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Estudos de Psicologia (Natal)

On-line version ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.13 no.2 Natal May/Aug. 2008

https://doi.org/10.1590/S1413-294X2008000200003 

ARTIGOS

 

Contribuições da poética social à pesquisa em psicoterapia de grupo

 

Contributions of social poesis to group psychotherapy research

 

 

Carla Guanaes; Marisa Japur

Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto

 

 


RESUMO

Esse artigo tem por objetivo apresentar algumas contribuições do construcionismo social e da poética social ao entendimento da psicoterapia de grupo e de sua investigação científica. O construcionismo social se define como uma forma alternativa de inteligibilidade em ciência, que privilegia a compreensão do modo como as pessoas constroem sentidos sobre o mundo e sobre si mesmas em suas práticas discursivas. Coerente com essa perspectiva, a poética social caracteriza uma prática de pesquisa útil à investigação dos processos conversacionais, enfatizando a centralidade do pesquisador na construção de sentidos sobre seu objeto de estudo. Nesse artigo, buscamos demonstrar como estas perspectivas podem sustentar uma prática sistemática de pesquisa sobre a psicoterapia de grupo. Para tanto, apresenta os passos metodológicos desenvolvidos em um estudo acerca de um grupo em saúde mental, demonstrando como esses permitiram compreender o processo conversacional por meio do qual o próprio grupo se constituiu como um recurso terapêutico.

Palavras-chave: construcionismo social; psicoterapia de grupo; metodologia


ABSTRACT

The objective of this article is to describe some contributions of social constructionism and social poesis in the description of group psychotherapy and its scientific investigation. Social constructionism is an alternative form of intelligibility in science, which focuses on the comprehension of the way people make sense of the world and of themselves in their discursive practices. Concurrent with this perspective, social poesis can be described as a research practice that is useful in investigating the conversational processes, emphasizing the centrality of the researcher in the construction of meanings about its object of study. In this article, we aim to describe how these perspectives can sustain a systematic research practice of group psychotherapy. Thus, we describe some methodological steps developed in a study about a group in a mental health setting, showing how they helped us to comprehend the conversational process through which the group was constructed as a therapeutic resource.

Keywords: social constructionism; group psychotherapy; methodology


 

 

Embora a psicoterapia de grupo tenha sido proposta como uma alternativa às práticas tradicionais de atendimento (terapias individuais e de longa duração), enfatizando os processos interativos e favorecendo práticas mais abrangentes e inclusivas em Saúde Mental, as teorizações que sustentam sua prática são, em grande medida, marcadas por descrições universalizantes sobre seu processo (Bion, 1975; Mailhiot, 1991; Pichón-Rivière, 1982), seus fatores terapêuticos (Vinogradov & Yalom, 1992) e suas formas de composição e classificação (Dies, 1992; Klein, 1996; Salvendy, 1996; Zimmerman, 1997). Desse modo, a terapia de grupo vem sendo pensada mais em função de seus aspectos universais, do que pela especificidade dos relacionamentos e trocas conversacionais que nela ocorrem.

Apesar das críticas já produzidas com relação à essencialização do grupo como objeto teórico e às práticas que esta sustenta (Barros, 2007; Japur, 2004), consideramos que a teoria e a pesquisa neste campo ainda demandam por referenciais teóricos e metodológicos alternativos. Assim, partindo das noções propostas pela perspectiva construcionista social e, especificamente, das contribuições de Shotter (1993, 1994, 1997, 1998, 2000, 2003), buscamos, nesse artigo, apresentar como essas contribuições podem favorecer uma compreensão alternativa da psicoterapia de grupo, bem como demonstrar o modo como estas podem sustentar uma prática sistemática de pesquisa nesse campo.

Para responder a estes objetivos, este artigo estrutura-se do seguinte modo. Primeiramente, apresenta a versão responsiva-retórica de construcionismo social e as contribuições dessa perspectiva teórica para a compreensão da psicoterapia de grupo. Em seguida, apresenta as contribuições da poética social à prática de pesquisa. E, por fim, apresenta uma proposta metodológica para a investigação da psicoterapia de grupo, sustentada pelas contribuições do construcionismo social e da poética social.

A versão responsivo-retórica do construcionismo social

A perspectiva construcionista social surge no campo das ciências humanas e sociais como uma alternativa às formas empiricistas de se conceber a ciência e os processos de produção de conhecimento. Baseando-se, sobretudo, em concepções críticas às noções de objetividade, verdade e racionalidade, esta perspectiva rompe com preceitos gerais das teorias modernas, abrindo possibilidades para novas reflexões no campo científico.

Apontando o entrelaçamento entre realidade e discurso, ela privilegia a compreensão do modo como as pessoas, por meio de sua participação em práticas discursivas, constroem sentidos sobre o mundo e sobre si mesmas. O foco de investigação recai sobre os jogos de linguagem em que tais sentidos emergem e sobre as implicações de seu uso para a construção de determinadas práticas sociais e formas de vida.

