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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ.  n.28 Rio de Janeiro jan./abr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782005000100010 

ARTIGOS

 

Escola-empresa: traços do empresário-sombra

 

School-business: traces of the shadow-businessman

 

 

Ada Beatriz Gallicchio KroefI; Gisele Soares GallicchioII

IAssessora da Secretaria Estadual de Educação e de Secretarias de Educação Municipais do Rio Grande do Sul
IIRede Municipal de Ensino de Porto Alegre

 

 


RESUMO

Este artigo consiste em um exercício cartográfico que procura marcar alguns traçados, trajetórias, linhas que compõem os contornos, sempre mutantes, da máquina chamada escola. Um dos devires cartografados envolve as relações e os movimentos da escola na empresa e da empresa na escola. Essas relações engendram mutações de fluxos capitalísticos, marcando as Sociedades de Controle e constituindo novos estados, novos arranjamentos que delineiam a escola na atualidade.

Palavras-chave: escola; empresa; mercado; sombra.


ABSTRACT

This paper is a cartographic exercise in which we seek to highlight some traces, trajectories and lines that make up the always-changing contours of this machine called school. One of the "transformations" that is mapped here is concerned with the relationships and movements between the school in the business and the business in the school. These relationships engender mutations in the capitalistic flows that inform Societies of Control and constitute new situations and arrangements which contribute to give school its current shape.

Key-words: school; business; market; shadow


 

 

Alguns movimentos de diluição da escola na empresa e da empresa na escola que engendram as mutações do capitalismo mundial integrado, marcando as sociedades de controle, são cartografados neste artigo. A análise proposta não se aparta da prática, da experimentação. A cartografia é inseparável dos acontecimentos, é imanente a eles. Portanto, não há separação entre teoria e prática em busca de referentes e transcendências. Essa análise procura marcar os traços e conceitos que compõem e constituem as práticas. Prática entendida como "um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra [...] ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede" (Foucault, 1996a, p. 69-70). Para tanto, projetos e programas de várias instituições com atividades no Rio Grande do Sul são analisados, utilizando os conceitos de controle, ensino móvel, performance, Estado, simulação e sombra como ferramentas analíticas para demarcar desterritorializações e reterritorializações da escola e da empresa que indicam reformas do Estado.

 

Fluxos do capitalismo

Deleuze (1996, p. 209-216) traça como as mutações que caracterizam o capitalismo atual, dirigido para o mercado e o produto, e não para a produção e propriedade, transformam a fábrica, a família, e escola — meios de confinamento — em figuras cifráveis, deformáveis e mutantes. As conquistas de mercado são realizadas pela tomada de controle, e não mais por formação de disciplina, muito mais por transformação do produto e não por especialização da produção. Esse capitalismo dispersivo faz com que a fábrica ceda lugar à empresa.

O marketing torna-se instrumento de controle social, e esse controle é de curto prazo, de rotação rápida, contínuo e ilimitado. Não são mais necessários o enclausuramento e o confinamento, mas sim o endividamento e a ondulação em espaços abertos. Acontece uma implementação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação. No regime das escolas, as formas de controle são contínuas; a avaliação é contínua e a formação é permanente, visando o mercado. Há uma introdução da empresa em todos os níveis de escolaridade, um investimento de controle contínuo sobre o operário-aluno ou o executivo-universitário.

A substituição crescente da fábrica pela empresa, que caracteriza as Sociedades de Controle, vem transformando os espaços escolares. Percebe-se um investimento intenso nas escolas como gerenciadoras de empregos, formadoras de pequenos empresários, fomentadoras de pequenos empreendimentos e em local de aprendizagem e discussões de temas como mercado global, novas tecnologias no mercado de trabalho etc. Uma escola estadual de Montenegro (RS)— Escola Estadual de Ensino Fundamental Delfina Dias Ferraz — por exemplo, começou a especializar os trabalhadores que ainda estão cursando o ensino fundamental. Em vez de abrigar apenas classes escolares, a instituição de ensino desenvolveu uma agência de empregos. Adolescentes e adultos de toda a região, que mantêm vínculos como alunos ou pais de estudantes da escola, têm a oportunidade de se candidatar a vagas e realizar cursos gratuitos para especialização como office-boy e como secretária do lar — a conhecida doméstica. O Projeto Delfina Emprego cadastra os trabalhadores desde os 14 anos, em especial do curso noturno, até a terceira idade. A idéia surgiu quando um ex-aluno da escola, jornalista, elaborou os currículos para os estudantes que precisavam de emprego. Hoje, batizado como Amigo da Escola, ele expandiu o trabalho voluntário e passou a afixar os anúncios de vagas na região, além dos cursos de aperfeiçoamento e especialização, no saguão do prédio da escola. Os cadastros chegaram até à Internet. As indústrias da região começaram a ser convidadas pela direção a participar de um convênio com a escola. Com ele, é permitido o ingresso nas empresas de trabalhadores que ainda não concluíram o ensino fundamental. Em contrapartida, a escola promove os cursos de especialização, todos com voluntários, para treinar os alunos e seus pais em profissões ainda desconhecidas (Zero Hora, 22 out. 2000).

