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Estudos de Psicologia (Natal)

On-line version ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.4 no.2 Natal July/Dec. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X1999000200002 

Raciocínio moral em interação social: um estudo sobre sugestionabilidade1

 

 

Maria da Graça B. B. Dias
Universidade Federal de Pernambuco
Herbert D. Saltzstein
Mari Millery

The City University of New York

 

 

Resumo
Estudos foram realizados a fim de verificar se crianças escolhiam entre cumprir uma promessa ou dizer a verdade em três dilemas hipotéticos. As escolhas iniciais das crianças eram contra argumentadas pelos entrevistadores adultos a fim de verificar a sugestionabilidade das mesmas. Os resultados dos estudos conduzidos em Recife e Nova Iorque (EUA), mostram que as crianças de 6 a 8 anos foram mais sugestionáveis em alguns dilemas do que as de 10 a 12 anos. As mudanças das escolhas foram mais freqüentes de promessa para verdade do que de verdade para promessa. Foi evidenciada sugestionabilidade significativamente maior nas crianças estadunidenses do que nas brasileiras, particularmente em dois dos dilemas. Estudos repetidos nos EUA e Brasil confirmam esta diferença, que pode ser explicada, em parte, pelas diferentes relações de autoridade observadas nas escolas nas duas culturas. Os dados são discutidos em termos de heteronomia, das características significantes dos dilemas, e das relações de autoridade dentro da cultura.
Palavras-chave: Sugestionabilidade, raciocínio moral, dilemas

 

Abstract
Moral reasoning in social interaction: A study about suggestibility
Studies were conducted in which children chose whether to keep a promise or tell the truth in three hypothetical dilemmas. Their initial choices were then counter-probed by adult interviewers to assess their suggestibility. In these studies, conducted in Recife (Brazil) and New York City, younger children (6 to 8) were more suggestible on some of the dilemmas than older children (10-12), and shifting was more frequent from promise to truth than from truth to promise. There was significantly greater suggestibility evidenced by the U.S. than the Brazilian children, particularly on two of the dilemmas. Replication studies in the U.S. and Brazil confirm this difference, which may be explained, in part, by different authority relationships observed in schools in the two cultures. Findings are discussed in terms of heteronomy, the significant features of the dilemmas, and authority relations within culture.
Key words: Suggestibility, moral reasoning, dilemmas

 

 

De acordo com vários autores (e.g., Ceci & Bruck, 1995; Garbarino & Stott, 1990; Mishler, 1986), uma entrevista deve ser vista como uma ocasião de interação social e pode fornecer a possibilidade e oportunidade para ocorrer influência social direta e indireta. No presente trabalho são relatados estudos de sugestionabilidade em entrevistas de julgamento moral em duas culturas, o que poderá esclarecer uma controvérsia teórica na teoria de desenvolvimento moral.

Para Piaget (1932/1965), crianças novas, quando pensam sobre problemas morais, combinam e confundem obrigação moral com deferência à autoridade. Ele designou esta tendência de heteronomia em contraste com autonomia.

Piaget apontou dois tipos de evidência para apoiar este posicionamento. Primeiro, crianças novas justificam a "sacralidade" das regras de jogos pela deferência para com adultos e outras autoridades. Segundo, quando as crianças justificam seus julgamentos, freqüentemente referem-se ao castigo e/ou à desobediência à autoridade adulta. Este tipo de raciocínio seria diferente da autonomia, na qual as justificativas morais são relativamente independentes de autoridade e castigo. Os dois conceitos, de heteronomia e autonomia, são importantes em virtude de serem centrais para a explicação organísmica de desenvolvimento moral como uma série de diferenciações e integrações do pensamento social (e.g., Kohlberg, 1981).