Dentre a variedade de propostas construcionistas existentes (Danzinger, 1997), adotamos, neste estudo, a versão responsiva-retórica proposta por Shotter (1993, 2000), que se define pelo interesse:

não sobre como os indivíduos chegam a conhecer os objetos e entidades do mundo ao seu redor, (mas sobre) como as pessoas primeiramente criam e sustentam, entre elas mesmas, determinados modos de se relacionar umas com as outras em suas conversas, e então, a partir de dentro destes modos de se relacionar, constroem sentidos sobre seus arredores. (Shotter, 1994, p. 58)

Central a esse entendimento é a noção de linguagem em uso, em que a linguagem é vista como uma prática social, construtora da realidade. Como aponta Shotter (2000), quando as pessoas conversam, elas não estão simplesmente colocando idéias em palavras, nem refletindo a verdade de uma realidade delas independente. Elas estão construindo sentidos, práticas sociais ou formas de vida.

A versão construcionista social de Shotter baseia-se em muitas proposições de Bakhtin acerca dos processos de construção de sentidos. Para este autor, as palavras não carregam, em si mesmas, um sentido intrínseco e específico, pois são interindividuais, ganhando sentido apenas na relação com outros (Bakhtin, 1997a). Por isso, a unidade de investigação do discurso não pode ser a palavra isolada, mas sim os enunciados - as unidades mínimas de significação que se constroem e adquirem sentido no diálogo entre interlocutores.

A ênfase relacional que marca a compreensão de Bakhtin (1981, 2002) sobre a produção de significação na linguagem se encontra especialmente desenvolvida em seu princípio dialógico. Neste, ele descreve o dialogismo como a relação entre pessoas, vozes e consciências no discurso. O dialogismo é imanente à linguagem em uso e a alteridade é própria à definição de ser humano - é impossível pensar a pessoa fora de sua rede de relações. Por meio do discurso, as pessoas encontram-se sempre conectadas umas às outras.

Baseado nas proposições bakhtinianas, Shotter (2000) propõe uma descrição de construcionismo social que dá destaque ao caráter responsivo e retórico do processo de comunicação. Para ele, nossa habilidade para falar representacionalmente, ou seja, para descrever o que as coisas são, aparece sempre de um modo que é espontaneamente responsivo aos outros à nossa volta. Em nossas conversas, estamos sempre respondendo a outros (presentes ou não), antecipando suas possíveis respostas e nos posicionando de determinados modos numa situação discursiva. Além disso, o autor destaca a dimensão retórica implicada no ato de enunciação: as pessoas estão sempre respondendo umas às outras, seja com elogios, críticas, desafios, pedidos de justificativa, etc, e isto implica em constantes movimentos explicativos, pautados por negociações nas quais buscam coordenar suas ações. É no permanente exercício de falar, responder, explicar-se, argumentar, defender-se, etc, que o sentido é construído e negociado entre as pessoas, por toda a duração de um diálogo.

Buscando também redefinir a noção de intencionalidade normalmente atribuída ao ato da enunciação, Shotter (2000) propõe a noção de ação-conjunta. Geralmente, pensamos que nossa fala corresponde ao que intencionamos com ela. Contudo, a comunicação envolve sempre uma ação-conjunta entre dois ou mais interlocutores de modo que, muitas vezes, o que antecipamos de uma relação difere do que resulta de nossas trocas interativas. Segundo o autor, em uma conversa, as pessoas criam conjuntamente um determinado setting prático-moral, no qual algumas regras e acordos são construídos a partir de dentro da própria interação, criando possibilidades e limites para o relacionamento entre elas. É de dentro de sua participação no momento interativo que as pessoas constroem possibilidades e limites para a relação que ali vivenciam e para o que podem ou não fazer, dizer e sentir. Constitui-se, assim, uma relação dinâmica e viva entre os interlocutores, na qual diversos sentidos de mundo e de si podem ser negociados. É sempre no momento interativo, no contexto relacional imediato, nos limites entre o que uma pessoa fala e a outra responde, numa zona dialógica e, portanto, de incerteza, que o sentido se produz (Shotter, 1994).

A partir disso, Shotter elege como foco de uma investigação construcionista social o próprio processo conversacional. Para ele, essa forma de investigação privilegia a análise dinâmica das trocas dialógicas, uma vez que é apenas na relação entre os enunciados, e entre estes e outras vozes e discursos sociais, que o sentido emerge, fruto de uma realização responsiva-retórica.

O interesse de uma investigação construcionista social reside, portanto, no espaço relacional. Isto não significa focalizar o que uma pessoa fala e o que a outra pessoa responde, mas sim o modo como seus enunciados se relacionam e o modo como elas constroem entre si, numa ação-conjunta e no uso corporificado da linguagem, determinadas formas de vida e relação. A partir destas noções, Shotter (2003) defende a utilidade de uma descrição detalhada do momento interativo, buscando ampliar as possibilidades de compreensão de como os sentidos são construídos pelas pessoas a cada momento de uma conversa.

Aproximações entre construcionismo social e psicoterapia de grupo

Com base no discurso construcionista social, a psicoterapia tem sido descrita por alguns autores como uma construção social, isto é, uma prática discursiva, construtora de determinadas práticas sociais e formas de vida. Eles focalizam, assim, os sentidos produzidos nesse contexto e seus efeitos na criação de possibilidades alternativas de vida e relação social (McNamee & Gergen, 1998).

