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Estudos de Psicologia (Natal)

On-line version ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.8 no.2 Natal May/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X2003000200019 

RESENHA

 

Espaços de vida. Aspectos da relação homem-ambiente1

 

 

Isolda de Araújo Günther

Universidade de Brasília

 

 

O livro Espaços de vida. Aspectos da relação homem-ambiente, organizado por Gabriel Moser e Karine Weiss é dedicado a Claude Lévy-Leboyer, pioneira da Psicologia Ambiental (PA) na França. Compreende uma "Introdução", onze capítulos distribuídos em quatro partes, uma conclusão "Perspectivas", além de um "Índice Temático".

Na introdução, intitulada "Questionar, analisar e melhorar as relações com o ambiente", G. Moser indaga:

Desde as condições da habitação até as do planeta, passando pela cidade, nossa relação com o ambiente condiciona nossas percepções, nossas avaliações e nossos comportamentos e, sobretudo, determina nosso bem-estar quotidiano. Em que e como a Psicologia Ambiental ajuda a analisar e a melhorar nossos relacionamentos em nossos diferentes espaços de vida? (p. 11).

O autor parte da definição de ambiente, quadro de vida do indivíduo, como algo que "rodeia, envolve, engole" (Ittelson, 1973, p. 13), chega ao estudo das relações homem-ambiente e imprime, já no primeiro parágrafo, o tom e a abrangência do livro. Coloca a problemática da relação do homem com si mesmo, com os outros, com o ambiente natural e construído que, por sua vez, deve ser não somente cuidado, preservado, mas melhorado. Essas reflexões revelam uma outra lição: um exemplo da afinidade da PA com outra área da Psicologia, a Psicologia Social. A "Introdução" discute, ainda, a singularidade e orientação da PA, voltada para a teoria e para a aplicação dos saberes, sua relação com outras disciplinas, seu corpo teórico, seus paradigmas, os princípios e as diferentes técnicas de intervenção ambiental.

A primeira parte, "Ver, sentir e ressentir seu ambiente", é formada por três capítulos e analisa a experiência e a avaliação ambientais, dando ênfase ao pólo afetivo. No 1o capítulo, "A análise da experiência ambiental", D. Uzzell e O. Romice defendem que o "estudo dos espaços, a resposta a esses lugares e as concepções das pessoas" contribuem para esta experiência. O capítulo se inicia com a observação de Heat (1974): "Havia seis homens do Industão/ De mentes filosóficas/ Que foram ver o elefante/ Mas todos eles eram cegos" (p. 49). Fornece uma visão crítica e compreensiva de métodos e técnicas destinados à avaliação da qualidade visual do ambiente construído. Os autores mostram a necessidade não apenas de sentir, literalmente, as diferentes partes do elefante, mas também de conhecer o conceito de elefante. Isso implica na construção de um conhecimento detalhado e completo, i. é, holístico, que possa integrar a análise individual com a psicologia ambiental e ajudar profissionais que atuam na área a enfrentar os desafios de suas profissões.

No 2o capítulo, "Avaliação do ambiente", E. Ratiu apresenta referencial para estabelecer indicadores da qualidade ambiental. Detém-se nos componentes avaliativos e afetivos de nossas relações com o ambiente, deixando claro que "conciliar o espírito poético expansivo com o espírito científico taciturno não é tarefa fácil..." (p. 85). A autora discute o porquê, o para quê, os atores e os termos (ambiente, instituição, participantes) da avaliação ambiental. Apresenta o quadro teórico conceitual, os métodos e as dificuldades relacionadas, advertindo que a avaliação é um processo dinâmico, se desenrola em contextos temporal e espacial próprios ao indivíduo e envolve aspectos perceptivos, cognitivos, afetivos, motivacionais, normativos e comportamentais.