Em anos recentes, este posicionamento tem sido desafiado pela Teoria do Domínio de Turiel (e.g., 1983). Conforme Turiel e seus colegas (Nucci, Turiel & Encarnacion-Gawrych, 1983; Turiel, 1989; Turiel, Killen & Helwig, 1987), mesmo crianças novas distinguem intuitivamente entre regras convencionais morais e sociais. Se crianças novas fazem intuitivamente esta distinção, o valor organísmico de desenvolvimento pode ser radicalmente modificado.2

Uma possível solução para esta controvérsia encontra-se na distinção que Saltzstein (1994) faz para explicar a disparidade encontrada, por vezes, entre pensamento moral e ação. A distinção, familiar em filosofia, recai entre conflitos morais e dilemas morais. Conflitos morais são conflitos entre um dever ou direito moral e um desejo não moral, tendência, inclinação etc. Um exemplo pode ser o conflito entre devolver uma carteira ao seu dono ou ficar com a carteira e o dinheiro. Em contraste, dilemas morais são conflitos envolvendo dois ou mais direitos ou deveres morais. Por exemplo, no dilema de Heinz de Kohlberg o conflito é entre roubar um remédio para salvar a vida da esposa ou não cometer o roubo e a esposa morrer. Assim, Saltzstein argumenta que conflitos morais são cognitivamente simples, apesar de, muitas vezes, serem emocionalmente difíceis, enquanto dilemas morais são difíceis de resolver mesmo em teoria. Em outras palavras, uma pessoa sabe o que é certo fazer no caso de conflitos, mesmo quando é difícil de atuar nesse conhecimento. No entanto, uma pessoa nem mesmo tem certeza sobre o curso certo de ação quando se depara com dilemas, por envolver conflitos entre dois imperativos morais.

A solução proposta por Saltzstein (1994) é simples: a afirmação de Turiel (1983) que até crianças novas intuem a essência de moralidade e não a confundem com eventos físicos ou convenções sociais arbitrárias, caracteriza o pensamento de crianças novas sobre o que pode ser chamado de conflitos diretos, i.e., aqueles envolvendo afirmações morais versus não morais. Enquanto heteronomia (e.g., apelo à autoridade) poderia caracterizar o pensamento das crianças quando os conflitos são cognitivamente complexos e envolvem um dilema entre duas afirmações morais, que não foram utilizados por Turiel.

Em um estudo piloto realizado por Saltzstein, os dados mostram apenas evidência ocasional de heteronomia no raciocínio das crianças. Entretanto, notou-se um fenômeno nas reações de crianças ao entrevistador. As entrevistas se referiam a dilemas morais em que dizer a verdade era oposto a manter a promessa. Foi empregado o estilo de entrevista do método clínico piagetiano. Como é usual com este método, a escolha inicial da criança (verdade/promessa) era contra sugerida. Por exemplo, se a criança optasse por dizer a verdade, o entrevistador perguntava sobre cumprir a promessa. Ou, se a criança escolhesse cumprir a promessa, o entrevistador perguntava: "Não significaria que você teria de mentir?". Muitas crianças mudavam sua escolha depois desta contra-sugestão. Pergunta-se então, se talvez a heteronomia ou equação de moral certa ou errada em respeito à autoridade, não evidente no conteúdo do pensamento das próprias crianças, é expressa na interação como respeito ao entrevistador adulto. Isto conduziria a uma predição de que crianças heterônomas mais novas seriam mais susceptíveis à influência do entrevistador do que crianças autônomas mais velhas.

Vale incluir três processos diferentes que têm sido considerados como envolvidos e avaliados pela sugestionabilidade. Eles não são excludentes, mas podem se aplicar a diferentes grupos de crianças em tempos diferentes. Primeiro, a mudança pode representar a heteronomia da crianças ou a orientação de obediência ao entrevistador, conforme sublinhado acima. Este caso parece ser uma mudança efêmera, motivada pela crença de que é dever obedecer ou consentir com os pedidos dos adultos, aqui entrevistadores. Conforme esta interpretação, o fenômeno heteronomia, várias vezes alusivo ao conteúdo do raciocínio individual da criança, pode ser descoberto no contexto interacional dentro do qual a criança faz escolhas morais. Nesta ótica, heteronomia não deveria ser considerada como um atributo geral do pensamento de uma criança nova, mas como característica de sua interação com outros sob certas condições.

