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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ. vol.17 no.49 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782012000100013 

RESENHAS

 

 

CRUZ RAMOS, Kátia Maria da. Reconfigurar a profissionalidade docente universitária: um olhar sobre as ações de atualização didático-pedagógica. Porto: Universidade do Porto Editorial, 2010. 347 p.

O livro de Cruz Ramos chegou às nossas mãos num momento muito oportuno. Iniciávamos uma caminhada investigativa sobre os programas institucionais de atenção pedagógica a professores da educação superior, tema de nossa pesquisa. Sempre é bom encontrar quem tenha desbravado antes de nós um percurso que nos será fundamental no momento em que desenvolvemos um projeto de dissertação e/ou concluímos uma pesquisa voltada à mesma temática. Por isso, foi com prazer que recebemos e lemos com interesse as 347 páginas recentemente publicadas.

O trabalho mostra como a ideia de universidade está se transformando no mundo todo, trazendo pressões para mudanças da prática docente na universidade. A autora, com base em sua tese de doutorado, revisa as reflexões que têm sido produzidas sobre a redefinição da profissionalidade docente no contexto da remodelação da universidade, procurando apontar alternativas mediante a experiência de ações de atualização didático-pedagógica realizadas no contexto português, particularmente na Universidade do Porto.

No primeiro capítulo, Cruz Ramos mostra como se constrói a necessidade de reconceitualização da docência universitária num contexto em que se reconfiguram o sentido da universidade e do ensino superior, fazendo detalhada revisão de bibliografia, excelente fonte de consulta para a realização de estudos posteriores. A autora retoma a história da universidade como instituição desde a Idade Média, com base em autores como Ullmann, Coelho, Serrão, Wittrock, Trindade e Wanderley. Com base em Castanho, descreve os modelos clássicos e modernos de universidade: imperial napoleônico, idealista alemão, elitista inglês e utilitarista norte-americano.

Para abordar as mudanças recentes na ideia de universidade, até então fundada na visão de conhecimento e de ciência de caráter disciplinar especializado, a autora utiliza as ideias de Morin, Barnett, Magalhães e Santos, segundo os quais a universidade segue agora para a construção de novos modelos, em momento de ruptura e transição. Cruz Ramos cita, com base em Lima, dois modelos mais atuais e opostos: o institucional político-participativo, que propõe uma universidade capaz de pensar a realidade econômica, social e política do país e agir para a sua transformação, e o corporativo, centralista e gerencialista, caracterizado por desmobilizar os envolvidos com a universidade, compreendendo a educação superior como um mercado que deve organizar-se de acordo com as exigências econômicas transnacionais. Cruz Ramos considera que este último modelo, apesar de sua atual hegemonia, tem sido atacado por forças instituintes com potencial para promover a reafirmação identitária da universidade. Nesse caminho, com base na análise de Santos, são discutidas as ideias de interdisciplinaridade e de indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão, como critérios que podem ser ressignificados e retomados no atual contexto como indicadores importantes do novo modelo desejado.

De acordo com Cruz Ramos, um conjunto de iniciativas resultantes da publicação de documentos como a Declaração Mundial sobre a Educação Superior no Século XXI e a Declaração de Bolonha, na Europa, estão provocando mudanças na concepção de educação superior e na organização das instituições universitárias. Os documentos descrevem o mundo como caracterizado pela globalização e por transformações no modo de criar e veicular a informação; colocam ênfase nas competências e na aprendizagem do aluno e pressionam os professores a revisar seu papel.

Ao buscar um suporte teórico-prático para a reconfiguração dos saberes e dos fazeres da docência universitária, a autora utiliza Cunha como base para apresentar um quadro comparativo da docência no contexto tradicional com a nova forma de ser professor/a requisitada pelo contexto atual. Bazzo, por sua vez, subsidia a autora do livro ao tratar da categoria profissionalidade docente universitária e suas possibilidades de desenvolvimento a partir de ações intencionais de formação pedagógica promovidas por instituições de ensino superior. Mais do que nunca, a ação do professor deve envolver competência, qualificação e reflexão sobre a prática, mas a profissionalidade docente universitária ainda é um conceito em construção. Gimeno Sacristán, Nóvoa, Ramalho e Roldão, entre outros, são referenciais importantes para essa discussão, que finaliza o primeiro capítulo.