A transformação paulatina de centros industriais em centros de serviços necessita de uma requalificação profissional permanente para atender as modificações de mercado. Essa requalificação é realizada por meio de cursos profissionalizantes e de cursos complementares que são oferecidos por universidades, em seus projetos de extensão, e por organizações não-governamentais. A diluição da empresa na escola e da escola na empresa também é demarcada quando a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o Banco do Brasil, promove três cursos de pós-graduação dirigidos a empresários, executivos e profissionais liberais. Esses cursos têm ênfase em negócios do Mercosul, em Porto Alegre, e em agronegócios, para as turmas localizadas nas cidades de Santa Maria e de Passo Fundo (RS). Os convênios com a iniciativa privada são firmados pela universidade desde 1990, quando o banco Bamerindus se interessou em realizar um projeto de extensão universitária para seus executivos e funcionários, a fim de qualificar seus quadros.

Outro vetor de diluição corre em direção diferenciada. A Universidade Sebrae de Negócios, no Rio Grande do Sul, que tem como slogan "Uma universidade para quem faz acontecer", é voltada para empresários e universitários "que buscam novas perspectivas para desenvolver a criatividade estratégica, aprender a olhar desafios por outro ângulo e descobrir novas formas de conquistar mercado e outros clientes" (SEBRAE, 2000, s.p.). Essa universidade oferece programas que são divididos em módulos específicos, de curta duração ou de até três meses, além de vários cursos e oficinas como: Laboratórios de Negócios, Criatividade em Gestão, Fundamentos da Competitividade, Relações com o Mercado, Pilotando com Instrumentos de Controle. Os Programas Regulares são formatados para que o aluno-executivo "tenha uma abordagem teórica sempre associada à oportunidade de simular e praticar os conteúdos adquiridos" (SEBRAE, 2000, s.p.).

Devido às altas taxas de desemprego, é muito comum as entidades de classe como sindicatos, centrais sindicais e associações profissionais, oferecerem cursos de qualificação de mão-de-obra para atender as exigências do mercado. Também os governos, em nível federal, estadual e municipal, desenvolvem programas de qualificação de mão-de-obra que vão desde cursos voltados para atividades específicas até os Programas de Alfabetização de Jovens e Adultos que ocorrem nos lugares de trabalho como fábricas, empresas, bancos etc. Cursos dirigidos para empresários e executivos são oferecidos por entidades empresariais e, em nível de pós-graduação, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing e pela Universidade Sebrae de Negócios, como exemplos.

Estes movimentos de qualificação profissional nos lugares de trabalho caracterizam o que vem sendo chamado de ensino móvel. Outra modalidade de ensino móvel advém dos recursos e avanços tecnológicos das máquinas comunicacionais, que permitem que o estudante possa estudar em outros lugares que não a estrutura física da escola e/ou universidade, sendo avaliado pela produção e pelos resultados. De forma similar, também é possível o executivo não cumprir o horário no seu lugar de trabalho, produzindo em casa e sendo avaliado pelo resultado de sua produção, pelo prazo estabelecido e principalmente pela sua criatividade. Tais modalidades de ensino móvel não requerem mais o enclausuramento, diluindo-se em vários aspectos: desde o espaço físico até outras modalidades de controle que não o horário ou o cartão-ponto. O que vale é, muito mais, o desempenho e a eficácia necessários para a resolução de problemas.

O transbordamento da disciplina — e do diagrama panóptico1 — desdobra-se dessas inovações técnicas/tecnológicas e da sofisticação de equipamentos que engendram as máquinas cibernéticas, produzindo uma expansão da comunicação e da informação por ondas e freqüências capazes de extrapolar os espaços fechados. As sociedades disciplinares operam máquinas energéticas, que exprimem formas sociais, instituindo o corpo e sua distribuição como superfície de poder, enquanto as máquinas cibernéticas das sociedades de controle dissipam o controle como uma espécie de gás, de alma — alma gás —, que modula, em rotações rápidas, trocas flutuantes num feixe contínuo e ilimitado, acessando a informação. Essas máquinas produzem efeitos de controle constante por modulações, freqüências e ondulações, fazendo com que o domínio seja exercido pela comunicação.

Hoje, a Internet está ajudando os pais a acompanharem o rendimento de seus filhos. As chamadas Escolas 24 Horas substituem o professor particular, oferecendo atendimento nas diversas disciplinas curriculares e aos alunos que ainda não aprenderam a ler; inclusive aos que estão em creches e berçários, as Escolas 24 Horas possibilitam que os pais, pela tela do computador, possam acompanhar o atendimento feito a seus filhos, pois tudo é filmado. No Brasil já existem cerca de 60 Escolas 24 Horas (Rede Globo de Televisão, "Jornal Hoje", 25 maio 2000). Não há mais contrastes de sombra e luz, aberturas e fechamentos, que, combinados, produzem efeitos normalizadores. Há imagens instantâneas.

O controle encontra-se ligado à comunicação máxima e a essa instantaneidade, que possui no significante um modo de operar como referente universalizante. Os diferentes conteúdos são reduzidos a uma forma padronizada, que viabilizará sua veiculação. As máquinas cibernéticas, ao utilizarem o significante como suporte da informação e da imagem, remetem-se a uma espécie de representação instantânea. Guattari (1996) assinala que as atuais máquinas informacionais e comunicacionais contentam-se em veicular conteúdos representativos. Essa forma de equivalência, que faz do significante um componente das estratégias comunicacionais realizadas pelas máquinas cibernéticas, realimenta a lógica capitalística, acarretando mutações do capitalismo.