Uma segunda interpretação é de que a mudança representa uma reorganização cognitiva ocasionada pelo reenfoque facilitado pela contra-sugestão. Nesta visão, a contra-sugestão fornece uma oportunidade para reenfocar e não uma exigência para ser obedecida. Tais reorganizações têm sido sugeridas por vários teóricos, incluindo entre outros Asch (1952) e Piaget (1952) e incorporada em outras pesquisas (e. g., Kuhn, 1974 e Saltzstein & Sanberg, 1979).

Estes processos hipotetizados fornecem respostas diferentes para a questão da motivação, se a mudança é originalmente devido ao interesse em dar uma resposta socialmente aceitável ao entrevistador 1 sobre a solução do problema proposto pelo dilema 2. As duas interpretações também diferem quanto ao papel da incerteza no processo de influência. A incerteza inicial da criança sobre a resposta "correta" desempenha um papel mais saliente no segundo processo. A influência social pode ser facilitada pela incerteza inicial sobre a "resposta" estimulada pela própria contra-sugestão, via um processo de reenfoque. De acordo com o primeiro processo hipotetizado, as crianças novas seriam sugestionáveis através de uma variedade de tarefas desde que uma autoridade esteja requerendo a mudança. Em contraste, concordando com o segundo processo de influência, a sugestionabilidade dependeria mais da tarefa. Aquelas em que a criança estivesse mais indecisa ou em conflito, traduziriam que a criança estaria particularmente susceptível à influência social.

Existe uma terceira variante da segunda interpretação: a susceptibilidade à influência devido à incerteza da tarefa ser compreendida dentro de uma estrutura de desenvolvimento. Isto não caracteriza a criança ou a tarefa como tal, mas o domínio da criança nesta tarefa dentro de seu caminho de desenvolvimento. Assim, quando uma criança adota uma nova instância moral, (aqui, a importância da promessa), uma contra-sugestão a perturba facilmente. Uma nova forma de pensamento, recentemente alcançada, ainda não está consolidada e, além do mais, é susceptível à influência por sugestões através de um processo de reenfoque e/ou deferência à autoridade. Isso nos levaria a considerar as interações complexas entre idade, tarefa (aqui, dilema) e sugestionabilidade e não uma relação direta entre sugestionabilidade e idade.

 

Método

Amostra

Os dados foram obtidos de cinco amostras de crianças, duas dos Estados Unidos e três do Brasil. A primeira amostra consistiu de 65 crianças recrutadas em uma escola de ensino fundamental afiliada a uma universidade da cidade de Nova Iorque. Aproximadamente metade das crianças era de 6 a 8 anos e a outra, de 10 a 12 anos. Desde que se admita que a escola é baseada em testes rigorosos, seus alunos geralmente devem possuir alto nível acadêmico. Consistentemente com a política da escola, elas são de origens étnicas diversas. O currículo escolar geralmente é progressivo e adere aos altos padrões acadêmicos. Para testar a generalidade dos dados, foram entrevistadas crianças também em Recife. A segunda amostra consistiu de 41 crianças, 19 de 6 a 8 anos e 22 de 10 a 12 anos, recrutadas em escolas particulares de Recife. Em acréscimo, 23 crianças de uma terceira amostra, morando em orfanatos de Recife, também foram individualmente entrevistadas.

Além dessas, mais duas amostras foram entrevistadas: a amostra 4, incluindo 54 crianças, 29 de 6 a 8 anos e 25 de 10 a 12 anos, matriculadas em escolas particulares em Recife, e a amostra 5, que consistiu de 30 crianças de 6 a 8 anos, matriculadas em uma escola paroquial greco-ortodoxa da cidade de Nova York. Elas foram entrevistadas para compará-las com as crianças mais novas da primeira amostra estadunidense.

Tarefa e Procedimento

Cada criança recebia três dilemas, um de cada vez. Em todos os três, uma criança fictícia deparava-se com o dilema de "dizer a verdade" (quando isto poderia envolver quebrar uma promessa) ou "manter a promessa" (quando isto poderia envolver mentir). Na história sobre "filar" (colar), o protagonista promete ao amigo guardar segredo da professora de que ele filou na prova. Na história "esconder", o protagonista promete ao seu irmão/irmã não revelar aos pais onde o irmão/irmã está escondido(a). Na história "zombar", o protagonista promete a um novo colega confirmar sua história a outras crianças que estão zombando dele. Este novo amigo mente para as outras crianças para elas pararem de chateá-lo. Deveria então, o protagonista mentir também para as outras crianças e manter a promessa, ou dizer a verdade quebrando a promessa que fez ao amigo? O sexo do protagonista nas histórias combinava com o sexo da criança entrevistada.

