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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.15 Rio de Janeiro set./dez. 2000

 

NOTAS DE LEITURAS

 

 

Eduardo França Paiva

Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

DEL PRIORE, Mary (org.) & BASSANEZI, Carla (coord. de textos). História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto/Ed. UNESP, 1997, 678 p.

Três anos após a sua edição primeira, História das Mulheres no Brasil já experimenta uma notável trajetória. Para constatar esse sucesso, basta que o interessado comece a colecionar as resenhas e as referências aos textos que constituem o volume em obras escritas no Brasil e no exterior. São muitas e não estão restritas aos estudos sobre uma época, sobre um tema ou de uma área do conhecimento exclusivamente. Isso, inclusive, condiz com a pluralidade temática e temporal dos textos e com a diversidade conceitual-metodológica usada pelos autores, tudo coexistindo, ainda que nas diferenças, o que, por si só, é mérito a ser ressaltado. O livro, propositadamente, não foi escrito apenas para um público predeterminado, mas foi concebido para todos os tipos de leitores e leitoras: adultos jovens, especialistas e curiosos, estudantes e professores, segundo a organizadora do livro.

É a mesma Mary Del Priore (que tem emprestado seu prestigioso nome e seu trabalho competente a outras tantas obras coletivas e temáticas, vindas a público sob sua direção), que na apresentação afirma:

"A história das mulheres não é só delas, é também aquela da família, da criança, do trabalho, da mídia, da leitura. É a história do seu corpo, da sua sexualidade, da violência que sofreram e que praticaram, da sua loucura, dos seus amores e dos seus sentimentos."

Para escrever sobre essas histórias, sempre tomando as mulheres como protagonistas centrais, vinte autores foram convidados. Os assuntos tratados, como já disse, são os mais diversos, vários deles ainda pouco estudados e outros menos falados ainda, sobretudo entre o grande público. Assim, rapidamente, se pode arrolar alguns dos temas examinados nessas riquíssimas páginas. O cotidiano feminino entre os índios do Brasil, principalmente entre os tupinambás (Ronald Raminelli); a sexualidade e os jogos de sedução femininos entre os século XVI e XIX (Emanuel Araújo); o corpo da mulher visto pela magia e pela medicina na Colônia (Mary Del Priore); a homossexualidade e o erotismo femininos e a repressão inquisitorial (Ronaldo Vainfas); a vida das mulheres nas Minas Gerais do século XVIII, principalmente a vida das escravas, das libertas e de suas descendentes livres (Luciano Figueiredo); as mães, os filhos enjeitados e expostos durante os séculos XVIII e XIX (Renato Pinto Venâncio); as mulheres e a família burguesa nas áreas urbanas do século XIX (Maria Ângela D'Incao); o universo feminino no sertão oitocentista do Piauí e do Ceará (Miridan Knox Falci); a construção dos papéis femininos no Sul, no século XIX e no início do XX (Joana Maria Pedro); a sexualidade feminina e o tratamento da loucura nos primeiros anos da República (Magali Engel); a violência sobre as mulheres pobres no contexto de modernização urbana republicana (Rachel Soihet); as leituras e os escritos de mulheres oitocentistas (Norma Telles); a educação para meninas e a invenção das professoras nos séculos XIX e XX (Guacira Lopes Louro); a vida e a atuação das freiras entre os séculos XVII e XX (Maria José Rosado Nunes); a maternidade, a família e a pobreza no Brasil urbano das primeiras décadas do século XX (Cláudia Fonseca); as trabalhadoras na agricultura em São Paulo nos últimos cem anos (Maria Aparecida Silva); as operárias, a emancipação e a sexualidade femininas no início da industrialização brasileira (Margareth Rago); os modelos de mulher, de esposa, de mãe e de dona de casa durante os anos 50 e 60 do século XX, através das revistas femininas (Carla Bassanezi); as mulheres, os movimentos sociais e a cidadania no Brasil contemporâneo (Paola Cappellin Giulani) e, finalmente, o depoimento feminino e político de Lygia Fagundes Telles.

No ano seguinte à sua publicação, História das Mulheres no Brasil (a terceira edição já saiu em 2000) foi agraciado com o Prêmio Jabuti e logo depois já experimentava nova façanha: as primeiras propostas de tradução em língua estrangeira. Esse, realmente, é um feito que se deve sublinhar. Infelizmente, os escritos de estudiosos brasileiros vinculados às Ciências Sociais, entendidas, claro, no sentido mais amplo da expressão, não costumam despertar interesse entre os editores e nem mesmo entre os leitores estrangeiros. Essa, portanto, é uma oportunidade de estabelecer um diálogo profícuo entre as historiografias sobre a mulher e suas relações histórico-culturais com o mundo. História das Mulheres no Brasil é, então, um importante interlocutor para esses estudos comparáveis que, em 1994, no prefácio da segunda edição em inglês de A History of Women — Renaissance and Enlightenment Paradoxes (volume organizado por Georges Duby e Michelle Perrot, Cambridge, Massachusetts: Belknap-Havard, 1994 — originalmente editado em língua italiana, em 1991), Duby e Perrot queriam poder explorar. Nesse prefácio eles diziam:

"Esta é uma história de longa duração: cinco volumes cobrem a história do Ocidente, desde a antigüidade até o presente. E nossa história cobre, apenas, o Ocidente, do Mediterrâneo ao Atlântico. Histórias das mulheres do Oriente, da América Latina e da África são muito necessárias, e nós desejamos que, um dia, mulheres e homens dessas regiões as escrevam."

No que se refere ao caso brasileiro, o desejo realizou-se rapidamente e com maestria. Falta, contudo, colocar esse diálogo potencialmente rico e salutar em prática.

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