A perspectiva construcionista não constitui, portanto, uma teoria com propostas particulares de métodos e técnicas de intervenção clínica, mas sim uma prática relacional, um modo de dar sentido ao mundo e de se engajar em formas convidativas de diálogo. O discurso construcionista nos instrumenta com uma linguagem para a ação, favorecendo um olhar crítico e reflexivo sobre nossas descrições de pessoa e de mundo, bem como de nossas próprias propostas de intervenção. Assim caracterizado, o construcionismo social passa a integrar o setting terapêutico como uma opção discursiva (McNamee, 2004), que pode favorecer a investigação sobre que tipos de vida social são possíveis quando um modo de falar é empregado em vez de outro.

Do mesmo modo, adotar a perspectiva construcionista social como referência para o estudo da psicoterapia de grupo implica questionar o caráter natural e essencial de nossas descrições acerca desta prática. Tal como a terapia individual ou familiar (McNamee & Gergen, 1998), também a psicoterapia de grupo pode ser pensada como uma construção social (Rasera & Japur, 2007). A contribuição construcionista neste campo tem consistido na explicitação do caráter discursivo da definição de grupo, mostrando como a linguagem em seu caráter performático serve para construir o grupo, ao invés de descrevê-lo como um objeto já existente. Ao falarmos da psicoterapia de grupo e a praticarmos, também a construímos de determinados modos. Ou seja, não há nenhuma essência a se procurar numa investigação sobre a psicoterapia de grupo.

Estas mesmas reflexões que permitem a construção de um discurso construcionista sobre a terapia de grupo também favorecem o desenvolvimento de um método de investigação sobre ela. Este método se encontra informado menos pela busca de aspectos essenciais e universais, descritivos da terapia de grupo, e mais pela busca da diversidade que a caracteriza como prática conversacional e relacional. Ou seja, a análise do processo grupal deixa de se pautar em categorias a priori, descritivas de padrões de relacionamento entre as pessoas ou de modos de funcionamento do grupo para focalizar o próprio processo conversacional. Em vez de privilegiar uma busca por regularidades na interação grupal, a perspectiva construcionista social fomenta um entendimento de suas especificidades e do quê determinados sentidos, construídos na ação-conjunta entre seus participantes, geram em termos de possibilidades conversacionais e interativas. Equiparado ao próprio processo conversacional, o grupo pode ser pensado, metodologicamente, também em função das negociações de sentido que nele se desenvolvem (Guanaes, 2006).

A poética social como prática de pesquisa

Assim como outros autores construcionistas, Shotter (1998) enfatiza a importância de uma nova agenda de argumentação em ciência, que possa contribuir com formas de investigação menos comprometidas em explicar o real e mais envolvidas com a tarefa prática de ampliar as possibilidades de sentido social. Assim, ele propõe a poética social como uma forma alternativa de investigação em ciências humanas.

Uma investigação pautada pela poética social busca dar visibilidade aos processos discursivos e relacionais de produção de sentidos, a partir de uma ênfase especial às respostas corporificadas e espontâneas das pessoas umas às outras e ao mundo a seu redor (Cunliffe, 2002; Shotter, 1998). Nessa perspectiva, o pesquisador privilegia a investigação do modo como os enunciados se relacionam e do modo como as pessoas constroem, entre si, numa ação-conjunta, espontânea e de uso corporificado da linguagem, determinadas realidades conversacionais.

Na prática da poética social, o pesquisador é considerado parte inseparável do processo de produção de sentidos, sendo seu objetivo a criação de estratégias retóricas que permitam a abertura a novas possibilidades de significação dos eventos investigados. A pesquisa é caracterizada como um processo vivo de construção e reconstrução de sentidos de mundo, isto é, constitui-se uma prática dialógica ou, como aponta Cunliffe (2002), "um processo de construir impressões conjuntamente" (p. 134).

Esse tipo de investigação também destaca a importância de uma relação corporificada, dialógica e envolvida do pesquisador com seu objeto de estudo, por meio da qual ele vem dar forma ou sentido aos "momentos marcantes" que capturaram sua atenção e despertaram seu interesse de pesquisa. O pesquisador é considerado parte de um jogo de linguagem no qual sentidos emergem por meio da relação responsiva e retórica que ele estabelece com as questões que investiga.

Desse modo, a busca por padrões, estruturas e repetições, que geralmente orienta as perspectivas modernas em ciência, é substituída pela busca do inusitado, do desconhecido e do irregular. Por meio da poética social, busca-se enfatizar as ocorrências singulares, os momentos marcantes, as relações nunca construídas nas interações ou diálogos anteriores com a questão estudada. O pesquisador não visa ter acesso à suposta natureza ou realidade das coisas, mas sim construir relações ou conexões criativas entre os eventos estudados e outros aspectos da vida social, ampliando as possibilidades de descrição dos mesmos. Por isto, esse tipo de pesquisa privilegia as construções em primeira pessoa, uma vez que estas possibilitam ao pesquisador apresentar as questões que investiga - e que, portanto, busca significar - a partir das relações ou conexões que estabelece com aspectos que lhe são mais familiares.