O ensino virtual é implementado por várias e diferentes instituições educativas e o controle reproduz-se pela gestão dos mercados de saber. Os saberes são transformados em informações processadas em domínios que articulam práticas técnico-científicas e econômicas, segundo os princípios do equivaler generalizado. O uso das máquinas cibernéticas, que imprimem na comunicação um valor totalizante, capturando e decodificando as diferentes matérias de expressão, deve ser problematizado.

O controle não é um domínio coercitivo ou disciplinar, mas um domínio de informação e de comunicação que, por meio de significantes, investe em representações, e não em criações. As interceptacões, que barram as modulações contínuas de controle, formam vacúolos possíveis de desembocar em processos criativos. Segundo Deleuze (1996), "é preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar" (p. 217). A linguagem é um aprisionamento de fluxos. Fluxos interplanetários de partículas processadas por satélites, transformadas em diferentes linguagens, imagens, materiais expressivos. Ondas são processadas em freqüências, produzindo um controle turbilhonar e contínuo. O silêncio coloca-se como uma possibilidade momentânea de interceptação, como um desvio de fluxos energéticos e magnéticos.

As sociedades de controle anunciam a falência da escola enquanto espaço de confinamento, como apontaria uma analítica na perspectiva foucaultiana. O próprio capitalismo produziu um contingente numeroso demais para o confinamento, passando a ter que enfrentar não só a dissipação das fronteiras institucionais, como também a explosão de guetos e de favelas. Há a tendência de que a escola venha a se diluir em outros espaços, "em nome" de uma formação permanente, contínua.

Diferentes iniciativas públicas e privadas reformam a escola, adaptando-a às novas exigências do capitalismo. No seminário realizado pelo Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul, intitulado "A dialética da escola no mundo do trabalho", foram apresentadas as novas diretrizes para a educação profissional de nível técnico. O representante do Conselho Nacional de Educação, Francisco Aparecido Cordão, afirmou que o ensino médio é a etapa de consolidação da educação básica e deve preparar o cidadão para o trabalho. Enquanto isso, a educação profissional não deve assumir o lugar da educação básica. Segundo ele, "seu objetivo é complementar a educação básica e articular as dimensões de educação, ciência, trabalho e tecnologia", explicando que "a escola deve ser o centro de referência tecnológica para a área onde atua e para a região onde está localizada". Conforme o palestrante, "as escolas deverão estar em permanente atualização: promovendo o trabalho interdisciplinar e permitindo que a interação escola-comunidade seja uma realidade, por meio de projetos pedagógicos que definirão que tipo de profissional deseja formar" (Correio do Povo, 27 dez. 1999, p. 9).

Em outro evento, veiculado na imprensa local, o presidente do Instituto Ethos de Empresas de Responsabilidade Social, Oded Grajew, durante o I Fórum Permanente de Gestão Educacional Parceria Empresa-Escola, alerta que parcerias entre empresas privadas e instituições públicas de ensino são apoiadas por diversos setores da sociedade. "Há, porém, o perigo de que os alunos sejam transformados em simples consumidores, em profissionais voltados apenas para o mercado de trabalho". Ele afirma que a transmissão dos conceitos empresariais às instituições de ensino pode provocar uma inversão de valores. Ressalta que a transferência não acontece intencionalmente, mas devido ao próprio modo de operar das empresas. A responsabilidade social passou a ser sinônimo de lucro, sucesso de marca e estratégia de marketing, estimulando as empresas a abraçarem as causas sociais. Ainda sustentou que: "não se pode perder a função essencial da escola, que é formar cidadãos conscientes e capazes de pensar e se relacionar com a sociedade" (Correio do Povo, 24 nov. 2000b, p. 9), advertindo que, além das parcerias, para a melhoria da escola pública sempre serão necessárias ações dos governos.

As autoridades competentes não param de anunciar reformas supostamente necessárias. Como afirma Deleuze (1996, p. 220): "eles falam em reformar a escola, a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que essas instituições estão condenadas. Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação de novas forças que se anunciam". Os investimentos cada vez maiores na escola caracterizam-se como sinais de sua falência. A necessidade de preservá-la vem gerando movimentos no sentido de ressignificá-la com atualizações que acompanhem o sistema produtivo.

O Estado e o conhecimento concebidos pelos fundamentos modernos orientam-se para a produção de indivíduos, cuja participação social e política depende da educação, da transparência, do cultivo e do compartilhamento de um conjunto de juízos e condutas que os eleva à condição de cidadãos civilizados. A ciência, enquanto disciplina, conhece, humaniza, normaliza.

Lyotard (1988, p. 35) detecta uma mudança do conhecimento em informação, indicando a passagem do saber à condição de mercadoria. O conhecimento é definido como um "conjunto de enunciados que denotam ou descrevem objetos, excluindo-se todos os outros enunciados, e suscetíveis de serem declarados verdadeiros ou falsos". As transformações do capitalismo capturam o conhecimento, processando-o segundo o princípio de deslegitimação proposto por esse autor. Nele, a ciência e o poder dirigem-se ao controle do contexto garantido pelas técnicas e pela informação generalizada que regulam a otimização das performances. No novo dispositivo impera o critério do desempenho, "na medida em que seu objetivo é aumentar a eficácia, dá-se primazia à questão do erro: o importante agora não é afirmar a verdade, mas sim localizar o erro no sentido de aumentar a eficácia, ou melhor, a potência" (p. XII).

