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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ. vol.13 no.38 Rio de Janeiro May/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782008000200017 

RESENHAS

 

 

Laudeci Martins

Doutoranda em educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PROPED-UERJ). E-mail: laudecimartins@yahoo.com.br

 

 

GONDRA, José Gonçalves (Org.). Pesquisa em história da educação no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005.

"Recensear, pensar-se, promover uma dobra sobre si para refinar os modos de fazer história da educação". Assim começa o texto "Mapas da produção em história da educação" que abre o livro A pesquisa em história da educação no Brasil, organizado por José Gonçalves Gondra (2005). O conjunto da obra cumpre esse objetivo na medida em que indica lugares e modos de produção, aponta para as principais temáticas discutidas nesses espaços de fazer, delineia os recortes temporais e teóricos e, principalmente, nos indica as lacunas e incompletudes, as questões abertas, enfim, as possibilidades de refutação e exumação de procedimentos efetivos (Certeau, 1982) e crescimento da discussão em história da educação no Brasil.

O livro é uma coletânea de textos escritos por ocasião do seminário "A produção da pesquisa em história da educação no Brasil",1 promovido pelo grupo de trabalho (GT) História da Educação da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), no Rio de Janeiro em 2004, com o interesse de refletir acerca da produção em história da educação no Brasil a partir de levantamentos e análises realizadas nas regiões Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.

No conjunto dos balanços publicados nessa obra encontramos uma gama de procedimentos operatórios que indicam as condições de elaboração de cada levantamento, os ritmos de pesquisa de cada região, a base documental constituída, os trabalhos efetivamente realizados e a própria forma que se impôs a cada escrita. Sendo assim, os textos reunidos nessa publicação não formam uma unidade generalizante e globalizante, antes possibilitam, para além da idéia de quadro nacional da produção, o reconhecimento das continuidades e descontinuidades na história intelectual no campo e possibilita perceber as singularidades das regiões, estados e programa de pós-graduações.

O texto divide-se em duas partes. Na primeira, a discussão diz respeito a historiografia, fontes, avaliação e circulação da história da educação. Na segunda é apresentado um inventário da produção cujos recortes temporais variam entre os estados e regiões, mas, no conjunto, estendem-se de 1943 a 2004.

Na primeira parte, o reencontro com importantes textos apresentados nas reuniões do GT História da Educação da ANPEd, no início da década de 1990. São escritas que, via de regra, discutem a historicidade do campo, os limites e as possibilidades das fontes historiográficas - com destaque para a discussão do próprio conceito de fonte - e a necessidade de permanente vigília na construção e reconstrução dos nossos recortes temáticos e procedimentos operatórios. No conjunto, Clarice Nunes, Marta Carvalho, Denise Catani e Luciano Mendes de Faria Filho convidam-nos a pensar a história da educação recusando tudo o que possa se apresentar na forma de uma alternativa simplista e autoritária, do estatuto conferido a determinados tipos de fontes ao privilégio de certos objetos.

Na segunda parte, os balanços de produção apresentam os contornos da produção em história da educação a partir de levantamentos nos cursos de pós-graduação em atividade nos espaços tempos pesquisados. As pesquisas foram construídas a partir dos programas de pós-graduação e apresentam como principais categorias de análise os recortes temáticos e temporais e os períodos históricos pesquisados.

No texto "A escrita da história da educação na pós-graduação no Rio de Janeiro (1972-2001)", Claudia Alves apresenta um panorama da história da educação naquele estado. É uma escrita rica em descrição metodológica e inovadora na composição da sua base de dados na medida em que a seleção dos trabalhos se pautou por um critério central que buscou contemplar o diálogo entre educação e história para além dos programas de pós-graduação em educação e em história. Os resultados produzidos a partir desse procedimento mostram que, naquele espaço tempo, embora 72% dos títulos levantados sejam oriundos da pós-graduação em educação, os trabalhos que constroem abordagens históricas de objetos referentes à educação não ficam restritos aos programas de educação e história, mas passam a ocupar um território que se espraia em direção a outras áreas.

