro relato de bloqueio cardíaco completo em espondilite anquilosante precoce de nosso conhecimento.

Palavras-chave: espondilite anquilosante, antígeno HLA-B27, bloqueio cardíaco.


 

 

INTRODUÇÃO

A espondilite anquilosante (EA) é uma doença reumática crônica de homens jovens que afeta principalmente o esqueleto axial e está associada ao HLA-B27 em 90% dos casos. Em pacientes com a doença crônica podem ocorrer manifestações cardiovasculares. Descrevemos um homem de 22 anos de idade que apresentou bloqueio cardíaco completo associado à EA.

 

RELATO DE CASO

Homem colombiano de 22 anos de idade, saudável sob outros aspectos, apresentou-se com início insidioso de lombalgia que melhorava com o exercício, mas não era aliviada com o repouso, há mais de um ano e meio. O paciente havia sido tratado com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) por vários meses, sem exibir resposta. O Índice de Atividade da Doença de Espondilite Anquilosante de Bath (BASDAI) e o Índice de Metrologia de Espondilite Anquilosante de Bath (BASMI) eram, em princípio, 4,8 e 2, respectivamente. As radiografias sacroilíacas revelaram sacroileíte bilateral de grau 3 (Figura 1), e o HLA-B27 era positivo. O paciente negou doença cutânea, ocular, intestinal e geniturinária associada. Feito um diagnóstico de EA, com base nos critérios de classifi cação modificados de Nova Iorque para EA.1 Foi instituído o adalimumabe na dose convencional e, seis meses depois, o paciente se recuperou totalmente de sua queixa principal. Dois meses antes, teve um episódio de síncope. Durante a internação, foi realizado um eletrocardiograma em repouso, que detectou bloqueio atrioventricular completo (Figura 2). O ecocardiograma e os testes laboratoriais encontravam-se normais com o implante de marca-passo do tipo DDD-R. Atualmente, o paciente apresenta um BASDAI de 0,4 e um BASMI de 2, além de estar completamente assintomático.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A EA é uma doença reumática crônica de homens jovens que afeta principalmente o esqueleto axial e está associada ao HLA-B27 em 90% dos casos.2 A incidência de envolvimento cardiovascular em casos de EA varia entre 10%-30%.3 As lesões mais comuns incluem aortite, incompetência valvular aórtica e distúrbios de condução. No último grupo podem ser observados bloqueios atrioventriculares, bloqueios de ramo do feixe de His e bloqueios intraventriculares. Foram encontrados bloqueios de condução atrioventricular em 1%-9% dos pacientes com EA.4 Em princípio, esses bloqueios aparecem de forma intermitente, mas podem evoluir para bloqueio atrioventricular completo e definitivo. Dos pacientes com complicações cardíacas, 99% são do gênero masculino.5

Parece haver uma relação entre o implante de marcapasso definitivo e os resultados positivos para HLA-B27. Foi constatado que 15%-20% dos pacientes com implante de marca-passo definitivo eram positivos para o HLA-B27.6 Duas teorias complementares podem explicar os distúrbios de condução: anomalias na artéria do nó atrioventricular e inflamação no septo intraventricular.7 O risco de complicações cardíacas aumenta com a idade do paciente, a duração da EA, a presença de HLA-B27 e o envolvimento de articulações periféricas.8 As alterações cardiovasculares tipicamente ocorrem na EA de longa data. Kinsella et al.9 relataram uma duração média de EA de 21 anos; já o grupo do pesquisador Brunner relatou uma duração média de 33 anos.10 Confirmando os achados prévios, Dik et al. não constataram nenhum bloqueio atrioventricular de segundo/terceiro grau até depois de 11 anos de acompanhamento.11 Esse grupo de pesquisadores definiu como "precoce" uma EA com diagnóstico de menos de dois anos. Nosso relato de caso sugere a monitoração cardíaca nos estágios iniciais do subgrupo acometido por EA e HLA-B27 positivo para diagnosticar os possíveis distúrbios de condução.

 

REFERÊNCIAS

1. van der Linden S, Valkenburg H, Cats A. Evaluation of the diagnostic criteria for ankylosing spondylitis: a proposal for modification of the New York criteria. Arthritis Rheum 1984;27(4):361-8.         [ Links ]

2. Peeters A, ten Wolde S, Sedney M, de Vries RR, Dijkmans BA. Heart conduction disturbance: an HLA-B27 associated disease. Ann Rheum Dis 1991;50(6):348-50.         [ Links ]

3. Kazmierczak J, Peregud-Pogorzelska M, Biernawska J, Przepiera-Bedzak H, Goracy J, Brzosko I et al. Cardiac arrhythmias and conduction disturbances in patients with ankylosing spondylitis. Angiology 2008;58(6):751-6.         [ Links ]

4. Bergfeldt L. HLA B27-associated cardiac disease. Ann Intern Med 1997;127(8 Pt 1):621-9.         [ Links ]

5. Sukenik S, Pras A, Buskila D, Katz A, Snir Y, Horowitz J. Cardiovascular manifestations of ankylosing spondylitis. Clin Rheumatol 1987;6(4):588-92.         [ Links ]

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7. Momeni N, Taylor N, Tehrani M. Cardiopulmonary manifestations of ankylosing spondylitis. Int J Rheumatol 2011;2011:728471.         [ Links ]

8. Ulusoy V, Ateş A, Çiçekcioğlu H, Acvioğlu Y, Karaaslan Y. Thirddegree heart block developing in a female patient with HLA-B27 positive ankylosing spondylitis. Rheumatol Int 2006;26(8):779-80.         [ Links ]

9. Kinsella D, Johnson L, Ian R. Cardiovascular manifestations of ankylosing spondylitis. Can Med Assoc J 1974;111(12):1309-11.         [ Links ]

10. Brunner F, Kunz A, Weber U, Kissling R. Ankylosing spondylitis and heart abnormalities: do cardiac conduction disorders, valve regurgitation and diastolic dysfunction occur more often in male patients with diagnosed ankylosing spondylitis for over 15 years than in the normal population? Clin Rheumatol 2006;25(1):24-9.         [ Links ]

11. Dik V, Peters M, Dijkmans P, Van der Weijden M, De Vries MK, Dijkmans BA et al. The relationship between disease-related characteristics and conduction disturbances in ankylosing spondylitis. Scand J Rheumatol 2010;39(1):38-41.         [ Links ]

 

 

Correspondência para:
Juan Pablo Restrepo
Calle 13 No 1-35, consultório 412, Armenia
Quindío, Colombia
E-mail: jprestrepo@lycos.com

Recebido em 03/10/2011
Aprovado, após revisão, em 27/06/2012
Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse.

 

 

Universidad del Quindío, Colômbia.