O conhecimento associado às novas tecnologias equivale a uma espécie de moeda, cujo domínio garante a otimização das performances de um programa. A aquisição e o manejo das técnicas constituem jogos "cuja pertinência não é nem o verdadeiro, nem o justo, nem o belo etc., mas o eficiente: um 'lance técnico' é 'bom' quando é bem-sucedido e/ou quando ele despende menos que um outro" (idem, p.80).

A ciência é incorporada como mensagem, informação, correspondendo a um "momento na circulação de capital. [...] A conjunção 'orgânica' da técnica com o lucro precede a sua junção com a ciência. As técnicas não assumem importância no saber contemporâneo senão pela mediação do espírito do desempenho generalizado" (idem, p. 82).

Com isso, as pesquisas passam a ser financiadas e delimitadas pelos "imperativos de desempenho e de recomercialização" cujas prioridades são as "aplicações". O Estado moderno provoca um ruído à comercialização dos saberes, cabendo às empresas essa nova atribuição. "As normas de organização do trabalho que prevalecem nas empresas penetram nos laboratórios de estudos aplicados: hierarquia, decisão do trabalho, formação de equipes, estimativa de rendimentos individuais e coletivos, elaboração de programas vendáveis, procura de cliente etc." (idem, p.82).

Essas formas de organização indicam novos caminhos que anunciam o desaparecimento da escola, seja como espaço de confinamento, seja como máquina da educação. As Sociedades de Controle não adotarão mais os meios de enclausuramento. Nem mais a escola. Deleuze (1999, p. 5) marca a necessidade de:

[...] investigar os temas que nascem e que nos explicam que o mais espantoso seria conjugar escola e profissão. Seria interessante saber qual a identidade de escola e da profissão ao longo da formação permanente, que é o nosso futuro e que, não implicará, necessariamente, no reagrupamento de alunos num local de clausura.

O autor afirma que:

[...] um controle não é uma disciplina. Como numa estrada não se enclausuram pessoas, mas ao fazer estradas, multiplicam-se os meios de controle. Não digo que seja o único objetivo das estradas, mas as pessoas podem trafegar até o infinito e "livremente" sem a mínima clausura e serem perfeitamente controladas. Esse é o nosso futuro. (idem)

 

Aprendendo a empreender

Várias escolas da rede pública e privada, a partir de projetos e programas em parcerias com empresas e/ou fundações nacionais e internacionais, vêm realizando uma série de atividades de formação como cursos e/ou introdução de certos conteúdos em seus currículos.

A Junior Achievement é um significativo exemplo para análise, visto a sua abrangência em escolas e universidades de todo o mundo. As ações realizadas por essa associação, em várias escolas e empresas do Estado, são diariamente noticiadas em veículos de imprensa de distribuição estadual e nacional. Ela consiste em uma fundação educativa, sem fins lucrativos, criada em 1919 nos Estados Unidos, que hoje é a maior e mais antiga organização de educação econômica e de negócios, registrando o mais rápido crescimento em nível internacional. Atua em 126 países, atingindo mais de quatro milhões de jovens por ano. Essa companhia instalou-se no Rio Grande do Sul em 1994 e tem como filosofia: "A vida é um caminho, não um destino, e você é o grande arquiteto do seu próprio caminho" (Junior Achievement, s.d., s.p.). Os objetivos da organização visam levar a estudantes do ensino fundamental, do ensino médio e do primeiro ano da universidade a "idéia de que suas ambições podem tornar-se realidade"; para tanto, oferece programas de educação econômico-prática e experiências no sistema competitivo de livre iniciativa, o que "permite aos jovens compreender a economia e o mundo de negócios, a valorizar os mecanismos de mercado, facilitando seu ingresso no mercado de trabalho" (idem).

Segundo a instituição, as ações desenvolvidas procuram despertar no jovem o espírito empreendedor, proporcionar uma visão realista da economia e dos negócios, fortalecer os princípios éticos, desenvolver habilidades básicas para a comunicação e estimular o desenvolvimento pessoal, a coragem de correr riscos, perseverança e confiança em si próprio. Os programas são desenvolvidos em sala de aula, por meio de encontros semanais, e são ministrados por consultores com vivências em negócios, treinados pela Junior Achievement. Os cursos voltados para o ensino fundamental são divididos por séries. Aos alunos de 5ª e 6ª séries é oferecido o curso Introdução ao Mundo dos Negócios, no qual os participantes desenvolvem planos de negócios; contratam funcionários; comparam os métodos de produção em série e unitária; entendem por que as empresas fazem propaganda; e aprendem as etapas de uma venda pessoal. Para as 7ª e 8ª séries é realizado o curso de Economia Pessoal, quando os alunos exploram opções profissionais, "desenvolvem habilidades para conseguir emprego; compreendem o gerenciamento financeiro, pessoal e familiar; exercitam a utilização do crédito e investimentos e aprendem a construir sua carreira" (idem). Somente para os alunos de 8ª série, é desenvolvido o curso Empresa em Ação, com a finalidade de possibilitar que os jovens possam visualizar as principais características do sistema econômico; aprender como organizar um empreendimento; descobrir como produzir e comercializar um produto; e compreender as responsabilidades de uma empresa.

