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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. vol.54 no.4 São Paulo July/Aug. 2014

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2014.03.023 

Artigos originais

Prevalência de anemia na artrite reumatoide

Smyrnova Ganna* 

Departamento de Medicina, Universidade de Medicina Nacional M. Gorky, Donetsk, Ucrânia

RESUMO

Objetivos:

O objetivo desse estudo foi avaliar a prevalência de anemia em pacientes com artrite reumatoide (AR).

Pacientes e métodos:

89 pacientes que satisfaziam os critérios do American College of Rheumatology (ACR) para AR foram incluídos nesse estudo. A duração média da doença foi 10,9±8,8 anos. Todos os pacientes foram medicados com metotrexato (10,5±5,5 mg/semana) em combinação com ácido fólico. Hormônios esteroides foram receitados para 92% dos pacientes (19,3±3,8 mg/dia).Velocidade de hemossedimentação (VHS), níveis de hemoglobina, proteína C reativa (PCR), fator de necrose tumoral alfa (TNFα) e interleucina-1 beta (IL1β) foram avaliados em todos os pacientes. Os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) para anemia utilizam um limiar para hemoglobina de <120 g/L para mulheres e de <130 g/L para homens.

Resultados:

Anemia foi observada em 57 (64%) dos pacientes (1º grupo); os demais pacientes (2º grupo) tinham níveis normais de hemoglobina (135,5±10,7 g/L). A duração e a atividade de AR foram significativamente maiores (p<0,05) no 1º versus 2º grupo. Os níveis médios de VHS, PCR, TNFα e IL-1β estavam significativamente aumentados (p<0,05) no 1º versus 2º grupo. Foram observadas correlações negativas entre o nível de hemoglobina e as concentrações de VHS, PCR, TNFα e IL-1β.

Conclusão:

Esse estudo demonstrou pela primeira vez que, na Ucrânia, 46% dos pacientes com AR apresentavam anemia. Um nível reduzido de hemoglobina foi associado à atividade intensa da doença.

Palavras-Chave: Artrite reumatoide; Anemia

Introdução

Artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune poliarticular, afetando cerca de 1% da população adulta.1 A doença se caracteriza por hiperplasia de sinoviócitos, principalmente fibroblastos sinoviais, resultando em destruição óssea e articular.2 Estudos recentemente publicados revelaram um papel crucial das citocinas e de outros mediadores da inflamação na evolução não só da síndrome articular, mas também de toda uma gama de manifestações sistêmicas da doença.3 Em particular, a síndrome anêmica é uma manifestação muito comum da inflamação reumatoide. Contudo, a prevalência de anemia em pacientes ucranianos jamais tinha sido investigada com relação à AR.

O objetivo desse estudo foi determinar a prevalência de anemia em pacientes com AR.

Métodos

Foram incluídos no presente estudo 89 pacientes que satisfaziam os critérios do American College of Rheumatology (ACR) para AR. A duração média da doença foi 10,9±8,8 anos. Todos os pacientes foram medicados com metotrexato (dose média, 10,5±5,5 mg/semana) em combinação com ácido fólico. Receitou-se hormônio esteroide para 92% dos pacientes (dose média, 19,3±3,8 mg/dia). Todos foram submetidos à seguinte bateria de testes: velocidade de hemossedimentação (VHS), níveis de hemoglobina, proteína C reativa (PCR), fator de necrose tumoral alfa (TNFα) e interleucina-1 beta (IL-1β). Os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) para anemia utilizam um limiar para hemoglobina de <120 g/L para mulheres e de <130 g/L para homens.4 Excluíram-se pacientes grávidas ou em aleitamento, pacientes com histórico de outra artrite inflamatória ou não inflamatória, anemia megaloblástica, malignidades, doença renal acompanhada de insuficiência renal grave, doenças infecciosas e inflamatórias crônicas e outras doenças no estágio de descompensação. Esse estudo foi aprovado pela comissão de ética local, e todos os participantes deram consentimento informado por escrito para sua inclusão.

Análise estatística

Utilizamos os testes de Kolmogrov-Smirnov e Shapiro-Wilk para testar normalidade, enquanto optamos por testes não paramétricos para testar os resultados e as sequências. As diferenças em percentuais entre grupos foram comparadas com o uso do teste do qui-quadrado ou exato de Fisher, onde cabível. Variáveis contínuas, como duração da doença e duração da rigidez matinal (RM), foram comparadas pelo uso do teste U de Mann-Whitney entre categorias de variáveis grupadas, e o grau de correlação entre as variáveis foi calculado pelos coeficientes de correlação ρ (rho) de Spearman. A estatística descritiva geral foi resumida com o uso de números e percentuais para variáveis categóricas e de mediana (mín-máx), enquanto utilizamos média ± desvio-padrão (DP) para variáveis contínuas. As análises estatísticas foram realizadas com a ajuda do programa "MedStat" versão 4.0 para Windows, e consideramos um valor p<0,05 como estatisticamente significativo.

Resultados

Observou-se anemia em 57 (64%) dos pacientes (1º grupo); os demais pacientes (2º grupo) tinham níveis normais de hemoglobina (135,5 ± 10,7 g/L). Os pacientes do 1º e 2º grupos exibiam semelhança estatística com relação à idade (p=0,21) e gênero (p=0,33).