Na prática da poética social, a linguagem do pesquisador não é afirmativa ou explicativa, mas alusiva, parcial e exploratória. Ao dialogar com outros sentidos de mundo, próprios a sua história conversacional e à cultura da qual é parte, o pesquisador engendra tentativas de significação. Estas não buscam esgotar as possibilidades de significação dos eventos estudados, mas sim criar um senso de experiência compartilhada, que serve de convite à participação de outros (leitores, pesquisadores, profissionais) no processo dialógico de construção de conhecimento. Parte-se do princípio de que um texto científico não é, em si mesmo, significativo. É no diálogo com outras vozes que este ganha sentido, podendo então ser construído como uma opção discursiva útil à criação de novos modos de ação no mundo.

A poética social se constitui, portanto, uma forma de investigação que privilegia o contexto microssocial de produção de sentidos, mas que dialoga também com o contexto macrossocial ao considerar as pessoas (e o próprio pesquisador) como parte de um mesmo e único fluxo conversacional, que as coloca em contato com inúmeras vozes, discursos sociais e gêneros de fala, próprios a um dado contexto sócio-histórico-cultural. São estas estabilidades de sentido, que se presentificam na interação imediata entre os interlocutores, que garantem ou impedem formas de entendimento compartilhado acerca de uma dada situação.

 

Contribuições metodológicas

O uso da poética social na pesquisa em psicoterapia de grupo

Considerando a poética social (Shotter, 1998; Cunliffe, 2002) uma prática de pesquisa útil em ciências humanas, apresentaremos a seguir uma metodologia baseada em seus pressupostos, desenvolvida com a finalidade de investigação do processo conversacional em psicoterapia de grupo. Trata-se da proposta metodológica desenvolvida por Guanaes (2004) na análise do processo de negociação de sentidos em um grupo terapêutico de curta duração, visando dar visibilidade à construção do grupo como um recurso terapêutico conversacional. Esse grupo foi oferecido a onze usuários de um ambulatório público de Saúde Mental de Ribeirão Preto (SP) e teve dezesseis sessões, de cerca de uma hora e meia de duração semanal, distribuídas em quatro meses. Caracterizou-se como um grupo fechado, coordenado por um médico psiquiatra e observado pela primeira autora deste artigo.

Consideramos que a apresentação detalhada dos procedimentos utilizados nesta pesquisa pode ser um recurso reflexivo e metodológico útil àqueles pesquisadores interessados em produzir conhecimento a partir de uma perspectiva sócio-construcionista de investigação e, mais especificamente, a partir da prática da poética social.

Alguns leitores podem julgar contraditória a proposição de uma metodologia sistemática para investigação do processo grupal, a partir de uma perspectiva construcionista. Partilhamos, contudo, do entendimento de Spink (1999) de que o rigor de uma pesquisa construcionista está referido à visibilidade do seu modo de produção. Assumimos, assim, o risco desse tipo de empreendimento, acreditando que relatar um modo específico de produção de conhecimento em uma pesquisa construcionista sobre a psicoterapia de grupo não é oferecer um modelo de análise, mas sim contribuir com o desenvolvimento de discursos alternativos sobre seus métodos de investigação.

Assim, descrevemos, abaixo, os passos metodológicos adotados no referido estudo.

A construção de um corpus: registro, transcrição e edição das informações

Falar de um corpus e não de o corpus tem a função de enfatizar que, já no passo inicial da pesquisa, ao privilegiarmos algumas fontes de informação, estamos ativamente construindo um foco específico em nosso campo de interesse. Fontes de informação de diferentes tipos podem ser escolhidas pelo pesquisador tendo em vista seus objetivos. Já que não se pressupõe que haja uma forma privilegiada de acesso à realidade, o que se espera é que ele possa justificar o recurso utilizado, apontando sua utilidade para o estudo em questão.

Guanaes (2004) utilizou: (a) a gravação em áudio das sessões do grupo - considerando a utilidade, para o objetivo visado, de registrar na íntegra toda a conversação grupal; (b) anotações de campo, incluindo suas impressões do contexto antes, durante e após os grupos, e das expressões e interações entre os participantes durante as conversas grupais; e (c) anotações baseadas em consultas aos prontuários dos participantes do grupo - dado o interesse da pesquisadora em conhecer as versões identitárias construídas sobre eles também em outros contextos discursivos, como por exemplo, nas consultas médicas.

Partindo das proposições construcionistas e das contribuições da poética social, a transcrição na íntegra das conversas grupais constitui-se um momento de produção de sentidos sobre o grupo, envolvendo um diálogo ativo do pesquisador com o material coletado. O uso de pontuações, a marcação de tons afetivos presentes nos relatos e a tentativa de assinalar expressões emocionais atravessam a produção de uma transcrição, quando uma primeira impressão sobre as conversações grupais é organizada.