Para o ensino médio, a formação é realizada pelo Programa Miniempresa, com 15 jornadas semanais, organizadas em grupos de 25 alunos. Esses alunos escolhem um produto a ser comercializado; levantam o capital necessário para o início do empreendimento com a venda de ações; organizam a administração, elegendo um presidente e seus diretores; e recrutam recursos humanos. Os alunos são responsáveis pela produção, finanças, marketing e vendas; compram a matéria-prima; produzem e vendem, buscando o máximo de produtividade e rentabilidade; pagam salários; recolhem encargos e impostos, que são doados a instituições assistenciais. No final do programa, a empresa é encerrada e o resultado financeiro é dividido entre os acionistas.

O Programa Miniempresa visa "desenvolver o espírito empreendedor, capacidade de liderança, perseverança, determinação, responsabilidade, coragem de correr riscos e trabalho em equipe" (idem). Os alunos aprendem a identificar as necessidades do consumidor, os conceitos de oferta e demanda e a valorização do lucro.

Também são oferecidos programas que extrapolam as fronteiras físicas da escola e que utilizam mais diretamente recursos cibernéticos. São eles:

O Management and Economic Simulation Exercise (MESE) — Exercício de Simulação Administrativa e Econômica. É um jogo de empresas, via Internet, para alunos do ensino médio e universitários, que possibilita aos participantes operar suas próprias empresas em um ambiente que reproduz o mercado de negócios. Para participar, os alunos formam equipes de três a cinco integrantes. São empresas que produzem o mesmo produto e que concorrem entre si no mercado, em oito rodadas semanais. Apoiadas por um software, as equipes recebem relatórios com as tendências do mercado, o desempenho dos concorrentes e as variáveis de custos e preços. Decidem sobre o preço, quantidade a ser produzida, investimentos em marketing, melhoria do produto e aumento da capacidade de fábrica. As decisões são analisadas, e são apontados os melhores desempenhos.

O Global Learning of the Business Enterprise (GLOBE) — Aprendizado Global da Empresa de Negócios. Esse programa associa estudantes de dois países para formar uma empresa importadora e exportadora. Prepara os jovens para o processo de globalização, por meio exercício das técnicas do mercado exterior. O programa tem duração de 21 semanas. Os estudantes trabalham o processo de capitalização pela venda de ações, escolhem um nome para a empresa e elegem seus dirigentes. Concluída essa fase, entram em contato com a empresa estrangeira e analisam as propostas dos produtos que serão exportados e importados. Fecham-se acordos e as vendas são definidas. No final do programa, a empresa é encerrada. Esse programa desenvolve a "compreensão dos princípios do mercado internacional; promove experiências com trâmites alfandegários; treina habilidades de comunicação, análise e tomada de decisões e, estreita relações com diferentes culturas". (idem)

O Núcleo de Ex-Achievers (NEXA). Os ex-Achievers que fazem parte do NEXA são aqueles estudantes que participaram anteriormente de Programas da Junior Achievement e resolveram continuar integrados à associação. Esse núcleo visa o "desenvolvimento contínuo" dos ex-alunos com a associação e o empresariado. O NEXA promove visitas a grandes empresas, possibilitando contato direto com as técnicas de produção, organização e administração, palestras e seminários com executivos e empreendedores, programas de integração, desenvolvimento em equipe, dinâmicas em grupos e cursos, eventos e congressos nacionais e internacionais.

As atividades oferecidas pelos projetos e programas das empresas nas escolas apresentam um escalonamento similar à seriação. Os temas e conteúdos que interessam às empresas e às demandas de mercado são inseridos nas disciplinas tradicionalmente dispostas nas instituições educativas. Nesse movimento, a empresa reterritorializa-se na escola.

O caráter contemplativo e programático não se diferencia de algumas propostas de aprendizagem já existentes, em que o conhecimento é obtido por meio da exposição e interpretação de temas. Nas etapas subseqüentes, as atividades desterritorializam-se em jogos eletrônicos, cuja concorrência e a superação de níveis de dificuldades são virtualmente oferecidas como uma espécie de treinamento em que os vitoriosos tornam-se reconhecidos líderes de equipes, similares ao exército e ao esporte. Termos como treinador, coach, boinas verdes, brigadas e experts são incorporados na organização e nas práticas dos cursos e das empresas.

O virtual, na forma como é utilizado, pressupõe o real, na medida em que é apresentado pelos programas das empresas como uma simulação, um conjunto de ações e probabilidades que configuram os passos do treinamento. Aqui não há criação, pois percorre-se etapas de um programa preparatório que passa a ser executado visando o controle das operações e informações para atingir a melhor performance.

A performance corresponde a um desempenho espetacular, isto é, com amplo sentido e potencialidade máxima mediante a conjugação de técnica com a espetacularização da vida. Guattari (1992), ao mencionar a "arte da performance", aponta que ela "tem o mérito de levar ao extremo as implicações de extração de dimensões intensivas, a-temporais, a-espaciais, a-significantes a partir da teia semiótica da cotidianeidade". Para ele, "a poesia, a música, as artes plásticas, o cinema, em particular em suas modalidades performáticas ou performativas, têm um lugar importante a ocupar, devido à sua contribuição específica, mas também como paradigma de referência de novas práticas sociais e analíticas" (p. 114-116). Esse autor remete a um sentido radicalmente distinto do proposto nesse artigo. O sentido performático conectado ao programa envolve uma diversidade de componentes dispostos numa serialização adequada às dimensões temporais, espaciais e significantes — dimensões racionalizantes na ordem do capital e do significante. Por isso, a fim de evitar confusão entre a noção de performance de Guattari, propõe-se diferenciar práticas performáticas de práticas performativas, colocando as primeiras ligadas ao movimento de reterritorialização capitalística, ao contrário da potencialidade e virtualidade das segundas.