Estas histórias foram organizadas de modo a exemplificar contextos diferentes para dilemas entre manter promessa e dizer a verdade. Por exemplo, em dois dos dilemas, a criança deveria mentir a um adulto, um professor na história filar (colar) e um pai na história esconder. Já na história zombar, a mentira da criança deveria ser dirigida aos colegas (ver Apêndice). A ordem da história foi randomizada e pareceu não ter efeito sistemático.

O procedimento foi o seguinte: após ler a história, pedia-se à criança uma recapitulação a fim de checar sua compreensão; a criança deveria então escolher entre dois cursos de ação e justificar sua escolha. Depois disso, o entrevistador introduzia um dos tipos de contra-sugestão, versão "fraca" ou "forte". Na condição fraca, por exemplo, se a criança escolhesse manter a promessa em vez de dizer a verdade, o entrevistador perguntava: "E sobre o fato de que ela estaria mentindo para sua amiga?". Na condição forte, por exemplo, se a criança escolhesse dizer a verdade, o entrevistador perguntava: "Mas você tem certeza que Cris (protagonista da história) deveria dizer às outras crianças?" Você não acha que Cris deveria manter a promessa que fez à sua amiga?"

Depois das contra-sugestões, era perguntado à criança como ela achava que um adulto responderia à questão-julgamento atribuídos aos adultos. Sua inclusão deu continuidade a pesquisas anteriores sobre diferenças entre julgamentos das próprias crianças e aqueles que elas atribuem a outros (e.g., Saltzstein & Sandberg, 1979; Saltzstein et al., 1987).

Vale salientar que as crianças foram alertadas para a necessidade de sigilo sobre a tarefa realizada, pedindo-se para não falarem com outras crianças que ainda não tinham sido entrevistadas.

 

Resultados

Devido ao fato de pouca diferença ter sido encontrada entre as duas condições de sugestão e porque esta variação não era central nessa proposta de pesquisa, apenas a condição de sugestão forte foi incluída na terceira e quarta amostras. Também com a amostra 4, as crianças eram entrevistadas apenas sobre os dilemas de zombar e filar (colar).

Ánalise dos dados

As razões apresentadas pelas crianças para suas escolhas iniciais de verdade/promessa eram codificadas e categorizadas em categorias não mutuamente exclusivas: referência a figuras de autoridades (pai, professor, diretor), amizade/empatia; promessa/verdade, conseqüências sociais ao protagonista (ex., seus amigos não gostarão mais de você) e razões não elaboradas. As razões não elaboradas foram aquelas que envolvem comentários tais como, "É certo fazer" ou "É errado mentir". A concordância entre juizes variou de 82% a 98%.

Foram observados dois níveis de mudança de resposta para a contra-sugestão: uma mudança total de uma escolha de verdade para promessa ou vice-versa, e uma mudança parcial de uma escolha de estar indecisa para incerteza ou para uma posição de compromisso. Foram realizadas análises com e sem as mudanças parciais, com resultados diferindo pouco (exceto conforme anotado).

As análises relatadas aqui contam mudanças parciais e mudanças totais juntas como indicação de mudança ou sugestionabilidade. Antes de analisar cada conjunto de dado individualmente, os dados (das cinco amostras, duas dos Estados Unidos e três do Brasil, duas de escolas particulares e uma de orfanato) foram agregados e analisados por um método de quadro linear, reduzindo assim a redundância, aumentando ao máximo o uso do espaço e o aumento do poder estatístico. A experiência cultural (EUA/Brasil) foi considerada como uma variável nula.

