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Revista Brasileira de Educação

versión impresa ISSN 1413-2478versión On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. v.13 n.39 Rio de Janeiro sept./dic. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782008000300017 

NOTAS DE LEITURA

 

 

Maria Inês Marcondes

Professora do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

 

 

MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa; CANDAU, Vera Maria. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, 2008.

A questão multicultural tem despertado interesse e candentes debates na atualidade. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas traz uma importante contribuição para ampliar e aprofundar esse debate em bases teóricas. Os organizadores são Antônio Flávio Barbosa Moreira (Universidade Católica de Petrópolis) e Vera Maria Candau (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), que já possuem outras obras tratando das temáticas de currículo, cultura e formação de professores.

O livro traz uma coletânea de artigos de autores diversos sobre questões referentes a identidade, raça, gênero, sexualidade, religião, cultura juvenil e saberes. Os artigos vinculam essas questões com a escola, com o currículo, alunos e professores, ou seja, com a prática pedagógica. São textos atuais que se propõem a desafiar representações hegemônicas. A discussão da questão multicultural precisa ir além do discurso, assim como começar a prover ferramentas mais práticas em conjunto com lentes conceituais. Essa é a proposta do livro: discutir aspectos teóricos e práticos do multiculturalismo que podem dar bases para uma formação de professores mais crítica.

O primeiro texto é de Vera Candau, que defende a interculturalidade, perspectiva que implica a aceitação da interrelação entre diferentes grupos culturais; da permanente renovação das culturas; do processo de hibridização das culturas; e da vinculação entre questões de diferença e desigualdade. Partindo do pressuposto que a diferença se encontra na base dos processos educativos, a autora sugere possibilidades pedagógicas para o desenvolvimento de uma educação intercultural na escola.

O segundo texto, de Antônio Flávio Moreira e Michelle Januário Câmara, enfoca a questão da identidade, argumentando com base nos estudos culturais. Discute as concepções de identidade e diferença e apresenta possíveis formas de lidar com essas questões no cotidiano da escola. Traz a experiência de uma pesquisa realizada em sala de leitura, mostrando a possibilidade de envolver alunos em discussões sobre raça, gênero e sexualidade, com a intenção de desafiar representações hegemônicas.

O terceiro texto, de Nilma Gomes, sustenta que o racismo e a desinformação sobre a ascendência africana no Brasil constituem obstáculos à formação de uma consciência coletiva que tenha como eixo de ação política a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Discute a lei n. 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história da África e de cultura afro-brasileira nos currículos da escola básica. A partir de uma visão crítica dessa proposta, a autora destaca os aspectos positivos da nova legislação, mas também alerta para os necessários cuidados em sua implementação.

O texto de Marília Pinto de Carvalho é o quarto da coletânea e aborda a relação entre gênero e educação. Investiga a percepção das professoras de ensino fundamental sobre o desempenho escolar de meninos e meninas, apontando que a falta de critérios claros para avaliar faz com que elas recorressem a repertórios e valores pessoais marcados por preconceitos de gênero, prejudicando os alunos do sexo masculino. Afirma que é impossível enfrentar os problemas centrais da educação brasileira hoje sem uma adequada apropriação do conceito de gênero.

O quinto texto é de Luiz Carlos Moita Lopes, abordando o tema da sexualidade. O autor, ancorado na teorização queer, problematiza qualquer sentido de verdade e de normatividade em relação à sexualidade, oferecendo-nos a possibilidade de compreender as sexualidades para além das políticas da diferença. Propõe que a escola seja um lugar de recriar e politizar a vida social, de compreender a necessidade de não separar cognição e corpo.

Stella Caputo escreve o sexto texto, explorando a temática das crianças que são preparadas para penetrar nos mistérios do candomblé. Elas dizem-se orgulhosas da religião que professam, mas a situação modifica-se ao chegar à escola, quando começam a ser discriminadas por professores e colegas, o que se confirma pelas entrevistas e observações realizadas pela autora. Caputo alerta para o "silenciamento" a que são submetidos esses estudantes, com conseqüências nefastas para sua auto-estima.

Paulo Carrano, no sétimo texto, discute a importância das culturas juvenis, destacando seu potencial criativo na reformulação das escolas e dos currículos. Propõe aos educadores atuar com o propósito de construir a unidade social em sociedades marcadas por diferenças e desigualdades, promovendo a leitura crítica das mensagens emitidas pela publicidade; trabalhando com as experiências prévias dos jovens alunos e reformulando currículos de modo que se reorganizem espaços e tempos de compartilhamento de saberes, bem como que se ampliem a experiência social pública e o direito de todos às riquezas simbólicas e materiais da sociedade.

Carmem Teresa Gabriel aborda, no oitavo texto, a importância da discussão do conhecimento escolar, colocando-se a favor de novas formas de articular diferentes teorizações no campo do currículo para que se potencializem os aspectos políticos e epistemológicos da interface conhecimento e cultura. Sustenta que o processo de hibridação dos discursos sobre cultura, conhecimento, poder e currículo favorece questões críticas e pós-críticas referentes ao conhecimento escolar, sem que se abra mão da crença na escola pública como importante espaço político.

O valor e a importância do livro estão não só na diversidade de enfoques e na riqueza conceitual apresentada, como também na possibilidade de conhecer experiências práticas que tratam da questão multicultural. Somos desafiados a refletir e a nos posicionar perante as questões tratadas, o que é urgente no nosso contexto. O livro é certamente leitura indispensável a pesquisadores da questão multicultural, professores e estudantes de pedagogia e licenciaturas, possibilitando uma postura mais crítica diante dessas questões.

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