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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ. vol.15 no.45 Rio de Janeiro set./dez. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782010000300015 

RESENHAS

 

 

OSTERMANN, Ana Cristina e FONTANA, Beatriz (Orgs.). Linguagem, gênero, sexualidade. Clássicos traduzidos. São Paulo: Parábola, 2010. 166 p.

A coletânea intitulada Linguagem, Gênero, Sexualidade. Clássicos Traduzidos, organizada por Ostermann e Fontana, compõe-se de traduções de textos publicados originalmente entre 1975 e 1998 por pesquisadoras e pesquisadores interessados em análise do discurso e que buscam refletir sobre o papel da linguagem na constituição do gênero. Mais especificamente, a obra apresenta textos acadêmicos sobre gênero e interação social na tradição sociolinguística, destacando a importância histórica de cada um, desde Language and Woman's Place, de Robin Lakoff, publicado em 1975.

A obra é composta por uma introdução geral das organizadoras, na qual fica muito clara a pertinência da coletânea, tanto para as pesquisas na área de linguística e letras como para outras áreas que articulem questões de linguagem, gênero e sexualidade. Já na leitura dessa seção se percebe que a escolha dos textos traduzidos foi realizada de maneira criteriosa e comprometida, o que imprime em cada um dos textos um sabor especial. À introdução seguem-se sete textos traduzidos que analisam e problematizam a fala-em-interação, tanto de grupos do mesmo sexo como de grupos mistos. Tais investigações contribuem para os estudos de linguagem e gênero, suas implicações, atravessamentos, rupturas e continuidades, possibilitando valiosas reflexões. Na sequência dos textos, além das referências bibliográficas, encontra-se também uma seção de biodatas, em que há informações acadêmicas relevantes das organizadoras, autoras e autor e das tradutoras e tradutores.

O texto que abre essa coletânea, capítulo 1, intitulado "Linguagem, gênero e sexualidade: uma introdução", possibilita uma breve apresentação e inserção à obra; nele as organizadoras apresentam os textos, destacando a importância desses estudos e a relevância de sua disponibilidade em português, pois se trata de alguns dos principais e primeiros textos que relacionam linguagem, gênero e sexualidade. À introdução seguem-se sete capítulos, que consistem nos textos traduzidos para o português, num total de 166 páginas.

O segundo texto, o capítulo 2, é a tradução (por Adriana Braga e Édison Luis Gastaldo) do texto de Robin Lakoff "Linguagem e lugar de mulher". A autora relata suas observações acerca da linguagem e sua influência na constituição do gênero. Destaca o papel social da linguagem, estabelecendo que, ao longo do desenvolvimento, as linguagens masculinas e femininas vão diferenciando-se comumente, posicionando as mulheres em um local de passividade e futilidade em relação à linguagem masculina. A autora destaca que a fala feminina se constitui nos meios sociais desde o início da infância, onde se estimula nos meninos o uso de termos vedados às meninas e vice-versa. Adverte que o papel dos educadores ao ensinar uma língua vai além da fonologia.

Na tradução (por Viviane M. Heberle) do texto de Pamela M. Fishmen, "O trabalho que as mulheres realizam nas interações", o capítulo 3, a autora utiliza diálogos gravados entre casais heterossexuais para demonstrar como se constituem as relações de poder entre os gêneros. A autora assume o conceito de poder de Weber (1969): "impor sua vontade sobre outra pessoa". Destaca ainda que pouca atenção é dada às relações de poder expressas na conversa informal e que existe uma distribuição de trabalho desigual na conversa entre homens e mulheres.

A tradução de Ana Cristina Ostermann e Mariléia Sell do texto de Candance West e Don H. Zimmerman, "Pequenos insultos: estudo sobre interrupções em conversas entre pessoas desconhecidas e de diferentes sexos", constitui o capítulo 4, que trata da análise de conversas informais entre conhecidos, buscando identificar padrões de interrupção nas conversas. A autora e o autor definem interrupções como "violações do turno de fala dos falantes". Assimetria da iniciativa de interromper a interação verbal entre homens e mulheres constitui um diferencial de poder implicado na produção de gêneros.

O capítulo 5 é a tradução (por Débora de Carvalho Figueiredo) do texto de Deborah Tannen: "Quem está interrompendo? Questões de dominação e controle". A autora questiona estudos anteriores, em que se busca, nas interrupções das conversas, demonstrar as relações de poder entre os gêneros. Apresenta e problematiza a "fala cooperativa" utilizada comumente pelas mulheres e a "fala relato/competitiva", recorrente nas falas dos homens. Afirma que, para se fazer uma análise mais aprofundada dessas interrupções, se torna necessário um conhecimento maior dos interlocutores e do conteúdo da conversa.