Os resultados da análise do quadro linear dos dados agregados (n=183, para os dilemas de filar e zombar e n=123, para o dilema de esconder) estão apresentados nas Tabelas 1, 2, e 3. As diferenças a seguir foram todas significativas. (1) Crianças mais novas mudaram mais do que crianças mais velhas nos dilemas de esconder e zombar, p<.0005 e p<.01, respectivamente. (2) Crianças estadunidenses foram mais sugestionáveis do que crianças brasileiras no dilema de zombar, p<.02 e p<.005. (3) As mudanças foram maiores de promessa para dizer a verdade do que de verdade para promessa nas histórias de filar (colar) e esconder, p<.0001 e p<.01, respectivamente. Nem o primeiro nem o terceiro efeito interagiram com a experiência cultural das crianças. (4) Em uma análise separada, idade e escolha inicial também foram significativamente associadas, com as crianças mais novas preferindo verdade e as mais velhas, promessa, c2 (1)=17.3, p<.00003 para o dilema de filar (colar) e c2 (1)= 9.72, p<.002 para o dilema de zombar.

 

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Para examinar os resultados em mais detalhes, voltamos aos dados de mudança para cada uma das cinco amostras, que estão apresentadas nas Figuras 1, 2 e 3.

 

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Na primeira amostra estadunidense, o padrão de mudança variou de 16% a 53% dependendo da idade do grupo e do dilema (Figura 1). Na amostra estadunidense, o nível de mudança das crianças estadunidenses (mais jovens + mais velhas) variou de 28% a 35% enquanto o nível de mudança das crianças brasileiras matriculadas em escolas particulares variou de 22% a 26% (Figura 2).

O nível de mudança das crianças brasileiras oriundas de orfanato foi mais semelhante ao das crianças estadunidenses, variando de 23% a 40%. Entretanto, aqui a mudança foi, em sua maioria, para uma posição de incerteza, do que de uma mudança completa para outra escolha.

Comparando as crianças de 6-8 anos na segunda amostra estadunidense com as crianças de mesma idade na segunda amostra brasileira (Figura 3), os resultados se assemelham. Nos dois dilemas incluídos em ambos os estudos (filando e zombando), o nível de mudança foi 43% e 50% para as crianças estadunidenses e 10% e 11% para as crianças na segunda amostra brasileira. Assim, o nível  de mudança nas segundas amostras estadunidense e brasileira parece ter repetido os resultados anteriores (amostras 1 e 2).

As diferenças em razões para a escolha inicial (totalizando os dilemas) foram encontradas por temas de autoridade e conseqüências sociais. Ambas foram menos freqüentes no raciocínio da primeira amostra brasileira do que na primeira amostra de crianças estadunidenses, por temas de autoridade, c2(1)=11.25, p<.004 e por temas de conseqüências sociais, c2(1)=25.98, p<.0001. Os temas não elaborados também foram mais comuns entre crianças estadunidenses, c2(2)=9.90, p<.007. Não houve diferenças significativas entre as amostras na freqüência de temas de amizade/empatia e promessa/verdade, as duas formais mais comuns, depois das anteriores, de razões oferecidas para ambas as amostras.

 

Discussão

Quatro dados gerais surgiram destes estudos. Primeiro, crianças mais novas foram mais sugestionáveis do que crianças mais velhas nos dilemas de esconder e zombar. Segundo, crianças que inicialmente escolheram prometer foram mais facilmente influenciadas do que aquelas cuja escolha inicial foi verdade nos dilemas de esconder e filar. Terceiro, uma escolha inicial de prometer esteve associada com idade maior nos dilemas de filar e zombar. Finalmente, crianças brasileiras foram menos sugestionáveis, i.e., mudavam com menos freqüência do que aquelas dos Estados Unidos nos dilemas de zombar e filar.

As variações nos dilemas podem ser avaliadas considerando as características distintivas dos dilemas. Estas características são: (a) os motivos do transgressor, incluindo a provocação para a transgressão, (b) a regra quebrada pela transgressão, (c) para quem a mentira estava sendo dirigida e (d) o contexto social no qual o julgamento foi feito. Na história de zombar, o motivo do transgressor é auto-protetor e a transgressão (mentindo/contando vantagem) ocorre sob grande provocação, isto é, com significado de zombaria pelos pares. Na história de esconder, o motivo do transgressor é pessoal (nem estritamente moral ou imoral), com nenhuma evidência de provocação e a mentira poderia ser para os pais. Em oposição, na história de filar, a transgressão envolve a quebra de uma regra evidente escolar (contra a fila) com uma provocação moralmente questionável (medo do fracasso).