É curioso que o modo de operar dos programas reproduz o mundo dos negócios, tomado como referente, como real. Nesse mundo, o mercado e o capital reproduzem-se de forma tão virtual quanto naquele. As fronteiras embaralham-se uma vez que também no mundo dos negócios os dados, as empresas fantasmas, os valores das ações e dos produtos, as cotações, os acessos ao sistema, conformam códigos sem referentes. Entretanto, os programas educativos das empresas procuram erigir e reafirmar a separação entre os mundos real e virtual.

A simulação não é tomada no sentido platônico, já que não está ligada a uma distorção de modelos e idéias, mas no sentido performático, em que as idéias são significadas como probabilidades. A simulação consiste na antecipação de soluções a serem tomadas, em que os erros devem ser eliminados, visando maior desempenho no futuro, no mundo real. O conhecimento perde seu estatuto moderno de verdade, importando o controle e o domínio de informações, a velocidade de comunicação e agilidade de comando, a eliminação de erros e ruídos orientados para resultados eficazes e modelos de desempenho. A orientação dessas atividades indica movimentos de captura pela lógica de mercado.

 

Empresário-sombra

Um dos traçados que marcam a empresa-escola é a experiência do empresário-sombra, relatada em notícias de jornais veiculados no Rio Grande do Sul. O Projeto Empresário-Sombra Por Um Dia tem como objetivo proporcionar aos jovens, que participam de seus programas, conhecer o dia-a-dia de um empresário. Esse projeto seleciona aqueles que acompanharão a rotina de um empresário, desde o café da manhã na sua casa. Os estudantes seguem os passos do empresário ou executivo escolhido na sua jornada de trabalho. O objetivo é aproximar estudantes e profissionais de maneira que os conhecimentos teóricos sejam vivenciados na prática por "exemplos bem-sucedidos na comunidade". Conforme notícia veiculada pela imprensa local, os 63 empresários-sombras acompanharam o dia de vários empresários gaúchos. Entre as empresas cobaias dos sombras, assim classificadas pelos estudantes, estão Sebrae, Gerdau, Shopping Iguatemi, Microcervejaria Dado Bier, Telefônica Celular e Ipiranga. Uma das empresárias-sombras classificou a experiência como muito enriquecedora, afirmando que tinha uma imagem muito distorcida dos empresários, "imaginava aquele engravatado atrás da mesa, assinando papéis e dando ordens, numa rotina monótona e chata". Um cobaia dos sombras afirmou que, pessoalmente, foi muito gratificante, porque, além de ensinar, ele aprendeu. E essa troca acontece quando o empresário experiente fornece dicas e lições do mercado e dos negócios, e o empresário-sombra, "ainda sem vivência, mas com a euforia do iniciante, transmite uma visão inovadora dos problemas do cotidiano" (Correio do Povo, 22 nov. 2000a, p. 15).

A denominação empresário-sombra surge indicando a inseparabilidade do aluno e do empresário na experimentação proposta pelo projeto. Essa relação dispara linhas de fuga que conformam um devir-empresário produzido entre aluno (empresário-sombra) e empresário (cobaia do sombra). Essa experiência reforça uma concepção dicotômica e platônica de sombra como um efeito de um corpo que indica a separação do mundo entre sensível e inteligível. A sombra, no sentido platônico, engendra o real enquanto negação, falsificação, já que pertence à representação do real como verdade, apreendida pelo conhecimento e pela adequação ao mundo inteligível.

O par empresário/aluno possibilita pensar as práticas de aprendizagem e de desterritorialização da escola, capturada pela empresa, a partir do conceito de sombra. Platão (1956), na obra A República, quando trata do Mito da Caverna, reforça a separação do mundo sensível, do qual as sombras, os corpos, consistem na aparência e na falsificação do fenômeno pela apreensão sensível do que é projetado. A essência do fenômeno corresponde à alma, à verdade, à luz, ao conhecimento, que pertencem ao mundo das idéias. O conhecimento é obtido pela contemplação e pela dialética. Ele diferencia-se das opiniões. As sombras são as coisas sensíveis, os preconceitos, as opiniões. A luz do mundo inteligível caracteriza-se pelo Bem, constituindo um transcendente, atingido por meio do conhecimento. Nesse sentido, o empresário-sombra, a partir de suas percepções sensíveis, emite opiniões que serão discutidas e avaliadas pelo cobaia do sombra, que julga essas opiniões para transformá-las em conhecimento.