A tradução (por Branca Falabella Fabrício) do texto de Penelope Eckert e Sally McConnel-Ginet, "Comunidades de práticas: lugar onde coabitam linguagem, gênero e poder", compõe o capítulo 6. As autoras sustentam que os estudos sobre linguagem e gênero se baseiam na abstração do conceito de gênero, e que para se realizar um estudo da linguagem é necessário se cercar das várias áreas que estudam o gênero e assim se lançar a uma atividade interdisciplinar.

O capítulo 7, penúltimo texto desse livro, é a tradução (por Rodrigo Borba e Cristiane Maria Schnack) do texto de Anna Livia e Kira Hall: "É uma menina!: a volta da performatividade à linguística". Refere-se à influência da teoria Queer nos estudos atuais de gênero e sexualidade, e da pertinência de se considerar essa influência nos estudos linguísticos, uma vez que "o sistema linguístico de gênero também possibilita uma maneira de expressar a relação de alguém com o conceito de gênero". Propõe a análise da linguagem no nível discursivo, destacando a intencionalidade do falante e a retomada do ouvinte, impelindo à reflexão e à visibilidade das sexualidades marginais, considerando "o gênero um processo, ao invés de um estado".

A tradução de Beatriz Fontana para o texto de Deborah Cameron, "Desempenhando identidade de gênero: conversa entre rapazes e construção da masculinidade heterossexual", encerra esta compilação, no capítulo 8, com uma análise de conversa entre quatro amigos. Entre outras questões, a autora propõe a desconstrução da oposição competitivo/colaborativo no exercício da linguagem, utilizando-se do conceito de gênero como um termo relacional e a generificação da linguagem como um "trabalho performativo de gênero".

Como se pode observar, o livro traz diferentes artigos de grande relevância nos estudos que relacionam linguagem, gênero, sexualidade e poder. Há uma clara relação entre os estudos, de maneira que se evidenciam a atenção e o cuidado com que foi definida a sua ordenação. A tradução de tais textos, em si somente, já representa uma iniciativa merecedora de reconhecimento, pois se trata de textos clássicos correspondentes a um período de carência de obras na área em português. Tal iniciativa e empreendimento intelectual se concretizam em uma valiosa contribuição acadêmica e cultural, pois a partir da tradução de tais textos se torna viável o acesso e compartilhamento de tais reflexões com pesquisadores(as) e/ ou leitores(as) brasileiros(as).

Os textos reunidos na referida obra abordam o gênero como uma construção social que se estabelece por meio de interações linguísticas, simbólicas e sociais, ou seja, que se configura a partir de interações. As relações analisadas e discutidas nos referidos textos são da ordem do cotidiano, e compõem-se muitas vezes de ações, discursos e posicionamentos assumidos e naturalizados por homens e mulheres. Contudo, em dissonância com essa afirmação, tais reflexões impelem ao questionamento sobre generalizações e cristalizações culturais, pois apresentam a linguagem como generificante, ou seja, a linguagem como produtora de gêneros que inscrevem homens e mulheres.

Cabe referir que qualificaria a leitura dos textos a inserção de um breve comentário introdutório e/ou problematizador do texto, elaborado pelos(as) tradutores(as) no seu início, pois situaria o(a) leitor(a) na temática em que irá inserir-se.

De toda forma, é uma obra essencial àqueles que buscam estudos que conjuguem linguagem, gênero, sexualidade e poder, apresentando inegáveis e significativas contribuições para as mais diversas áreas que se interessam e/ou se dedicam ao desdobramento das pesquisas implicadas nessas temáticas.

As organizadoras, Ana Cristina Ostermann e Beatriz Fontana, pesquisadoras brasileiras com projeção internacional, estão de parabéns pela iniciativa e maneira criteriosa e comprometida de olhar para uma área de produção acadêmica carente no Brasil e empenhar-se na tarefa de suplementá-la. As tradutoras e os tradutores também merecem reconhecimento pela tarefa árdua, com o compromisso ético de adentrar-se nos textos e possibilitar o compartilhamento de tais saberes com os leitores(as) e pesquisadores(as) brasileiros(as). A leitura dessa obra é pertinente a estudantes, pesquisadores(as) e demais profissionais das áreas de educação, antropologia, comunicação social, psicologia e sociologia, além, obviamente, da própria linguística, dentre outras áreas que se dedicam a interlocuções com linguagem, gênero, sexualidade e poder. Finalizo desejando que a leitura dos textos reunidos nesse livro possibilite que leitores(as) e pesquisadores(as) brasileiros(as) ampliem suas percepções no campo da linguagem, gênero e sexualidade e que oportunizem o avanço dos estudos interdisciplinares envolvendo tais conceitos.

 

Tatiana Meirelles
Estudante de Mestrado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS)
E-mail: taty_meirelles@yahoo.com.br

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