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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ.  n.22 Rio de Janeiro jan./abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000100013 

HOMENAGEM

 

Lembrando Neidson Rodrigues

 

 

Ângela Imaculada DalbenI; Maria Rita Neto Sales OliveiraII; Rita Amélia Teixeira VilelaIII

IUniversidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação
IICentro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
IIIPontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Mestrado em Educação

 

 

No dia 28 de fevereiro de 2003, a comunidade acadêmica da área da educação perdeu um grande pensador, pesquisador e profissional comprometido com o enfrentamento dos problemas educacionais.

Neidson Rodrigues, filósofo, doutor em Educação pela PUC/SP e com pós-doutorado na Universidade de Londres, era professor titular do Departamento de Administração Escolar da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE-UFMG), onde se aposentou em 2001. A FaE-UFMG, onde esse colega dedicou o maior tempo da sua vida profissional, perdeu um de seus mais queridos professores. Também na PUC/Minas e na Educativa-Minas, e em várias outras instituições do país em que lecionou, Neidson deixou, no coração de muitos profissionais da área, o sentimento de que a perda foi a de um grande amigo.

Sua vida acadêmica foi brilhante. Entusiasta da educação e das possibilidades políticas do investimento em educação, foi um profissional dedicado. Na sua passagem pela FaE-UFMG, como professor dos cursos de graduação e pós-graduação, sempre demonstrou uma relação positiva e de respeito para com as normas institucionais. Suas relações com os colegas e com os alunos sempre foram pautadas pelos princípios éticos da vida social e da vida acadêmica. No cotidiano de trabalho, sua conduta sempre foi exemplo de tolerância, de respeito mútuo e de solidariedade. Era muito bom participar com Neidson, através de conversas profundas e agradáveis, do seu entusiasmo para preparar suas aulas, dos seus projetos de pesquisa e de livros, dos seus ideais e compromissos com a melhoria da educação. No âmbito da pós-graduação, passou a integrar o Programa da FaE-UFMG em 1978, quando um novo projeto de ensino se instalava. A ousadia desse projeto, centrado no processo de problematização e reflexão da prática dos orientandos, conferiu-lhe lugar de destaque no conjunto dos programas de pós-graduação em educação do Brasil. Muitos de nossos colegas, espalhados pelas instituições educacionais, tiveram-no como orientador e, com certeza, também são testemunhas do seu brilhantismo e de sua conduta ética.

Como Diretor da FaE-UFMG, de 1994 a 1998, incentivou e viabilizou a criação do Grupo de Avaliação de Medidas Educacionais (GAME) com recursos conseguidos junto à Fundação Ford, e a criação da Cátedra de Ensino a Distância da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Os recursos advindos dessa fundação permitiram, também, que a FaE construísse sua rede de internet, ligando-a ao mundo, além de atualizar o conjunto de periódicos da sua biblioteca.

Em 1983, Minas Gerais foi palco de um dos mais belos exercícios de democracia vividos nesse país: o I Congresso Mineiro de Educação, sob a coordenação de Neidson Rodriques, então superintendente da SEE-MG, na gestão de Octavio Elísio, Secretário da Educação de Minas Gerais. Muitos de nós, que participamos desse projeto nas mais diversas situações, como professores da rede publica ou da UFMG, somos testemunhas vivas do significado desse verdadeiro movimento para a escola mineira e exemplo para outros estados. O trabalho enfrentado foi árduo, com a participação massiva de toda a comunidade escolar – pais, representantes da comunidade, professores, alunos, funcionários, equipe pedagógica. Todos tiveram, pela primeira vez, a oportunidade de discutir sua posição sobre a educação em nosso estado e construir propostas concretas de trabalho. Os colegiados, pedra angular para a gestão democrática da escola de educação básica, são fruto desse movimento. A semente foi plantada e o princípio da democracia na gestão escolar e na prática pedagógica continuou presente nas ações dos educadores da rede estadual em Minas Gerais, sendo, ainda hoje, referência para todos comprometidos com o trabalho e com a luta pela educação de qualidade no País.