O empresário detém o conhecimento, configurando-se em um modelo transcendente. O aluno, na qualidade de sombra, observa uma rotina a fim de copiá-la, segundo uma similitude exemplar. O objetivo do aluno, nesse estado — sombra —, é o de tornar-se cópia. O modelo ou fundamento constitui uma abstração que ocupa o primeiro lugar. O escalonamento das coisas pela classificação das cópias é definido pelo grau de proximidade e de adequação ao modelo. O critério para a comparação entre cópias e modelo é o da semelhança, da igualdade, que, por um processo de identificação, separa as cópias boas das ruins, numa relação hierárquica. A cópia corresponde ao semelhante, ao pretendente que ocupa o segundo lugar numa participação eletiva. Ela possui uma similitude exemplar. Portanto, o critério de participação varia conforme um método seletivo. O fundamento ocupa o primeiro lugar, e os participantes são criteriosamente distribuídos em uma linhagem gradativa em que a cópia ruim, deformada, diferente, não apresenta similaridade com o modelo, não possui equivalentes, não se torna digna de participação.

Conforme Platão (1956), o cativo que contemplou as idéias no mundo inteligível retorna à caverna para ensinar aos demais o caminho da contemplação e da verdade. Isto implica a reprodução de uma ordem hierárquica determinada pelo conhecimento, e o compromisso pedagógico atribuído, atualmente, ao empresário enquanto detentor do Bem e da verdade. A sombra, no sentido platônico, remete à aparência, sendo percebida pela sensação. Ela faz parte do mundo sensível, contrapondo-se à essência apreendida pelo pensamento, pelo conhecimento, que pertence ao mundo das idéias. Neste sentido, a sombra é uma ilusão, uma distorção da verdade. Não é possível conhecer pela sombra, nem pelas sensações.

Algumas práticas revertem essa noção de sombra quando quebram hierarquias, deixando de ser projeção para transformar-se em movimento. Para o pensamento platônico, a separação do par-opositivo luz/sombra implica em tornar a sombra um simulacro, já que ocorre o abandono do referente, fazendo dela uma cópia a tal ponto distorcida, dessemelhante, que não há mais possibilidade de adequação ao modelo. Saramago (2000) retoma a sombra e a caverna de Platão, fazendo uma análise do capitalismo contemporâneo, no qual a vigilância monitorada combinada com a imagem tornam-se os componentes das máquinas cibernéticas. Em sua analogia, os centros comerciais são as cavernas atuais, produzindo um mundo aparente que abandona os valores modernos acerca do respeito, da consciência e da humanidade.

A sombra, considerada fragmento de uma composição, não contrapõe a luz, nem a matéria. Ela é imagem, está sempre em relação, produz-se entre corpos e matérias, desenhando os movimentos. Assim, ela é a cada instante diferente. Casati (2001) produz uma positivação da sombra como elemento do conhecimento científico, abandonando a noção de distorção. Contudo, o autor, visando o plano da ciência, mantém o referente: "pegas de um lado certo, as sombras se revelam um magnífico instrumento de conhecimento. [...] A História da Ciência é tecida com a trama da sombra" (p. 12-16).

A sombra também é movimento do pensamento; ruptura com o modo de percepção, com a representação e a hierarquização platônicas. Quando ruptura, a sombra torna-se criação, simulacro revertido por Deleuze (1998). Ela não consiste em aparência ou falsificação, cópia sem correspondente. Desse modo, a sombra coloca em xeque as noções de real com base no referente, questiona o modelo e a cópia, marca a dissimilitude, rompe as hierarquias, afirma a diferença, torna-se incomparável e singular.

A sombra adquire novas dimensões. Ela passa a indicar relações entre corpos e movimentos sempre mutantes. Sua existência é a relação que a produz, tornando-se um devir criado entre coisas não duais, mas entre corpos, cujos movimentos modificam os limites de suas marcas. Suas mutações deixam de ser uma projeção enganadora de algo estático a ser contemplado. A sombra passa a consistir um elemento de uma composição, um acontecimento, uma experiência.

O Projeto Empresário-Sombra Por Um Dia parte de uma concepção platônica e dual. Entretanto, linhas de fuga — mesmo efêmeras — são produzidas quando da separação do par sombra/luz, rompendo a dicotomia aluno/empresário e instituindo um devir empresário-sombra, que surge na relação do aluno com o empresário. Essa relação escapa da contemplação e da interpretação dos conhecimentos e dos modelos, envolvendo uma experimentação no acontecendo. A experiência destitui a hierarquia entre opinião e conhecimento, produzindo uma transversalização dos saberes em que o cobaia também aprende, com a percepção inovadora do sombra.

A experimentação compreende um movimento do pensamento inseparável dos acontecimentos. Não há separação teoria/prática, há estados vividos, intensidades. Nela ocorrem deslocamentos entre fronteiras territoriais, em que também os limites físicos e espaciais desaparecem. O sombra acompanha seu cobaia em diferentes direções e modulações do gás-empresa. Os empresários cobaias dos sombras não têm a função pedagógica de fiscalização característica da produção fabril. Atualmente, na lógica da empresa, a aprendizagem dá-se pela incorporação do gás ou da alma empresarial.

A concepção de trabalho e de educação tende a desaparecer na relação instituída entre mestres e aprendizes que reativa uma aprendizagem por acompanhamento contínuo. Ocorre um ritornelo, em que as práticas das oficinas medievais caracterizam-se pelo convívio direto dos aprendizes com os seus mestres, partilhando seu dia-a-dia nos diferentes territórios que abarcam a realização do ofício. Nessa prática, a aprendizagem prescinde da escola e da ação pedagógica normalizadora, gerando uma nova composição que garante a incorporação do espírito, da alma da empresa.