A edição das transcrições das conversas grupais visa facilitar sua análise, dando visibilidade ao que se quer destacar. Diversos recursos visuais podem ser utilizados e sua escolha orienta-se pela sua utilidade em relação aos objetivos propostos. Guanaes (2004) utilizou os seguintes recursos gráficos, também utilizados por Rasera e Japur (2007) no estudo da prática grupal: (a) numeração seqüencial das páginas e linhas em todo o material transcrito - recurso que possibilita, a referência a trechos específicos durante a análise processual; (b) uso de cores nas transcrições, de modo que os enunciados dos diferentes participantes da conversa recebem cores diferentes ao longo de todas as transcrições. Este recurso permite dar maior visibilidade às relações grupais, tais como interações mais comuns entre os participantes, duração temporal de seus enunciados e distribuição do tempo de fala, assim favorecendo a análise do fluxo conversacional, já que contribui também para a apreensão das relações entre os enunciados, e de momentos interativos específicos.

A imersão no corpus: a construção de sínteses e a seleção de "momentos marcantes"

A leitura exaustiva das conversas transcritas e editadas conforme os objetivos do estudo permite ao pesquisador sua imersão no corpus construído para sua pesquisa. Ele inicia um intenso diálogo com o material, trazendo as inúmeras vozes que o constituem como pessoa participante de segmentos culturais específicos (pessoais, sociais, profissionais e acadêmicos). É este diálogo que orientará o seu processo de produção de sentidos em sua relação com o material e que, guardando uma necessária relação com o contexto investigado e com os objetivos do estudo em questão, favorecerá a construção de sínteses úteis e a seleção de "momentos marcantes".

Na leitura exaustiva das sessões, a atenção a dois importantes aspectos da conversação é necessária: por um lado, destacar os discursos sociais em circulação nas conversas, e por outro, perceber o processo conversacional, ou seja, o modo como tais discursos surgem e são negociados entre as pessoas, e às suas funções no contexto das interações desenvolvidas. Deste modo, a leitura exaustiva visa à construção de sentidos, quando o pesquisador vai integrando o conteúdo ao processo das conversações, preservando, metodologicamente, a ênfase construcionista no caráter performático da linguagem.

No caso da pesquisa de Guanaes (2004), considerando o contexto terapêutico do grupo estudado, os temas destacados pela pesquisadora foram relativos à visão de grupo, de tratamento, de problema e de mudança. Outras variações temáticas também são possíveis, referentes às particularidades do contexto em que o estudo ocorre e aos objetivos pretendidos.

A construção de sínteses de cada uma das conversas grupais é um recurso que favorece o diálogo futuro com os interlocutores da pesquisa, oferecendo uma descrição geral do corpus. Para essas sínteses, o pesquisador constrói algumas categorias descritivas - considerando-as recursos retóricos - para dar visibilidade a aspectos que ele considera relevantes para a análise posterior. Guanaes (2004) utilizou para a descrição sintética de seu corpus algumas características gerais do grupo, em cada uma de suas sessões, tais como: seus participantes, as histórias e as visões de problema ou doença mental predominantes, o tipo de relação entre os participantes ao longo da sessão e suas implicações para o fluxo conversacional, e as opções discursivas predominantes por parte do terapeuta.

Além disto, a partir de uma relação envolvida com o corpus, o pesquisador seleciona "momentos marcantes" e únicos, buscando significá-los naquilo que lhe chama mais atenção por seu caráter imprevisível e inusitado. Tais momentos funcionam como eixo para a construção da análise processual.

Guanaes (2004) refere que, de sua relação envolvida e responsiva com o corpus, e buscando selecionar os momentos marcantes e distintos de seu diálogo nos diferentes momentos interativos do grupo, considerou distintivas as relações do grupo com duas participantes (Estela e Marta - nomes fictícios). A escolha destas histórias se deu em sua busca por dar forma ou sentido aos diferentes modos de conversa e interação que foram desenvolvidos no grupo a partir dos relatos destas participantes. Em ambos os casos, os sentidos de problema e de si apresentados por elas e as respostas do grupo aos mesmos chamaram sua atenção de modo marcante, provocando uma resposta de indagação, curiosidade e, em alguns momentos, de incômodo. Lendo e relendo as transcrições das sessões, a dificuldade de produzir um entendimento imediato acerca de como estas histórias foram negociadas pelos participantes do grupo despertava a autora para o caráter inusitado, irregular e diferente das mesmas, comparativamente com as demais conversas nesse contexto.

É esta etapa da pesquisa que permite redefinir seus objetivos, tornando-os mais delimitados. Guanaes (2004) teve como objetivo inicial compreender o processo terapêutico do grupo por meio da análise do seu fluxo conversacional nos diferentes momentos interativos e de negociação de sentidos entre seus participantes. Mas, as diferenças nos modos de negociação das histórias de Estela e Marta no grupo convidaram a pesquisadora a refletir sobre a multiplicidade e diversidade de interações possíveis na psicoterapia de grupo, e a desconstruir, empiricamente, a descrição do grupo como sendo, em si mesmo, um recurso terapêutico. Dito de outro modo, a diferença no modo como os participantes (incluindo o terapeuta) se relacionavam com as histórias de Estela e de Marta e com os sentidos de problema e de si apresentados por elas favoreciam um entendimento relativizado também acerca da efetividade, a priori, do grupo. Este poderia ou não ser construído como um recurso terapêutico, a partir das possibilidades conversacionais criadas por seus participantes a cada momento de suas interações.