Idade e sugestionabilidade

A descoberta de que as crianças menores foram mais sugestionáveis do que as maiores nos dilemas de esconder e zombar é consistente com a hipótese original da heteronomia destacada no início deste trabalho. É também consistente com as descobertas dos estudos de sugestionabilidade em testemunhas oculares (ver Ceci & Bruck, 1995). Como nesses estudos não está claro em qual extensão uma maior sugestionabilidade é devido à obediência de crianças menores ou devido à suas limitações cognitivas quando resolvem dilemas morais complexos. Não é surpresa que a influência da mensagem transmitida pela contra-argumentação do entrevistador pode ter sido rechaçada até mesmo pelas crianças menores na história de filar (colar). O conteúdo filar contraria fortemente uma aprovação da regra moral evidente, especialmente porque a entrevista foi realizada na escola. Deste modo, quando a autoridade é tão evidente na história, a influência do entrevistador é mais limitada do que quando a falta desta autoridade está presente. Pode-se dizer que a procura da criança mais nova por uma orientação de autoridade pode ser encontrada no dilema e, se não nele, na interação social com o entrevistador.

A maior resistência à sugestionabilidade pelas crianças mais velhas na história de esconder pode ser atribuída a crenças das mesmas sobre a importância da solidariedade dos pares (aqui, irmãos) e ao conceito de desenvolvimento de domínio pessoal e direito de autonomia (e.g., Nucci, 1981), dentre os quais os pais têm autoridade legítima limitada. A maior sugestionabilidade entre crianças mais novas e resistência por crianças mais velhas no dilema de zombar, no qual adultos não são apresentados na história, podem refletir um notável crescimento de que a adesão às regras morais, tais como aquelas contra a mentira, depende das circunstâncias às quais a regra pertence.

Deveria ser enfatizado que esta interpretação permanece como um conceito modificado de heteronomia, no qual o respeito à autoridade do entrevistador não é ilimitado, mas depende de: (a) o status versus stress da classe particular dos adultos (e.g., pais, professores); (b) a natureza da transgressão moral e seu motivo; (c) o grau de autoridade (do adulto) que está envolvido na história. Também, como Piaget (1932/1965) sugeriu na sua formulação original, fatores cognitivos e sociais, uma limitação de perspectivas e uma relação subordinada ao mundo do adulto podem reforçar cada um para criar e sustentar uma orientação heterônoma.

Escolha inicial e sugestionabilidade

A descoberta de maior sugestionabilidade de promessa para verdade do que vice-versa nos dilemas de filar e esconder pode estar relacionada à descoberta de que quando se pedia a essas mesmas crianças para atribuir julgamentos a adultos, tanto as brasileiras como as estadunidenses atribuíram uma escolha de verdade para os adultos. Isto foi especialmente o caso quando elas mesmas escolheram verdade, mas também o mesmo aconteceu quando a criança escolhia prometer. Este padrão foi altamente significativo tanto para as crianças estadunidenses como brasileiras (Saltzstein, Dias & Millery, 1998). Também, as crianças mais novas escolheram, inicialmente, mais vezes prometer do que verdade nos dilemas de filar e zombar. Todas as três descobertas: (a) a maior sugestionabilidade de uma escolha de promessa do que de uma escolha de verdade, (b) a atribuição da escolha da verdade aos adultos, e (c) a tendência geral das crianças menores escolherem dizer a verdade e as crianças maiores escolherem cumprir a promessa são compreensíveis a partir da estrutura da terceira posição teórica, ressaltada acima. Segundo Astington (1988), um conceito moral recentemente adquirido pela criança como promessa será abandonado em face de um desafio de uma autoridade. Isto é, crianças que têm desenvolvido recentemente uma preferência para promessa, mas acreditam que adultos escolheriam verdade (Saltzstein et al., 1998), revertem de uma escolha de promessa para verdade, quando desafiadas pela autoridade do adulto que está conduzindo a entrevista.