No segundo capítulo, o foco é a pedagogia universitária. O texto leva-nos a compreender melhor o lugar que o conhecimento pedagógico assume com a reconfiguração do modelo de universidade. Cruz Ramos, contrária a uma atenção meramente pontual às questões pedagógicas, defende a importância da reflexão permanente sobre o ensino-aprendizagem na universidade e sobre a formação necessária para nela atuar. Nesse contexto, refletir sobre os saberes docentes do professor universitário é perceber que a ênfase tem sido dada ao conhecimento específico da disciplina e à pesquisa, em detrimento do conhecimento da ação pedagógica. Isso retira a dimensão profissional da docência, que está justamente firmada no ato de ensinar, diz ela. Defendendo que ensinar é a especificidade da docência, Cruz Ramos apoia-se em Roldão para apresentar um conjunto de caracterizadores que distinguem o conhecimento profissional docente. Dentre eles, destaca-se a compreensão da natureza relacional da atividade pedagógica.

Continuando o segundo capítulo, a autora adentra na temática da qualidade e da emergência de ações de atenção didático-pedagógica para professores universitários, deixando clara a necessidade de se ter cuidado para que essas ações não ratifiquem uma cultura de performatividade nas instituições. A autora ressalta também a importância de programas de assistência pedagógica para promover mudanças significativas na prática dos professores nas universidades. Segundo ela, as ações de atenção didático-pedagógica têm o mérito de permitir um espaço de reflexão sobre a profissionalidade docente, na medida em que a docência universitária vai se transformando, como apontado por Roldão, de uma profissão do saber, centrada no conhecimento específico e na pesquisa, para uma profissão do ensino, centrada na ação pedagógica.

O terceiro capítulo do livro apresenta a abordagem teórico-metodológica utilizada. É explicitada a questão de pesquisa que norteou sua tese: "ações de atualização pedagógico-didática têm possibilidades de se configurarem como espaços de reflexão sobre a profissionalidade docente universitária?" (p. 119). O estudo tomou como estratégia de investigação a observação participante. O capítulo, ao explicitar o caminho percorrido pela autora, pode ser uma referência para pesquisadores iniciantes que precisam construir seus procedimentos de trabalho investigativo.

O quarto capítulo do livro foi dedicado ao que a autora chamou de "a emergência de uma atenção às questões de ordem pedagógico-didática na U. Porto (1ª fase do movimento)" (p. 125). Ela mostra como a iniciativa e o apoio do vice-reitor da universidade levaram à realização de uma ação piloto de formação ao longo de um semestre letivo. Dessa ação, participaram trinta professores oriundos de diferentes centros componentes da instituição. Os encontros foram articulados por professores convidados que demonstravam interesse e qualificação para a discussão de questões pedagógico-didáticas nos seguintes temas: "O ensino e a aprendizagem numa formação universitária"; "Jovens e adultos em desenvolvimento e a relação de formação na universidade"; "A avaliação da aprendizagem no ensino universitário"; "A componente on-line no ensino superior"; e "A docência universitária face aos desafios da sociedade do conhecimento".

Cruz Ramos observou e descreveu as atividades realizadas, avaliando os depoimentos dos professores sobre a experiência. A autora mostrou que a ação piloto criou o desejo de continuar o debate instalado entre os docentes em formação. No contexto da ação piloto, passou-se a reivindicar da universidade a assunção de mais responsabilidade institucional pelas questões de ordem pedagógico-didáticas e buscou-se organizar atividades de caráter investigativo sobre a formação dos professores.

No quinto capítulo, são descritos os processos de institucionalização do "Grupo de Investigação e Intervenção Pedagógica da Universidade do Porto" (GIIPUP), que deu lugar a seu reconhecimento na instituição e à realização de novas ações de atualização.

Finalmente, no sexto capítulo o livro traz um balanço geral das ações desenvolvidas, as quais geraram um movimento de institucionalização da atenção às questões didático-pedagógicas na Universidade do Porto. Esse balanço permite compreender os limites identificados e os avanços no enfrentamento dos desafios pela reflexão sobre as possibilidades de reconceitualizar a profissionalidade docente universitária.

Recomendamos a leitura do livro não apenas aos pesquisadores interessados no tema, mas principalmente a todos os profissionais que planejam, realizam e refletem sobre as ações pedagógicas na educação superior: docentes, coordenadores, assessores pedagógicos ou demais técnicos. Pesquisas sobre características de programas institucionais de atualização didático-pedagógica como a realizada nessa obra proporcionam novos olhares sobre a especificidade da docência na educação superior, ampliando significativamente as perspectivas de inovação.

 

 

Recebido em abril de 2011
Aprovado em novembro de 2011

 

 

Vera Lúcia Bazzo é doutora em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora associada III Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), E-mail: vbazzo@gmail.com
Maria da Glória Silva e Silva é assistente pedagógica na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e doutoranda em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), E-mail: gloria.silva@unisul.br