Foi a partir deste entendimento que o objetivo de seu estudo se tornou mais delimitado: "compreender como algumas formas de conversação podem propiciar ou não a construção do grupo como um recurso terapêutico". Em grande parte, é a própria fertilidade da relação do pesquisador com seu material que dá os contornos daquilo que se pode esperar como resultado da análise processual a ser realizada.

Por fim, além de favorecer sínteses úteis e a definição de eixos de análise por meio da seleção dos momentos marcantes, essa etapa de imersão no corpus permite também ao pesquisador, explicitar seu processo de construção de versões identitárias para os participantes de sua pesquisa.

A construção de versões identitárias para os participantes do grupo

Assumindo seu papel ativo no processo de produção de conhecimentos e partindo de uma relação envolvida com seu corpus, o pesquisador constrói também uma descrição dos participantes do grupo considerando não só as categorias tradicionais de identidade, baseadas em dados demográficos, como também os aspectos que lhe são mais marcantes, em seu contato com os participantes do grupo e com suas histórias pessoais. Esta construção inclui, por um lado, a referência às categorias tradicionais de descrição identitária que presentificam algumas das vozes sociais que, certamente, participam das descrições de si dos próprios participantes por sua inserção sócio-cultural, e atravessam também a construção narrativa do pesquisador sobre os mesmos (sexo, idade, profissão, estado civil, escolaridade, etc). Além dessas, algumas categorias descritivas, próprias ao contexto em que o estudo se desenvolve e referentes a outros discursos institucionais que propiciam a construção de determinadas versões identitárias, podem ser utilizadas pelo pesquisador em sua construção. Aqui, podem ser enfocados os diversos aspectos considerados relevantes para o contexto do estudo, como por exemplo, os diagnósticos clínicos em saúde mental.

Por outro lado, também é desejável uma construção mais pessoal e envolvida do pesquisador sobre os participantes do grupo, trazendo, para o texto científico, os aspectos mais marcantes que emergiram do seu contato com eles e do seu diálogo com suas narrativas, e que contribuíram para a descrição dos mesmos como pessoas de um determinado tipo. Guanaes (2004) dá também voz aos participantes em suas descrições sobre eles, referindo trechos de suas falas e incluindo descrições: do problema referido, da qualidade de suas interações com outros, dos modos como manifestam sua afetividade e de sua aparência física.

Assumindo o princípio da construção narrativa de si mesmo, o pesquisador busca explicitar, nesse momento, o modo como também ele constrói os participantes do grupo como pessoas com determinadas características e jeitos de ser. Trata-se, portanto, de uma construção situada em espaço e tempo específicos, que constitui uma dentre as muitas narrativas possíveis sobre os participantes, e que convida o leitor a compreender o modo como seu olhar permite algumas interpretações sobre o processo conversacional do grupo, ao mesmo tempo em que restringe outras. Entendemos que, ao explicitar seu papel nesta construção, o pesquisador amplia a possibilidade de interlocução com outros leitores, tornando mais dinâmico o processo de produção de conhecimento.

A construção de uma análise processual

Como assinalado anteriormente, partindo da compreensão do grupo como um recurso conversacional, entendemos que analisar seu processo é analisar o próprio fluxo do diálogo, nos diferentes momentos interativos e de negociação de sentidos entre seus participantes. Na prática, este tipo de análise envolve a consideração de dois aspectos indissociáveis das conversações grupais: (1) seus conteúdos ou temas - o que é conversado nesse contexto; e (2) seu processo propriamente dito - o modo como diferentes sentidos são negociados na ação-conjunta e no uso corporificado da linguagem entre seus participantes e o quê estes processos de negociação geram nas conversações em curso. Busca-se, assim, presentificar metodologicamente a ênfase construcionista no caráter performático da linguagem e no momento interativo.

No desenvolvimento desta análise, as seguintes noções servem como ferramentas conceituais úteis ao exercício de produção de conhecimento sobre a psicoterapia de grupo: (a) as noções propostas por Bakhtin (1997a, 1997b) em sua teoria do enunciado (enunciados, vozes, discursos ou linguagens sociais e gêneros de fala) e também utilizadas por Shotter (1993, 2000) na compreensão da dinâmica dos processos conversacionais; (b) a noção de posição, proposta por Davies e Harré (1999) - recurso útil na visualização dos processos de construção discursiva e relacional de si; e (c) as noções de dialogismo (Bakhtin, 2002) e responsividade (Shotter, 1994) - especialmente úteis ao entendimento da qualidade das relações desenvolvidas entre as pessoas, nos diferentes momentos interativos de uso corporificado da linguagem.