O 3o capítulo, "A palavra do público andando", por J. P. Thibaud, propõe o "método dos percursos comentados", que valoriza os fenômenos sensíveis dos lugares, as condutas perceptivas dos passantes e as atividades sociais nas quais estão engajados. O método consiste em se aproximar do passante e solicitar de maneira simultânea, três atividades: andar, perceber e descrever. As descrições dos passantes constituem o corpo de base para a análise, conduzem aos resultados intermediários que geram hipóteses sobre os fenômenos sensíveis, permitem a elaboração dos protocolos de observação, o retorno ao terreno, a contextualização dos fenômenos sensíveis e a síntese final. A leitura deste capítulo trouxe à lembrança "A walk around the block", trabalho publicado por Lynch e Rivkin em Landscape (1959) e republicado em 1970.

A segunda parte, "Perceber, pensar e imaginar seu ambiente" é dedicada às cognições ambientais, a maneira como os lugares são representados sócio-cognitivamente. O 4o capítulo, "As representações sociais no campo do ambiente", por M. L. Félonneau, situa a problemática sujeito-ambiente no quadro teórico-metodológico da psicologia social. Integra a evolução da psicologia ambiental com a teoria das representações sociais e contribui com um referencial valioso para a aplicação dessa teoria ao estudo da relação dos indivíduos com os ambientes.

No 5o capítulo, T. Ramadier desvenda por meio [d]"as representações cognitivas do espaço: modelos, métodos e utilidade" o relacionamento que estabelecemos com o meio. Formadas a partir das experiências dos indivíduos, tais representações dependem das características físicas do meio, sendo geradas da junção destas duas entidades. A idéia central é que as representações espaciais "mediatizam" a relação espaço físico e indivíduo, permitindo sua apropriação como um espaço de ação. São discutidas as vantagens e limitações dos "modelos e métodos" das representações cognitivas do espaço e a conveniência de associá-los a uma entrevista ou questionário.

No 6o capítulo, P. Amphoux revela "A identidade sonora urbana, uma abordagem metodológica cruzada", definida como um conjunto de sons comuns a um local, bairro ou cidade, que faz com que o local permaneça, na realidade ou na imaginação, idêntico a ele mesmo. Apresenta três técnicas e faz recomendações para seu uso: "mapas mentais sonoros, enquete fono-reputacional, e entrevista de escuta reativa". Essas técnicas serviram de referência para a criação de um observatório ambiental sonoro e um Sistema de Informação Geográfica, em Lyon.

A terceira parte, "Explorar e praticar seu ambiente", é formada por três capítulos. Descreve métodos e técnicas destinados a observar, compreender e melhor atuar no ambiente. No 7o capítulo, "A observação recorrente: uma abordagem reconstrutiva do ambiente construído", P. Amphoux propõe, por meio de técnicas interpretativas e cumulativas, fazer falar as pessoas dos lugares, para "fazer falar o lugar". Utilizando uma abordagem criativa, conclama categorias de usuários e especialistas a observarem uma mesma situação - um método de observação - e a reagirem aos dizeres e às interpretações dos que os precederam - o princípio da recorrência.

No 8o capítulo, "Behavior-setting", K. Weiss traz uma visão compreensiva da proposição de R. Barker, a psicologia ecológica, abordagem integrativa que considera ambiente x comportamento como unidades inseparáveis. A autora discute o método clássico proposto por Barker, faz observações pertinentes à sua utilização nos dias atuais, sugerindo seu uso associado a outros métodos e apresentando um modelo de observação. Contrariamente ao comentário humorístico que refere a psicologia ecológica como "aquela estranha marca de psicologia que cresce apenas em Oskaloosa" (Willems, 1968, p. 36), foi um prazer verificar que esta orientação também vingou do outro lado do Atlântico.

No 9o capítulo, "A cartografia comportamental: uma abordagem espacial do comportamento", A. Legendre e S. Depeau argumentam ser essa uma técnica privilegiada para efetuar a análise bidirecional das relações indivíduo/grupos x ambiente. A técnica consiste em identificar o lugar onde o comportamento se produz, estudar sua distribuição espacial, verificar se a mesma é aleatória ou seletiva. Sua utilização envolve três componentes: ambiental, comportamental, mapas e interfaces. Os autores mostram que a simplicidade do princípio subjacente à cartografia comportamental lhe confere valor heurístico. Explicitam, criticamente, que simplicidade pode parecer sinônimo de simplismo e reducionismo e lembram não ser esta uma técnica nova, pois sua emergência é contemporânea à emergência da PA. Indicam os campos de aplicação, a conveniência de seu uso associado, por exemplo, a filmadoras digitais e aos posicionamentos por satélite (GPS, Galileu) ou ao Sistema de Informação Geográfica (SIG), servindo como plataforma de integração multidisciplinar.

