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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478On-line version ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. vol.21 no.66 Rio de Janeiro July/Sept. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782016216640 

RESENHA

RESENHA

Maria Cecília Mollica1 

1Doutora em linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora da mesma instituição. E-mail: ceciliamollica@terra.com.br

BORTONI-RICARDO, Stella Maris; RIBEIRO MACHADO, Veruska. Os doze trabalhos de Hércules: do oral para o escrito. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. 248pp.

Os doze trabalhos de Hércules, coletânea organizada por Stella Maris Bortoni-Ricardo e Veruska Ribeiro Machado, "põe o dedo na ferida" em doze dos muitos obstáculos que a escola brasileira precisa enfrentar.

Não por acaso, o primeiro deles refere-se ao dilema da dosagem certa que se deve ter no ensino da gramática, bem como na maneira de ensiná-la. Ao retomar a posição de linguistas que já refletiram sobre a questão, Maria do Rosário Alves descreve a observação de aulas em diferentes níveis do ensino fundamental e verifica a predominância do reforço de aspectos gramaticais em detrimento da compreensão e fruição de textos, ao que responde a um rol de sugestões pedagógicas que exploram predominantemente as características textuais do gênero poesia, a intertextualidade, assim como as dimensões formais e sintáticas de pontos gramaticais.

O capítulo de Esmeralda Queiroz e Aline Pereira alerta para a negligência que a escola tem apresentado em práticas de consciência fonológica. Em virtude da tradição construtivista colocada em prática no Brasil, novas tendências não têm sido observadas, especialmente nas classes de alfabetização, o que acabou por abolir aspectos importantes dos métodos fônicos, como a relação básica grafema-fonema. O capítulo destaca então a importância de se conhecer o perfil sociolinguístico dos alunos e sua competência oral como proposição à aplicabilidade e à eficácia da consciência fonológica no processo de alfabetizar letrando.

O Capítulo 3 retoma a polêmica discussão da operacionalidade de intervenção do professor nos erros cometidos na língua oral e na língua escrita. Com muita propriedade, Stella Maris "põe os pingos nos is" quando não abre mão da correção na escrita dos alunos e, com bom senso, nos instrui sobre as diferenças linguísticas e sobre os modos com os quais devemos lidar na língua falada. Nesse momento, Stella libera os mestres das amarras do entendimento equivocado, perpetuado, de que nada deve ser corrigido. De forma prática, a autora nos mostra como se processam as interferências positivas em sala de aula para que se amplie o repertório linguístico dos falantes nas diferentes práticas comunicativas.

O Capítulo 4 destina-se a destacar a importância da mediação pedagógica direcionada à compreensão leitora. Thaís de Oliveira e Renata Antunes explicam de forma clara e objetiva que a "mediação colabora ativamente para que o aprendiz chegue aos seus objetivos, porque lhe são fornecidos andaimes que lhe permitam o conhecimento e a compreensão" (p. 67); as autoras fornecem protocolos de leitura e sugestões de trabalho com base em processos de andaimagem e pistas de contextualização. De maneira prática, ficamos sabendo como proceder didaticamente com as classes, alertando-se ainda para o tempo que os alunos devem ter para refletir sobre a leitura, para expressar sua opinião e compartilhá-la com os colegas.

O Capítulo 5, ou o quinto trabalho de Hércules, reporta-se às dificuldades e precariedades no ensino da escrita, especialmente. Auriane Mesquita e Lucia Leite da Silva lembram inicialmente que a escola só delega ao professor de português o trabalho de leitura e escrita. No mundo letrado, no entanto, há que se exigir que todos os contextos e todas as aulas sejam responsáveis pela produção textual dos alunos. O artigo ressalta ainda que a produção de textos deve visar a leitores e não somente a professores, para fins de o alunado atingir nota suficiente para ser promovido na escola. As autoras lembram ainda que o mundo do trabalho exige do profissional inúmeras tarefas textuais e sugerem a refacção como um grande aliado pedagógico para trabalhar a escrita. Alertam também que os gêneros devem ser introduzidos paulatinamente, do mesmo modo que o livro didático deve ser adotado como base e ser enriquecido pelo professor com critérios previamente estabelecidos.

Veruska Ribeiro Machado ocupa-se de extenso capítulo questionando as atividades mecânicas e trabalhos em grupo anódinos muito aplicados no cotidiano escolar. Discorrendo sobre a posição de diversos autores, a pesquisadora observa o andamento de aulas e trabalhos em grupo cuja base deve ser a prática do debate construtivo. Muito adequadamente, advoga em favor da existência de planejamento pedagógico que garanta práticas contextualizadoras, mostrando que a escola brasileira ainda convive com práticas tradicionais.