Na construção de uma análise processual, baseada na poética social, o objetivo do pesquisador consiste, então, em dar forma à diversidade de sentidos construídos no seu diálogo com as trocas interativas entre os participantes no grupo, propiciando uma narrativa compreensiva do processo conversacional do grupo tendo como referência o(s) eixo(s) que ele construiu em seu contato com o material, e que guarda(m) relação com o contexto investigado e com os objetivos do estudo em questão.

Guanaes (2004), em sua análise processual. teve como objetivos específicos dar visibilidade: (a) aos processos de negociação de sentidos de problema e de si no grupo; (b) às implicações destes processos de negociação para a legitimação ou confronto de determinadas versões de problema e de si entre os participantes e (c) e às implicações destes processos de negociação para a própria construção do grupo como recurso terapêutico. Sua análise consistiu de uma apresentação minuciosa das trocas conversacionais do grupo, tendo como eixo as histórias de Estela e Marta, focalizando o modo como as descrições de problema e de si eram negociadas, sendo transformadas ou reificadas no diálogo entre os participantes no processo conversacional da terapia de grupo.

Num grupo terapêutico, as pessoas falam de seus problemas e de suas vidas de modos diferentes, construindo-se e sendo construídas de diferentes formas. O foco nas explicações dos participantes acerca de suas dificuldades, como um primeiro foco na análise das conversações grupais, favoreceu a construção de sentidos de si e de problema, juntamente com a identificação dos discursos sociais presentificados nessas descrições. A partir disso, entendendo tais sentidos como linguagem em uso, Guanaes (2004) buscou construir algumas conexões entre os mesmos e suas implicações para a dinâmica conversacional, focalizando, em especial, os modos de conversação e as posições pessoais a eles associadas. Descrições de si alternativas às descrições saturadas de problema eram possibilitadas ou impedidas, a partir do modo como tais sentidos foram conjuntamente negociados. Ao se descreverem e serem descritas como pessoas de determinados tipos, com problemas de determinada natureza, algumas possibilidades conversacionais foram construídas no grupo, enquanto outras, limitadas. Então, narrativas de mudança foram construídas ou desencorajadas, e o próprio grupo como espaço terapêutico pôde ou não ser construído, a cada interação, como uma realização conversacional possível. Foi a análise processual realizada pela autora que possibilitou dar visibilidade a esse processo de construção do caráter terapêutico de diferentes momentos do grupo, tendo por base a natureza dinâmica, viva e corporificada do processo conversacional, e o entendimento de que é na relação com outros que reside o potencial criativo do processo de significação.

A possibilidade de apreensão metodológica deste dinamismo se dá no exercício retórico de construção do próprio texto da análise, tendo como tecido o processo conversacional; o foco no momento interativo; e a ênfase na ação-conjunta responsiva-retórica de construção de sentidos tanto entre os participantes de grupo como entre o pesquisador e seu corpus.

A construção retórica do texto da análise

A inteligibilidade da análise realizada vai sendo construída ao mesmo tempo em que a construção retórica do texto vai tomando forma. É também no uso corporificado da linguagem que o pesquisador vai refinando seu texto de pesquisa, dando visibilidade ao processo de construção de conhecimento acerca dos momentos marcantes e únicos do grupo estudado. Este processo é resultante do permanente diálogo produzido na relação com seu corpus e com as inúmeras outras vozes presentes (outros profissionais e pesquisadores) e presentificadas (textos científicos) nas conversações sobre o seu objeto de investigação.

Didaticamente, podemos descrever alguns dos recursos utilizados na análise do processo conversacional de um grupo terapêutico e em sua construção retórica: (a) descrição dos sentidos e dos discursos sociais relativos ao tema investigado; (b) descrição da ação-conjunta de produção e negociação de sentidos e posições entre os participantes do grupo; (c) descrição das implicações dessas descrições e negociações para o fluxo conversacional.

É a referência a estes recursos ao longo do texto da análise construída que permite a apreensão do dinamismo dos processos conversacionais. Embora apresentados como tópicos, esses recursos são utilizados dinamicamente na descrição minuciosa das interações entre os participantes, favorecendo a percepção da espontaneidade e imprevisibilidade do processo de construção de sentidos.

A seqüência das trocas conversacionais no grupo deve ser preservada, favorecendo a construção de um entendimento acerca do modo como os participantes respondem uns aos outros e de como constroem entre si possibilidades dialógicas, em torno das questões que constituem o objetivo do estudo. A apresentação do processo conversacional pode ser realizada por meio de títulos descritivos dos sentidos negociados e de suas implicações, que expressem a ação em curso nas trocas conversacionais. Estes títulos podem ser dados a um único trecho de transcrição ou a um conjunto de trechos, sendo seguidos de descrições e comentários. Além disso, pode-se utilizar recursos gráficos (sublinhado, negrito, itálico) para destacar alguns enunciados, palavras ou frases que se constituem centrais no processo de produção de sentidos do pesquisador acerca das trocas conversacionais do grupo.