A quarta parte, "Agir e fazer", considera o papel das instituições na gestão dos problemas ambientais. No 10o capítulo, "Da intervenção à gestão ambiental", E. Pol trata do controle, da qualidade, do respeito e da conservação ambientais. Na perspectiva do autor, uma PA aplicável e aplicada deve assumir os desafios sociais do momento histórico, para não correr o risco de se tornar "um fóssil acadêmico ou um luxo para os ricos, que os ricos não demandam" (p. 305)2. No 11o capítulo, "Metodologia de retorno da experiência pós-catástrofe", B. de Vanssay e L. Colbeau-Justin oferecem uma visão integrativa entre conceitos, métodos e trabalhos precursores, para avaliar as ações frente às catástrofes naturais e industriais. Discutem como regular intervenções eficazes, como atender às dificuldades da população e como estabelecer ligação afetiva e desejo de retorno. Apresentam uma bem formulada "cronologia visual da percepção da gestão de um envenenamento químico", envolvendo o local, as ações da administração pública e a população.

Na parte final, "Perspectivas - os novos desafios das próximas décadas", K. Weiss não deixa dúvidas de que os conceitos de desenvolvimento durável, globalização e suas implicações marcam o Século XXI e mostra confiança em que a prática em PA, caracterizada por um movimento constante entre teoria, análise e aplicação, pode contribuir para a resolução dos problemas existentes e os que estão por aparecer.

A abrangência dos temas tratados, a qualidade dos escritos e as quase cinco centenas de referências atualizadas, fazem do livro uma adição valiosa para a divulgação, disseminação e consolidação da PA, devendo ser leitura obrigatória para todos que se interessam pela área.

 

Referências

Heat, T. (1974). Should we tell children about aesthetics, or should we let them find out in the street? In D. Canter & T. Lee (Orgs.), Psychology and the built environment (pp. 179-183). Tonbridge: Whitefriars Press.

Ittelson, W. H. (1973). Environment perception and contemporary perceptual theory. In W. H. Ittelson (Org.), Environment and cognition (pp. 1-19). Nova York: Seminar Press.

Lynch, K., & Rivkin, M. (1970). A walk around the block. In H. M. Proshansky, W. H. Ittelson & L. G. Rivlin (Orgs.), Environmental psychology: man and his physical setting (pp. 631-642). Nova York: Holt, Rinehart & Winston.

Willems, E. P. (1968). An ecological orientation in psychology. In N. S. Endler, L. R. Boulter & H. Osser (Orgs.), Contemporary issues in developmental psychology (pp. 29-49). Londres: Holt, Rinehart & Winston.

 

 

Recebido em 20.jun.03
Revisado em 28.jul.03
Aceito em 18.ago.03

 

 

Notas

1 Resenha do livro Espaces de vie. Aspects de la relation homme-environnement, organizado por Gabriel Moser e Karine Weiss, e publicado em 2003, em Paris, por Armand Colin/VUEF, 395 pp., 23 Euros (ISBN 2-200-26170-5, brochura).
2 N.E.: partes desse capítulo de Enric Pol estão incluídas no artigo do mesmo autor neste número temático, sob o título "A gestão ambiental, novo desafio para a psicologia do desenvolvimento sustentável".
Isolda de Araújo Günther, Ph.D. em Psicologia do Desenvolvimento pela Michigan State University (EUA), é pesquisadora associada sênior no Instituto de Psicologia, UnB (DF), e bolsista do CNPq. Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia, ICC Sul, Campus Darcy Ribeiro, UnB CEP 70.919-910, Brasília, DF. Tel.: 61 307-2625 r. 415. E-mail: isolda@unb.br

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