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Estudos de Psicologia (Natal)

On-line version ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.3 no.2 Natal July/Dec. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X1998000200001 

 

 

A proximidade do fin-de-siècle leva muitos estudiosos a ensaiarem balanços, sob prismas os mais diversos. Fin-de-siècle, na realidade, sempre nos traz à lembrança a idéia, concordando com Martin Jay, da última passagem do século, na qual o clima de ansiedade e desespero da decadente cultura burguesa do final do século XIX contrastava com a exuberante juventude do socialismo de então.

Neste final de século, o quadro apresenta-se como que invertido. À emblemática queda do muro e subseqüente débâcle do mundo soviético, segue-se a euforia da proclamada (e inesperada) "vitória" do capitalismo. Mas as teses do "fim da história" mostraram-se, também, frágeis diante do confronto com a realidade: da progressiva miséria das nações periféricas às crises que se irradiam com a velocidade dos tempos da informação e abalam o núcleo mesmo do mundo capistalista, o otimismo inicial cede lugar a uma cautelosa postura de expectativa com o que o novo século/milênio nos reserva.

Assim é que o historiador marxista Eric Hobsbawn analisa de forma bastante severa o que denomina de "o breve século XX" (o mais destrutivo dentre todos vividos pelo homem), recolocando no horizonte a perspectiva da barbárie. Giovanni Arrighi, analsando o que denomina "o longo século XX", põe em questão a viabilidade de o capitalismo sobreviver ao sucesso.

Dentro do espírito dos balanços, a Psicologia também se lança nessa empreitada. Um dos exemplos é o esforço de Ray Fuller, Patricia N. Walsh e Patrick McGinley, organizando uma avaliação de "um século da Psicologia". Partindo da constatação de que este século assistiu a um explosivo crescimento da Psicologia ("mudando irrevogavelmente nossa concepção do que significa ser humano"), passando de uns poucos pesquisadores no início do século a milhares de psicólogos espalhados pelo mundo, abordando os mais diferentes aspectos com os quais o homem está envolvido, conclamam os interessandos a avaliar o que se conseguiu neste século - virtudes e debilidades - antecipando novas perspectivas para o próximo século.

O cruzamento dos balanços de Hobsbawn e Arrighi1 com aquele proposto pelos psicólogos parece estimulante. Ao avaliar os desenvolvimentos da Psicologia, quais são os parâmetros a considerar? Qual foi o papel desta disciplina que tanto cresceu neste século, nos desenvolvimentos que a história registrou?

Evidentemente, respostas para estas questão ainda estão sendo construídas. Nessa direção, Estudos de Psicologia abre espaço para trabalhos das mais diferentes orientações teóricas e temáticas. Uma tal avaliação, sem o prejuízo da postura crítica, tem por pressuposto a interlocução com o outro, sem juízos pré-concebidos e, sobretudo, sem fundamentação - postura, infelizmente, comum no nosso meio acadêmico.

São sete os artigos deste número. No primeiro, Ciomara R. S. Benincá e William B. Gomes apresentam uma análise fenomenológica das transformações familiares através de três gerações, a partir do relato de mães; Lenita G. Cambaúva, Lucia C. da Silva e Walterlice Ferreira, no espírito das reflexões acima anunciadas, colocam algumas questões sobre o estudo histórico da Psicologia; Renata P. Teixeira e Emma Otta abordam questões referentes às diferenças de gênero através de análises de grafitos de banheiro; Angela D. Oliva e Maria L. Seidl de Moura questionam procedimentos piagetianos clássicos em um estudo sobre a influência do número de experimentadores e tipo de contexto no desempenho de crianças em tarefas de conservação; Adriane S. Antoniazzi, Débora D. Dell'Aglio e Denise Ruschel propõem uma revisão teórica de um conceito pouco difundido em estudos no Brasil: o de coping e Sarita B. Vieira propõe uma reflexão sobre a predominância, no campo da saúde mental, de um modelo explicativo no qual a ênfase é a esfera físico-orgânica do sujeito em detrimento de outras formas de abordar o processo saúde/doença.

Na entrevista desta edição, o professor Antônio Jayro da F. M. Fagundes - pioneiro, entre nós, no trabalho de treinamento de animais para utilização em publicidade, cinema, teatro, televisão e outros meios de difusão -, conta-nos a sua trajetória acadêmico-profissional, alguns dos detalhes do seu trabalho e discute possibilidades de novas alternativas profissionais para o psicólogo.

Finalmente, Denis B. de Carvalho resenha o livro "O discurso psicológico na SBPC", do professor Paulo Rosas (entrevistado por Estudos de Psicologia no v. 2, n. 2, de 1997). Trata-se de uma oportuna iniciativa do prof. Rosas, coincidindo com a realização da 50a. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência no campus da UFRN, em Natal, em julho passado - considerada pela direção da entidade como um dos eventos melhor organizados na história da SBPC e seguramente o maior acontecimento científico do estado, reunindo cerca de 20.000 participantes.

Este é o conteúdo desta edição. Segue-se uma lista dos colegas que colaboraram com Estudos de Psicologia neste ano, realizando uma tarefa imprescindível - a de consultoria. A estes, agradecimentos sinceros - e a todos, que esta edição seja proveitosa na direção do acúmulo de discussões acerca das perspectivas da Psicologia.

 

Agradecimentos

Agradecemos aos seguintes conselheiros e consultores ad hoc que colaboraram com Estudos de Psicologia no ano de 1998:

· Alvaro Tamayo
· Ana Cecília de Sousa Bastos
· Angela Arruda
· Antônio Carlos Ortega
· Antônio Gomes Penna
· Antônio Virgílio Bittencourt Bastos
· Bartholomeu T. Trócolli
· Brasília Carlos Ferreira
· Célia Maria Lana da Costa Zannon
· Eliana Herzberg
· Eliane Gerk Pinto Carneiro
· Francisco José Batista de Albuquerque
· Gilberto Safra
· Jorge Castellá Sarriera
· Maria Bernardete de Oliveira
· Maria Lúcia Boarini
· Maria Teresa Pires Serio
· Martha Traverso-Yepes
· Mitsuko Aparecida Martins Antunes
· Olavo de Faria Galvão
· Paulo Rogério Meira Menandro
· Rita de Cássia Gandini
· Rosalina Carvalho Silva
· Sylvia Leser de Mello
· Terezinha de Camargo Viana
· Vera Maria Ramos de Vasconcellos

 

 

Nota

1 As obras referidas no texto são: Arrighi, G. (1996). O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora UNESP; Fuller, R., Walsh, P. N., & McGuinley, P. (Orgs.). A century of Psychology: Progress, paradigms and prospects for the new millennium. New York & London: Routledge; Hobsbawn, E. (1995). A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras; Jay, M. (1988). Fin-de-siècle socialism and other essays. New York & London: Routledge.

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