 

Considerações finais

Com os pressupostos teóricos do construcionismo social e da poética social, o foco de entendimento da psicoterapia de grupo recai sobre o próprio fluxo conversacional - compreendido como uma ação-conjunta e corporificada de uso da linguagem na construção de sentidos de mundo, de problema e de si pelos participantes do grupo, incluindo o terapeuta. Como em outros espaços de produção de sentidos, nela os participantes negociam, conjuntamente, posições e narrativas de si, em jogos de linguagem que guardam relação tanto com o contexto imediato, quanto com o contexto social mais amplo em que essa prática discursiva se desenvolve. Ou seja, os diálogos desenvolvidos entre os participantes do grupo são também atravessados pelas inúmeras vozes sociais que orientam suas descrições de mundo, de problema e de si. Assim, nas trocas grupais, cruzam-se um conjunto de narrativas pessoais em que tanto a dialogia entre discursos (presentes no próprio enunciado e no enunciado dos demais) como entre interlocutores (relação entre os próprios participantes, no momento interativo) se fazem presentes, ampliando as perspectivas, os pontos de vista e os sentidos possíveis de serem construídos nesse contexto específico.

Partindo, então, destas descrições teóricas propostas pela versão responsivo-retórica do construcionismo social e, especificamente, das contribuições da poética social à prática de pesquisa, neste artigo destacamos algumas contribuições metodológicas para a investigação destas descrições da psicoterapia de grupo, tendo como base a pesquisa desenvolvida por Guanaes (2004): (a) o foco no momento interativo, favorecendo a compreensão do modo como sentidos são construídos e negociados pelos participantes, numa ação-conjunta, de uso vivo, corporificado, responsivo e retórico da linguagem, e situada um contexto social, histórico e cultural específicos; (b) a atenção às formas especiais de conversação que se dão entre os participantes do grupo e do tipo de relação entre eles (dialógica ou não, responsiva ou não) que favorece a reflexão sobre o modo como eles constroem, em suas trocas discursivas e relacionais, o próprio grupo como recurso terapêutico; (c) a ênfase numa análise situada das narrativas de problema e de si, e no modo como estas são negociadas no grupo, e no que elas geram na própria relação entre os participantes (incluindo o terapeuta), permitindo dar visibilidade ao dinamismo que sustenta os processos de construção de si no grupo; (d) a consideração da linguagem em seu caráter performático, fomentando uma discussão da terapia de grupo como uma prática social.

Ao utilizar estes recursos metodológicos para a investigação da psicoterapia de grupo, algumas reflexões podem ser desenvolvidas.

Em primeiro lugar, entendemos que a prática da poética social permite dar visibilidade empírica ao entendimento da terapia de grupo como um recurso conversacional, cujas formas específicas de conversação, analisadas a cada momento do diálogo entre os participantes, podem ou não favorecer a construção do grupo como recurso terapêutico. Em terapia individual, tem-se destacado que conversas dialógicas e responsivas são favoráveis aos processos de transformação narrativa (Anderson, 1997; Shotter & Katz, 1998). Do mesmo modo, a metodologia utilizada por Guanaes (2004) construiu a possibilidade de um entendimento de como a qualidade dos relacionamentos construídos entre os participantes de um grupo (incluindo o terapeuta) é fundamental na construção de um contexto conversacional terapêutico.

Em segundo lugar, coerentemente com os pressupostos da pesquisa construcionista social, a poética social como prática de pesquisa permite ampliar as descrições da psicoterapia de grupo, ao entender que o modo como os sentidos de problema e de si são negociados pelos participantes de um grupo possibilita ou não a construção deste grupo como um contexto dialógico de conversação e, portanto, como um recurso terapêutico. Em um grupo terapêutico, os participantes se empenham em coordenar suas ações, produzindo entendimentos compartilhados que lhes permitem "seguir" nesse contexto discursivo, investindo na busca por descrições pessoais alternativas - em especial, de suas descrições de problema, relacionamentos, tratamento e mudança. A natureza terapêutica do grupo constitui-se, portanto, uma construção que se faz ou não possível no próprio momento interativo, por meio da qualidade das interações que se desenvolvem entre seus participantes. Assim, o grupo emerge como uma prática discursiva e ganha visibilidade como um recurso terapêutico em seu próprio acontecer.

Por fim, os recursos metodológicos utilizados por Guanaes (2004) foram, nesse artigo, esquematizados e ampliados, de modo a se constituírem recursos úteis também em outras pesquisas que têm a compreensão do processo conversacional, tanto de um grupo terapêutico, como de tantos outros contextos, como objeto de estudo.

Considerando o conjunto destas contribuições, esperamos que este artigo convide outros pesquisadores à utilização deste recurso metodológico no campo da pesquisa construcionista social.

 

Agradecimento

As autoras agradecem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

 

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Recebido em 01.ago.06
Revisado em 05.ago.08
Aceito em 18.ago.08

 

 

Carla Guanaes, doutora em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, é docente no Departamento de Psicologia e Educação da mesma instituição. Endereço para correspondência: Avenida dos Bandeirantes, 3900; Ribeirão Preto, SP; CEP: 14040-901. Telefone: (16) 8132-9890. E-mail: carlaguanaes@ffclrp.usp.br
Marisa Japur, doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, é docente aposentada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. E-mail: marisa.japur@gmail.com

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