Como Presidente da ANPEd, no biênio 1993-1995, Neidson teve uma ação firme e transparente para assumir e continuar a política iniciada pela gestão anterior, visando consolidar a Associação como entidade científica da área, marcando assim, seu lugar entre as congêneres no país. Com ponderação, firmeza e ética, ao lado de seus pares da diretoria, superou desafios enfrentados no período. Entre os muitos avanços conquistados em sua gestão, registramos: o início da organização profissional da Secretaria da ANPEd, com constituição da sua secretaria executiva, para enfrentar as tarefas decorrentes do crescimento da entidade e das solicitações recebidas; a consolidação do Comitê Científico, um dos instrumentos para aprimorar a qualidade da produção acadêmica, que encontra na ANPEd um de seus pontos de partida e de chegada; a criação da Revista Brasileira de Educação, com o apoio financeiro da Fundação Ford para a publicação de seus primeiros números e com o compromisso de garantir-lhe dimensão internacional. Além disso, ampliaram-se os instrumentos e mecanismos de divulgação da ANPEd no exterior e a sua consolidação como mediadora do intercâmbio internacional da área da educação no Brasil, particularmente pela maior participação de pesquisadores de outros países, em suas reuniões anuais.

Como administrador, em seu currículo encontramos ainda, entre outros trabalhos:

• Diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de Piracicaba (1973-1976)

• Secretário Municipal de Coordenação Política da Prefeitura Municipal de Piracicaba (1976-1978)

• Chefe do Departamento de Administração Escolar da Faculdade de Educação de Educação da UFMG (1991-1992)

• Coordenador do Colegiado de Pós-Graduação em Educação da UFMG (1993-1994)

• Membro da Diretoria do International Network of Philosophers of Education (INPE) (1990-1994)

• Presidente do Instituto de Pesquisas e Inovações Educacionais – Educativa (2002)

Além disso, Neidson foi um escritor talentoso. Publicou muitos artigos e sete livros. Seus livros têm presença freqüente nas bibliotecas dos professores que trabalham com ensino superior e educação básica, são referência obrigatória nos trabalhos acadêmicos e nas listas de obras para concursos públicos da área. Com exceção do primeiro, os outros seis foram publicados pela Cortez Editora de São Paulo e venderam em torno de 200 mil exemplares:

• Ciência e linguagem. Rio de Janeiro: Editora Achiamé, 1980

• Estado, educação e desenvolvimento econômico
1ª edição, 1982; 3ª edição, 1987; atualmente esgotado

• Lições do Príncipe e outras lições
1ª edição, 1984, 20ª edição, 2001

• Por uma nova escola
1ª edição, 1985; 13ª edição, 2003

• Da mistificação da escola à escola necessária
1ª edição, 1987; 10ª edição, 2001

• Filosofia... para não filósofos
1ª edição, 1989; 2ª edição, 2002

• Elogio à educação
1ª edição, 1999; 2ªedição, 2002

Em 1996, em Belo Horizonte, criou Presença Pedagógica, uma revista que tem ampla circulação nos meios acadêmicos, entre os professores e profissionais de educação que estão enfrentando o dia a dia das escolas. Foi editor dos primeiros seis números desse periódico, marcando suas características fundamentais: a teoria e a prática são essenciais na produção do conhecimento e na transformação da educação; o resultado da produção acadêmica precisa alcançar os profissionais que estão na prática, tanto na forma de circulação quanto na linguagem.

Aqueles, que tiveram o privilégio de compartilhar com Neidson situações particulares de trabalho, haverão de manter na memória a riqueza da experiência, marcada pela admiração ante às qualidades mencionadas, a sua sabedoria, entranhada sempre pela humildade profissional, a paciência de educador e sua posição de defesa da escola pública de qualidade.

Tudo isso é um pouco do que foi Neidson Rodrigues. Sabemos que por trás desses dados biográficos que resumem suas realizações esconde-se o enorme coração desse filósofo-educador que soube amar a vida e tudo o que ela lhe permitiu usufruir, tentando ensinar a todos as glórias e misérias da razão, como fundamentos da razão educativa. Este é o título de uma de suas obras que deixa inacabada, mas que, com certeza, será tornada pública pelo compromisso de trabalho de alguns de seus amigos e de sua companheira, Marilene da Conceição Carvalho, com quem somos solidários em sua saudade.

Enfim, Neidson teria partido, talvez ele estivesse distraído, filosofando... Mas entre nós continuam vivas suas idéias e ações, em prol de uma escola brasileira e da educação de qualidade, comprometidas com a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Nosso compromisso com isso é, com certeza, também, uma forma de prestar-lhe a homenagem que merece.

A ele a nossa saudade e o nosso eterno carinho!

 

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