A coletânea mantém-se coerente no enfrentamento dos doze trabalhos de Hércules que a escola precisa empreender. Esther Gomes Shiraishi e Soraneide Dantas Carneiro não abrem mão do reforço das habilidades letradas. Seguindo a mesma linha dos demais autores, dão ênfase à necessidade de organização de "rotinas pedagógicas", rigorosamente montadas com base em eixos que devem obedecer a critérios de tempo, modo, conteúdo e estabelecimento de metas. Novamente se retoma a questão da necessidade da intervenção segura para fins de recuperar "habilidades, capacidades, procedimentos e atitudes não consolidadas por alguns alunos em anos anteriores" (p. 36).

O Capítulo 8 retoma, com destaque, a eficácia da refacção. Procedimento testado positivamente por estudiosos estrangeiros e brasileiros, a refacção mostrou-se, em estudo de campo, ser valiosa como, entre outras estratégias, mecanismo proativo para impedir "a correção inócua de trabalhos escolares sem discussão", prática usual entre professores (p. 113). Andrea Lívia de Jesus Brasil detalha as vantagens da refacção a despeito do método adotado, pois a experiência supera sobremodo qualquer que seja a escolha do método para ensinar.

O Capítulo 9, o nono trabalho de Hércules, refere-se à necessidade de incluir urgentemente na escola as práticas de oralidade. Cláudia de Araújo de Assunção, Maria de Carmo Cardoso de Mendonça e Rosangela Mary Delphino demonstram o pouco compromisso que os professores apresentam com a língua falada. Treinar a utilização da linguagem oral nas diversas situações comunicativas constitui obrigatoriamente missão da escola, pois, desse modo, pode-se refletir sobre as diferenças linguísticas, seus contextos de uso e praticá-los efetivamente. Ainda que inata, a competência oral que adquirimos em tenra idade é de natureza coloquial. Só desenvolvemos bom desempenho oral se somos desafiados a praticar, fazendo uso da língua oral em diferentes situações comunicativas.

Além da escola regular, Hércules tem a tarefa de incluir os cidadãos que não tiveram acesso à escola no tempo devido. Esse é seu décimo trabalho, que, ao lidar com jovens e adultos, encontra o desafio da heterogeneidade das classes, da herança nada positiva de uma escola excludente. Eliana Maria Sarreta Alves toca no ponto-chave da educação de jovens e adultos (EJA): o conhecimento prévio dos alunos. Ainda que importante e fundamental, o conhecimento de mundo, nesse caso, deve ser muito bem aproveitado, ainda que não seja suficiente para introduzir o adulto que não conhece regras da escola. Construir andaimes, aliar saberes de mundo a habilidades específicas de linguagem e matemática, conduzir o letramento formal sem desconstruir os saberes prévios é um imenso desafio. Sem dúvida, um trabalho hercúleo.

Marcos Paulo de Oliveira Santos toca em outro ponto fundamental na escola. A formação continuada é hoje uma realidade da qual não se pode abrir mão. Há um planejamento eficiente que garanta qualificação contínua dos nossos docentes? O Capítulo 11 responde negativamente a essa questão. Como então esperar de um professor que se mantenha atualizado contando com condições de trabalho que o forçam a trabalhar sozinho, sem articulação com as coordenações e as secretarias? Além de incluir alunos, a escola tem de incluir seus docentes, sob pena de manter seus profissionais órfãos, sem diálogo interdisciplinar, sem horizontes de avanços teóricos e metodológicos.

Maria do Rosário Cordeiro Rocha fecha a coletânea com o capítulo destinado a refletir sobre o uso do tempo na sala de aula. Como lidar com o tempo? Esse é também um desafio para Hércules. O tempo do professor é diferente do tempo do aluno, por isso os planejamentos de rotina são de primeira ordem, e "vale a pena recomendar que o tempo destinado ao planejamento das atividades pedagógicas leve em conta os conhecimentos que os alunos já possuem". Rosário ensina-nos que "a rotina da sala de aula deve fazer parte do tempo prescrito e do tempo real".

Os doze trabalhos de Hércules não perde tempo quando acerta o alvo ao descrever as fendas da nossa escola que, se mantidas, farão com que o país continue a exibir baixa performance nas avaliações, ficando ranqueado em posição muito desfavorável no que tange à educação. Os muros que separam escola e vida podem distanciar-se ainda mais caso não sejam enfrentados os trabalhos hercúleos que a escola tem de vencer. Essa obra, lançada em janeiro de 2013, torna-se a partir de agora guia indispensável para superar os desafios didaticamente mostrados com soluções possíveis, ao alcance de profissionais devidamente qualificados.

Recebido: Setembro de 2014; Aceito: Março de 2015

SOBRE A AUTORA

Maria Cecília Mollica é doutora em linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora da mesma instituição.

E-mail: ceciliamollica@terra.com.br

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.