A formação permanente e o controle contínuo substituem a escola e o exame. Nessa substituição, os movimentos ondulatórios do mercado interceptam a conclusão de cursos como códigos de aptidão para o trabalho. Os cobaias dos sombras diluem as funções do empresário e as relações tradicionais de produção de conhecimento. Os empresários caracterizados como cobaias não são mestres no sentido moderno — alguém que tem hierarquicamente uma função educativa de transmissão de conhecimento. Eles passam a fazer parte de um processo interativo de observação laboratorial, no qual o acompanhamento da experiência levará à construção de saberes reterritorializados na lógica de mercado.

 

Diluição da escola

As linhas de fuga que desterritorializam a escola possuem diferentes direções. Algumas vezes elas são interceptadas, revertidas e atualizadas pela lógica capitalística, indicando uma das mutações do capitalismo mundial integrado. O embaralhamento das fronteiras entre escola e empresa indica uma desterritorialização da escola e da educação. O capitalismo atual apresenta novas exigências, não mais ligadas à formação de indivíduos iguais, educados para a participação social e política e disciplinados para o trabalho.

A máquina-escola busca atualizar-se, configurando um devir escola-empresa, por meio da incorporação dos temas relacionados ao mercado nos seus currículos. Essa atualização marca uma reforma da escola, visando a manutenção desse equipamento e a conservação da educação em conformidade com os fundamentos humanistas modernos.

As mutações do capitalismo implicam novas práticas que diluem o conhecimento e a máquina-escola, atribuindo à máquina-empresa a função de preparar os indivíduos, inserindo-os no mercado com maior agilidade. Desse modo, não importa mais educar, mas sim acessar. Os indivíduos tornam-se códigos, dados, cujas senhas garantirão seu ingresso ao sistema. Para tanto, eles necessitam ser treinados e informados com o objetivo de operarem em velocidades cada vez maiores. Nesse vetor, a escola é liquidada pela empresa.

Entretanto, convém à empresa delimitar e conservar fronteiras e atribuições mínimas da escola, acoplando-se a essa máquina, cujo fluxo, devir
empresa-escola, assegura uma intermediação para a especialização. Tal como a escola, o Estado em crise não pode desaparecer, uma vez que consiste numa transcendência abstrata sob o signo da Constituição, que garante a propriedade privada. A liquidação do Estado implica a liquidação da empresa. Assim, novos contornos desenham-se, nos quais a empresa sobrepuja a escola e o Estado, reformando-os sem a pretensão de exterminá-los. Os projetos e os programas das empresas, mesmo priorizando o mercado, asseguram em seus treinamentos o recolhimento de impostos, ações filantrópicas e assistenciais como uma maneira de preservar e adequar o Estado às demandas atuais. Nesses movimentos de atualização e de adaptação da escola e do Estado ao capital, a empresa e o mercado consistem nos territórios de maior investimento.

 

 

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Recebido em janeiro de 2004
Aprovado em setembro de 2004

 

 

ADA BEATRIZ GALLICCHIO KROEF, doutora em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Publicou recentemente: Interceptando currículos: produzindo novas subjetividades (Revista Educação e Realidade, Porto Alegre: UFRGS, v. 26, nº 1, jan.-jun. 2001, p. 93-114); Cultura: efeitos e afetos (In: SIMON, Cátia C. et al. (org.). Escola Cidadã: trajetórias. (Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Secretaria Municipal de Educação, Porto Alegre, 1999, p. 153-160.) e Currículo como máquina desejante (24ª Reunião Anual da ANPEd, Caxambu, MG, 7 a 11 de outubro de 2001, CD-ROM). Atualmente presta assessorias a secretarias de educação municipais e de estado, fundações e escolas. E-mail: necakroef@terra.com.br
GISELE SOARES GALLICCHIO, mestre em história pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), é professora na Rede Municipal de Porto Alegre. Publicou recentemente: A prostituição por uma perspectiva romântica. (In: NASCIMENTO, Mara Regina & TORRESINI, Elizabeth (orgs.). Modernidade e urbanização no Brasil (Porto Alegre, EDIPUCRS, 1998, Coleção Histórica, 24, p. 67-85); Nas malhas da rede (Cadernos Pedagógicos. Fazendo diferença: a educação especial na rede municipal de ensino de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Porto Alegre, nº 20, jan. 2000, p. 87-91) e Práticas turísticas: processos de subjetivação. (In: ASHTON, Mary Sandra G. & BALDISSERA, Rudimar (orgs.). Turismo em perspectiva (Novo Hamburgo, Feevale, 2003, p. 75-84). E-mail: gigallicchio@terra.com.br
1 O panóptico, segundo Foucault, deve ser compreendido como "o diagrama de um mecanismo de poder levado à sua forma ideal: seu funcionamento; abstraindo-se de qualquer obstáculo, resistência ou desgaste, pode ser bem representado como um puro sistema arquitetural e óptico: é na realidade uma figura de tecnologia política que se pode e se deve destacar de qualquer uso específico. [...] É um tipo de implantação dos corpos no espaço, de distribuição dos indivíduos em relação mútua, de organização hierárquica, de disposição dos centros e dos canais de poder, de definição de seus instrumentos e de modos de intervenção, que se podem utilizar nos hospitais, nas oficinas, nas escolas, nas prisões. Cada vez que se tratar de uma multiplicidade de indivíduos a que se deve impor uma tarefa ou um comportamento, o esquema panóptico poderá ser utilizado" (Foucault, 1996b, p. 181).

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