A duração e atividade de AR foram significativamente maiores (p<0,05) no 1º versus 2º grupo (tabela 1). Os níveis médios de VHS, PCR, TNFα e IL-1β estavam significativamente aumentados no 1º grupo, em comparação com o 2º grupo (tabela 1).

Tabela 1 Comparação da atividade de AR nos dois grupos 

Parâmetros Valor p 1º grupo 2º grupo
Duração da AR 0,004 11,67±3,62 7,63±3,48
VHS, mm/h 0,03 51,26±24,67 29,65±19,84
PCR, mg/dl 0,001 48,27±12,18 4,38±1,28
TNFα, pcg/mL 0,001 32,54±9,71 7,69±3,45
IL-1β, pg/mL 0,04 166,32±18,54 102,28±16,34
Índice DAS28 0,004 5 (5;6,5) 3 (2,5;3)

Os resultados de uma análise de correlação entre o nível de hemoglobina e os parâmetros laboratoriais de atividade da AR estão resumidos na tabela 2. Houve correlações negativas entre o nível de hemoglobina e as concentrações de VHS, PCR, TNFα e IL-1β (tabela 2).

Tabela 2 Resultados de uma análise de correlação entre o nível de hemoglobina e os parâmetros laboratoriais de atividade da AR 

Exame laboratorial Coeficiente de correlação (r) Valores p
VHS, mm/h -0,62 p<0,001
PCR, mg/dl -0,61 p<0,001
TNFα, pcg/mL -0,59 p<0,001
IL-1β, pg/mL -0,57 p<0,001

Discussão

De acordo com a literatura,5 a anemia ocorre em 30%-70% dos pacientes com AR. Há diferentes tipos de anemia, inclusive anemia por deficiência de ferro (ADF), anemia da doença crônica (ADC), anemia megaloblástica, anemia hemolítica e anemia COMBI, que podem ocorrer em pacientes com AR. Algumas causas de anemia são: alterações no metabolismo do ferro em decorrência de lesões da mucosa do trato gastrintestinal causadas por medicação esteroide, ou metotrexato; encurtamento da vida dos eritrócitos, ou sua produção inadequada pela medula óssea.6 Nossos resultados são consistentes com os dados na literatura. Uma característica desse transtorno é uma resposta enfraquecida da eritropoetina por precursores dos eritrócitos, diminuição da sobrevida dos eritrócitos e absorção defeituosa do ferro. A retenção defeituosa de ferro pelos macrófagos também pode contribuir para o transtorno, mediante a interrupção do fornecimento desse mineral para as células eritroides precursoras. O problema pode ser precipitado pelo comprometimento na utilização do ferro, caso em que o ferro funcional está baixo, mas o ferro tecidual está normal ou em nível elevado. Esta é a segunda forma mais comum de anemia em todo o mundo, vindo após ADF. Hoje em dia, já ficou claro que as citocinas inflamatórias liberadas durante a ADC podem alterar o metabolismo sistêmico do ferro, mediante a indução de um excesso na síntese de hepcidina, o hormônio regulador do ferro. Considerando que a hepcidina inibe a exportação do ferro celular mediante o bloqueio da atividade da ferroportina, um excesso de hepcidina é a causa da hipoferremia e da eritropoese limitada pelo ferro, observadas em casos de ADC.

Conclusões

Em conclusão, acreditamos que este seja o primeiro estudo a avaliar a prevalência de anemia em pacientes ucranianos com AR. Sugerimos que os pacientes com AR passem rotineiramente por uma análise de seus níveis de hemoglobina e, quando houver suspeita de baixos níveis de hemoglobina, seja realizada uma investigação adequada. Além disso, os pacientes devem ser orientados acerca da estimativa de parâmetros clínicos e laboratoriais da atividade da AR.

REFERÊNCIAS

Lawrence RC, Helmick CG, Arnett FC, Deyo RA, Felson DT, Giannini EH et al. Estimates of the prevalence of arthritis and selected musculoskeletal disorders in the United States. Arthritis Rheum. 1998;41:778-799. [ Links ]

Neumann E, Lefèvre S, Zimmermann B, Gay S, Müller-Ladner U. Rheumatoid arthritis progression mediated by activated synovial fibroblasts. Trends in Molecular Medicine. 2010;16:458-468. [ Links ]

Choy EH, Panayi GS. Cytokine pathways and joint inflammation in rheumatoid arthritis. N Engl J Med. 2001;12:907-916. [ Links ]

World Health Organization. WHO/NHD/01.3: Iron deficiency anaemia. Assessment, prevention and control. A guide for programme managers. Geneva, 2001. 114p. [ Links ]

Bloxham E, Vagadia V, Scott K, Francis G, Saravanan V, Heycock C et al. Anaemia in rheumatoid arthritis: can we afford to ignore it? Postgrad Med J. 2011;1031:569-600. [ Links ]

Kullich W, Niksic F, Burmucic K. Effects of the chemokine MIP-1alpha on anemia and inflammation in rheumatoid arthritis. Z. Rheumatol. 2002;61:568-576. [ Links ]

Recebido: 14 de Agosto de 2013; Aceito: 12 de Maio de 2014

* Autor para correspondência. E-mail: a.smyrnova@mail.ru (S. Ganna).

Conflitos de interesse

A autora declara não haver conflitos de interesse.

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