Diferenças nas amostras

Finalmente, voltamos especificamente às diferenças entre amostras nas duas culturas, isto é, maior sugestionabilidade nas crianças estadunidenses do que nas brasileiras nas histórias de zombar e filar. Quando os dados do orfanato foram omitidos da análise, a comparação das amostras na história de filar (colar), também alcançou diferenças significativas (p<.005). Este fato pode ser respaldado pelos diferentes tipos de relações de amizade entre professores e crianças em escolas brasileiras. No Brasil, professores do 1º e 2º graus têm um status versus stress limitado na escola e na sociedade, diferentemente dos professores nos Estados Unidos. Os do Brasil recebem baixos salários e são academicamente menos preparados. Segundo Freire (1998), em sua crítica sobre as escolas no Brasil, as relações de amizades dos professores com jovens alunos são mais afetivas e carinhosas e envolvem menos autoridade do que em outras sociedades. Por exemplo, crianças novas, no Brasil, chamam professores de tia ou tio e os professores freqüentemente expressam fisicamente sua afeição abraçando seus alunos.

Segundo a observação de Freire (1998) e considerando que as crianças viam, no presente estudo, as pesquisadoras femininas como uma espécie de professora substituta, talvez as crianças das escolas particulares brasileiras tenham visto a entrevistadora como não requerendo ou merecendo deferência especial ou respeito. Vale salientar que as pesquisadoras brasileiras (alunas da graduação em Psicologia) durante as entrevistas, sempre mantiveram um relacionamento afetivo com as crianças, brincando com elas e fazendo-lhes carinho, como ocorre com a maioria dos relacionamentos entre professoras e alunos. Comportamento diferente do das pesquisadoras estadunidenses, também alunas da graduação em Psicologia, que mantiveram durante a entrevista um relacionamento que pode ser chamado de apenas "cordial". Assim, uma explicação de variações culturais em sugestionabilidade não é para ser encontrada nas diferenças entre crianças brasileiras e estadunidenses ou entre "valores culturais" entre brasileiras e estadunidenses, porém na natureza típica da relação entre professor-aluno no Brasil, comparada às escolas estadunidenses3. Os resultados da amostra de orfanato fornecem algum apoio para esta interpretação. O nível de mudança destas crianças foi mais semelhante aos níveis da primeira amostra estadunidense do que das outras amostras brasileiras. Isto seria esperado em virtude da relação de maior autoridade entre professores e estudantes no orfanato do que nas escolas particulares.

A descoberta de que a diferença cultural obtida é mais consistente para a história de zombar pode ser devido às características do dilema que envolve solidariedade de pares como também a autoridade, e então a combinação de autoridade menor dos professores/pesquisadores mais a influência de pares solidários tenham induzido resistência às contra-sugestões da entrevistadora. Vale a pena notar que a tendência das crianças brasileiras para resistirem à influência do entrevistador ocorreu a despeito do fato de que elas tenham de início escolhido prometer na história de filar, como discutido acima, o que poderia conferir às crianças mais susceptibilidade em relação à influência do entrevistador.

Assim, em termos das distinções entre diferentes tipos de sugestionabilidade (ver introdução), nossos dados se encaixam melhor com o terceiro tipo de processo delineado, desde que o grau de mudança depende de: (a) o dilema particular, (b) a escolha inicial da criança, (c) a direção de desenvolvimento da mudança de julgamento e (d) o conhecimento cultural dos participantes. Assim, a sugestionabilidade parece ser o resultado de características da relação criança-entrevistador nas duas culturas e a natureza do desenvolvimento da tarefa.

 

Conclusão

Interpretações definitivas acerca dessas descobertas aguardam mais pesquisas, tal como tendo pessoas de menos autoridade (e.g., pares) entrevistando crianças (e.g., Ceci, Ross, & Toglia, 1987) e, além disso, variando a complexidade ou a ambigüidade do dilema. Nossa hipótese de trabalho (seguindo a fórmula original de Piaget) é que uma interação complexa entre características morais e cognitivas dos dilemas e fatores sociais é decisiva para o fenômeno observado. Além disso, o modelo de pesquisa aqui usado pode também fornecer um importante caminho para estudo do funcionamento de raciocínio moral em um contexto social. Finalmente, a chave dos problemas aqui levantada pode se aplicar a outro fenômeno de desenvolvimento, tal como o estudo da sugestionabilidade nas crianças em testemunhas oculares (Ceci & Bruck, 1995).