"História da educação no estado de São Paulo: a configuração do campo e a produção atual (1943-2003)". Com esse título, Diana Gonçalves Vidal, Paula Perin Vicentini, Katiene Nogueira da Silva e José Cláudio Sooma Silva apresentam o inventário da produção em história da educação no estado de São Paulo. Em consonância aos critérios estabelecidos para a produção dos balanços, o recorte temporal recuou ao ano de 1943 e estendeu-se até 2004. Esse alargamento deriva da existência de uma produção acadêmica no campo anterior à instalação da pós-graduação em educação no estado, embora, na discussão apresentada no texto, o período anterior ao surgimento dos programas de pós-graduação apareça apenas numa breve incursão sobre a constituição da disciplina e a elaboração dos primeiros trabalhos acadêmicos no estado. A brevidade percebida nessa parte inicial do texto é compensada na riqueza de informações acerca da produção histórico-educacional dos últimos 30 anos. Nessa parte é possível encontrar: datas de instalação e níveis de formação dos programas de pós-graduação em educação, instituições formadoras dos pesquisadores da área atuantes no estado, além de períodos, níveis de ensino e temas abordados nas teses e dissertações pesquisadas.

"História da educação em Minas Gerais: pequeno balanço e algumas perspectivas de pesquisa (1985-2001)" é um mapeamento dos trabalhos publicados em periódicos e anais de congressos, reuniões anuais e encontros de pesquisa no período de 1985 a 2001. Nesse texto Luciano Mendes de Faria Filho, Irlen Antonio Gonçalves e Sandra Caldeira apresentam um panorama da produção que privilegia a demarcação temporal e temática dos trabalhos levantados.

Pensando em aspectos importantes como os períodos eleitos pela pesquisa, as fontes, os aportes teóricos metodológicos e os autores mais utilizados, a historiografia das regiões Norte e Nordeste aparece no texto "A produção em história da educação das regiões Norte e Nordeste - o estado do conhecimento (1982-2003)", escrito por Marta Maria de Araújo. Esse inventário propicia a visualização de um vasto território formado por 12 programas de pós-graduação. Essa agregação, ao mesmo tempo em que possibilita uma visualização da produção no que se refere ao quantitativo dos trabalhos, aos temas e autores citados na bibliografia dos trabalhos pesquisados, se distancia das especificidades de cada programa.

O balanço da produção da Região Sul está inscrito na obra a partir do texto "A pesquisa em história da educação nos programas de pós-graduação em educação da Região Sul (1972-2003)". A pesquisa é uma produção conjunta de Maria Helena Câmara Bastos, Marcus Levy Albino Bencosta e Maria Teresa Santos Cunha. Os autores assumem o perigo em aproximar a produção dos programas de pós-graduação de três estados cujas trajetórias e histórias são tão distintas. Essa é uma preocupação pertinente, porém nesse caso a agregação não comprometeu em nada a riqueza do levantamento e suas análises.

"A produção da história da educação na Região Centro-Oeste - perspectivas (1992 a 2004)" condensa a produção do Distrito Federal, dos estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e do município de Uberlândia (MG) e suas áreas de influência. Traça as características mais amplas e preliminares numa visão integrada da produção daquela região com ênfase nos mecanismos e estruturas institucionais disponíveis, no levantamento quantitativo das dissertações, dos artigos publicados e da participação em eventos.

"A produção acadêmico-científica sobre a história da educação no Espírito Santo (1992-2002)" é um levantamento feito a partir das dissertações produzidas na pós-graduação em educação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e das teses dos professores da UFES defendidas em espaços como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Enquanto levantamento, o texto indica a abordagem teórico-metodológica das dissertações e teses pesquisadas, os temas abordados e os procedimentos metodológicos adotados.

A obra apresenta no seu conjunto uma variante de procedimentos operatórios, uma quantidade significativa de levantamentos estatísticos sobre o campo e constitui uma fonte de informações para novas pesquisas na medida em que seus próprios autores assumem a incompletude das análises e as dificuldades vivenciadas na composição das informações. Cumpre seu objetivo e abre o desafio de avançarmos na produção de estudos mais específicos que privilegiem as particularidades/singularidades das regiões, dos estados, dos programas, ou até mesmo que rompam com esses lugares geográficos definidos para inserção de outros olhares mais verticalizados que privilegiem a discussão em torno das fontes, das metodologias, dos diálogos intelectuais adotados pelos pesquisadores do campo. Trabalhar nesse registro, isto é, pensar a necessidade, possibilidade, condição e direção de ultrapassagem do que está posto nesse livro, é resultado da sua própria estrutura e condição de produção, ou seja, é uma leitura de passagem que em vez do confinamento das respostas prontas nos instiga ao horizonte de novas produções.

 

Referências bibliográficas

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982.         [ Links ]

 

 

1 Em sua maioria, pois contém também textos "clássicos" sobre historiografia, avaliação e fontes, produzidos no início da década de 1990.