Nossas descobertas sugerem prudência em privilegiar algum conjunto de respostas de uma criança. No mínimo, é preciso ser sensível à possível importância de fatores de contexto social, tal como sugestionabilidade do entrevistador baseada na relação social expressa na situação de entrevista. Pode-se concluir que julgamentos morais refletem a interação entre os processos mentais da criança, as características do dilema e a situação social na qual o julgamento moral é expresso.

 

Referências

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Turiel, E., Killen, M., & Helwig, C. C. (1987). Morality: Its structure, function, and vagaries. In J. Kagan & S. Lamb (Orgs.), The emergence of morality in young children (pp. 155-243). Chicago: University of Chicago Press.        [ Links ]

 

Sobre os autores

Maria da Graça Bompastor Borges Dias, doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de Oxford (Reino Unido), é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco.
Herbert D. Saltzstein, Ph. D. em Psicologia Social pela Universidade de Michigan, é professor do Graduate Center, The City University of New York (EUA).
Mari Millery é doutoranda em Psicologia no Graduate Center, The City University of New York (EUA).
Endereço para correspondência: Maria da Graça B. B. Dias, Av. Beira Mar, 520 ap.81, Piedade, 54310-064, Jaboatão, PE; Fones (0**81) 361-2319, 271-8272; Fax (0**81) 271-1843; e-mail: mdias@npd.ufpe.br.

Recebido em 08.07.99
Revisado em 04.11.99
Aceito em 06.11.99

 

Nota

1 Pesquisa financiada pelo CNPq.

2 Para uma melhor análise do posicionamento de vários autores sobre a universalidade versus relativismo do julgamento moral, consultar Biaggio (1999).

3 O Prof. Saltzstein questionou informalmente brasileiros morando nos Estados Unidos com quem ele teve contato sobre as diferenças entre os professores nas duas culturas. Versões variavam em nuances, mas os informantes descreveram os professores e seus relacionamentos com os alunos de forma consistente de acordo com a sugestão do grupo de pesquisadores do Brasil. Enquanto não constituir dados precisos, a unanimidade desses relatos foi muito convincente. Também consistente com esta interpretação é a entrevista que o co-autor Saltzstein fez com uma professora na escola privada durante uma visita ao Recife. Quando ele perguntou o que a professora faria se a classe inteira estivesse sem prestar atenção, ela respondeu que diria as crianças que "estava muito triste com elas", talvez uma resposta afetiva e não uma resposta autoritária.

 

Apêndice

Dilemas de Julgamento Moral

1. História de Zombar

Todas as crianças estão sempre zombando de Jane, que é novata na escola. Cris é amiga de Jane e lamenta por ela e promete a Jane confirmar tudo que ela diz. Jane está realmente chateada e diz às outras crianças: "Eu recebi um prêmio muito importante na minha outra escola". As outras crianças começam a rir e perguntam à Cris: "Jane realmente recebeu um prêmio, Cris?" Chris sabe que Jane nunca recebeu um prêmio na outra escola.

O que Cris deveria fazer? Por quê?

2. História de Filar (Colar)

Fred diz a seu melhor amigo Rodrigo que ele estava com medo de errar tudo na prova que tinha feito e então ele filou na prova. Fred pede para Rodrigo não dizer a ninguém e Rodrigo promete não dizer. No dia seguinte, a professora suspeita que Fred filou e pergunta a Rodrigo se Fred filou.

O que Rodrigo deveria fazer? Por quê?

3. História de Esconder

Tiago diz a seu irmão Alex sobre um esconderijo secreto que ele tem em seu apartamento e pede para ele não dizer a ninguém. Alex promete não dizer nada sobre o esconderijo secreto de Tiago. No mesmo dia, mais tarde, seus pais não tinham visto Tiago e perguntam a Alex se ele sabe onde Tiago está!

O que Tiago devia fazer? Por quê?

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